The best, the not so good and the way ahead


A melhor viagem foi para o Rio
O melhor livro foi Uma Ponte para Terebin, de Letícia Wierzshowski. 
A melhor série foi Game of Thrones
O melhor filme foi, talvez, The Perks of Being a Wallflower (As Vantagens de Ser Invisível).
O melhor conto foi Visita, de Caio Fernando Abreu, em O Ovo Apunhalado.
O desafio mais bacana foi estudar piano.
A corujice maior foi ver Amanda dançando no teatro. Ou o Arthur tocando piano. Ou os dois acordando, tomando café, qualquer coisa deles.
A maior aventura foi lançar Contos do Poente.
A melhor descoberta que já deveria ter acontecido foi Chopin.
A interrupção mais sentida foi o curso de francês.
A maior torcida tem sido pela segurança do marido no novo esporte dele.
O adiamento que não deveria ter ocorrido foi o retorno à prática de yoga. Mas para isso existe o ano novo.

2013 foi um ano de grana mais curta, de gastos inesperados. Foi um ano de turbulências no país, de antigos ídolos políticos presos, de ponderações e aprendizado. Foi um ano de ler muito, calar mais, ouvir, aprender e se identificar, duvidar sempre, ouvir de novo, ler mais. Foi um ano de novas e boas amizades, de velhas também, como é bom que seja. Foi um ano de saudades, de planos, de desenhos mirabolantes na cabeça, de saltos ornamentais no peito. De muita, muita música. Foi um ano de amor, de companheirismo, de estou aqui. 

Meu final de ano está sendo mais saboroso por causa de Contos do Poente. O aprendizado que a experiência me traz é muito maior do que eu esperava, a alegria do compartilhamento também. É claro que é assustador, mas de um susto que faz crescer.*

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Há algo tranquilo neste final de ano que me impede de embarcar nas ansiedades quase obrigatórias do pacote natal-reveillon-o-que-virá. Como numa calmaria, mas sem tempestades no horizonte, olhar para dentro tem sido bom, de modo que a vista da proa também me parece agradável. 

Aos leitores e amigos que passam por aqui e me fazem companhia nessa estrada nem sempre ensolarada e com bifurcações esporádicas, desejo um 2014 de cortinas abertas e vistas lindas da janela. 

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*(pedidos em contosdopoente@gmail.com; em Floripa, na livraria Nobel do Floripa Shopping)



Sal


As primeiras páginas de Sal (Letícia Wierzchowski, Ed. Intrínseca) me estenderam uma canga na areia, abriram o guarda-sol e esvaziaram a praia. Fiquei ali quase em êxtase, observando o mar, o promontório, o farol louco, a grande casa branca; a família Godoy, o tapete tricotado de Cecília, a Penélope reinventada de Letícia. Sal tem cenário de filme, personagens cativantes e uma história capaz de fazer o leitor não se importar com o vento nos ouvidos. Enquanto estive sentada na areia me familiarizando com as várias vozes que narram a boa história, fui eu mesma me apaixonando por um, odiando outro, tecendo meus próprios pontinhos na trama que fui criando com o livro. Eu teria ficado na praia até a noite cair e nem notaria os pernilongos, não fosse um detalhe: acho que a Letícia também se apaixonou por um dos personagens. Talvez se tivesse coincidentemente se apaixonado por aquele que me fisgou, eu realmente teria devorado o livro sem piscar. Mas pisquei, ali pela metade, porque a paixão de Letícia por um deles deixou de lado, talvez por tempo demais, outros que eu não queria abandonar na areia. É esse meu único "porém" em relação a Sal: personagens que eu gostaria de ter "ouvido" por horas e páginas a fio (Sal é um romance polifônico) se calam por tempo demais, enquanto o mesmo ponto de vista já conhecido se repete e ecoa por páginas demais, in my humble opinion. Sem falar naquele outro que, ah... não posso. Ainda assim, Sal entra pela porta da frente para minha estante. Vai morar entre os meus queridos, assim como moravam no baú de Ernest, o faroleiro, os muitos livros que ele comprava de segunda mão, lia e compartilhava com Ivan Godoy. Sal está cheio deles, os livros. São muitas as referências a clássicos da literatura mundial, quase uma espécie de homenagem aos que passaram pela praia antes de Letícia (tudo bem, esse pode ser outro "porém": aqui e ali, bem de leve, tanta referência parece sobrar, escapar pelas margens). É também um livro o objeto que muda o rumo da história dos Godoy, o livro lido por Julius do outro lado do mar, e escrito por Flora, filha de Ivan, irmã de Orfeu, Eva, Lucas, Julieta e Tiberius - mas aí já acho que você deveria sentar na areia também.  

Natal de carrossel


É Natal nas páginas finais de Catcher in the Rye

Engraçado quando um pequeno trecho traduz para nós a sensação que o livro como um todo nos causa. Há um momento em Mrs Dalloway em que o narrador descreve o ambiente de um restaurante, cada um dos clientes sentados em suas mesas. A riqueza da descrição não vem de detalhes, mas da percepção do que há por trás de cada figura - o olhar de raio x do livro inteiro. Ou a chuva de Macondo, que já valeria aquele outro livro. Ou as falas de Tyrion Lannister, naquela saga. Ou qualquer frase de linda ironia da Lygia, em qualquer de seus textos. De Catcher in the Rye (J. D. Salinger, ed. Little, Brown and Company), guardarei com saudosismo as duas páginas em que o narrador se detém nas memórias que Holden Caulfield guarda de suas visitas ao Museu de História Natural em sua infância. De alguma maneira, está ali o espírito outsider de Holden, sua visão da infância ainda fora dos moldes sufocantes que nos esperam lá na frente, seu espírito livre e, ao mesmo tempo, imerso em profunda, irremediável melancolia. Tudo no museu de sua infância seria para sempre igual, precioso, conservado em toda sua beleza e fascínio, a cada visita. "The only thing that would be different would be you."

