Arthur e a galera do Olimpo


Durante minha infância, havia em minha casa um livro com breves artigos sobre História e curiosidades diversas. "Curiosidades diversas" é o termo que uso para falar daquilo que não me lembro direito: talvez fosse uma mini-enciclopedia de único volume ou um dicionário ilustrado, não faço ideia. A capa dura era branca e azul, não me lembro do título, só me lembro que adorava folhear aquilo. Gostava das gravuras e das legendas, achava aquele livro muito "sabido". Uma das gravuras que costumava me hipnotizar era a de Hércules sustentando a Terra em seus ombros. Outro dia, no twitter, uma amiga ressaltou que quem segurava o Globo nos ombros era, na verdade, Atlas. Mas eu tinha certeza absoluta de que era Hércules, por causa das muitas horas que passei lendo o livro sabido. No fim, descobrimos que a função tinha sido atribuída a Atlas que, por sua vez, pediu uma forcinha ao Hércules. (Atlas, inclusive, tentou dar no pé, deixando Hércules pra trás com o mundo nas costas,  horror, horror! Mas não conseguiu e Hércules deu um jeito de devolver o grande pepino para que Atlas cumprisse seu castigo eterno de sustentar o mundo nos ombros. Depois fiquei sabendo que não se tratava do mundo, mas do firmamento. Seja como for, a representação comum é uma esfera; no livro sabido, a Terra.) 

Quando penso em mim, pequena, ajoelhada no chão e folhando o livro aberto sobre o sofá, acho que a figura de Hércules curvado pelo peso do planeta plano e chato, diferente da esfera dos livros da escola, sinalizava para mim as janelas da fantasia, dos mitos, do mundo infinito da imaginação humana.

Quando o livro Os Doze Trabalhos de Hércules chegou às minhas mãos, com suas ilustrações dos personagens do Sítio passeando pela Grécia antiga, foi como uma continuação do encantamento que aquela gravura do livro sabido produzia em mim (já falei dele aqui, no meme dos trinta livros). O livro de Lobato foi a porta de entrada para as graças da mitologia grega para muitas crianças brasileiras de minha geração. Para mim, ainda é a lembrança que primeiro me visita cada vez que os deuses e heróis da mitologia grega são referenciados no vasto mundo da literatura, da pintura, das artes em geral. É ver uma ninfa, um centauro ou qualquer alusão ao labirinto de Creta e, zás, lá vou eu de volta ao livro azul de Lobato (minha edição tinha capa azul). Mais tarde, é verdade, a primeira versão do filme Fúria de Titãs também passou a alimentar meu inventário de referências mitológicas, mas sempre como segundo momento, como resgate das experiências que o livro de Lobato já havia me dado.

Sem qualquer surpresa, quando meu filho começou a ler, fui logo pensando no momento em que eu colocaria Os Doze Trabalhos em suas mãos também. O momento chegou, fui à livraria, procurei por longos minutos e encontrei, em edição grande e colorida, agora com capa amarela, meu querido tesouro de mitos e deuses impossíveis. Foi quase com ansiedade que presenteei o Arthur. Alguns dias depois, ele me chamou para me "dizer uma coisa". Com tato e um tanto constrangido, confessou:

- Sabe o que é, mãe? Eu... não gostei muito desse livro.

Então eu lhe disse para deixá-lo de lado, parar de ler e ir fazer outra coisa, ora. Que é isso mesmo, nem sempre as pessoas de que gostamos têm os mesmos gostos que nós, e isso não precisa ser um problema. Em meu íntimo, fiquei me perguntando se o livro de Lobato estaria tão datado que não fosse mais capaz de tocar as crianças da geração de meus filhos. No entanto, como ele já havia lido com entusiasmo A Chave do Tamanho, também de Lobato, não encontrei a resposta. Ele voltou ao Harry Potter, não pensei mais no assunto.

Até que, no início deste mês, um amigo deu ao Arthur O Ladrão de Raios, do escritor americano Rick Riordan (Ed. Intrínseca, tradução de Ricardo Gouveia). Pronto. Arthur agora está às voltas com Hermes, ciclopes, Thalia, Hera; e, do seu jeito, vai se familiarizando com o povo todo lá do Olimpo. Mal terminou o primeiro livro, enfiou a cara no segundo volume, O Mar de Monstros, este devorado em dois dias. Ontem, na feira de livros da escola, compramos para ele o terceiro volume, A Maldição do Titã. Enquanto isso, Harry Potter, lido somente até o segundo volume, segue esperando na prateleira, esperançoso.




No carro nossas conversas giram e, aqui e ali, voltam às lendas e mitos dos deuses gregos. Contei a ele sobre Odisseus e Penélope, e ele achou muita graça da esperteza dela em desmanchar à noite a colcha que tecia durante o dia; falei da carruagem de Apolo, uma de minhas imagens favoritas nesse papo todo. E hoje lhe falei de Atlas e Hércules, pensando no meu antigo livro sabido. Enquanto falava, pensava em como eu não sabia do tanto que aquela imagem alimentaria minhas caraminholas e do quanto eu viria a gostar de falar dela com o filho que teria um dia.

Então assim é, pelo Sítio ou por Nova Iorque, todos os caminhos parecem levar ao Olimpo. De quebra, Arthur vai vendo como homens e mulheres de cada tempo histórico se relacionam com a ideia da existência de divindades, e como essas ideias se transformam na medida em que transformamos o mundo e assistimos às mudanças que não conseguimos dominar. E assim, achando graça das manias dos deuses e torcendo pelo herói do livro, Arthur conhece algumas das histórias que influenciaram tantas áreas na cultura ocidental. Como eu na época em que lia Os Doze Trabalhos, ele ainda não tem ideia do alcance da herança grega para nossas artes, nossos nomes, nosso mundo. É tudo meio confuso, meio mágico, engraçado. Acho mitologia a cara da infância. A menina que sou ainda adora e está se esbaldando no assunto com o menino que ensina coisas incríveis a ela todos os dias. 

4 comentários:

Deh disse...

Eu me emocionei agora porque segui pela mesma porta pra dentro do mundo sensacional dos gregos: Monteiro Lobato. Depois dele ou junto com ele, nas lidas e relidas, foram os nossos "livros sabidos": Mundo da Criança, Enciclopédia Trópico. Todos ainda nas prateleiras da minha mãe.

Eu me pego olhando pros livros de casa e fazendo mil planos pra eles, e fico ansiando vê-los nas mãos do meu filho. Já pensei também que o que me tocou pode não tocá-lo. Mas deixa eu sonhar. Vai que.

Um beijo!

Anônimo disse...

Bem, Lobato foi quem me abriu as portas da mitologia. Lia e ficava fascinada com aqueles nomes lindos; "Atenas", "Hera" etc. Deu no que deu ;o)Minha coleção do Lobato, a que eu li, tá aqui na estante, tb à espera dos leitorezinhos. <3
Bia

Luciana Nepomuceno disse...

Mitologia grega, quem nunca? O meu filho já "emparelhou" comigo, quase.

Tina Lopes disse...

Oba, vou tentar baixar em português pra Nina. Ela começou com esse aqui, lembra? http://pergunteaopixel.blogspot.fr/2009/04/isso-e-grego-pra-mim_29.html (dsclp o jabá)

 
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