A tempestade


Acordei com o sonho ainda ecoando nas batidas do meu peito. No segundo seguinte, outro trovão explodiu. Caía um aguaceiro barulhento lá fora e a escuridão se quebrava em clarões repentinos. Um jorro d'água descia apressado pela calha quebrada, batendo com força sobre a mureta da sacada. Enrolada no lençol, abri a porta e recebi de bom grado a lufada de vento úmido que me lambeu. Um raio cortou o céu, iluminando a rua, e me deixou ver as folhas escuras que por um momento brilhavam nas árvores, e eram como olhos espreitando minha presença. Um segundo depois, o estrondo do próximo trovão sacudiu meu corpo. A chuva, que já caía brava, aumentou ainda mais sua força, despencando pesada sobre o mundo, sobre minhas lembranças de você, sobre o sonho que ainda estava ali. Vi o convite do rio raso que se formava e descia a rua, carregando folhas e pequenos galhos, sem rumo; vi os pingos grossos iluminados pela luz do poste; vi a névoa que se formava rente ao chão. Voltei os olhos para o quarto tomado pela penumbra e vi a cama, onde me esperavam os mesmos sonhos de sempre. Encolhida sob o lençol já molhado pelos pingos que o vento distribuía na sacada, pensei que voltar a dormir significaria de novo você, de novo sua voz tão nítida, outra vez sua mão na minha, seu jeito de passar a mão no cabelo. Uma gota morna desceu pela minha face. Voltei a olhar para a chuva que inundava a cidade. Os clarões se repetiam, mas lamentavelmente os trovões se afastavam e logo haveria quase silêncio outra vez. Logo a chuva perderia suas forças, como ondas enormes que por fim se cansam e acalmam a maré. E eu voltaria a dormir, voltaria ao reino que você dominou. Mas ainda havia a chuva e seus sons e um pequeno rio que improvisava caminhos; e eu quis diferente, eu quis esses outros sons, outras vozes, quis ser de novo a menina que inventava danças. 

Então apoiei as costas contra o vidro molhado da porta e vi a chuva cantar cada vez mais baixinho até se calar; e vi o céu se abrir sobre a cidade limpa, banhando-a com as primeiras cores da manhã. Com o corpo cansado e um alívio de criança que não teve pesadelos, ouvi os primeiros passarinhos que visitaram as árvores e suas folhas de viço renovado. Um beija-flor minúsculo rondou minha sacada examinando a samambaia, apressado, leve. Vindo de longe, o barulho de algum córrego relembrava com suas águas engrossadas a chuvarada que tinha lavado as ruas, tetos e quintais; a chuva que levara tanta coisa embora. E ver o dia chegar me fez ser leve também. Como um passarinho que aproveita o ar lavado da cidade para espalhar suas asas por aí. Eu quis, de verdade. E foi assim que andei descalça pela rua naquele dia, seguindo os caminhos improvisados pelo pequeno rio, ensaiando; e na noite que se seguiu, dormi por horas e horas um sono tranquilo, sem sonhos. Estava pronta.


5 comentários:

Clara Lopez disse...

Chuva belamente sentida, texto belamente construído, amor compartilhado. Merci, beijo,

Anônimo disse...

Lindo texto.
Abraço forte,
Ju

Rodolffo Saldanha disse...

lindo texto :)

Angela disse...

lindo amiga.
e o sonho, ah escrever sobre o sonho nessa semana foi pura sincronizacao.

Rita disse...

Obrigada, gente.

Anginha, tell me more.

bjs

Rita

 
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