Mas é Natal nas páginas finais. E assim como Holden oscila entre a beleza de sua irmã no carrossel e o medo de sequer chegar ao outro lado da rua, chegou o dia 24. Com lembranças boas como carrossel de criança e saudades tão grandes que nos tiram o chão. O Natal com minha filha implorando para abrir os pacotinhos ao pé da árvore, mas sem minha mãe para celebrar. O Natal com meu filho me acordando fascinado "é Natal!". O Natal dos amigos distantes e dos amigos que abraçarei à noite. O Natal com panetone que nem gosto muito, mas que minha mãe adorava - e que meu filho devora com os olhinhos fechados. O Natal que se repete e que, dizem, deveria nos renovar. Então que seja assim. Vou subir no carrossel.

Feliz Natal, queridos amigos, leitores, amores. 

Laços


Quando o Natal chegava era bom. Havia a tia com os presentes embalados em papel brilhante, a árvore com bolas azuis e vermelhas, a ceia barulhenta. Foco: havia os presentes embalados. Foi assim por tempo suficiente para plantar na memória um modelo bom de fim de ano. Havia mensagens que alguém lia e alguns ouviam, sorteios, doces e risadas de adultos que deixavam as crianças irem tarde para a cama. 

Quando o Natal chegava era bom. Havia a tia com os presentes, mesmo que a ceia fosse em outro lugar. Mesmo que a árvore tivesse menos bolas, ou que aquele primo que mora longe não pudesse vir. Foi assim por tempo suficiente para ainda sentir a tranquilidade de se reconhecer o final do ano.

Quando o Natal chegava era bom. Sempre se dava um jeito de ir visitar a tia que por tanto tempo havia sediado a troca de presentes e o prato colorido. Ela gostava das visitas e retribuía com um sorriso cansado. Foi assim por tempo suficiente para o Natal ganhar vestes de melancolia, mas só um pouco; havia outra festa logo ali. 

Quando o Natal chega é silêncio. Deve haver ceia e até presentes. Deve ser o final de ano bom para outros. Não para ele, que se lembra e sabe que o laço de cada presente era feito por ela. 


Diz a Fal



"Algumas histórias nos tocam, algumas pessoas nos encontram, não porque nós as procuremos primeiro, mas porque, simplesmente. A boa literatura tem esse poder, essa graça, essa doce missão, esse radar teleguiado. Luciana, Rita e Joana, quando pensei que não mais, piscaram em meu radar, declamaram quadrinhas no meu peito, contaram histórias com e sem rima, como se traços e palavras, para os quais eu andava tão amortecida, ainda pudessem significar. Ainda podem. 

Luciana, Rita e Joana me contaram as mais doces, belas - às vezes doloridas - histórias. Elas beijaram meu cabelo, sopraram em meu rosto, disseram que ia ficar tudo bem e pude dormir em paz e quietinha.

Porque tudo estava bem."

Fal Azevedo, sobre Contos do Poente.

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Em Florianópolis: Livraria Nobel, Floripa Shopping; 
Para todo o Brasil e exterior: contosdopoente@gmail.com

Sunset is coming




Status: envelopando. E encaminhando poentes para todos os cantinhos do país. Se você ainda não pediu o seu, saiba que os exemplares estão disponíveis para envio imediato. É só mandar um e-mail para contosdopoente@gmail.com

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Aos amigos e leitores que moram nos EUA: em janeiro poderei enviar exemplares com frete doméstico; os pedidos estão sendo feitos pelo mesmo endereço eletrônico e o envio ocorrerá após o dia 21 de janeiro (nada impede o envio imediato com frete internacional, para quem preferir). Quem tiver interesse só precisa dar uma cutucada. Da mesma forma, os leitores que moram em países da Europa podem receber exemplares com envio a partir de Lisboa com frete mais barato. Cutuquem, cutuquem.

Lançamento de Contos do Poente - Florianópolis/SC


Foi com muita alegria que a dança começou. Aos poucos, amigos e leitores foram chegando e costurando uma noite que vou guardar para sempre como referência de momento bom. A livraria foi nosso pequeno templo; cercados de milhares de histórias, narrativas e personagens imprensados entre páginas fechadas, fomos devagarinho folheando os Contos do Poente, trocando abraços e brindes.

Eram muitas as presenças que me faziam tremer de alegria, algumas com um toque de carinho tão grande que me encheram de orgulho: a amiga que arrumou bagagem e pegou avião para vir brindar comigo; as amigas com compromisso na mesma noite, mas que deram uma escapadinha para ir lá me ver; os amigos que deixaram outros amigos esperando; os amigos que chegaram atrasados para festa de aniversário - e levaram um exemplar do livro como presente; o amigo que não estava se sentindo muito bem, mas ficou por ali; os amigos que levaram amigos; todos, todos que foram e me deram de presente um momento inesquecível. 

Eu acredito nos contos deste livro, em suas protagonistas imersas em suas incríveis viagens pessoais; mas as estrelas da noite foram, como não poderia ser diferente, as gravuras da Joana. É olhar e querer bem, e foi assim.



A certa altura, Paulo - amigo, leitor, professor de francês e companheiro de papos bons - fez uma breve apresentação do livro para quem estava presente. Com a voz do jeito que deu, li um trechinho do conto A Curva.


