A melhor gaveta


A bagunça do escritório já tinha alcançado níveis assustadores há várias semanas. Contas pagas, contas perdidas, correspondência de bancos (parem!), cartões de natal profissionais (parem!), rascunhos de desenhos esquecidos, folhas amassadas, extratos de passagens aéreas de viagens já feitas, receitas médicas, bulas de remédio, canhotos de contas pagas, o inferno.  Eu vinha adiando a arrumação deliberadamente, aguardando o início das minhas curtas férias de janeiro para poder rasgar papel, limpar gavetas, folhear livros, encontrar documentos perdidos, essas coisas. Minha casa navega por níveis razoáveis de organização, levando-se em conta que nela moram uma criança de sete e outra de cinco anos, um marido adepto da religião "Roupa Suja Fora do Cesto nos Salvará" e eu que, convenhamos, gosto de coisas organizadas, mas passo longe de qualquer coisa merecedora do rótulo de perfeccionista. O escritório, contudo, avança facilmente para um nível acima na escala da bagunça um dia depois de ter sido arrumado. O que é isso, meu povo? Por que cargas d'água papel e livro desorganizam tanto um ambiente? De onde vem tanto papel?

Gosto de arrumar a estante, de verdade. Hoje, contudo, precisei buscar forças sabe-se lá onde para suplantar a preguiça monstra dessa segunda-feira. Respirei fundo, dei dois espirros e me joguei no meio do furdunço. Depois de ponderar por longos três minutos, decidir jogar fora pilhas de material velho que, não me perguntem o porquê, tinha decidido manter comigo por mais um tempo. Dispensei material escolar das crianças (fiz um filtragem radical e mantive comigo alguns poucos exemplares de tarefas deles), material acadêmico que não consulto há dez anos e que dificilmente voltarei a consultar, papel, papel, papel, notas fiscais de coisas que nem me pertencem mais, recibos, lembretes, caixas e caixas de nada. A única pergunta que me intriga é: como não fiz tudo isso na faxina passada? A resposta é simples: eu fiz, sim. Só que naquela vez minha disposição no quesito "ah, vou guardar por mais um tempo" estava mais evidente. Hoje não. Vou usar? Não? Fora.  Agora tenho uma pilha de livros acadêmicos para doar e muito lixo para mandar embora amanhã na coleta dos recicláveis. Tchau e bênção.

Ainda assim, aqui estão eles, os velhos resistentes. Livros que não me interessam mais, mas que permanecem agarrados à possibilidade de que, um dia, possam despertar interesses nas crianças. Ou aquele livro didático de inglês que me traz a lembrança de outros tempos, juntamente com os dicionários que não consulto mais porque tenho versões atualizadas online. Para ter o que jogar fora na próxima faxina, deve ser.

Por dentro, o ritmo é mais ou menos o mesmo. Tenho conseguido me desfazer de velhos grilos, mas dizer que me desfiz de todos eles não seria honesto. Então mantenho alguns, parcamente alimentados, para jogar fora na próxima faxina. Enquanto isso, vou entendendo que nossas gavetas internas não têm fundo. Sempre cabe mais um espanto, mais um susto, mais uma alegria ou um amor maior. O mofo assanha minhas alergias, dores antigas ainda me espetam, é verdade. Mesmo assim, vou prestar mais atenção à gaveta das folhas em branco e todo o universo que cabe dentro dela. Quem sabe.    



2 comentários:

Juliana disse...

abre uma firma de limpeza de estantes, que eu te contrato em caráter de urgência.

Luciana Nepomuceno disse...

Eu sou boa de jogar papel fora...se eu não parar pra espiar. Se olhar uma palavrinha que seja, ai ai ai.

 
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