As bonecas


No meu aniversário de cinco anos, ganhei de presente uma boneca negra. Era de plástico, feita em uma única peça, portanto desprovida de articulações. O cabelo se resumia a elevações no plástico da cabeça que, por sua vez, era chata como uma bolacha redonda. Eu adorei a boneca. E me lembro, sem muitos detalhes, que minha mãe me pediu para que me sentasse junto aos presentes e tirasse uma foto. Obedeci, escolhendo a boneca recém-ganhada para segurar em meu colo. As fotografias de aniversário (uma tradição que minha mãe manteve até meus 15 anos, houvesse ou não festinha de comemoração - e normalmente não havia) eram tiradas por um fotógrafo contratado e não havia muitas chances. Era preciso fazer pose e caprichar, não se mexer, para que a foto a ser revelada ficasse aproveitável, algo impensável para as gerações das máquinas digitais. Acreditem em mim quando digo que uma fotografia era quase um evento. E minha boneca estava lá, eleita em meu colo.


Não sei, sinceramente, que peso isso teve pra mim, uma garota branca, no que se refere à minha visão de mundo no quesito racismo. Não sei mesmo. Acho que teve pouca influência, posto que amigas e colegas negras fizeram parte de minha realidade de menina criada no  colorido interior do Nordeste brasileiro. Ao longo da vida, tive professores, conhecidos, amigos e colegas negros. Então, talvez, a boneca tenha sido apenas uma boneca a mais. Ainda assim, eu me pergunto que papel têm as bonecas negras para as crianças negras. Eu não tenho resposta para essa pergunta, não sei como uma criança negra elabora a onipresença das bonecas brancas e amarelas nas prateleiras das lojas de brinquedos. De cá do meu cantinho de quem faz perguntas, acho cruel. Sem respostas, é uma sensação mesmo. A verdade é que não faço ideia do alcance que uma boneca vem a ter na maneira como uma criança ensaia e elabora suas relações com seu meio. O que não impede que o tom monocromático das prateleiras das lojas de bonecas me incomode.

Minha filha não é lá grande fã de bonecas. Até brinca, eventualmente, mas só até o primeiro bichinho fofinho atrair seu olhar. A seção de bonecas também não costuma ser a que visito primeiro quando penso em comprar um presente pra ela, apesar de já ter, também eventualmente, comprado-lhe uma ou outra boneca. Já comprei outras para amigas dela e, em todas esses eventuais passeios pelos corredores das lojas, não me lembro de ter visto uma boneca negra sequer. É possível que tenha visto, mas não me lembro. Acontece que minha cunhada veio passar o final de semana com minha sogra e trouxe para Amanda uma boneca fofa, grandona, boa de abraçar, de pano e negra. Amanda gostou. Eu adorei. Vou pegar pra mim, vão vendo. De novo, não sei que significado ela terá para Amanda; se, para ela, a boneca recém-chegada tem alguma simbologia diferente de suas Barbies ou outras bonecas brancas e amarelas. Não sei, só faço perguntas. Mas gostei demais. Diferente de minha infância, o universo social de minha filha é composto quase que exclusivamente por crianças consideradas brancas - e eu não sei o que isso representará para suas construções sociais e elaborações reflexivas sobre a organização do mundo em que ela vive. É claro que uma boneca não tem o poder que teria, por exemplo, a presença de crianças negras em uma escola particular em igual proporção a crianças brancas. Etc. No entanto, uma boneca, até onde entendo, propõe-se a representar ludicamente a forma humana, então quanto mais coloridas, melhor. 

É possível que se chame Lotta, a amiga da Lola no fofíssimo seriado infantil Charlie & LolaLotta foi feita por presidiárias de João Pessoa, num projeto apoiado pela comunidade religiosa que minha cunhada frequenta. Agrada-me saber que ela representa uma tentativa de ressocialização e inclusão social, de descoberta de talentos e habilidades, de possíveis ressignificações pessoais. Agradou-me revirar as fotos antigas para mostrar a minha cunhada e a Amanda a primeira foto deste post. Desagrada-me, contudo, o fato de que uma boneca negra ainda tenha tanto significado para mim. Estivéssemos nós em outro mundo, isso sequer seria assunto. Mas vamos em frente, de boneca nova.