E tudo mais foi convescote, páginas passando, gravuras recebendo ohs e ahs de encantamento, eu orgulhosa contando de minhas companheiras nesse projeto que nos enche de alegria. As ausências também eram muitas: a Joana na Inglaterra, a Luciana em Lisboa, minha mãe que já partiu, além de outras pessoas queridas que não puderam estar lá. Mas, como disse a Luciana, com quem tenho a alegria de dividir as páginas de meu primeiro livro, elas estavam lá, sim. Ora, e como estavam. E houve quem telefonou, mandou boas vibrações pelas redes sociais, escreveu mensagens que me comoveram. 

Minhas companheiras de jornada na orelha do livro. Na minha mão direita, o anel de minha mãe; na esquerda, outro que ganhei de minha tia. Ou seja, todas estavam lá.

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Minha amiga falou que o livro não é mais nosso. Verdade das mais avassaladoras. :-) Agora as histórias ganham o viés de cada olhar, as camadas de leitura de cada um que der aquela espiadinha. As palavras, essas loucas, rodopiarão por aí. Tô no baile.  



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Florianópolis foi a primeira parada, mas em 2014 tem mais. Anotem e aguardem detalhes:

-Em 13 de fevereiro, Luciana estará em São Paulo;
-Em 15 de fevereiro, Luciana e eu estaremos juntas (obaa) no Rio (reza a lenda que vai rolar caravana do poente aí);
-Em março, em datas a serem definidas, reunirei amigos e leitores em Campina Grande; Luciana fará o mesmo em Fortaleza;

Detalhes sobre local e horários virão a tempo, tenham fé.

A página do livro no Facebook já começou a exibir algumas fotos do lançamento em Floripa, outras virão nos próximos dias.

Para nossa imensa alegria, as vendas online estão animadíssimas também. Se você não estará em nenhum dos lançamentos, ou não quer esperar até lá, peça seu exemplar em contosdopoente@gmail.com. Todos os detalhes sobre forma de pagamento e remessa do livro serão enviados a você por e-mail. As remessas dos livros começam na semana que vem! Em Florianópolis/SC o livro está à venda na livraria Nobel do Floripa Shopping. A partir de fevereiro, estará também em outras livrarias (informo tudo direitinho depois).

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Grata, imensamente grata. A todos.

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 "Traz a história do mundo em seus instintos: não tem os azuis, mas, se pudesse, contaria mais histórias que o mais velho dos homens e pintaria telas com tons inimagináveis. Habita a soma, mas não tem rotina – sua vida é a construção do tempo. Um peixe igual, a eternidade." 
Tona, em Contos do Poente
   

Vitrine




"Havia certo capricho no barulho que as ondas despejavam dentro
de sua sala, na maresia que embebia o ambiente sempre salgado
daquela vida, agora quase sem lágrimas. A poltrona da
bordadeira comportava a desenhista e suas maquetes imaginárias,
instrumentos encantados e laçadas mágicas capazes de sobrepor
tempos cor e recortes, vidas inteiras. Na sala, sob um céu
negro bordado de pratas e ouros, a bordadeira refazia sua vida,
todas as noites. Era isso que ela fazia. Por isso as flores eram
uma ótima ideia. Tinham cor e encanto.
E vidas breves." 
Conto Feito a Mão, em Contos do Poente

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Lançamento em Florianópolis/SC - Livraria Nobel, Floripa Shopping - dia 12/12/2013, às 19horas.
Pedidos online: contosdopoente@gmail.com

Quando o carteiro chegou


É bom saber por antecipação quem chega lá fora quando a campainha toca. Era final de manhã, quase na hora em que minha mãe encerrou sua caminhada, três anos atrás. Arrastei a caixa pela sala, pesada demais para que eu conseguisse erguê-la. Usei a tesoura. 

Tirei fotos para que Joana e Luciana pudessem recebê-lo comigo, mas elas não estavam online. Foi em silêncio, então. Abri, fechei, virei, cheirei. É isso, a aventura começa agora. Os exemplares já foram levados para a livraria de onde partirão carregados por mãos amigas ou desconhecidas, rumo aos destinos mais imprevisíveis. As letras dançarão entre as páginas e os olhos de quem flertar com elas. Cada leitor, uma dança diferente. Receio não define tudo, mas faz parte do pacote.



***

No almoço, um brinde à memória de minha mãe, outro à chegada do livro. Ulisses, marido coruja-mor, avisou aos filhos:

- Vocês podem se orgulhar muito da mãe de vocês, viu?

Ao que Amanda, do alto de seus seis anos de idade, prontamente respondeu, dando de ombros:

- Eu já me orgulhava desde antes dela fazer livro. 

Desconfio que ela nem sabe o que vem a ser "ter orgulho de alguém", mas não importa. Vocês podem nem achar doce, mas todo mundo aqui achou e brindou de novo.

Quanto a mim, não se trata de orgulho, mas de genuína alegria. Obrigada, Luciana e Joana, mais uma vez. Honra tampouco define tudo, mas é um pedaço gigante do pacote.  
  

Das nuvens


De todos os dias possíveis para receber o primeiro lote dos livros enviados pela editora, a entrega deve ocorrer mesmo nesta segunda-feira, dia 09. Se o correio for pontual, será no dia 09 que vou sentir de novo aquela vontade de correr para o telefone e ligar para você e contar que, ei, chegou. Vou ficar muda imaginando sua vibração e corujice, vou quase ouvir o milésimo boa sorte, a centésima manifestação de apoio e carinho. 

