A birra, a colcha e o mundo


A morte do GReader me deixou um pouco fora do ar. Ainda não parei para providenciar outro reader que me permita seguir de perto o rastro de meus sites favoritos, e há tempos não atualizo a lista de blogs na barra lateral deste bloguito. Ou seja, não tô sabendo de muita coisa (incrível como alguns dias longe da blogosfera me deixam com a sensação de estar perdendo os melhores lances do jogo; mas é que há outros jogos, também). 

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Tenho tido dias de muita leitura offline. Li outro dia em um blog, cujo nome não me lembro, uma mãe fazendo uma lista de conselhos para sua filha. Um deles dizia algo como "ler pode mudar sua vida". Pois então.

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Há muito tempo não traduzo pra valer. Mas eu me lembro de que gosto muito do babado. Tenho pensado sobre, lido sobre, conversado sobre isso. Sobre a entrega que a prática demanda, sobre a alegria de ver um texto nascer a partir de outro - e dos equívocos que rondam a prática de tradução e transformam a rotina de tradutores profissionais em uma montanha russa de prazos absurdos e remunerações injustas. Mas, ah, ando com tantas saudades. Ninguém perguntou, eu sei.

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Na próxima sexta-feira fará um ano que minha Tia Maria morreu. Desde a semana passada me pego pensando que há um ano ela viveu suas últimas semanas, seus últimos dias. Ela tinha 82 anos e um grave problema cardíaco; ainda assim, não a imagino pensando na iminência da morte. Imagino que ela acordou, dia após dia, tomou seus remédios, comeu o que não podia, porque era o que ela fazia, viu seus programas favoritos na TV, rezou e fez muitas palavras cruzadas. E um dia ela não viu a noite chegar. Mas a noite chegou, mesmo assim. E, visto assim, desse ângulo, o mundo parece imenso e nós, minúsculos.

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Quando eu tinha 14 anos, passei umas semanas sem falar com minha tia. Eu tinha ficado muto brava porque ela tinha me proibido de fazer algo que eu queria e me vinguei com o silêncio.  Birra de adolescente pode durar semanas, meses, anos. A minha durou o suficiente para a raiva passar e eu nem me lembrar mais do motivo por trás dela. Mas adolescente que se preza espicha a birra e fiquei lá, de mal. Enfim, enquanto eu perdia meu tempo ficando brava, ela sabia que cedo ou tarde aquilo passaria e se dedicou, por semanas, a fazer um presente pra mim. Eu sei que ela não quis comprar meu perdão, porque ela sabia que não precisava disso e nós duas sabíamos que ela já tinha falado que me faria um presente. Mas, depois da birra, eu apaguei aquele papo da cabeça. Certo dia, quando eu ainda fazia bico cada vez que minha mãe me perguntava quando, afinal, eu voltaria a falar com Tia Maria, eis que ela me aparece com o presente. Ela costurou uma colcha de cama, duas almofadas e duas enormes cortinas para o meu quarto. Eu faria quinze anos em breve e essa seria a decoração que tiraria os ares de infância de meu quarto (ou assim achava eu). Aceitei o presente constrangida, por causa da birra. No dia seguinte, dei o abraço devido e me aninhei nele por bons minutos. Nós duas sabíamos que aquele abraço viria em breve, de um jeito ou de outro, mas foi tão bom do jeito que foi: as peças que ela costurou eram lindas, eu amei as cores, o padrão do tecido, tudo; e ficamos um tempo conversando sobre a escolha dos tecidos, os detalhes da colcha, o formato das almofadas. O assunto rendeu um monte de pretexto para a gente ficar de papo e matar as saudades. As cortinas, a colcha e as almofadas fizeram parte de minha vida por muitos anos, até eu deixar a casa de minha mãe e me mudar para a cidade onde faria faculdade. E, de certa forma, ainda decoram minha história. O amor tem tantas formas de tatuar nossa memória, não é? E visto assim, desse ângulo, o mundo parece imenso e nós, maiores ainda. Eu tive uma tia que costurou uma colcha pra mim. 


7 comentários:

Renata Lins disse...

Que linda a história da sua colcha. Da sua tia.
E eu, bem, eu não consigo. Não consigo ir dormir sem falar com alguém. "ficar de mal" não faz parte. Eu brigo, eu discuto e tal. Mas ficar sem falar é o pior dos piores...
beijo!

Iara disse...

Coisa mais linda, Rita. <3

Luciana Nepomuceno disse...

Amei tanto este post. Saber você flertando com o traduzir (se). E a colcha e os abraços e a saudade. Saber o tempo. e a gente nele. Costurar é outro traduzir(se) né?

Cristina Lopes Cassiano disse...

Tradução, taí algo que me fascina mas que não tenho coragem de me permitir pensar em fazer. Muitos verbos, né? Pôxa, que lindas, você e sua tia. Quando eu rompia era pra valer; não me dava a chance de voltar atrás. Achava que isso era ter personalidade. Bem-feito pra mim, que nunca ganhei nem uma almofadinha.

antonio j cerqueira disse...

pôxa, muito bom sublimar culpas/frustrações/ansiedades/fobias.. contando tudo em txt. preciso ter meu blog.

K disse...

Adoro objetos que contam historia!

simplesmentefluir disse...

Como eu gostaria de escrever dessa forma tão gostosa, que vai desvendando a vida de um jeito tão simples e ao mesmo tempo tão refinado! Parabéns! amo ler seus textos.

 
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