9 comentários:

Iara disse...

Adorei o post. Eu tive duas bonecas negras na infância. Você chegou a ler este post aqui? http://blogueirasnegras.wordpress.com/2013/04/16/porque-ter-uma-boneca-negra/

Eu compartilhei na minha TL, e a gente conversou um pouco no FB aqui: http://www.facebook.com/iarabobafeiaechata/posts/602917523071784

Eu acho que as bonecas negras são importantes principalmente pras meninas negras construírem sua auto-estima. Aliás, não só as negras, bonecas que contemplem a diversidade de maneira geral.

Em tempo, lindinhas as fotos. <3

Cristina Lopes Cassiano disse...

Que lindas e parecidas, as fotos! Sabe que fiz questão de fotografar uma vitrine em Amsterdam, de roupas de crianças, com manequins loiras e negras na mesma proporção. A lourice onipresente das bonecas loiras nas lojas brasileiras é vergonhosa, acho até criminosa. Nina tbm nunca foi muito de bonecas (como eu) e prefere as esquisitonas Monster High, roxas, verdes, azuis ;)

Anônimo disse...

Rita, amei este post, pois lembro desse aniversário e até sei quem fez este vestido lindo, foi Graça de Jurinha. E essa menina da segunda foto, cada dia mais linda, cujo sorriso me faz lembrar de nossa Berna. Verônica

Lílian Paschoalin disse...

Ai, Rita, eu adorei... Também pensei o mesmo quando comprei/entreguei essa bonita a Amanda, já imaginando que pela região geográfica/situação social ela convivesse bem pouco com crianças negras, cuja estima certamente seria favorecida pela existência de muitas outras bonecas assim. As fotos estão fofíssimas, suas perguntas também são as minhas e a recordação de sua bonequinha, na mesma idade, me diz que 'Lotta' está em muito boas (quatro) mãos. Bjooooo!!! e, né... LOVE, LI.

Débora Ramos disse...

Adorei o post e acho que essa reflexão sobre as bonecas é muito necessária.

Quando criança eu tive uma boneca de cabelos negros ( naquela época era complicado encontrar uma)

A importância daquela boneca foi vital eu podia me ver naqueles traços, na cor do cabelo. Enfim, eu tinha uma boneca que se parecia comigo em um universo de Barbies magras, loiras e de cintura fina.

Silvia disse...

Que lindas bonecas :)

Ana Claudia disse...

Isso me fez lembrar que eu também tive uma boneca, na verdade uma bebezinha, negra. E a achava linda! Muito mais bonita do que as outras bebezinhas brancas. O meu primário foi todo em uma escola municipal onde minha mãe era professora. Lá eu tive a oportunidade de conviver com vários coleguinhas de todas as cores e classes sociais. Aprendi desde cedo que, quando muitas crianças faltavam era porque ou estava chovendo ou era porque havia tiroteio no morro. Duas razões pelas quais elas não podiam sair de casa. E essa convivência foi bem natural para mim. E agradeço minha mãe por ter me inserido nesse colégio e, em nenhum momento ter feito nenhum tipo de restrição em relação às minhas amizades.

Anônimo disse...

Oi,
Diferentemente da cidade que voce mora, Raquel nasceu e mora numa cidade onde mais de 70% da população é negra - Salvador. Sua primeira professora era negra, a colega que ela mais se apegou na escola é negra - Larissa,... e vivemos rodeados de negros. Raquel tem barbies, Pollys, e tambem boneca negra, Laura (ela da nome a todas as bonecas, alias, aquelas que ela mais brinca e gosta), por sinal Laura esta no carro, minha neta. Ela, Raquel, não enxerga direnças. É tudo muito natural.
Beijos,
Ju

K disse...

Eu tive uma boneca negra. O dono dela, um primo distante de meu pai, disse que me daria a boneca se eu me lembrasse do nome dela: Fedegunda!
Encontrei com esse primo recentemente e falamos da boneca que foi marcante na minha vida. Uma pena que não a tenho mais.Minha filha Valon teve a Teresa, um enorme bebê negro.

 
©A Estrada Anil - Todos os direitos reservados. Layout por { float: left; }