Vai ser no dia 09, como se a vida, por meios que nem ouso tentar desvendar, quisesse colocar um band-aid na data. A chegada às minhas mãos dos primeiros exemplares de meu livro é, afinal, algo a se comemorar. Mas dia 09 de dezembro tem sido como um sino de um velho mosteiro a me lembrar das dores grandes, das partidas definitivas, do quão difícil foi saber que você não lutaria mais. Exatos três anos depois de você ir embora, devo receber nesta segunda, impresso e colorido, meu primeiro livro. Não poder enviar um exemplar a você, com dedicatória borrada por lágrimas de alegria, é algo tão grande que não sei nomear. Sua ausência paira sobre as histórias que escrevo desde 2011 como um céu sempre nublado: às vezes sinto o vento com cheiro de chuva, outros dias ouço os ecos de nossas conversas como trovões em minha alma. E há aqueles momentos em que fecho os olhos para me embalar pela certeza de que você abriu espaço para os arco-íris que tento pintar.

O lançamento está agendado, há um banner na vitrine da livraria, anúncio no site do shopping. Os amigos festejam comigo, recebo carinho de toda parte. Aventuro-me no mundo da escrita cheia de receios e aberta ao enorme aprendizado que a experiência tem me trazido, e sinto-me feliz por fazer parte de um projeto no qual acredito acompanhada de gente boa e talentosa. No entanto, falta sua voz, sua crítica, seu texto favorito, sua corujice. Aqui dentro, onde há muito habitam a saudade e as boas lembranças, mora agora a dor de cotovelo por não poder compartilhar esse momento com você. Meus dezembros têm tido poentes saudosos e toda flor de quase verão me faz pensar em você. "A vida segue" não é exatamente um consolo; é mais uma constatação de que há respostas que nunca virão e dores que se mesclam com nossa pele. Já é 09 de dezembro outra vez e ainda acho seu cabelo tão bonito. 

Nós, peruanos


Esta foi a semana das cantatas de Natal, das apresentações de final de ano, das festinhas de despedida. Quem tem filhos em idade escolar matriculados em escolas mais, digamos, empolgadas deve ter ido a pelo menos duas ou três "atrações natalinas". Aqui tivemos troca de faixa no judô, 567 festivais de dança, festa da turma da dança, cantata na rua, cantata na escola, amigo secreto, churrasco da turma, recital de piano. Olha, é preciso fôlego. A criançada vai no embalo, alguns eventos empolgam mais do que outros, mas o que fica mesmo é o aprendizado. O aprendizado das canções. Das canções dos peruanos.

Amanda relembra a cantata o dia seguinte à apresentação:

- Feliz Natal, tchu tchu ruru, Feliz Natal, tchu tchu ruru. [...] ... nós peruaaanooos!! Feliz Natal, tchu tchu ruru, Feliz Natal, tchu tchu ruru. [...] ... nós peruaaanooos!!

- Amanda, o que você tá cantando? Que é isso que você falou aí?
- Nós. Peruanos.
- Como assim, Amanda?
- Do Peru!
- ??? [pensa] Não, Amanda... é "próspero ano!"
- Oi? O que é próspero?

Quando paramos de rir, expliquei. Mas nunca mais vou falar próspero ano, tá? 

Feliz Natal e nós peruanos pra vocês. 

***

Eu preciso jogar conversa fora para disfarçar a ansiedade, não reparem. ;-)

Um encontro, um brinde, um abraço, letrinhas, imagens de fazer sonhar



Quando


Quando você põe a Amanda nos ombros e a conduz pela casa como se vocês dois fossem um. Quando vai ao mercado comprar molho de tomates e volta com molho de tomates, vinho e orquídeas. Quando você prepara uma comidinha tomando vinho e me passa sua taça no meio da cozinha. Quando joga cartas Pokémon com o Arthur e é como se fossem dois meninos. Quando fala do novo esporte e o olho brilha. Quando pega o violão e canta canções antigas com sua voz bonita, embalando minhas memórias de nossa história já comprida. Nossa história longa, cada dia mais. Cada dia mais um pouco, um linha a mais em nosso enredo quando você me abraça com vontade. Quando você sorri da vida porque sabe. Quando você me ouve dizer que adoro nossa muvuca diária e responde com um suspiro de alegria. Quando corre comigo para buscar as crianças, levar as crianças. Quando planejamos ou mudamos os planos. Quando espera meu silêncio, quando percebe. 

Quando você me olha e meu mundo é tão maior. Quando. Eu me lembro do quanto eu quis tudo isso. E de como sou infinitamente feliz por estar em sua vida. 

Minha mão na sua, te amo sempre. Feliz aniversário, meu amor.

Musicão


Abraçada. É assim que me sinto desde ontem, desde as horas que se seguiram ao pré-lançamento de Contos do Poente. As demonstrações de afeto chegam de todos os lados. Sinto-me numa festa boa, daquelas bem animadas, onde só toca musicão. Sou eu dançando, conversando, dando risadas. Hoje recebi carinho vindo de tantas partes do meu mundo que oceano nenhum significa distância grande demais. 

Emocionada, agradeço.

É verdade que já estou me acostumando a esse lance das boas vibrações. Como andei comentando no Facebook, nosso livro tem apresentação da escritora e tradutora Fal Azevedo e prefácio da jornalista Jeanne Callegari. Mas por mais acostumada que eu fique, sempre hei de sentir esse calorzinho no peito. Sempre. 

