Estações


Quando ficava em pé na calçada do outro lado da rua, com as costas apoiadas na parede da casa rosa, muito antiga, não era exatamente por opção. Ela o fazia por necessidade. É que se não ficasse ali depois da aula, em pé na calçada, não conseguiria sequer fazer a lição de casa. Para que o mundo funcionasse direito, era necessário ficar ali todos os dias, por dez ou quinze minutos. Os dias sem vento eram os melhores, mas isso foi só no início do ano. Até meados de abril, importava saber se o vento levantaria a poeira da rua e arrancaria as folhas secas das castanholas do canteiro grande. Se o vento se animava, era preciso segurar a saia do uniforme contra os joelhos magros. Porém, se o dia era morno e o ar era calmo, podia abraçar os livros contra o peito e se concentrar inteiramente em fingir que olhava a rua. Então os dias sem vento eram melhores, o coração podia quase parar de bater em paz, a saia quieta. Só até abril.

Depois que o ano avançou, o inverno veio e passou, que as chuvas de julho lavaram a rua e as férias quase a feriram de morte, depois de tudo isso, ela já nem se lembrava da saia. A essas alturas, o vento era seu amigo e confidente, aquele que, nos dias de mais sorte, lançava-lhe uma mecha do cabelo castanho sobre seu rosto corado, bem na hora h. Tudo que ela precisava fazer era ficar ali, em pé na calçada, no meio da gritaria dos demais alunos que corriam para pegar o ônibus, as costas apoiadas na parede rosa da casa antiga, a timidez expressa no rosto camuflada sob o cabelo, esperando. Abraçada aos livros, coração aos batuques, esperava até ele passar. Depois ia embora, com fome, pronta para contar as horas que a separavam das aulas do dia seguinte.

Quando ele se deu conta, já era setembro e havia violetas roxas na janela da casa rosa. Não foi o fim nem o começo. Ela conseguiu afastar a mecha do rosto, antes que a própria timidez dele o impedisse de dizer qualquer coisa além de um inexpressivo oi. Ele seguiu seu caminho. Ela ficou olhando, o mundo em câmera lenta. E muitos outros dias vieram.

Anos depois, depois de tudo e tanto, enquanto esperavam o metrô, ele disse que já tinha percebido antes, talvez naquele junho. Ela, que tinha um olhar antigo, já tendo conhecido outras esperas próprias e outras esperas dele, sorriu muito tranquila e disse que tinha sido um grande desperdício de tempo. Quando ele perguntou "A sua espera? Ou eu não ter falado com você antes?", ela sorriu sem esperança e despediu-se com um olhar. Sem fome ou pressa, tomou o caminho da rua. Tinha um encontro com o velho amigo vento, que a recebeu na calçada  assanhando seus cabelos e brincando com seu vestido. Ele ficou sem resposta, com as costas apoiadas na parede rosa da estação, esperando.

1 comentários:

Luciana Nepomuceno disse...

ah, as suas palavras. <3

 
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