Curitibando


Em todas as vezes que fui a Curitiba, fiz uma espécie de bate-e-volta. Ora um show de rock, ora chatices burocráticas de algum concurso, sempre espiando a cidade rapidinho, sem tempo de gostar ou desgostar muito. Nesse final de semana voltamos lá com um pouco mais de tempo para uma olhada mais cuidadosa. De lá voltamos com ótimas impressões. A cidade nos pareceu organizada, larga (o termo "grande" também serve, mas é da amplidão que falo, das avenidas largas e sem fim) e, acima de tudo, muito mais verde do que supúnhamos. Em minha cabeça, era Curitiba do frio, agora é Curitiba verde. 

O motivo maior de nossa visita era o casamento de uma prima que, nordestina como eu, mudou-se para Curitiba mais ou menos na mesma época em que vim para Floripa (aquela prima que faz coisas gostosas, de quem já falei aqui). Foi uma ótima oportunidade para rever meus padrinhos, pais dela, alguns primos e primas, conhecer seus filhos que ainda não conhecia, rever outras "crianças" que já viraram adultos, dançar, comer comida boa e conversar à vontade. Minha madrinha mudou de endereço, mas permanece a mesma pessoa carinhosa de sempre, ainda é bom abraçá-la e ouvir suas histórias. Sua casa continua ponto de encontros barulhentos, sempre com crianças brincando por perto, enquanto sua voz ecoa pela casa, distribuindo carinho e acolhendo. A todo instante eu tinha a impressão de que ela falaria o nome de minha mãe, como eu ouvia quando ela nos visitava em minha infância. A voz da minha madrinha traz o som do passado, tem tom de férias visitando primos. E, claro, ouvi inúmeras vezes que Amanda é a minha cara, uma miniRita. Eles, que me viram crescer, podem falar, né. Quem sou eu para discordar. ;-) 

Então fomos ao casamento, comemos os doces mais lindos, dançamos e brindamos. Arthur estava muito elegante em seu primeiro terno, Amanda feliz em seu vestido rodado. Nem a temperatura, que despencou na noite do casamento, conseguiu abater a animação geral. Usei o frio como pretexto para comer mais doces e tudo se resolveu. E vou contar uma coisa pra vocês: sabe o que acontece quando a gente vai à casa da mãe da noiva um dia depois do casamento? Come todos os doces outra vez, enquanto joga conversa fora com o pai da noiva. Olha, tenho muita sorte nessa vida, viu. No meu caso específico de sorte extrema, os doces vieram depois de um almoço da melhor qualidade, que esse povo tem restaurante e saca do babado. Amém.

Entre uma visita e outra à casa de minha madrinha, aproveitamos para conhecer alguns pontos da cidade. Vimos quantos parques e bosques conseguimos, e gostamos de todos. Começamos pelo Bosque do Papa, uma das várias áreas verdes da cidade, com área de reserva da Mata Atlântica cortada por pequenas trilhas boas para caminhadinhas. Em uma das clareiras do bosque, há um memorial dedicado ao povo polonês. O destaque fica por conta de algumas casas de madeira que, segundo li, foram construídas por imigrantes poloneses seguindo um sistema tradicional em sua terra natal, com troncos encaixados. As casas não foram construídas onde estão, mas transportadas para o bosque quando da instalação do memorial e decoradas conforme o costume dos poloneses do século XIX, época da chegada dos primeiros grupos de poloneses a Curitiba. São um mimo, o lugar é uma graça. Amanda tirou várias fotos.



De lá fomos por essa trilha aí em cima rumo ao Museu Oscar Niemeyer, localizado atrás do bosque. O museu foi, para mim, o ponto alto de nossas andanças turísticas. O MON me surpreendeu. Eu não sabia que era tão grande, nem tão... legal. Tá, tudo bem, dei sorte, as exposições estavam boas demais. Mas o local em si já é bem agradável e certamente o visitaremos para outras exposições cada vez que voltarmos a Curitiba.