***


Sabem onde mais a festa anda animada? Na caixinha do contosdopoente@gmail.com. Os exemplares ainda não estão sendo enviados, mas as entregas logo começarão. E há pedacinhos de gravuras da Joana Faria pintando na página do livro no Facebook, só pra dar um gostinho.  :-)

Contos do Poente


Acho que foi a Luciana quem me achou. Um dia fez um comentário por aqui, em algum post perdido, no dia seguinte, de novo, e mais um. Quando fui ver, ela tinha um blog vermelho de que gostei muito, e no meio do troca-troca de comentários a sensação foi de reconhecer uma velha amiga. O facebook ainda não era o ponto de encontro dos papos como tem sido ultimamente, muito do nosso convescote (para usar uma palavra de que gosto cada vez mais) se dava mesmo nas caixas de comentários.

Da Joana, não sei. Não sei como chegou, onde encontrei, quem me indicou. A internet tem essas coisas de caminhos entrecortados por desvios vindos sabe-se lá de onde, e isso não importa muito. O que importa é que me vi lá no blog da Joana como quem se perde em um museu: eu me sentei num daqueles bancos duros e largos, esquecida da hora. Algo nos traços das meninas longilíneas em suas gravuras me enlaçou por lá, fiquei também. Um dia um comentário, outro, uma conversa mais contida, mas ainda assim uma alegria. 

Quando o convite da Joana chegou, Luciana e eu dissemos sim: um livro de contos ilustrados. Eu preciso registrar que me senti profundamente honrada desde o momento em que recebi o convite. Estar em um projeto de mãos dadas com a Luciana a convite de artista tão talentosa como a Joana? Como não vibrar?

Do sim aos textos. O processo de criação do conjunto de contos idealizados por Joana tomou vida própria, como é típico da linguagem escrita, essa aventura. Nosso projeto tomou forma, ganhou volume e protagonistas por quem nos afeiçoamos, além, claro, de gravuras inspiradoras. É uma alegria enorme anunciar o lançamento de meu primeiro livro de contos, em tão deslumbrante companhia. Eis aí os Contos do Poente, pela Editora Sinergia, do grupo Ediouro.  




Como Luciana e Joana andam do lado de lá do Atlântico, Contos do Poente terá lançamentos, no plural. No dia 12 de dezembro, às 19 horas - e aqui já deixo o convite aos amigos e leitores de Florianópolis - estarei no lançamento na Livraria Nobel, no piso térreo do Floripa Shopping. Será um prazer imenso vê-los lá para livros, abraços e... convescote. Em fevereiro, Luciana deixará Lisboa por algumas semanas e virá ao Brasil, quando faremos lançamento no Rio e em São Paulo; tenho planos para lançar também em Campina Grande, no mesmo mês, espero que tudo dê certo. Assim que tivermos datas exatas e local definido, divulgaremos; divulgaremos também a data da vinda da Joana ao Brasil para lançamento com a presença dela. 

Contos do Poente, com projeto gráfico lindo, já está em pré-venda para pedidos online. São dezoito contos, uns meus, outros da Lu, todos ilustrados pela Joana. Os pedidos podem ser feitos pelo e-mail contosdopoente@gmail.com, para entregas a partir do dia 17 de dezembro, ao custo de R$36,00 mais frete de R$6,00. Logo também estará disponível em sites de e-commerce (detalhes em breve), com preço a ser definido pela editora e seus parceiros comerciais. E todo mundo já pode dar uma espiada na página do livro no Facebook.

***

Escrever é perigoso, dizia ela, dizemos nós. Escrever é lutar com o limite da palavra ou surpreender-se com o alcance dela. Escrever é dançar com parceiros invisíveis ao som das muitas músicas que nos chegam sabe-se lá de onde, e que tocamos com dedos tensos ou soltos, mas sempre com o coração aos saltos. Saltos em cores, cores de poente. Minha mão, estendida a vocês: quem quer dançar?



Na janela


Acho graça da influência que os gibis têm na linguagem da minha filha de 6 anos. Vira e mexe suas brincadeiras são verbalizadas com palavras e onomatopeias típicas das histórias em quadrinhos. Quando se junta ao irmão em alguma batalha contra zumbis, por exemplo, ouço com frequência:

- Sai já daqui, seu zumbi1 Soc, pof, paft!!

Dali a pouco ela me sai com:

- Ronc! Minha barriga tá roncando. 

Mas só hoje vi essa influência tomar ares de fofice da boa. Vendo a gradinha de metal em cima da mesa, ela perguntou:

- Mãe, pra que essa gradinha?
- Ah, é só pra eu apoiar o bolo quando tirar do forno, pra ele esfriar mair rápido.

E os gibis ganharam voz:

- Você não bota o bolo na janela?

:-) Achei fofo. Ela certamente estava pensando na mãe da Magali, mas eu me lembrei mesmo das tortas da Vovó Donalda (ainda existem?). 


Some other name



"O, be some other name!
What's in a name? that which we call a rose
By any other name would smell as sweet;"
Romeu & Juliet, Act II, Scene I

Tenho dois sobrenomes e circulo pelas redes sociais com um terceiro, emprestado pelo marido. Sou @Rita_Paschoalin no twitter, mas quem espia meu perfil por lá logo vê ao lado minha identificação como Rita Medeiros. Meu endereço de e-mail é composto por um deles, o perfil do Facebook por outro. Nada intencional, apenas certa displicência que, até aqui, não tem gerado mais do que comentários intrigados de alguns amigos virtuais, na linha "indecisa?". 

