Fim de férias com alguma emoção dispensável


O céu amanheceu completamente azul no último dia das minhas férias para garantir que me lembrarei dele amanhã quando estiver enclausurada em minha sala no trabalho. Recebi a despedida de bom grado e fui à praia com as crianças. Arthur e Amanda estrearam bem suas pranchas de bodyboard, com tombos e caldos de batismo, umas duas ondas perfeitinhas e muitas outras nem tanto, risadas, frustrações e promessas de mais. O vento incomodou um pouco quem estava na areia, mas quem é louco de reclamar em dia tão lindo, certo? Eu. E reclamei bastante. 

A tarde já ia bem avançada quando cresci o olho para a tigelinha de açaí da garota da cadeira ao lado e convidei Amanda para experimentar uma comigo - teria convidado Arthur também, mas ele só sai da água em caso de fome extrema ou gritos histéricos da mãe. Ela detestou, cuspiu a  primeira e única colherada no mar e comi tudo sozinha. Uma hora depois, mais ou menos, recolhi a pequena bagagem - cadeiras, guarda-sol, bolsa com os cantis de água, bolsa de brinquedos da Amanda, a bolsa grande de praia (com roupas das crianças, bonés, protetor solar, óculos de mergulho e de sol das crianças, lenço de papel, essas coisas) e toalhas úmidas e cheias de areia. Caminhei, ou melhor, me arrastei do jeito que deu até o chuveiro próximo ao estacionamento e lá nos livramos da areia entranhada em nossos pés e chinelos, e também nos bumbuns das crianças. Fiz uma troca ninja de sunga e biquíni molhado por cueca, calcinha e bermudas nos dois e caminhamos, ou melhor, nos arrastamos para o carro. Joguei a tralha Coloquei as coisas no porta-malas, com exceção da bolsa grande de praia, que coloquei no banco de trás, entre as crianças, e fomos para casa dirigindo por entre as sombras das árvores que o sol de final de dia lançava sobre a estrada. Cenário lindo, criançada satisfeita, carro sujo de areia, tudo perfeito. 

Enquanto as crianças tomavam banho, limpei e lavei as três bolsas e os brinquedos, separei roupas sujas, pus os cantis na cozinha, etc. Depois que tomei meu banho decidi comprar pão e procurei por minha bolsinha, que eu tinha levado para a praia dentro da bolsa grande, mas não encontrei. Revirei a casa e o interior do carro, sem sucesso. Aí fiquei daquele jeito. Dentro da bolsinha havia uma outra bolsinha de moedas, minha CNH, um cartão do banco, um cartão de crédito, pouco dinheiro e o celular. Quando encontrei o celular no quarto, respirei aliviada: se ele estava ali, a bolsa também estaria. O alívio durou trinta segundos, tempo que levei para me lembrar que o telefone tocara na praia e eu o tinha colocado de volta solto na bolsa grande. Daí me lembrei da compra do açaí e cismei que tinha deixado a bolsinha na banca. Era uma possibilidade real, porque eu não conseguia visualizar o momento em que teria guardado a bolsinha de volta na bolsa grande. Outra possibilidade seria ter deixado a bolsinha cair enquanto sacava bonés e óculos do fundo da bolsona na hora de abandonar a areia. Ou no chuveiro, quando retirei da bolsona a muda de roupa das crianças. Ou eu poderia ter sido roubada enquanto estava na água com eles. Ou. Ou. Ou. O fato é que a bolsinha sumiu. Desconsolada, sentei diante do computador e acessei o site do DETRAN, já antecipando a canseira que seria retirar a segunda via da CNH, e liguei para o 0800 do banco para cancelar um dos cartões. Cinco números de telefone diferentes depois, cancelei o cartão. Ainda restava um, mas antes de providenciar o segundo cancelamento pensei que precisava fazer um B.O. e chorar a perda que mais me entristecia. A bolsinha de moedas que era da minha Tia Maria e a outra bolsinha maior, que pertencia à minha mãe. 

Estava nesse estado de desânimo e com aquela cara que vocês podem imaginar quando Ulisses entrou em nosso closet e de lá gritou "ô, Rita, a bolsa tá aqui". E desceu as escadas com a bolsa de minha mãe na mão, espantadíssimo com minha falta de noção, "não é essa?". Era. Gritei como quem festeja um gol e só acreditei porque a bolsa estava em minhas mãos e dentro dela meu cartão cancelado, meu outro cartão, algum dinheirinho, minha bolsinha de moedas, tudinho. Eu tinha colocado em meu armário de roupas, escondida sob uma camiseta dobrada e uma bolsinha de óculos quando limpava as bolsas antes do banho.

Agora estou comemorando o fato de que depois de amanhã é dia de receber o salário que não vou poder movimentar porque cancelei o cartão e o desbloqueio do novo só deve ocorrer daqui a sete dias. Feliz da vida, com minhas duas bolsinhas muito queridas. Fim de férias. 




6 comentários:

Juliana disse...

rita, eu adoro seu blog, sempre adorei. Mas esse post me fez ter vontade de pedir em casamento. kkkkkkkkk

Eu me vejo em cada gesto, em cada movimento, nos cartões bloqueados, na escolha do lugar pra guardar a bolsa.

Rita, me abraça aqui, amiga!


Guardo tudo tão bem guardado por medo de perder e acabo perdendo. Já cancelei celular porque achei que tinha perdido aparelho. Três dias depois,achei o aparelho, descarregado, numa gaveta.

Lílian disse...

Hahahahaha, ainda bem que não sou só eu!... De vez em quando reviro o guarda-roupas e, sem achar o que procuro, penso que perdi algo importantíssimo. Quando eu vejo: é, tá ali mesmo, no lugar onde eu já procurei duas vezes. AFFF.

Luciana Nepomuceno disse...

Adoro suas narrativas/descrições. A gente se sente aí. Eu me sinto.

Fabiana disse...

Todas se identifica. Todas se compadece.

Rita disse...

Ju, se a gente se casar, ninguém vai achar a chave de casa. Melhor não.

:-)

Beijos, pessoas.
Rita

Silvia disse...

:)
eheheheh!!
Acontece a todos, até aos menos distraidos, que não é o meu caso!!
beijinhos

 
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