Desperdício



Você se lembra dos tamancos vermelhos? Foi com eles que prendi duas das pontas da toalha. Não era xadrez, mas tinha uma estampa de florzinhas miúdas que cabia no modelo de piquenique que eu conhecia. Nas outras pontas usei uma sacola com das maçãs e o livro que você tinha me dado, aquele do Bryson. O vento estava mais observando do que soprando, mas julguei que fosse melhor prevenir. Eu me lembro que dei uma olhada panorâmica no parque antes de desamarrar as pontas do paninho que usei para enrolar nossos pães. Nessa hora pensei que talvez você tivesse razão quando escolheu aquele parque em vez do que eu havia sugerido. Mesmo com maiores chances de crepúsculo com ventos frios, o visual do alto do monte verde valia o risco. Olhei e vi um grupo de skatistas e um casal com problemas, não mais que isso. Era uma terça-feira. Enquanto praticamente toda a cidade se irritava no tráfego, cumpria metas ou pagava contas, nós brincávamos de clandestinidade romântica e marcávamos encontros no parque. Eu não tinha avisado a ninguém, e isso dá a medida do quanto eu me sentia diferenciada. Mais do que isso, eu me sentia quase vanguarda. Um piquenique em dia útil. Nem do vinho me esqueci.

Quando você me ligou, no dia em que cancelamos o cinema, lembra?, eu percebi no momento em que você disse "sou eu".

- Alô?
- Sou eu. Podemos deixar o cinema para outro dia? Queria só ficar em casa e conversar.


Eu já sabia no "sou eu". Enquanto você falava, meio sentado, meio deitado no sofá, com cara de derrotado, eu só pensava que poderíamos ter resolvido tudo por telefone mesmo. Sua cara de derrota tinha lá suas razões de ser, você vinha perdendo há anos. Em todas as vezes que percebi sua insistência em se agarrar às escolhas de sempre; cada vez que vi em seus olhos que o previsível lhe era mais caro; cada passo dado na mesma direção; todas essas vezes eu soube. Você não seria capaz, não cortaria tantos laços assim. Não é que você não quisesse, eu sei, nós sabemos. É que é preciso mais, é preciso firmeza no olhar. Você não arrumaria aquela mala, nunca sequer sairia de férias no inverno. Tão igual. Você parecia uma figurinha repetida. E quando parou de verdade para pensar em nosso futuro juntos, quando espiou pelas frestas e viu os escuros, fez igual ao dia do piquenique: você não veio. 

O vento veio. Mais frio e sarcástico do que eu poderia esperar, fez lombadas na toalha de flores. Deixei as frutas para as formigas, levei apenas meus tamancos. Deixei o livro e o vinho, e liguei para o trabalho me desculpando pela falta. Anos mais tarde, no dia do cinema, dei meu coração às formigas e lamentei o desperdício de antes. Afinal, era um Bryson e o vinho era um pinotage. Mereciam mais.

4 comentários:

Janete disse...

Lindo... e até mais que isso, eu diria. Toca fundo, trazendo à tona lembranças de tantas coisas que poderiam ser diferentes... talvez nem todas lamentos, mas nostalgia...
Rita você escreve muito bem. Repito: Você TEM que escrever um livro! Beijos.

Clara Lopez disse...

That's what life is made of - perdas que na verdade são ganhos. Muito bom texto.
abraço,

Silvia disse...

Muito bom, Rita! ADOREI!! bjo

Rita disse...

Thanks, pessoas. :-)

 
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