Quando Ulisses e eu decidimos viver juntos, nenhum dos dois mudou de nome. Peguei seu sobrenome emprestado para o perfil do e-mail porque outras combinações com meus próprios sobrenomes estavam indisponíveis. Acontece que no Facebook continuei Rita Medeiros. Pois bem, agora resolvi mudar o nome do meu perfil naquela rede. A mudança tem um propósito bem específico: garantir identificação imediata com o novo projeto, no qual adotei o nome Rita Paschoalin. Que novo projeto? Conto já, não demora. Fiquem ligadinhos. ;-)

Remanso


Limpei a casa e varri a calçada. Escolhi as músicas, ensaiei a valsa, preparei a comida e comprei a bebida, afastei os móveis, escolhi as velas. Armazenei gelo, selecionei toalhas com desenhos delicados e guardanapos macios. Pus um vestido confortável, guardei os sapatos, caminhei em silêncio pelo chão limpo e frio. Abri as janelas grandes para a brisa entrar, espalhei almofadas e bandejas coloridas com pequenos mimos. Na parede, os quadros mais bonitos. Olhei tudo. Pus meu olhar em cada canto e o deixei ali, à espera dos convidados. Tomara que todos venham e falem e dancem e brindem e participem. O fim de tarde se aproxima e esperar é bom. Dizem mesmo que é o melhor da festa, e aqui já não posso concordar. Mas esperar é bom, sim. Quase tranquila, da janela fito as cores do horizonte.

Daqui a pouco a campainha vai tocar. 

Próximo post


Não é abandono de blog, não é preguiça, sequer é falta de assunto. É um misto de verão chegando e crianças chamando e o tempo passando. E o próximo post. 

Brisa


O verão chegou essa semana com manhãs muito claras e portas escancaradas. O calendário talvez consiga se impor e frear um pouco a afobação das temperaturas; é possível, contudo, que o mormaço que nos cerca já arme sua barraca, para o bem e para o mal. Penso nas providências e na preguiça, na areia e nas chuvas passageiras, e que é preciso prevenir a brotoeja na pequena, manter curto o pelo do cachorro, comprar uma sunga de praia para o pequeno; é preciso se concentrar para não derreter ideias e manter a esperança de que o vento virá. Também é de bom tom ouvir o alvoroço matinal dos passarinhos na varanda, meu deus, que gritaria. É necessário fazer sorvete. É bom abrir as janelas, arejar o coração, andar devagar de chinelos. É imprescindível tomar suco de cajá bem gelado e se lembrar de trazer para dentro da alma a luz dos dias longos. 

Quando saio do trabalho há uma lua quase redonda me olhando lá do alto do céu ainda pálido. Pisco-lhe um olho e, ingrata, quase faço pedidos. Sigo pela rua banhada pela luz da tarde antes que estrelinhas miúdas acenem na noite quente. O ano já vai terminar, observem. Faz calor aqui, dentro dos planos. Tomara que a noite traga uma brisa que cure anseios e aceite perguntas.

Um tio Flor


Uma das coisas boas da infância é, certamente, picolé. Mas há também o gibi, o momento de colar a figurinha no álbum e a visita do tio que conta piadas. Eu tive um tio engraçado, que não era bom em contar piadas, exatamente, mas era bom em fazer rir mesmo assim. Não que sempre falasse coisas engraçadas, ele simplesmente sorria e contagiava, parecia enxergar seu mundo com leveza; ou, ao menos, parecia querer enxergar assim. Falava com voz muito grave e antecipava a risada com um olhar meio atravessado, enquanto comprimia os lábios para daqui a pouco liberar o riso frouxo. Bom, é essa a marca que guardo dele. Há a tia carinhosa da voz linda, havia minha Tia Maria do melhor abraço e de tanto mais, há muitos tipos de tios nessas famílias grandes e espalhadas. 

Meu tio engraçado se foi ontem. Certamente era mais do que isso, mesmo pra mim, sobrinha distante. Era também carinhoso, gentil, bom de conversa. Sempre o achei fisicamente muito parecido com meu pai, embora tivessem personalidades tão distintas: onde um era silêncio, o outro era o papo rolando fácil. Minha tia me falou hoje que ele andava triste nos últimos dias, aparentemente a última consulta médica não tinha sido animadora. Vou tentar não fixar essa imagem; ao invés disso, quero me lembrar sempre de sua voz de Nelson Gonçalves, em sua fala rápida intercalada por risadas. Vou guardar na lembrança seu abraço forte e carinhoso, de um carinho que me fazia bem lá na infância. Suas visitas eram relativamente raras, mas sempre barulhentas e divertidas. Era sempre bom, como picolé e gibi.

Que foi de risos nossa amizade, tio Paulo Flor. Obrigada por isso.

Em sépia


Li Retrato em Sépia (Isabel Allende, Ed. Bertrand Brasil, tradução de Mario Pontes) sem metade do entusiasmo que me carregou ao longo do autobiográfico Paula ou do romance A Ilha Sob o Mar - dois livros que recomendo com tranquilidade. Ainda assim, para mim, fã da narrativa fluida de Allende, a leitura morna ainda teve seus momentos de sorriso no canto da boca.

