Vai começar


Havia um único cinema na cidade onde passei minha infância. Ficava bem no centro da cidade, onde hoje existe uma agência bancária. Foram lá as primeiras sessões escurinhas de minha vida - e não se falava "que filme vamos ver?", mas "já viu o filme?". Eu tinha cerca de 12 anos quando o Cine São José fechou suas portas.

Não sei se havia sessão todos os dias, mas me lembro da euforia sempre que estreava o inevitável filme anual dos Trapalhões. A sala lotava, o barulho antes do início era ensurdecedor. Hoje fico imaginando como deveria ser minha cara de espantada diante daquele programa tão, mas tão legal. Conseguir um disputadíssimo lugar, ou mesmo se sentar no chão e abraçar os joelhos, espichar o pescoço um pouco pra frente e entrar para o seleto clube lotado das crianças felizes da semana, tudo era um pouco como viajar de férias, como botar os pés para fora do mundo, um pouquinho só.

Eu me lembro de ver Bernardo e Bianca com minha mãe, numa matinê de domingo. Em uma cena pastelão qualquer de um dos muitos filmes dos Trapalhões, lembro-me do alvoroço causado pelo momento em que a criançada via, às gargalhadas de muitos decibéis, ó céus, o bumbum branco de Didi Mocó. No entanto, não é um filme dos Trapalhões ou um desenho animado com ratos fofinhos que primeiro visita minha memória quando penso no Cine São José. É um filme estrangeiro, com pano de fundo religioso e momentos dramáticos, que me impressionou e ficou em mim como algo grandioso e um tanto sombrio. Acho que vi Marcelino Pão e Vinho mais de uma vez, porque me lembro de falar sobre o filme e de vê-lo depois de minha fala, conferindo se tinha contado a história direito. O filme, xodó no coração de minha mãe, contava a história de um garoto órfão que vivia em um mosteiro. Devo ter relatado a umas mil pessoas (ou dez, porque eu certamente não conhecia mil pessoas) a incrível cena em que a grande mão da imagem de Jesus se desprendia da cruz para acolher Marcelino. A grande mão tomando quase toda a tela. Fecho os olhos e vejo de novo. E me vejo, do lado direito da sala, boquiaberta, cabelos arrepiados, olhos arregalados. Uau. Era a cena.

Depois que o cine São José fechou suas portas, em meados da década de oitenta, acostumei-me a morar em uma cidade sem cinema. Era um lugar pequeno, então o kit praça-igreja-padaria-clube me parecia ser o modelo-padrão. Cinema não era assunto, não era programa, não existia, virou história ou parte da programação nas viagens de férias. Assim, durante boa parte de minha infância e adolescência, os filmes da vez eram vistos quase todos na sala de casa, de acordo com os humores da TV aberta. Havia os festivais de cinema nacional, os enlatados estadunidenses, os filmes de Jerry Lewis nas tardes de domingo, os  lançamentos do cinema da safra do ano anterior, os grandes campeões de uma bilheteria para a qual eu não contribuía. Nas férias havia a Sessão da Tarde, os filmes bíblicos (eu adorava a cena de Moisés abrindo o Mar Vermelho, vibrava toda vez), os mesmos Trapalhões do cinema lotado.

Eu não via o charme daquele cinema à moda antiga, com bilheteria na calçada, em uma pequena cidade do interior nordestino; eu não via muitas coisas, sequer me dava conta do manto escuro da ditadura sobre nós. Mas sei que senti uma peninha quando o cinema, que eu nem frequentava mais (os filmes infantis em cartaz foram ficando cada vez mais raros, não sei por que razão), encerrou suas sessões. Antes de ser demolido, ainda ficou ali, cenário somente, enquanto a gente ensaiava nossas próprias cenas reais, indo e vindo pelas calçadas. Depois sumiu e deu lugar a um banco sem qualquer imaginação.

Nunca houve outro.

O cinema da infância de meus filhos tem várias salas de poltronas confortáveis, som de qualidade, assento marcado. É tudo tão diferente. E tão igual. Tem os cheiros de que vão se lembrar, os filmes da categoria "vi com minha mãe", as gargalhadas, as sessões atrasadas (ainda), as cenas que grudam na memória como chiclete na cadeira. Eu conduzia minha cabeça de vento pela calçada, passos apressados para não perder o início (vai que a sessão não atrasa, né); eles chegam pela escada rolante e então seguem com passos igualmente apressados. Nas cabecinhas de vento deles, a mesma expectativa, a mesma alegria pelo passeio, a mesma certeza de que, daqui a pouco, quando apagarem as luzes, vai começar. Vai começar. Shhh! 

9 comentários:

antonio cerqueira disse...

gostei mesmo da figura "cenas que grudam na memória como chiclete na cadeira"

Daniela disse...

Marcelino pão e vinho foi o primeiro filme que eu vi no cinema, não lembro que idade tinha, só que foi uma vizinha que nos levou. Apesar de viver em uma cidade com muitos cinemas, não era um hábito dos meus pais nos levar. Virou um hábito muito mais tarde, quando comecei a ir com as amigas, no início da adolescência.

Fal disse...

Que texto lindo! <3

Luciana Nepomuceno disse...

Que texto lindo <3

Ah, os filmes que esquecemos, que bom que eram...

K disse...

Não consigo mais me lembrar se o 1° filme da minha vida foi Marcelino pão e vinho ou Os 12 trabalhos de Asterix. Foi com meu pai,numa viagem a capital. Eu queria conhecer, saber o que era cinema.

Seu texto lindo me trouxe boas lembranças.

Murilo S Romeiro disse...

A Cena de Moisés abrindo o mar - Charlton Heston era ele - o Moisés .
Foi o primeiro e , acho, único, filme que vi, no cinema do interior (igualzinho a esse que descreves tão bem) com meu pai. "Os Dez Mandamentos " filme loooonnngoooo para a época , mas ainda , tantos anos depois, inesquecível pela emoção e companhia!
Bela cronica, com sempre .
(Também gostei da comparação com o chicletinho grudado.)
Abraços.

Ricardo Henriques disse...

AMEI esse homenagem que fez ao Cine São José de nossa cidade. A clareza dos detalhes foi perfeita, narrou também a minha própria infância, principalmente no que diz respeito aos filmes do saudosos Trapalhões, que, certamente, ficaram marcados na memória de todos daquela época maravilhosa. NOSSA, FIQUEI EMOCIONADO! PARABENS!!!!!

Rau Ferreira disse...

Caríssima Rita,

Gostei muito do texto e queria publicá-lo no Blog História Esperancense, no link "Parceiros", devido a sua conotação histórica.
Peço sua permissão e convido-a para conhecer o nosso trabalho, visite: http://historiaesperancense.blogspot.com
Muito obrigado!

Rau Ferreira
BlogHE

Rita disse...

Olá, pessoas.

Rau, obrigada pela visita por aqui. Pode publicá-lo sim, será um prazer. :-)

Abraços,
Rita

 
©A Estrada Anil - Todos os direitos reservados. Layout por { float: left; }