Na cama, na rua, na fazenda ou numa casinha de bits

Num dia qualquer da semana, a caminho da escola ou na volta dela, Arthur e Amanda leem gibis ou o que houver para ler dentro do carro.

[silêncio lá atrás, musiquinha rolando, Ulisses e eu conversando miolo de pote]
Arthur: - Ai, tô enjoado, vou ler depois. [larga a revistinha e começa a cantar]
Amanda: - [silêncio]

Quilômetros depois:

Eu: - Amanda, flor, deixa pra ler em casa. Sei lá se ler com esse balanço não vai fazer mal pros seus olhinhos...
Amanda: [silêncio]
Eu: - Amanda?
Amanda: [silêncio]
Eu: - Amandaaaa...
Arthur: - Amanda, a mãe tá falando!
Amanda: [silêncio]
Ulisses, Arthur e eu: - AMANDA!
Amanda: - Oi?

Daí ela larga o gibi e os dois lá atrás começam a conversar. E a rir. E a cantar beeeem alto. E a brigar, eventualmente. E a gritar mais. Até que:

Eu: - Ai, gente, pelamordedeus, dá um tempo, pega um gibizinho aí pra ler, vai.

Então ontem consultei Dra. Internet para saber se a história de que ler no carro em movimento faz mal à visão é mito ou verdade. Ela me disse que é tudo crendice; o Sr. Bom Senso me mandou procurar mais, mas eu fiz ouvido de mercador porque gostei da resposta e dei minha pesquisa por encerrada. Portanto, nos dias de trânsito ruim, fome, chuva e pouca paciência os gibis são meus pastores e nada me faltará. E a retina nem descola.

***

Devo ter lido 80% das páginas dos meus Sidney Sheldons e Agatha Christies no ônibus a caminho da escola. Dar aquela revisada básica de última hora para a prova de Geografia, em pé, no ônibus lotado, então, era um clássico - muitos nomes de rios que fizeram toda a diferença no meu futuro profissional foram memorizados no ônibus. Não raro eu tomava susto: mas já chegamos?! Hoje em dia preciso ser firme na hora de botar os dois na cama: só um gibi e deu, já tá tarde. Mas, é claro, eles burlam e quando vou dar aquela última espiadinha na Amanda ela não está lá, mas no quarto do irmão, sentada no chão,  lendo o segundo gibi. Ele vai logo se defendendo: "eu tô na minha cama", mãos ao alto, numa das quais está um gibi, claro. 

Já eu continuo carregando meus livros por onde vou, sempre tentando aproveitar qualquer minutinho chorado para avançar um capítulo que seja. Leio enquanto o bolo assa, em qualquer fila, no estacionamento do trabalho enquanto o Ulisses não me encontra lá, onde der. Mas o tempo me abana lá da esquina e eu, que já li livros inteiros a bordo, às vezes cochilo depois da primeira página, no posto de gasolina, enquanto abastecemos o carro. Morro de raiva e desgosto.

Geralmente leio antes de dormir e vejo com tristeza que cada vez avanço menos e o sono me pega antes do final do capítulo. Acho que vou me levantar depois da primeira cochilada e me juntar às crianças no chão do quarto do Arthur, quem sabe (há mesmo os dias em que demoro a ceder: levanto, tomo água, vou ao banheiro e, na volta, leio mais três ou quatro páginas).

Meu consolo é que os livros respondem atualmente por apenas uma parte do volume de leitura, já que também tenho ótimos momentos lendo textos incríveis na internet - gente, como vocês escrevem! - e é verdade que há noites em que as leituras marcadas ao longo do dia (aquele texto que o amigo indicou pelo Facebook, mas você não pôde ler mais cedo; todos os blogs bons, etc.) roubam tempo da leitura daquele romance bacana. Mas aí não acho que há que se falar em perdas, gosto mesmo dessa democratização dos encantos. Tempos bons esses em que belezas nos chegam por vários caminhos, inclusive o cibernético. Enquanto eu não começar a cochilar em cima do teclado, tá tudo certo.

1 comentários:

Cláudio Luiz disse...

a drª Internet diz que as crianças aprendem mais pelo exemplo. Então não culpe as crianças. eheheheheh

 
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