Retrato em Sépia é a sequência de Filha da Fortuna, publicado dois anos antes. A protagonista de Sépia, Aurora, é neta da protagonista de Filha, a corajosa Eliza Sommers. Mais uma vez, a história transita entre os Estados Unidos e o Chile, mas ao invés dos desatinos cometidos em meio à corrida pelo ouro na Califórnia, pano de fundo da trama de Filha da Fortuna, o que vemos em Sépia é mais contido e com ares de memórias contadas na varanda. Aurora passa a maior parte de seu tempo ao lado da avó paterna, a espaçosa Paulina del Valle, equilibrando-se na vida que escolheram para ela, e faz o caminho inverso ao que sua avó materna traçou em Filha da Fortuna. Em Filha, Eliza sai do Chile no porão de um navio, fugindo da família, para se aventurar em busca daquele que acreditava ser o amor de sua vida e que partira em busca do ouro californiano. Muitos anos depois, em Sépia, sua neta nascida nos Estados Unidos migra para o Chile, sob a asa da outra avó, para enfrentar desafios que me parecem ainda mais assustadores do que a viagem clandestina de Eliza: a rotina e o marasmo da vida caseira reservada às "mulheres da elite" chilena da época. Nada fácil, pessoas. 

Quem lê os livros de Allende se acostuma a fatos grandiosos, personagens que empreendem viagens estupendas ou levam uma vida absolutamente esquisita: seja a apaixonante Clara, em Casa dos Espíritos; ou a escrava Zarité, em Ilha Sob o Mar; mesmo a não tão cativante Eliza tem lá sua dose de aventureira a nos oferecer. Talvez seja por isso que Aurora me pareceu tão sem sal. Não que não me encantem as aventuras da nossa vidinha mundana de cada dia; mas é que abro um Allende esperando personagens cheios de camadas e sustos. Aurora caminha reto demais. Daí que achei a história bacana, mas meio sem cor. Um livro assim, meio sépia. ;-) Mas não adianta, fã é bicho besta e gostei de ter lido. Quem escreveu Paula terá de mim admiração eterna. 

Há flores em tudo que eu vejo


No carro Ulisses comentou como fica feliz ao ver que sua mãe dá sinais evidentes de ter superado a depressão que a assombrou por tempo demais. Contou como gostou de vê-la tagarelando na calçada sobre as flores que enfeitam as pontas de um matinho qualquer. Arthur, por sua vez, deu sinais evidentes de ter entendido tudo; ou de ter entendido o que mais importa:

- É engraçado isso. Quando a gente gosta de alguém é como se ficasse ligado na pessoa. A gente fica feliz se ela tá feliz.

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A plantinha brotou solitária no meio do muro de concreto da casa da minha amiga. Como se não bastasse, há minúsculas florzinhas no topo. O mundo, essa coisa fascinante.

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Há flores em tudo que eu vejo, cantávamos nos anos 80. Os ecos me alcançam. 

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A mesma amiga cuida da orquídea com gelo. Quando se lembra, põe pedras de gelo na base da planta. Hoje vi sete lindas flores enchendo sua sala como se tivessem acabado de chegar da floricultura. Gelo, anotem. Se bem que, né, na casa dela as flores nascem até no muro de concreto.

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Eu me lembro do dia em que mandei rosas pra você. Você me disse que o moço da floricultura fez uma cara engraçada, deve ter estranhado na hora da entrega. O mundo, esse lugar engraçado.

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Há um tipo de abraço que minha filha me dá que me preenche inteira. Ela se pendura em mim, minha coalinha. E ela se empenha no abraço, é algo grande, forte, com atenção. É um abraço feito dessa coisa aí que liga a gente na outra pessoa. É disso que meu filho fala, eu sei. Ele também abraça assim. 

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No meio das páginas do livro que emprestei à amiga foi a flor seca que meu filho me deu um dia. Ela me devolveu a flor, que transferimos para um livro que ela me emprestou. Mas deixei o livro pra trás, porque há outros na fila, e a flor ficou lá. Não quer mais sair da casa onde suas irmãs nascem até no meio do concreto. Compreensível.

***

Já vou parar. Mas preciso dizer que no meio da floricultura minha filha brincava com sua amiga e eu me meti, sugerindo: faz de conta que esse é um jardim encantado e vocês vão procurar ninfas no meio das flores. Amanda me deu a real:

- Não, mãe! Essas plantas são tooodas carnívoras!!

O mundo.


Quando chove


A maior preocupação de Juliana era a chuva. Tentava em vão proteger o vaso com a mão que sobrava livre, enquanto com a outra apertava como dava o objeto de barro contra o peito. Sempre achava que o 303 demorava a passar, mas nunca, certamente nunca na vida havia demorado tanto como naquela tarde fria - mais fria do que o necessário, vamos combinar. Ninguém esperava aquele frio e aquela chuva naquela época do ano, todos sabem. Ninguém, muito menos ela, ali na parada de ônibus, agarrada ao seu troféu. Bem, não era bem como se tivesse ganhado um prêmio, mas era inegável que havia certa dose de triunfo diluída no meio de todo aquele susto. O ônibus não vinha. O vento, esse era o maior problema. Fosse só uma chuva fina, seu casaquinho de linha daria conta de abrigar a flor. Ou nem o faria, afinal flores gostam de chuvas. O vento, não. Era uma ameaça verdadeira àquela haste tão fininha, tão parecida com sua esperança no início do dia. Que bom que agora, no final da tarde, ela era mais forte do que a flor; cabia a ela proteger seu presente, resguardá-lo de todo mal. Pois quem não sabe que bastariam pingos trazidos pelo vento para derrotar aquela porção de cor que se erguia da terra prensada no vaso? Bastariam, e por isso Juliana se contorcia um pouco para arquear as costas de modo a barrar o vento. O 303 apontou na esquina. 

