De tecido leve e delicado


O terceiro volume das Crônicas de Gelo e Fogo foi, seguramente, o livro com as maiores viradas no enredo que já li. Para o bem ou para o mal, a história deu voltas que me deixaram zonza. Tenho lido e ouvido por aí que os livros seguintes, volumes quatro e cinco, não chegam aos pés do fuzuê dos três primeiros. Não me espanta. Manter o ritmo do terceiro livro ao longo de outros dois volumes seria mesmo um feito e tanto. Resta torcer para que eu me mantenha interessada nos rumos de Westeros mesmo assim. Sigamos. Tenho amigos muito maus que a toda hora me indicam um livro imperdível. Dado o tamanho da minha lista de pendências e o pouco tempo de que disponho atualmente para enfiar a cara nas páginas, considero um desperdício ler algo que não me segure pela mão e me embale da forma devida. Portanto não hesitarei em saltar do barco se Mr. Martin desafinar demais. Mas seria uma pena e eu sentiria saudades.

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É uma coisa isso, né. O tempo. Não sei se pela idade (que ele, o tempo, me deu) ou por constatação óbvia (que ele, o tempo, permite), encasquetei com a ideia de que trabalhamos demais, demais. A pergunta que não quer calar: pra quê, cara pálida? Em minha cabeça ressoa imediatamente aquela velha máxima (de quem, mesmo?): ame seu trabalho e não terá que trabalhar um dia sequer - mais ou menos isso. Torço muito que meus filhos se acertem com isso aí. Demais, todos os dias. Que não lhes amarre o relógio, não. Mas os mistérios. 

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Toda vez que meus filhos avançam nas aulas de natação e passam para um novo nível tenho vontade de ligar para minha mãe. Já falei disso aqui outras vezes, que isso é outra coisa que o tempo faz com a gente, esse negócio de histórias repetidas. Só repete quem viu de novo, acho; e tenho visto muitos desses dias em que, calada ou falando sobre outras coisas, penso em como ela receberia com alegria certas notícias miúdas. Gosto cada vez mais delas, das notícias miúdas.

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É que é mesmo uma alegria quando a gente percebe que o tal tecido da vida é cheio de traminhas delicadas e é isso que faz a renda bonita. Cada voltinha, cada detalhe, a brisa que balança suavemente a barra do tecido leve. A vida é leve e delicada, é preciso carinho e cuidado. E trabalhar menos.

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O tempo voa, diz a canção daquela moça da voz boa. Ainda ontem eu andava pelo campus, livros na mão e caraminholas na cabeça. Mas o que importava mesmo eram as baladas e as aulas de literatura. Disso eu já sabia.

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Um amigo das antigas veio nos ver. Andava sumido - ou nós andávamos sumidos, dependendo de quem olha - e tem sido muito bom botar os papos em dia. No tempo das aulas de literatura nossos encontros tinham balada no Recife Antigo, ele, Ulisses e eu. Hoje sentamos no chão da sala com as crianças para jogar Pictureka, falamos sobre filhos e a vida no Canadá. Ou sobre a vida em Floripa, aquela banda e casas vitorianas. Quando brindamos, falamos em amizade, da boa, feita daquele mesmo tecido fino e bem cuidado. Tão bom. É verdade aquilo que dizem sobre o tempo e os amigos e a distância e tal. Não importa.

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Foi em abril do ano passado que perdi aquela conexão. Um ano já. O tempo voa e é preciso trabalhar menos (estou repetindo, eu sei). Nem que seja para olhar a planta na janela e pensar na tia querida que se foi, no quanto ela também contribuiu para a beleza das minhas tramas miúdas.





1 comentários:

disse...

Copiei e dei créditos. POde?

É amor demais!

 
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