Do que cresce junto

    

Ele ainda adora melão. Aos poucos vai absorvendo a ideia de que lugar de toalha molhada não é em cima da cama. Honrando minha mania de reclamar, acho que ele tem visto TV demais. Dou os descontos que julgo devidos, converso sobre os pitis, falo da paciência. Falo da paciência com um menino de sete anos, imaginem o sucesso da conversa. É entusiasmado e falante. Canta no chuveiro, dança no quarto, fala alto, quer o mundo. Espero que no futuro ele se lembre dessas férias como as férias dos bichos, dos safáris, dos programas NatGeo vistos juntos, espichados no sofá. Talvez haja TV demais, mas também há carinho demais na mãozinha que passeia em minha canela enquanto o leão persegue a zebra; ou nos abraços enroscados enquanto o Bob Esponja se esmera na risada esquisita. Arthur gosta de companhia e fico me perguntando se sabe do que sinto enquanto ele, com sua mão na minha, espia curioso o grande tubarão branco na tela da TV. Acho que não sabe, mas nem precisa.

Ela anda mais menina, menos bebê. Filosofa mais do que eu gostaria e às vezes o entendimento de que tudo tem fim arranca lágrimas que lavam aquelas bochechas. Toda flor morre, o sol um dia acaba, até as pedras. Buás sem fim. Abraço como se meu coração também tivesse braços e digo que não é tempo para isso, minha menina. É tempo de planejar como montar a casa de bonecas, de experimentar um sanduíche diferente; ou de pintar. E ela pinta flores lindas e me ensina a desenhar rosas. E me ensina a querer tanto o bem de alguém, tanto. Acho que ela sempre vai se lembrar dessas férias como as férias dos bichos, dos seus queridos pinguins. Hoje ela quis brincar de casinha, quis montar uma casa de livros. E nos sentamos, no chão de seu quarto, e com seus livros montamos uma casa cheia de janelinhas e divisórias. E ela dizia: e aqui é o quarto dela [da boneca], na poesia. Minha vida com ela também é ali, na poesia. Ela nem sabe, mas nem precisa.

Eles estão crescendo e ver isso de pertinho, todo dia, é o sal de tudo. Hoje estão bronzeados do sol do final de semana. As pernas cada dia mais compridas têm o tom de um verão com mais nuvens do que deveria, mas que ainda pincela a pele. Cada dia tem um tom, cada birra tem um timbre, cada risada faz um afago na alma. E há esse amor que cresce com eles.







6 comentários:

Lílian disse...

Quero ser a primeira a comentar aqui, porque estou me despedindo (ao menos por agora) e acabo de dar beijo nos dois queridos. Faz diferença ver crianças amadas, respeitadas e cujos pais se esforçam para educá-las - elas devolvem o que recebem e, filosofando um pouquinho como a Amanda, me entristece pensar naquelas que têm infâncias tão sofridas; Minha especialidade é ser, de vez em quando, bem piegas: tudo passa, tudo morre, tudo se vai. Mas o amor fica. De um jeito ou de outro, ele se transforma, se reinventa e permanece. Muito amor para essas crianças, é o meu desejo. Beijo grande em vocês todos e até a volta, se Deus quiser...

Luciana Nepomuceno disse...

Lindo post, lindas crianças, lindo vínculo. E, olha, suas metáforas sutis estão cada vez mais encantadoras e pungentes.

Maite disse...

Ai, que lindos!
Tudo lindo, como sempre, na verdade.
:)

Fabiana disse...

Ninguém fala dos filhos como você, Rita. Ninguém.

E o mais lindo é que esse amor todo que você (d)escreve volta pra vocês, porque é impossível não se comover lendo essas declarações que você faz.

Vida muito muito muito longa a essa coisa inexplicável que é a sua família.

Angela disse...

Amo <3

Silvia disse...

São tão queridos os seus filhotes! Desejo-lhe tudo de bom!! beijinhos

 
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