Final de semana no Beach Park



Troquei umas folgas aqui e ali, arrumei uma malinha com 17 tubos de protetor solar e fui. Com marido, filhos e outras quatro famílias fui ao interior do Ceará, no município de Aquiraz, a 27 quilômetros de Fortaleza, visitar o tão falado Beach Park. Voltamos roucos, bronzeados e com os narizes entupidos. Também voltei me achando a última bolacha do pacote porque, né, encarei tobogãs que no primeiro dia do passeio me fizeram dizer "é ruim, hein".

Eu já sabia (ou suspeitava) que o Beach Park seria um bom programa para fazer em família, mas não imaginava que fôssemos, todos, nos divertir tanto. Basicamente, eu me molhei, gritei, fechei os olhos apavorada, senti frio na barriga, descobri que sou mais medrosa e mais corajosa do que sabia, subi escadas carregando boias e desci água abaixo gritando, molhada, descabelada e morrendo de medo. As crianças fizeram tudo isso em dobro, só que sem sentir medo algum, aqueles lindos.

O Beach Park não é famoso à toa. Para quem gosta de um tiquinho bom de adrenalina, curte um sol daqueles na testa (sem sofrimento, porque afinal ficamos molhados o tempo todo) e quer fazer um passeio sob medida para agradar a família toda, eis um ótima pedida. A maioria dos brinquedos é classificada não por faixa etária, mas por altura. Há alguns obviamente projetados para agradar aos pequenos, mas, no final das contas, o que define mesmo se você está apto ou não a usá-los é a sua altura. E a coragem. Ou a falta de juízo. Em todos os brinquedos, salva-vidas e instrutores rigorosos e bem treinados (ou pelo menos foi essa a impressão que tive) auxiliam e sorriem discretamente quando veem alguém apavorado como eu. 

Comentei com uma das amigas parceiras de sobe-e-desce que, quando eu era mais nova, costumava ser uma garota destemida e fã de montanhas-russas. Enquanto eu falava isso, lembrei-me de umas férias passadas no Rio em que, juntamente com uma prima, entrei sete vezes na fila da antiga montanha russa com dois loopings (o auge do radicalismo naquela época), no antiquíssimo Tivoli Park. Só paramos de andar naquilo porque minha prima passou mal. Agora, quase nada resta dessa afobação toda - e o Tivoli nem existe mais. Diante dos tobogãs do Beach Park, eu era uma pessoa olhando pra cima e pensando "será??" 

Em um dos brinquedos, cheguei a sair duas vezes da boia antes de despencar lá de cima (ui, só de me lembrar, sinto medo de novo); só encarei a loucura porque Amanda, minha filha de CINCO anos, já estava na boia e insistiu: vem, mãe! Olha, a maternidade não é para os fracos. Eu fui. Fui, fechei os olhos, cravei as mãos nas alças de apoio, prendi minhas pernas sobre as da Amanda e implorei  sugeri que as amigas pusessem as delas sobre as minhas, gritei com um bebê com fome e despenquei. A queda deve ter durado dois segundos, mas, né? Morre-se em menos que isso. E é claro que a praga da boia girou de tal maneira que minhas costas ficaram voltadas para o nada, aumentando ainda mais a sensação de que eu ia cair num abismo sem fim. No meio da despencação toda, abri os olhos para ver se Amanda ainda estava na boia e ela estava afastando os cabelos da testa. Tinha largado as alças. Se eu quisesse muito largar as alças, não teria sido capaz. Amanda se incomodou com o cabelo no olho enquanto eu achava que meu coração ia sair pela boca. Minha amiga explicou: Amanda não tem filhos. Deve ser por aí. É verdade que o mesmo brinquedo a assustou no dia seguinte e nós duas descemos pelas escadas enquanto a galera mais destemida deslizava ribanceira abaixo, mas isso não tira o mérito da minha pequena corajosa que bem que teria se aventurado em outros tobogãs se sua idade e altura permitissem. E é claro que Ulisses e os amigos vão morrer dizendo que eu não me esforcei nem um pouquinho para que ela mudasse de ideia (o que me obrigaria a descer de novo), ao que respondo: é verdade. Ulisses, aliás, conseguiu me convencer a encarar alguns dos tobogãs mais altos e desceu com meus berros invadindo seus tímpanos, coitado.

Foi tudo muito bom e agora engrosso o time de quem recomenda o parque. O lugar é grande o suficiente para abrigar muitos brinquedos, adequados a faixas etárias e a níveis de coragem variados. Se você for muito fã das alturas, pode curtir uns três ou quatro dias por lá sem se cansar. Nós curtimos dois dias inteiros e foi de bom tamanho, mas pretendo voltar quando Amanda for maior e capaz de usar muitos brinquedos que, dessa vez, só o Arthur, Ulisses e eu aproveitamos. Isso não quer dizer que ela não tenha curtido também. As atrações para os pequenos são tão divertidas quanto as destinadas aos maiores - sem falar que são uma ótima forma de gente corajosa como eu praticar em minitobogãs antes de se aventurar nos grandões, mas não espalhem isso por aí.