Eu não conhecia praticamente nada da obra do artista gráfico holandês M. C. Escher. Já tinha visto suas gravuras mais badaladas por aí (formas que se transformam), mas nem ligava o nome à pessoa. A exposição de muitos de seus trabalhos está no MON desde abril e fiquei muito feliz com nossa sorte, foi um achado. As crianças gostaram, há pontos interativos - mas não só por isso. A forma como Escher preenchia o espaço do papel é fascinante. Além das famosas transformações, ou metamorfoses, os efeitos em 3D e as incríveis ilusões de ótica encantam adultos e crianças. Há várias composições com auxílio de espelhos e pontos côncavos e convexos que nos deixam por longos minutos diante das obras tentando decifrar como o artista criou aquilo que nossos olhos estão enxergando. Outras vezes, não: apenas o talento incrível de quem explorava o espaço do papel como se fosse mágico. A exposição pode ser fotografada, sem flash. Eu me esbaldei.


Arthur encolhendo Amanda.


Há uma sala na exposição reproduzindo o ambiente desenhado por Escher nessa gravura. Em um canto da sala, uma esfera metálica como a do desenho; ao nos posicionarmos diante dela, podemos ver exatamente o ambiente do desenho, com todo o efeito "espichado" dado pela superfície da esfera; a semelhança nos detalhes é incrível.



Somente depois de fotografar e observar  por um tempinho o crânio no centro do olho, percebi que a imagem de cima é um reflexo no espelho. Cega, eu.  


As duas fotos acima são do mesmo quadro. Dependendo do ângulo de onde olhamos, os bichos trocam de cor. Acho fofo. 

Depois do universo majoritariamente preto e branco das gravuras de Escher, o contraste das cores da pintora e escultora paulista Leda Catunda foi muito bem vindo. Amanda aprovou o colorido todo, e eu também. 


Parece pintura, mas não é. Cores penduradas em tirinhas.


A fome chegou e decidimos ir embora, mas Arthur queria ver o interior do grande olho do museu. Seguimos as placas, passamos por uma sala dedicada ao Oscar Niemeyer e sua impressionante produção artística, e então encontramos o olho. O que seria uma passadinha rápida se esticou por muitos outros minutos, já que está lá uma exposição dedicada a um curitibano ilustre, o compositor, poeta, escritor, tradutor, professor, ufa, Paulo Leminski. Ficamos por ali lendo trechos de entrevistas, poemas, escritos vários, enquanto as crianças brincavam com uma pequena montagem interativa dedicada a elas.

Dentro do olho.

Ele e eu.


Arthur, e o olho que não cabe na foto. 



Famintos, almoçamos no primeiro restaurante aberto que encontramos (não foi fácil, já era meio da tarde) e seguimos para outra área verde, que a gente gosta de mato. Fui feliz da vida, porque lá encontraria uma "amiga da internet", uma dessas almas boas com quem a gente se acostuma a trocar figurinhas pelos blogs e FBs da vida. Tive a honra de fazer uma caminhadinha pela estrada da bruxa no Bosque Alemão na companhia da Caminhante-mor, a responsável pelo blog Caminhante Diurno, velho parceiro aí na lateral deste bloguito. Depois a gente comeu até ficar triste, claro. O Bosque Alemão tem um quiosque com tortas ótimas e um oratório dedicado ao alemão Bach. Bom, na parte térrea do oratório, a gente se senta e come. O oratório é um espaço destinado a concertos musicais (a gente ficou lá tentando adivinhar para que o espaço servia, além de abrigar mesinhas do quiosque); então, serve para apreciar concertos, mas a gente "usou" pra comer mesmo. A Caminhante nos contou que as ruas do bairro onde fica o bosque têm todas nomes de compositores, então o Bach não é o único homenageado do pedaço. Quando voltamos para o lugar onde tínhamos deixado nosso carro, vimos que tínhamos estacionado bem na rua Frederic Chopin, o atual campeão de audiência em nossa casa e queridinho da Caminhante também. Num tô dizendo que Curitiba é toda organizadinha? ;-)

No dia seguinte, levamos as crianças (as nossas e o filho da minha prima) para passear no Barigui. A temperatura subiu, passei calor e as crianças tomaram picolé como se verão fosse. Amanda fotografou cada passarinho, cachorro, florzinha, pato e capivara do parque, vão vendo. Ela diz que vai vender as fotos quando crescer. As de flor, acho, vão custar cinco reais. Façam suas reservas.






