A vila


Existe em algum lugar uma pequena vila muito antiga com ruas largas, levemente enladeiradas. Fica em uma região quase rural e vários de seus quarteirões são repletos de árvores velhíssimas, muito altas, cujas copas se encontram lá em cima e se deitam pelo chão em sombras compridas todo fim de tarde. Os tempos são outros e o carteiro ainda passa quase todos os dias. Os telefones das casas tocam com certa frequência e o cheirinho de pão quentinho sempre se espalha pela rua central às três da tarde, pontualmente. A padaria tem pequenas mesas para duas pessoas e há sempre alguém com um café e um jornal, ou um chá e um livro triste. É possível interromper a leitura para olhar pela parede de vidro e ver quando as nuvens mais escuras se aproximam.

Por causa das árvores, o verde escuro predomina. Nos dias de chuva, o balanço fica cheio de folhas que o vento traz em rodopios pelo parque. O balanço tem correntes de ferro e minhas mãos se sujam com uma ferrugem seca. Tudo me parece velho, mas perfeitamente conservado. A ferrugem não evolui, apenas permite que a gente se lembre de que aquelas árvores e tudo que as cerca já estão ali há  muito tempo. De uma maneira não muito óbvia, há certo conforto nisso.

Tenho uma casa nessa vila. Há dias em que acrescento o litro de leite deixado na soleira da porta, uma tempestade de escurecer mundos ou um gato gordo e preto bem lindo na varanda. Na maior parte do tempo, contudo, só as ruas enladeiradas e as árvores velhas me bastam. Sempre vou sozinha e fico lá pelo tempo que der. Depois volto levemente mais tranquila. É minha casa no campo, talvez. Ou só um pedacinho de infância com grandes poderes.

5 comentários:

Ana Claudia disse...

Ah Rita... Te entendo tanto. Eu também tenho a minha casinha, o lugar onde me escondo de vez em quando. Um lugar que ainda existe, que sempre que posso ainda visito de verdade. Mas nos meus sonhos, nas minhas escapadas, o lugar tem os cheiros e os sons da minha infância.

Angela disse...

Voce me lembrou que ha tanto tempo nao escapo acordada, apenas nos meus sonhos. Preciso faze-lo com mais frequencia para nao esquecer do que esta la! Lindro quadro voce pintou.

Luciana Nepomuceno disse...

Como não tem cheiro de mar, não é lá que fica meu cantinho... mas posso te visitar?

(e que escritora gigantesca você é, amiga \o/)

Silvia disse...

Adorei, adorei, adorei!!
Quero mais por favor.
Rita para quando um livro? A vida passa rápido e não posso partir sem o ler!!
Beijinhos

Rita disse...

No fundo acho que todo mundo tem sua vilinha pra visitar de vez em quando, né? (A sua certamente é perto do mar, dona Lu.)
Silvia, obrigada, querida. É doce seu comentário. :-)

Beijos!
Rita

 
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