No tempo das cortinas


Meu nome era Belinha. Era filha de uma mulher muito pobre que havia sido abandonada pelo marido (ou era viúva) e estava grávida. Morávamos num barraco qualquer em algum canto  esquecido do Sertão nordestino, com pouca mobília e muita sujeira pelo chão. Havia uma cama de molas, um penico, uma cadeira e, acho, uma pequena mesa; talvez um fogão, porque me lembro do caldeirão que "minha mãe" mexia com uma mão, enquanto apoiava a outra nas costas doloridas por causa do enorme barrigão. Ela usava um lenço na cabeça e eu usava um vestido maltrapilho de mangas fofas. Um dia, um retirante bateu à nossa porta pedindo comida e abrigo, e "minha mãe" acabou se envolvendo com ele; não sei de outros detalhes, mas havia um sobrinho de "minha mãe" que, por alguma razão, não gostava muito do moço retirante. E mais não lembro.

Era 1983, eu tinha 11 anos e a peça ganhou o primeiro lugar no festival estadual de teatro em uma gincana cultural promovida por uma instituição pública há muito extinta. Encenamos a peça umas cinco vezes, em diferentes municípios, e eu gostava da brincadeira. Algo na muvuca dos bastidores, quando nos encontrávamos com outros grupos vindos de lugares diferentes, sinalizava que o mundo era um pouco maior do que minha rua e minha escola. Sem falar nos ensaios, quando eu me sentia uma atriz de verdade. Com 11 anos, eu tinha mais cabelo que juízo, mas também tinha mais imaginação que todo o elenco adulto reunido. 

Ao fim da gincana, saboreando a delícia do primeiro lugar (que valorizamos muito, já que superamos companhias mais bem estruturadas que o nosso grupo quase improvisado), minha mãe decretou encerrada minha "carreira artística" porque tinha visto "o estilo de vida dos artistas" e coisa e tal. Eu não sei o que ela viu. Sei que guardei as lembranças (e fotos perdidas em algum lugar do armário) de meu tempo de palco e, principalmente, de bastidores. Não sei do que a minha mãe queria me proteger, mas eu via cores, plumas e fantasias; gente fazendo de conta o tempo todo; era quase como brincar no quintal quando ninguém olhava, só que com luzes, gente olhando e aplausos no final. 

O nome da peça era um primor, Cinco Anos de Seca e uma Paixão. Hahahaha, gente. Devia ser bem boa, já que saiu vencedora, apesar do título. ;-)

4 comentários:

Daniele C. S. disse...

Que história ótima, acho que as pessoas ainda tem preconceito com os artistas, admira-se a vida delas, mas também critica-se esse estilo, mas acho que são as pessoas que mais sentem-se livres pra fazer o que têm vontade.

Luciana Nepomuceno disse...

MInha amiga, praticamente oscarizada. Olha aê.

Anônimo disse...

Adorei saber da sua experiência nos palcos!!! Como queria ver uma foto sua como Belinha.
Beijos,
Ju

Anônimo disse...

Outros detalhes da peça,não contados no post, mainha me contou aqui! Ela disse que acompanhou tudo! rsrsrsrsr
Larissa

 
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