Tudo já estava muito bom, mas o parque ainda fica na linda e imensa praia de Porto das Dunas, um daqueles cantinhos que o planeta reserva para nos lembrar que é lindo. O mar é um pouco agitado, mas suas águas mornas e limpas são um convite bom. A lua também deu as caras e nossas noites não ficaram devendo nada aos dias de sol. Para completar, estávamos no Nordeste e aliviei certas saudades culinárias. Comi tapioca quentinha com manteiga derretida e Ulisses se acabou no queijo de coalho. Quando a primeira colherada de cuscuz com leite entrou em minha boca, fechei os olhos e por uns segundos foi como se eu tivesse 17 anos outra vez, a mesma garota que não tinha medo de loopings ou alturas. Mas o cuscuz se acabou e o tobogã me meteu medo outra vez.


Não tenho muitas fotos, a máquina ficava na segurança seca do hotel enquanto eu me descabelava molhada o dia inteiro. Mas vou guardar comigo as lembranças desses dias que passaram tão rápido em ótima companhia, cercada de crianças corajosas e sorridentes. No último dia, Arthur, que, junto com seus amigos, brincou em tudo que sua altura permitia, me intimou: mãe, desce comigo no tobogã vermelho! Vi aquela carinha feliz e bronzeada, respirei fundo e fui. Descer as alturas várias vezes com ele foi a melhor parte do passeio; é verdade que na primeira descida ele reclamou que o deixei surdo com tantos gritos, mas nas descidas seguintes me comportei melhor e, depois de tudo, agradeci por ele ter acreditado que eu conseguiria. Não é só disso que precisamos de vez em quando? ;-) Quem sabe na próxima encaro os mais radicais que, dessa vez, observei lá de baixo, enquanto a turma (quase) toda deslizava. Quem sabe. 

(Na falta de fotos do parque propriamente dito, fiquem com uma que reflete o olhar da Amandinha sobre o ambiente.)


7 comentários:

Deh disse...

Eu, Rita, sou aquele que olha pra cima com a mão em pala sobre os olhos e diz "Nem a pau". E não vai. Meu menininho destemido vai sem pensar, gargalhando. É assim que eu gosto. <3

Nilma disse...

A turma aqui de casa ia adorar toda essa adrenalina,eu como sempre só admirando a coragem de todos. Bjsss linda,saudades.

Fabiana disse...

Tive taquicardia só de pensar nas alturas? Minha perna começa a tremer no terceiro degrau da escadinha doméstica, então sou solidária ao seu medo.

Parabéns por tantos progressos em pouco tempo! : )

Luciana Nepomuceno disse...

Eu relutei tanto em vir ler este post. Porque, né, o Beach Park já foi meu quintal. Nós tínhamos o Passaporte da Família (meu pai, mãe, irmão, irmãs, eu e meu filho). Marromeno uma vez por mês durante cinco anos. Agora, sem passaporte, vamos menos, mas eu sabia que o post ia falar de comidinhas que não posso comer, calor que não me aquece e do meu mar, único e mais gostoso que qualquer Riviera. Enfim, que bom que se divertiram. Voltem mesmo. Que sabe eu estou lá também (só não desço no insano, não é medo da descida, é que nem por muito dinheiro eu encaro aquela escada, preguiça demais).

Cecilia disse...

Que delícia, Rita! Fomos ao Beach Park há tantos anos, mas foi um dia bem divertido. O Lucas ainda era bem pequeno, mas gostou bastante. E o Nordeste é lindo mesmo, né? Beijos

Angela disse...

Rita tu es LOUCA, menina! Eu nao desci em nada daquilo, passei o dia olhando para cima. Nao tinha as criancas ainda mas nao acho que teria feito diferenca, vou a parques aquaticos (nao tao radicais) e terrestres aqui e eles vao com os tios, o pai, quem tiver por perto, menos eu. Eu fico so dizendo nao, nao, nao.

Ha uns tres meses um especial de parques radicais na tv daqui mostrou aquele grandao branco da sua foto. Max e Julia observou a experiencia de varias pessoas descendo, Max falou logo que quer ir. Se rolar, vai ser um dia no qual vou olhar para cima e tirar fotos, nada mais. Parabens pela coragem movida ao amor dos seus pequeninos!!! Beijao!

Rita disse...

Anginha, querida, você vai sim... aguarde. ;-)

 
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