Summer clouds & colours


Como boa amante da chuva, não vejo nos dias nublados uma aura ruim. Nuvens não costumam alterar meu humor ou me deixar melancólica; pelo contrário, uma boa chuvarada costuma me alegrar e servir de desculpa para café com bolo e conversa jogada fora. A primeira semana de 2013, contudo, com seus quilômetros sem fim de nuvens brancas que tornaram o azul do céu uma lembrança quase velha, me deixou um tanto desapontada. Admito, mesmo com todo meu amor pelas chuvas de verão, que cheguei a me zangar cada vez que abri a cortina do quarto e, manhã após manhã, Floripa me deu o mesmo céu branco e cinza. Em minha semana de recesso do trabalho, com as crianças em férias e uma enorme necessidade de luz (em vários níveis), eu quis muito os dias de sol que não tive - e que certamente virão na próxima semana, quando estarei trabalhando enfiada numa sala com ar-condicionado e papel. Daqui a duas semanas, terei férias novamente, por curtos dez dias. Será a segunda chance de o verão me dizer que ainda me ama.

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Tenho andado de montanha russa todos os dias. Sem parque.

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Contra os males da vida, comprei sorvetes. Pretendo comprar uma sorveteira e me aventurar em receitas alheias, mas, por enquanto, ainda compro os sorvetes. Os amigos do Arthur vieram e me mostraram como se brinca com céu branco e tudo. Até o sol, vejam bem, veio espiar por algumas horas, pelo buraco da fechadura das nuvens, e viu uma criançada barulhenta e boa. Eu queria cor e elas me deram bochechas rosadas, cachinhos castanhos, olhinhos sorridentes em muitos tons, vários queixos banhados em cobertura de morango e chocolate. As mães e os pais me deram horas de boas risadas e trouxeram o lembrete bom de sempre: amizade é o antídoto. Quando voltou a nublar, nem vi.

É assim que se encara aquele céu nublado lá atrás.

"Você está sob meu poder, você está sob meu poder, tic tac, tic tac" - diz o sorvete hipnotizador.

Pode até não ter sol, mas tem sorvete.

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Meu verão tem livros que nunca termino de ler, além de episódios de séries de TV vistos quatro vezes porque sempre adormeço em algum ponto. No dia seguinte, retomo o mesmo episódio para adormecer em um momento diferente da trama. Divertido. Vou construindo a história em mosaicos e tudo me parece muito bom. É uma boa metáfora para o momento atual de minha vida: em férias até dos planos, vou fazendo tudo em pequenas porções, sem muitas cobranças. Deixemos os prazos inadiáveis para março ou para quando o coração se acalmar. Roupas dormem à espera do ferro de passar que nunca ligo, Floquinho precisa de banho e não lavei a garagem. Mas dei comida ao peixe e comprei tomates. 

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Sem adormecer, vi o francês Até a Eternidade (Les petits mouchoirs). Com um elenco bem afinadinho e a beldade Marion Cotillard na tela, dei risadas e chorei lagriminhas previsíveis com a história, um pouco divertida, um pouco dramática, dos personagens perdidos em suas férias confusas, ainda que tão planejadas. Férias com algum pesar, olha, parecia sob encomenda. Recomendo, para rir e se emocionar, nem que seja um tiquinho. E tem o litoral da França, com todo o sol que não está aqui. Alguns dias depois, o cara da locadora recomendou Protegendo o Inimigo (Safe House), com Denzel Washington. Na primeira cena do filme, falei "uia, Cape Town!". E era mesmo. Foi bom rever pedacinhos da linda cidade sul africana na tela, poucos dias depois de chegar de lá. Como bichos bobos, ficamos caçando lugares familiares e vimos até a rua do nosso hotel. A trama nem convence, mas tinha Denzel e a gente curtindo o cenário.

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Remédios antidepressivos deviam ser como aquele analgésico que varre a dor de cabeça vinte minutos depois da dose. Melhor, depressão devia ser como mitologia grega, algo absurdo, fantástico, com hidras de muitas cabeças e minotauros perdidos em labirintos:  uma grandiosidade que não chega a assustar realmente. Ninguém devia ter de enfrentar isso de verdade. Torço muito por minha sogra, que conheci sorridente e forte, uma contadora entusiasmada de histórias. O sol há de voltar.

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E para mais cor, sorrisos amarelos de quem tem a brincadeira interrompida pra foto. E um dourado que prova que céu nublado também  bronzeia.

"Sorriam!" "Ai, deu, mãe."


4 comentários:

Luciana Nepomuceno disse...

Como boa nordestina, cresci assim: "Sol vermelho é bonito de se ver,
Lua nova no auge que beleza,
Céu de azul bem limpinho é natureza,
Em visão que tem muito de prazer,
Mas o lindo pra mim é céu cinzento,
Com clarão entoando o seu refrão..."

Isso, claro, quando estou do lado de lá do mar. Aqui, prefiro o friozinho sem chuva, sem escuro, friozinho que me deixe sair de casa, pra "não mofar".

Aliás, acho que é isso, no tempo do concreto e da metáfora: que possamos sair. De casa, de nós. Pra poder voltar. E a dor da dor da depressão é não saber nem onde está a porta, nem como abri-la. E, pior, a certeza agoniada que não se conseguiria dar o passo pro outro lado.

Enfim: meu abraço. E que lindas fotos, como sempre.

Angela disse...

Que corajosos voces, nas ladeiras da maior montanha russa, ao inves de se fecharem, se abriram. Muito bom ve-los aqui se divertindo e na maior saude. O Arthur muda um pouquinho e fica a tua cara, ai muda so um pouquinho novamente e fica a cara do Ulisses. Aqui nessas fotos ta a cara do Ulisses. A Amanda continua a sua copia. Ela eh absurdamente linda, imagino que voce escuta isso muitas vezes todos os dias. Nunca pensei que iria ve-la mudar de cor, mas bronzeou! Lindos!

Quanto a depressao, a Luciana Nepomucemo disse tudo e lindamente. Continuo aqui na torcida para melhoras ai.

"Mais pior" do que essa sua amiga nao usar o Skype eh ela nao usar o Facetime, que nao exige nem um minuto para instalar ou configurar, e te traria para a casa dela com toda a mobilidade dos iPads no toque de um botao. Eu heim ;) Foi muito bom comecar o ano batendo papo. Nao foi uma resolucao de ano novo mas talvez vire agora.

O maior dos beijos.

Fabiana disse...

"Les petits mouchoirs" é uma maravilha. A intimidade entre os amigos, a naturalidade das atuações, a alegria de estar perto de quem se escolheu na vida.

E depressão pode ser o inferno. Tomara que sua sogra se sinta melhor logo.

Maite disse...

Oi Rita,
Feliz Ano Novo pra você e toda a sua família!
(como disse a Dé em algum lugar, aqui na França damos Bonne Année durante todo o mês de janeiro então nem tô tão atrasada assim :)

Ahhhh, como me identifiquei: '...além de episódios de séries de TV vistos quatro vezes porque sempre adormeço em algum ponto. No dia seguinte, retomo o mesmo episódio para adormecer em um momento diferente da trama.'. Faço igualzinho. Se é consolo!

Um beijão.
Maite.

 
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