Odisseia


Nos dias em que vejo escancaradas minhas piores falhas, sinto-me triste e pesada. Não é que eu não saiba que elas estão em mim, todos os dias. É só que é muito fácil, na maior parte do tempo, seguir em frente sem prestar muita atenção a elas. Nos dias em que olho para o espelho de meus atos e de minhas palavras e vejo que minhas intenções não bastam, aí sim, sinto-me pequena. É fácil desejar coisas, qualquer um consegue. Mais fácil ainda lamentar obstáculos, somos todos muito versados nessa prática tão... humana? Que seja.

Tenho uma sorte incrível e isso é uma dos fatores responsáveis por meu ceticismo: fosse o mundo gerenciado por um deus moral e bom, não existiria o fator sorte. Bem sei  que não fiz por merecer muitas das coisas e companhias incríveis que me cercam. Não são recompensas por minha devoção ou resultados de conduta exemplar e desapegada. Nada disso. Nunca rezei pelas coisas boas que me chegam. Algumas eu planto, mas outras me são trazidas pela sorte. Nesse mundo tão injusto e confuso, minha vida fácil não deixa espaços em mim para acreditar em um deus que me privilegia dessa forma. E se eu acreditasse, morreria de vergonha, verdade seja dita: agradecer seria o reconhecimento da regalia diante da dor do outro. Então penso que o mundo é injusto porque é injusto e a nau está à deriva; o mundo é lindo, também, porque uma coisa não tem nada a ver com a outra, e isso é outra história. Do alto de meus privilégios de pessoa saudável, para ficar em apenas um exemplo, olho o mundo com um misto de encantamento e espanto.

Naqueles dias em que as falhas me jogam na cara meu egoísmo e meu comodismo, é ela, a sorte, que me mostra como aquele passeio casual no caminho da biblioteca da universidade mudou minha vida de maneira irrevogável. Olho para meu lado e vejo você. De tanto repetir,  eu sei, parece um mantra, uma oração. Oremos: aprendo com você todos os dias. 

Só que hoje eu queria mais. Hoje eu queria merecer. E eu queria que você soubesse que sei de minhas falhas e que não gosto delas (também sei de meus acertos, acho esses bem legais). E que mesmo que o espelho às vezes insista em me dizer que bons pensamentos não bastam, saiba que continuo apegada a eles. E ainda que as palavras sejam erros, eu preciso delas. Aqui vão algumas que, espero, reflitam um pouco da maior verdade que conheço em minha vida: com você, sempre, pro que der e vier. Em qualquer nau. 

2 comentários:

Luciana Nepomuceno disse...

Baby, eu queria ter algo bom e caloroso pra dizer, mas temo que hoje seja um dos dias, daqueles, que as palavras escapam e eu tenho perguntas e perguntas e nenhum abrigo.

De qualquer forma, falhas e rachaduras é o que nos constitui humanos, acho eu, é onde faltamos que podemos vir a ser. E nossos espelhos são como os de parque de diversões, né?

Fabiana disse...

Concordo que depender de sorte (e todos dependemos) é injusto. Dito isso, creio que alguém humilde o suficiente pra redigir o segundo parágrafo deste post merece um bocado de coisa boa nesta vida, viu. : )

 
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