Todos os dias


No filme La Vie d'une Autre, a personagem de Juliette Binoche, Marie, conhece Paul no dia em que completa 25 anos. Apaixona-se e, após uma noite de l'amour l'amour, acorda sem memória, quinze anos mais tarde. E aí descobre que tem um filho e que se casou com Paul, de quem está se divorciando, inclusive. O enredo maluquinho pareceu-me mais interessante ao perceber que, prestes a completar 41 anos, Marie perdera não somente a memória, mas todas as camadas de amargura e cansaço que aqueles quinze anos esquecidos haviam lhe acrescentado. Assim, ela é a mesma Marie que era aos 25 anos - leve, sorridente, ingênua - com um corpo de 41 e uma pilha de problemas práticos para resolver. E não sabe o que fazer para lidar com os pepinos acumulados ao longo de década e meia de muito trabalho. Por se sentir tão apaixonada como na noite de seus 25 anos, não entende o estado atual de seu casamento, aparentemente soterrado sob as pressões da rotina mecânica, devotada à produção e acúmulo de riqueza. Marie não faz ideia de como construiu o império financeiro que comanda, como passou a morar no luxuoso apartamento aos pés da Torre Eiffel, por que as pessoas a tratam com frieza e reverência. E, principalmente, não sabe como seu filho nasceu, como seu pai morreu, por que o homem carinhoso com quem dormira na noite passada a olha com amargura e rancor.

E aí? Acordasse eu agora, às vésperas de completar 41 anos, uma noite após meu aniversário de 25, quão distante me sentiria da vida que observo ao meu redor? É um exercício quase impossível; honestamente, não faço ideia. Mas o filme me fez pensar na leveza que perdemos à medida que os anos se acumulam. Por outro lado, talvez a história de Marie queira justamente nos dizer que não há sentenças definitivas. Afinal ela aposta no resgate das rédeas de sua vida. E talvez não haja mesmo. Eu mesma me sinto mais leve agora do que aos 25, sem sombra de dúvida. Mas há, claro, os sonhos que abandonei, os entusiasmos que perdi ou substituí, a profissão idealizada que não segui, o engajamento que abandonei, os livros que não li. Se hoje eu olhasse em meus olhos de 15 anos atrás, o que faria? Será que olharia com o mesmo espanto com que o marido de Marie a observa quando percebe que ela está mesmo desmemoriada, que voltou a ser a Marie que dança e balança o cabelo?  Aliás, é disso que mais gosto no filme: o olhar surpreso da criança, descobrindo que sua mãe sorri e faz piadas, e o do marido, perplexo diante da namorada entusiasmada que retorna. De minha parte, continuo balançando o cabelo, então não imagino o tamanho do espanto.

O filme é divertido e a reflexão proposta pode ser interessante. Ter a chance de selecionar que carga emocional queremos manter ao longo dos anos seria mesmo um luxo. Pena que o preço seja tão alto: esquecer é como não ter vivido. E o que somos, além da soma que fazemos dos nossos dias? 

3 comentários:

Paulo Marreca disse...

Hm. Pareceu-me interessante, relatado assim em suas palavras...

Tina Lopes disse...

Ai, estava com esse filme aqui mas deu problema na cof cof versão, boa lembrança! Quanto a mim, provavelmente estaria confirmando que estou no lucro.

Angela disse...

Ha 15 anos atras, eu era tao mais leve!!! Me espantaria. Acho que somos o que resolvemos fazer com os resultados do que fazemos dos nossos dias. QUe bom que esse ano tive uma intervencao e recuperei um quanto da leveza. PRECISO ver.

 
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