Todo ano tem


As lembranças mais remotas que tenho dos carnavais são de um tempo tão longe que nem parece que a menina em minha memória sou eu. Faz muito, muito tempo. Eu morava na cidade onde nasci e minha mãe não gostava mais da folia. Lá do fundo da minha infância, eu achava a festa um pouco exagerada, sentia certa aflição. Talvez fosse só vontade de brincar na rua como tanta gente grande fazia, talvez. Não sei. 

Eu me lembro de um baile matinê no clube da cidade. Não sei quem conseguiu convencer minha mãe a ir, mas ela foi e me levou. Vestiu-me com uma saia vermelha de crochê e uma camiseta branca; eu usava uma peruca e uma máscara com lantejoulas purpurinadas que me fazia lacrimejar. Ou talvez não fosse a máscara o problema para meus olhos, mas a fumaça dos cigarros e do gelo seco naquele ambiente meio escuro e lotado, com som muito alto. Havia um cheiro esquisito no ar, de bebida e suor. Não foi o melhor carnaval da minha vida. 

Naquele tempo, havia por lá a mania irritante de jogar talco ou maizena nas pessoas e durante os dias da festa era comum ver todo mundo pela rua coberto de pó branco dos pés à cabeça, gente cheirando a álcool e aparentemente muito feliz, de uma felicidade que eu não captava muito bem. Aí a noite chegava e tudo que eu experimentava do carnaval eram os sons das charangas batucando pelas ruas, além das chamadas para o desfile das Escolas de Samba na TV. Eu escolhia uma escola pra torcer e dois dias depois era como se a festa nem tivesse existido.

Aí eu cresci.

Tenho uma pequena coleção de ótimas lembranças relacionadas ao Carnaval propriamente dito e aos carnavais fora de época que um dia começaram a se multiplicar pelo país. A primeira micareta de que participei foi um jorro de empolgação por aqueles trios arrastando multidões. Eu adorava. Até hoje algumas canções tradicionais do carnaval de Salvador são capazes de me arrepiar e me lembro nitidamente que o primeiro deles foi como uma grande conquista. No ano anterior, eu tinha visto cenas da festa pela TV com um grupo de amigos da faculdade. Ninguém tinha viajado para brincar, não havia carnaval em nossa cidade e nossa diversão foi se reunir para rodinhas de violão e jogos de tabuleiro. Alguém olhou para  a TV e profetizou que no ano seguinte estaríamos lá e assim foi. E foi incrível, louco, arrepiante, cansativo e calorento. E bom demais. Repeti a dose até decidir passar o carnaval em Olinda e aí minha definição de carnaval divertido mudou. Descobri que sou capaz de gargalhar quatro dias sem parar. Olinda será para mim, sempre, a referência do carnaval popular, irreverente e desbocado, uma muvuca de fantasias louquíssimas, uma grande amostra de criatividade e bom humor. The best, oh yes. Aí deu.

Saí do Nordeste e nunca mais brinquei carnaval. Ou tentei brincar, mas não foi lá muito bom. Certa vez levei um pirata e uma baianinha para um bailinho infantil, mas o som altíssimo me deixou com pena das crianças e não sei se vou repetir a dose tão cedo. 

Nunca saí em escola de samba, nunca vi de perto um desfile. Eu acho aquilo tudo lindo e grandioso e sei que a empolgação é só uma questão de se aproximar o suficiente para ouvir a bateria. Quem sabe um dia? Agora não. Agora o Carnaval que tenho é aquele que minha mãe sempre sonhou pra mim, hahaha, em casa, livrinho aberto, crianças por perto, almoços atrasados, filminhos da locadora pela estante, café com preguiça. Sei que as crianças vão crescer e provavelmente experimentar a fruta. E sei que vou torcer para a quarta-feira chegar e vou dizer que não precisa tanto, todo ano tem. Ou vou eu mesma organizar o baile. Ou levar todo mundo pra subir ladeira. Não sei. Que venha. Eu espero. Todo ano tem.

Boa folia, gente.

***

O pessoal do site Blogueiras Feministas fez um post sobre a licença paternidade. O Ulisses contribuiu com as entrevistas e tem lá uma foto em que ele segura nossa Amanda quando ela era ainda um bebê fofucho. E tem outros pais com seus filhotes, todos torcendo por uma licença mais ampla que traga benefícios para as famílias. Entre um ziriguidum e outro, espiem lá. :-)

2 comentários:

S.L disse...

Ahhhhhh Olinda, minha querida Olinda!

Paloma Bessey disse...

às vezes a alegria vem de outros carnavais... que nem existiram : )

Bonito blog.

Paloma.

 
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