O garfo


Todos os dias pela manhã, vindo de algum sítio das redondezas, o leiteiro entregava dois litros de leite muito gordo. Antes mesmo de ele tocar a campainha, o barulho das garrafas já denunciava sua chegada. O moço vinha com suas garrafas de vidro verde e se eu fechar os olhos posso ouvir direitinho o barulho do leite sendo despejado dentro da leiteira: blof, blof, blof, blof, o peso aumentando e eu apoiando a leiteira no joelho; até o último jorro mais fininho, que caía sem muito barulho. Aí a gente fervia o leite. Em oitenta por cento das vezes, a gente perdia o timing, o leite crescia espumoso e se esparramava para fora da leiteira - era o pior tipo de sujeira no fogão, eu odiava com todas as forças. E eu olhava desolada para a leiteria toda suja por fora, aquela mancha de leite ressequido, quase um símbolo da minha infância - não adianta chorar. Quando o leite esfriava, a gente retirava a nata grossa e amarela que se formava no topo e a armazenava na geladeira. O fim mais óbvio era a manteiga da terra, a coisa mais gostosa do universo inteiro, três vezes. A alquimia me fascinava porque eu detestava nata - chegava a coar o leite em peneirinha fina para que nada daquilo migrasse para minha xícara; mas era só descongelar a bendita, bater com colher de pau cheia de vontade por uns tantos minutos, cozinhar por outros tantos e, voilá, a melhor manteiga. 

Mas havia outro fim, não muito frequente, para os muitos potes de nata armazenada dia após dia em minha casa: minha mãe fazia bolinhos de nata. Não sei como se faz, apesar de ter acompanhado o processo diversas vezes. Faz tanto tempo. Eu adorava e era simples assim: vou fazer bolinho de nata, ela dizia, e eu já era feliz. O último ato antes de levar os bolinhos ao forno, e disso me lembro com o coração dançando, era fazer sulcos no topo deles com um garfo. Essa era a minha função: ela os moldava, mas cabia a mim a honra de pressionar levemente um garfo sobre os bolinhos e dar a eles a forma final (havia mais gente na cozinha, mas não vejo os rostos, não mais; vejo apenas farinha pela mesa, bolinhos brancos na forma, o garfo em minha mão). Enquanto os bolinhos durassem, eu os comeria de boca cheia, feliz. Se minha memória não mente agora, minha mãe deve ter feito bolinhos de nata para meu aniversário de cinco anos. E a julgar pela nitidez da cena em minha cabeça, garfo pressionando os bolinhos, deve ter feito outras vezes também, mais tarde.

Eu cresci e ela parou de fazer os bolinhos e a nata passou a ser totalmente destinada à manteiga da terra. Nunca perguntei sobre a receita. Já comi outros em alguns momentos, numa ida qualquer ao Nordeste, certamente feitos a partir de receita diferente. O problema é a idealização. Temo fazer os bolinhos e não sentir o mesmo sabor daquela época. Eu poderia perguntar a alguém da família, talvez a forma mais simples de resolver o impasse, mas isso não garantiria o resultado. Porque, na verdade, nenhuma receita garantiria o resultado impossível que eu gostaria de alcançar. Eu queria o bolinho na boca, os olhos fechados e aquela voz de novo. Talvez eu tente. Só talvez.

Aí me ocorreu que o sabor pode nem importar muito. Que tudo que preciso é pedir à Amanda e ao Arthur que me ajudem com o garfo, pressionando os bolinhos. E tudo estará aqui, esse amor.
 

6 comentários:

Angela disse...

Essas criancas conseguem adocicar nossas maiores amarguras. Um beijo.

K disse...

Meu pai fazia uns bolinhos de ovos fritos deliciosos.Fazia raramente e talvez por isso eu gostava tanto.
Meu pai ainda esta vivo e eu o vejo tão pouco. Um ser humano admiravel em todos os sentidos.
Encantadora sua historia.

Ana Paula disse...

Na minha infância tem lembrança de biscoito de nata. Ela se parece com a sua: leite da fazenda entregue na minha casa... a nata guardada na geladeira (que eu gostava de comer com toddy) e que depois virava biscoito, pela receita da minha mãe. Hoje eu tenho leite entregue na minha casa, peguei a receita com minha mãe, e faço os biscoitos! Minha filha de 5 anos participa da confecção: ela me ajuda com os ingredientes e usamos as forminhas de massinha dela pra fazer os formatos... Sinto, com nostalgia, que estou construindo as lembranças dela.

Ziula disse...

Apesar de passar a infância no sul do país, sua história é a minha história... emocionante relembrar esses fatos e o horror do fogão e da leiteira quando o leite derramava.

Também tínhamos fogão à lenha e nele derretíamos queijo e colocávamos o pão com manteiga, diretamente na chapa, depois havia um lixa com a qual toda a sujeira era retirada, passada até ficar brilhoso novamente.

Bons tempos! Pena que meus filhos não terão essas lembranças!

Daniela disse...

Oi Rita,

Lindo texto.

Os teus bolinhos jamais vão ficar tão bons quanto os da tua mãe na tua memória, mas a Amanda e o Arthur vão ter os teus para lembrar.

Rita disse...

Gente,obrigada por dividir as lembranças de vocês também. Adorei. (Ana Paula, que delícia...)

Beijos
Rita

 
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