Voltas


Não saberia dizer ao certo por quanto tempo ficou parada na calçada olhando para a casa do outro lado da rua. Talvez meia hora, dez minutos. O tempo era outro, passado em batidas no peito e voltas na cabeça, nenhum relógio saberia. Viu retratos em movimento, como em um tumblr improvisado de sua infância. Viu os vidros coloridos da janela e lá dentro os risos e os choros, tudo abundante. Viu o jardim que nem estava mais lá. Era um de raízes fortes e por isso ainda o via. Viu até o quartinho do quintal, aquele com camas de molas. Viu as fachadas antes de cada reforma, a vassoura varrendo o pó, os acenos varrendo a alma. Viu sua própria cara de tola olhando a lua, sentada ao pé do portão branco, e viu o cabelo assanhado pelo vento frio de uma noite qualquer de domingo, no mesmo portão. Viu a garota assustada, a afoita e a corajosa. Viu o telefone vermelho, o lustre da sala, o diário na gaveta. Esforçou-se para não olhar para cima, mas sabia que deveria. Foi quando a respiração ficou mais curta e o peito virou chumbo. Viu a placa de vende-se. Quando a primeira lágrima caiu na calçada suja de fuligem, o filho chamou com sua voz de vida que segue. Estava em outra casa, em outra cidade, para sempre com os pés naquele mesmo jardim. Para sempre. 

5 comentários:

Caminhante disse...

Oh. Abracim em você.

Paulo Marreca disse...

Que texto bonito! Très touchant. Li várias vezes e cada vez apreciei de maneira diferente. Parabéns!

Silvia disse...

Lindo! Adorei mesmo!
Beijinhos

Rita disse...

Obrigada, gente. Beijinhos.

Angela disse...

Muita coisa muito de uma vez. So posso te dizer que ja aconteceu comigo, e como tudo na vida, com o tempo acostumamos mais. Um grande beijo.

 
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