As saudades que não sentirei de Anna


Sabe aquela sensação de que tudo em nossa volta é silêncio e o único mundo que importa e que de fato existe é aquele do cenário do livro que lemos? Sabe quando a fome nos lembra que, na verdade, nosso mundo fica fora daquelas terras distantes e que precisamos comer pelo menos um pedaço de pão antes do próximo capítulo? Sabe o que é gritar diante de uma cena bem escrita, ou levar as mãos à boca para conter o grito? Sabe quando a gente fecha o livro de repente e olha para o nada, torcendo para que aquilo não esteja mesmo escrito ali porque aquele não é o destino que queremos para nossa heroína? Pois é. Não senti nada disso lendo Anna Karenina.

Oh, dear.

Foram três meses de leitura. Tudo bem, não foram três meses de leitura ininterrupta, mas vá lá. Mesmo me considerando uma leitora lenta, sei que dessa vez a demora teve muito a ver com o distanciamento que senti em relação à maior parte do livro. Devorei os primeiros capítulos e logo percebi que minhas expectativas estavam bem equivocadas. Tolstoy foi o segundo autor russo que li, minha única referência até então resumia-se ao incomparável Dostoiévsky. E se tenho em minha wishlist várias obras do autor d'Os Irmãos Karamazov (se não leu, corra), vai demorar até que eu renove minha vontade de ler Guerra e Paz, outra celebrada obra de Tolstoy. Desorientada como só eu sei ser, julguei que por pertencerem ao mesmo tempo histórico e por serem conterrâneos, eu enxergaria em Tolstoy traços do vigor que tanto gostei no pouco que li de Dostoiévsky. Anna Karenina, no entanto, mostrou-se um livro mais leve e de trama bem menos robusta (o que, por si só, não comprometem um livro para mim, diga-se de passagem); o que de fato me irritou um pouco foi a recorrência de suspenses que descambam no vazio. Confesso que quase larguei a leitura, mas segui agarrada à ideia de que, espera, não é possível, devo ser arrebatada a qualquer momento. 

Não aconteceu, infelizmente. É verdade que os acontecimentos finais me fizeram mergulhar com mais gosto na leitura e o destino da protagonista é descrito com aquela fluência dos grandes mestres da escrita. Não estou dizendo, portanto, que se trata de um livro ruim. Mas, ah, foi um amor platônico que se dissolveu à medida que a história desfilava diante de mim, tantas vezes enfadonha, outras tantas decepcionante em seus momentos de expectativa frustrada. 

Há um nova adaptação para o cinema vindo por aí e tenho a impressão de que a história pode render um belíssimo filme. Vou conferir, certamente, ansiosa para ver na tela o que eu quis ver enquanto lia uma das obras mais celebradas da literatura mundial: uma versão mais enxuta e dinâmica. Afinal, há elementos ótimos no enredo: a mulher adúltera na Rússia do século XIX, o destino cruel reservado para quem ousava quebrar regras e apostar na própria felicidade, personagens atormentados por conflitos de fé, etc. Espero, honestamente, ser uma espectadora mais satisfeita que a leitora entediada que fui nos últimos meses. 

Sei que Anna Karenina é queridinho de vários amigos que leram o livro, mas sejam gentis com os xingamentos, okay? :-) Dessa vez não rolou.

***

Dito isso... Winterfell, venimim!! \o/ 



9 comentários:

Luciana Nepomuceno disse...

então, eu gostei ;-)

Tina Lopes disse...

Nanananaananão censurarei, pelo contrário - só te digo que pra amar os russos, puxa um samovar e se joga no Gogol e no Tchekov.

Daniela disse...

Oi Rita,

Eu li esse livro há muito anos, mas lembro que um ponto parecia que o autor não conseguia terminá-lo, que se ele tivesse umas 100 páginas a menos não faria falta.

Juliana disse...

Me diz um livro do qual a Luciana nao tenha gostado. =p

Não li nenhum desses que a Tina sugeriu, mas conheço gente muito apaixonada pelo Tchekov.

Olha, eu dei risada com seu primeiro parágrafo. Me enganou direitinho.

Caminhante disse...

Me diz um livro do qual a Luciana nao tenha gostado (#bullen #lucianagostadetudo)

Eu estava me programando pra ler Guerra e Paz e tbm dei uma brochada por causa do Karerina. Se esse já não estusiasmou, pegar um maior ainda não deve ajudar.

Luciana Nepomuceno disse...

Olha, tô sendo vítima de bullen, quero ver a dona da estrada me defender. Eu abandonei Ulisses, pô. Quede respeito? Eu amo os russos. E amo uma historiazinha de amor. E adoro quando a heroína morre no final (e não venham reclamar de spoiler de um livro com essa idade)

Angela disse...

Devo ter lido Anna na epoca certa da minha vida. Nao lembro de nada nadica da historia (nem com as suas referencias), so lembro que gostei. Mas aos meus 14 anos gostava de tudo, e lia Agatha Christie com o mesmo respeito e entusiasmo que lia Tolstoy. Hoje nao sei se o mesmo aconteceria. Talvez nao. Mas talvez sim. To morrendo de inveja da leitura do Game of Thrones ai...

Juliana disse...

ô, lu, Ulysses nao conta. hihihi

Rita disse...

Lu, a louca do spoiler clássico.

Lu, vim te defender, mas, pô, cê num tá ajudando muito. Ulysses... vamos facilitar: todo mundo faz cara de paisagem. :-)


Anginha: Game of Thrones é tuuudo de bom. Nem o seriado vc num dá um jeitinho de ver? Tipo, entre duas e três da manhã, vc tá fazendo o quê?

Beijos
Rita

 
©A Estrada Anil - Todos os direitos reservados. Layout por { float: left; }