Depois de mais comilança e papos bons na casa da minha madrinha, demos uma breve circulada pelo centro da cidade e lá fomos nós para o meio do mato outra vez. Encerramos nossas andanças no lindo parque Tanguá. Não sei se ainda tem alguém aí lendo esse post imenso, mas, se tiver, saibam que o parque é bem bonito, animadinho (vimos vários grupos de "jovens" - ai, como me sinto velha escrevendo isso, mas enfim - tocando violão, andando de skate, batendo papo). Há algumas subidas e descidas, um túnel cavado num paredão de rocha (ex-pedreira? talvez) e um mirante que vale muito a visita. O parque me pareceu bem grandão, não acho que vimos tudo. Mas gostamos bem do pedaço que vimos. 

Fim de dia no mirante do Tanguá.

Curitiba verde.


E, claro, voltamos pra casa com um delicioso bolo de rolo. ;-) E voltamos por uma estrada linda, morrendo de pena de quem viajava em sentido contrário. Tanto na ida como na volta, vimos engarrafamentos impressionantes. Curitiba não deve ser um destino muito popular em feriados. Intriga da oposição, certamente.




  

9 comentários:

Daniela disse...

Esse post teve tudo que eu gosto: Curitiba (que aqui no Brasil é de longe a minha cidade preferida), museus, família e comida gostosa..rs. Esse fim de semana tb teve casamento de uma prima minha lá em Sampa, mas eu - ao contrário - só pude acompanhar pelo Facebook :(

Luciana Nepomuceno disse...

O seu olhar generoso faz tudo ficar mais bonito. Eu escrevi um mas imenso, depois deletei. melhor ficar pensando no bolo de rolo nhami, nhami. E avisa pra Amanda que vou querer 03. de flor ;-)

Cristiane Rangel disse...

CUritiba! Quem vem de fora realmente vê a cidade com olhos bem diferentes da gente, que nasceu aqui, vive aqui.
Belo olhar da minha terra, Ritoca!

Paulo Marreca disse...

Plagiando o comentário da Luciana Nepomuceno, pois soube expressar bem a minha impressão ao ler o post: Seu olhar generoso faz tudo ficar mais bonito e INTERESSANTE.

Cristina Lopes Cassiano disse...

Que bom que pelo menos a feirinha do Largo você deixou pra quando eu tiver voltado ;)

Juliana disse...

mas cadê o comentário que eu deixei aqui, gente? o blogger comeu?=/

eu tinha dito que sua curitiba é mais linda que a minha. gostei dos parques. AMEI o Jardim Botânico, enlouqueci com a cor do céu ( o céu é mais bonito no sul), mas não amei a cidade, não.

Engraçado. A curitiba foi o primeiro lugar onde me senti deslocada. Quando o avião pousou no aeroporto do Rio, eu senti aquela coisa de " ufa! tô em casa".

Talvez a cidade e eu precisemos de uma segunda chance.

Jô Bibas disse...

Como curitibana, adoro minha cidade, mas gosto principalmente quando alguém gosta daqui. Falo bastante da cidade no meu blog. Teu post é lindo, a visão da cidade é perfeita. E tua filha leva jeito para fotos, mesmo!
A feirinha do largo da Ordem vale um retorno, sou completamente fã.
Bom fim de semana,

Jô Bibas disse...

Como curitibana, adoro minha cidade, mas gosto principalmente quando alguém gosta daqui. Falo bastante da cidade no meu blog. Teu post é lindo, a visão da cidade é perfeita. E tua filha leva jeito para fotos, mesmo!
A feirinha do largo da Ordem vale um retorno, sou completamente fã.
Bom fim de semana,

Fabiana disse...

Seus filhos 'tão cada dia mais lindos, Rita. E gargalhei do "Ela diz que vai vender as fotos quando crescer. As de flor, acho, vão custar cinco reais. Façam suas reservas." : )

 
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