Deep



E aí há os dias em que somos navios velhos esquecidos no fundo do mar. Um quase silêncio cheio de corais.

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Um dia eu tive preguiça de dobrar o lençol e argumentei que ele era muito grande. Então minha mãe inventou uma música de dobrar lençol grande e cantou comigo. Muitos anos depois, ela ainda se lembrava da música e falou dela poucos dias antes de morrer.

Não há um dia em que eu arrume a cama sem me lembrar disso.

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Minha filha me mandou uma carta "pelo correio". Ela escreveu o que queria, fez um desenho, transformou o papel do desenho num envelope, fechou com bastante cola e pôs a carta na caixa de correspondência do portão. Depois me avisou que tinha carta pra mim. Então hoje recebi uma carta, à moda antiga (tudo bem, não teve carteiro, mas valeu mesmo assim). Dizia para eu não esquecer de costurar a fronha.


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Eu não sei costurar. Sei pregar botões, fazer alinhavos bem mequetrefes. Mas gosto de bordar. Acho relaxante (quando dá certo, claro) e o prazer de ver o trabalho pronto quase se equipara ao de tirar um bolo do forno. Talvez. Bom, não bordo muito. Na verdade, quase nada. Só sei fazer ponto cruz, porque os outros pontos que aprendi no colégio de freiras, na sexta-série, habitam a zona incerta das memórias fora de foco. Fui acometida pela síndrome do bordado em minha primeira gravidez e limpei as babinhas do Arthur, um bebê muito fofo cheio de dobrinhas, com toalhinhas que bordei apoiando-as no barrigão. Mas passou e nunca terminei de bordar aquela toalha verde. Um dia. Antes, preciso dar um jeito de costurar a fronha. E, claro, sou clichê e tenho o sonho de fazer uma colcha de retalhos.


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Um livro de contos é uma colcha de retalhos. Assim como uma família, uma receita ou as canções no meu pendrive. Tudo, enfim.

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O Cure tem uma canção que fala de fotografias. De tão vistas, diz a letra, parecem reais. Tenho retalhos assim. 


There was nothing in the world
That I ever wanted more
Than to never feel the breaking apart
All my pictures of you 

Algumas canções do Cure estão tatuadas em retalhos que guardo como quem guarda, sei lá, joias? Algumas memórias são as minhas joias. Gosto de tudo na banda: todo aquele preto, os cabelos absurdos, a maquiagem do Robert Smith posando de menino tristinho. As músicas, sure. Havia um programa de clipes nas tardes de domingo, em algum canal da TV aberta no final dos anos 80. Eu via o clipe de Close to Me, com os integrantes da banda presos em um guarda-roupas que despenca do abismo rumo ao fundo do mar. 

Quase silêncio em corais de colônias coloridas.


 

3 comentários:

Anônimo disse...

Quase silêncio... agora música. The Cure está vindo para o Brasil. Você vai???
Beijos,
Ju

Renata Lins disse...

me veio um revival aqui... eu cantava música de arrumar cama com o Felipe, quando ele era pequenino. :)

Anônimo disse...

Esse programa era o Som Pop, com o Kid Vinil? ;o))Do Cure amo muito "Push" e "Dressing Up" =o**

Bia Francisco

 
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