Gelo & Fogo e os filmes das nossas cabeças (e o pote de paçoca)


2013 trará às telas do cinema pelo menos dois filmes baseados em livros que li recentemente: The Great Gatsby (com o maravilho Leo DiCaprio, ator que não me canso de admirar e que - e nisso concordam comigo vários amigos e amigas que também o admiram - é a prova mais contundente de que a premiação do Oscar é tantas vezes absurdamente injusta) e uma nova versão para Anna Karenina (minha relação com o livro não é lá de grandes amores, mas quero muito ver o filme). Não costumo exatamente comparar a maneira como as histórias são contadas na literatura e no cinema, posto que as linguagens desses dois universos são tão incrivelmente distintas que qualquer comparação pode trazer considerações deveras irrelevantes. Para dizer o mínimo, enquanto o cinema nos oferece cores e rostos, sons e gestos, timbres e música de fundo, na literatura construímos nós mesmos o background das histórias que lemos. Cada um de nós sabe do cenário e das matizes que nos cercam no sofá ou na cama enquanto nossa mente filma as páginas. E cada leitor faz do livro uma produção diferente, única. Mesmo assim, gosto de ver produções cinematográficas baseadas em histórias que já filmei em meu sofá, nunca valorando o filme pelo tanto que se aproxima da forma como eu mesma li o livro, mas sempre apreciando como uma forma de arte se comunica com outra. 

(Não acho que os próximos parágrafos contenham spoilers, mas se você é extremamente sensível a eles, talvez seja melhor evitar o resto do post.)

E assim foi minha leitura do segundo livro d'As Crônicas de Gelo e Fogo - A Fúria dos ReisFinda a leitura, agora vejo que a segunda temporada da série antecipou elementos do terceiro livro e pôs em evidência elementos que nos livros são meramente sugeridos; também caprichou na carga erótica que no livro praticamente inexiste e suprimiu elementos mais místicos e fantásticos. O saldo, para mim, é duplamente positivo: gosto do livro, gosto da série. Claro que sempre posso dizer que gostaria que passagens do livro construídas sobre sonhos e visões de Bran Stark fossem lindamente transpostos para a telinha; posso achar apelativas as repetidas cenas no bordel de Lorde Baelish; ainda assim, livro e série, para mim, seguem, cada um em seu reino, coerentes e muito bem editados. Com exceção do Drácula, de Bram Stoker, acredito que essa tenha sido a primeira vez que li um livro cuja história já tinha visto adaptada nas telas. A partir daqui, devo seguir de mãos dadas com os dois. Pretendo mergulhar imediatamente no terceiro volume, mas sou leitora lenta e aguardo o final de março para começar a acompanhar a terceira temporada na TV.

Eu adoro ver Peter Dinklage em cena. É como se o Tyrion do livro se erguesse das páginas para a TV, perfeito. Prefiro o Joffrey que inventei em minha cabeça (se é que a gente pode "preferir" um Joffrey em algum nível) e a TV ainda não mostrou a mata dos lobos que tenho visitado em meu sofá. Ainda assim, quer a série siga próxima ao livro ou dê outros contornos ao enredo, tenho ótimas expectativas quanto às próximas temporadas, levando em conta o elenco até aqui impecável. Quanto aos livros, vai ser difícil me decepcionar, acredito. Sorrio satisfeita quando antecipo semanas e meses de diversão e fantasia, torcendo que meus filhos encontrem na leitura o mesmo tipo de experiência que Ulisses e eu temos tido ao longo dos anos. Como diz o autor Martin, pela boca de um de seus personagens, um leitor vive mil vidas antes de morrer. No meu caso atual, vejo duas séries também. 

"Uma dúzia de grandes incêndios enfurecia-se sob as muralhas da cidade, onde barris de piche ardente tinham explodido, mas o fogovivo reduzia-os a simples velas numa casa em chamas, flâmulas laranja e escarlate que tremulavam sem significado diante do holocausto jade. As nuvens baixas capturavam a cor do rio em chamas e cobriam o céu em tons mutantes de verde de uma beleza fantasmagórica".

As cenas de batalha e combate da série são boas. Mas há detalhes que surgem à minha volta enquanto leio passagens como essa que só aparecem na versão que filmei pra mim. E naquela outra que você filmou pra você. E nas tantas outras que os milhões de leitores ao redor do mundo constroem cada vez que viram mais uma página. Uma pena que a gente precisa comer, trabalhar, tomar banho, essas coisas sem graça. Tudo bem, comer tem bastante graça, mas sempre se pode levar o pote de paçoca para o sofá, né? 


3 comentários:

Carla disse...

Ah to amando o livro 3! Estou no início, mas a parte do Tyrion tá bem interessante (não sei se por ele ser um dos meus preferidos). Também adoro a série e livro e tô esperando ansiosamente a série em março.
Minha relação com Anna Karenina tbm não é nada boa, levei meses para terminar. Não consigo nem pensar em ver o filme, será que vale?
Bjo adoro teu blog (apesar de nunca comentar, rs)

Luciana Nepomuceno disse...

O livro 3 é uma delícia. Eu quase passei a gostar da série só por causa desse seu post, rs.

Mel disse...

Acabei o livro quatro dias atrás. Comecei a ler furiosamente para acabar logo assim que percebi que Tyrion não estava nele. Mas o cinco promete!

 
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