Os pés descalços e a claraboia


Meu filho gosta de andar descalço. Os chinelos da minha menina também vivem abandonados pela casa. Eu sei o que é, porque me lembro. Não estou bem certa se consigo descrever, mas acho que tem a ver com certa sensação de fluidez. Como se a nudez dos pés nos deixasse mais leves, mais rápidos, mais serelepes. Eles sobem a escada descalços e com os mesmo pés nus escalam o armário do quarto para buscar o jogo lá em cima; as solas empoeiradas carimbam o lençol, a minha roupa, o forro da cadeira. Nos finais de semana em que a preguiça vence, eles passam assim o dia inteiro, experimentando as texturas dos solos de nossa casa em seus pés, enquanto espalham o furacão de suas presenças. 

Não sei bem em que momento eu, outrora tão adepta dos pés descalços, tornei-me a carrasca da encheção de saco, autora do mantra-mor do inverno: "calça o chinelo ou põe um sapameia". Uso narizes entupidos ou espirros esporádicos como desculpa, mas cada vez que falo é como uma traição. Eu sei como é bom. Combina com eles, com os cabelos despenteados, os dentes escovados às pressas, o brinquedo negligenciado pelo gibi, o gibi esquecido embaixo do sofá por causa do videogame, o videogame desligado por causa do lego, o lego faltando peças. Os pés descalços, a vida começando, a infância solta, a casa clara, os sons, o farelo de bolo no bolso. Aqui na vida adulta não dou mais conta do chão gelado nesse maio que não decidiu se é outono, meio verão tardio, um inverno que não sabe se vem. A cerâmica fria é só uma cerâmica fria ou um prenúncio de rabugice? Não sei. Sei que já fui como eles, descalça. 

***

O piano ocupa um espaço muito grande. O cantinho na parede, que agora nem consigo imaginar sem ele, serve-lhe muito bem na largura, na altura, no jogo de cores, no que for. O espaço que ele ocupa, no entanto, vai além da parede, do canto, da janela de vidro que o ilumina. O piano encheu a casa inteira. 

Desde que fui levada a interromper a prática de yoga por causa das alterações nos horários das aulas, venho me cobrando a retomada de alguma atividade física que me impeça de virar uma pessoa definitivamente sedentária. Recentemente, passei a fazer caminhadas no final do dia, seguindo a pé do trabalho para a escola das crianças (o google maps me diz que são 8km, mas acho que é menos que isso - essa sou eu, achando que sei calcular distâncias e que o google maps não tá com nada), numa tentativa de remediar o que ainda não pode ser do jeito que eu gostaria (nada me satisfaz como a yoga). O piano, sinto, tende a agravar o quadro. Não quero andar, não quero nadar, não quero jogar. Quero ficar ali, entregue, a alma descalça como os pés das crianças. 

***

Há coisas por fazer. E há mudanças no trabalho, decisões a tomar, idas e vindas para programar. E há os dias nublados, os pensamentos mais melancólicos que a saudade guarda na manga e saca quando menos esperamos, seja porque o filme tinha aquela atriz de quem ela gostava, seja porque decidi o usar no pescoço o lenço que era dela. Para esses dias, há os pés descalços deles, ligeiros, marcando a casa inteira. E, desconfio, em dias escuros de verdade, o piano pode ser uma claraboia - que a alma sempre tem seus lugares de sol, e a música costuma saber o caminho.

4 comentários:

Fabiana disse...

"[...] que a alma sempre tem seus lugares de sol, e a música costuma saber o caminho."

Você faz tristeza parecer um troço quase bonito, Rita. <3

Silvia disse...

Hoje sinto-me um pouco triste... :( Obrigada por estar aí desse lado e alegrar um pouco a minha vida, beijinhos

Daniela disse...

Eu vou te escrever um email. Louco e confuso e eu espero que você não se importe...

Luciana Nepomuceno disse...

o piano pode ser uma clarabóia, se eu não te amasse imensamente ia amar agora

 
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