Não foi o moço alto de casaco marrom pesado e molhado a ameaça mais forte. Foi a moça desastrada com sua sombrinha horrorosa que por pouco não decepou a haste verde que sustentava as outras cores - as cores das pétalas da flor que, com o coração aos gritos, havia recebido dele. Quando saltou na sua parada, o frio que rasgou seu rosto ao dobrar a esquina incomodou menos do que a sombrinha da moça desastrada, então nem reclamou. Apenas fechou um pouco mais a mão em concha, contando apreensiva os passos que a separavam da segurança de sua sala quente e com teto. Por precaução, não desgrudou os olhos do vaso enquanto ele esperava na calçada, impassível e úmido, até que ela encontrasse a chave na mochila. Voltou a pegá-lo como quem tira um bebê do berço e entrou em casa. 

Triunfante e perdida, Juliana retirou a bandeja de cerâmica do centro da mesa e a substituiu pela flor mais importante do mundo. Tomou banho, escreveu um bilhete e se deitou, exausta, sem fome. Adormeceu muito antes do horário habitual, tamanho seu alívio. Mal tinha entrado no primeiro sonho quando a primeira pétala cumpriu seu ciclo, sucumbiu às intempéries de sua curta vida e caiu muda sobre a terra prensada no vaso de barro. E como era apenas uma pétala, nunca desconfiou da avalanche que ajudou a criar em sua última tarde de chuva.

Reinos


Amanda brinca com as amigas pela casa e é como se elas estivessem em outro reino. Não nos enxergam, não nos procuram. Ficamos ali, mães e pais, batendo papo e bebendo café no reino do aqui. Lá, vozes distantes, risadas, gritinhos. Num raro momento em que os dois reinos se cruzam, pergunto à menina que corre esbaforida pela sala à procura de algum brinquedo:

- Oi, amor, do que vocês estão brincando?

E ela responde, abrindo os braços num gesto dramático de diva de ópera:

- De Deusas da Vida!!!

***

Um passarinho pousou na minha janela e me trouxe um segredo. Tem tons avermelhados que soprarei ao vento. Já já.


A pipa


Abri a caixa já desbotada mais uma vez. Olhei aquelas palavras que há tempos eu guardava como se formassem um tesouro capaz de me salvar um dia e, de novo, suspirei. Gostava tanto delas, não queria deixá-las ou trocar por outras. Eram bonitas, afinal. Tinham sido lapidadas e reorganizadas tantas vezes, eram velhas amigas. Até ali, na calçada da minha casa, dentro da caixa que eu apoiava no meu colo com todo cuidado, até ali aquelas palavras me pareciam tão imponentes. Custava-me admitir o marasmo. Aí o vento que não tinha nada a ver com a história bagunçou meu cabelo. Meu cabelo cobriu meus olhos e precisei erguer a cabeça. Foi quando vi o menino descalço que descia a rua, com um graveto na mão. Não foi uma decisão exatamente, apenas um impulso bruto, como um "sim" impensado. Estendi a caixa. Ele aceitou como quem recebe um doce. Abriu, olhou minhas preciosidades e então me encarou com um olhar de pergunta. Não esperou muito. Fechou a caixa e continuou descendo a rua. Misturou minhas palavras velhas e estudadas com a infância dele, deixando o graveto esquecido aos meus pés. Quando me levantei com o graveto na mão, reconheci uma de minhas palavras na pipa colorida, a pipa que voava e dançava no céu muito azul da rua de baixo.

A casa perfumada


"...Nor a thorn nor a threat stain her beauty bright."

"Para a mamãe!" E o sorriso que vem junto quase humilha a flor.

***


Passarinho


Ninho.

Empurrãozinho.


Será?


 Pequeno voo.

Ah, as asas...

***

Em dia de estreias, Ulisses fez sua primeira aula de kitesurf. Ainda não dá pra chamar de passarinho, mas ele chega lá. 

***

Abandonei os planos para o domingo ao ar livre quando a chuva apertou à meia-noite de sábado. Fechei os blackouts da cortina e mandei ver mais um episódio daquela série. Dormiria até as onze da manhã, que delícia. Quando o telefone tocou por volta das oito e meia da manhã, pensei palavrões e virei pro lado. Era o professor de kite, confirmando a aula do Ulisses. Enquanto me perguntava se o tal professor seira um sádico, estiquei o braço, puxei a cortina e mal pude acreditar no céu azul limpíssimo rindo da minha cara. Resgatamos os planos e fomos pro mundo. Semana que vem eu durmo. 

Sinestesia



Quando ela abriu a gaveta e pegou uma folha de papel, a brancura um pouco doce iluminou a sala. Quando abriu a caixa de lápis de cor, cada ponto do espectro salpicou o ambiente de manchas e riscos e sombras de efeito. Ela examinou o tecido da própria saia e de lá retirou duas pequenas flores amarelas, e com elas fez um jardim na parte baixa do papel. Com a grama pronta, pisou lá. E foi. No outro lado era o sonho. Soltou os cabelos, abandonou as sandálias e viu que o ar que pisava era frio e macio. E sem fim. Não escolheu direção alguma, apenas seguiu aleatoriamente grupos de notas musicais coloridas que sopravam e eram o vento e a neblina. Pintou por horas, dançou em todas as cores. Quando quis voltar, fechou os olhos. Depois guardou a caixa de lápis e refez a trança. No armário pendurou a saia com duas flores a menos, para passeios futuros. Então sentou-se ao piano e pintou a sala de poente.

Forno


Às vezes não é preciso ser chuva grossa, daquelas que traziam pequenas enxurradas de água brilhosa na rua lá da infância: uma chuva fina já desenha um sorriso em minha boca. Há também os dias em que nem precisamos do brinde: um café compartilhado, meus pés brincando com os seus sob a mesa, já nos basta. E não é mesmo verdade que nem sempre queremos a dança? Não nos sacia, tantas vezes, o tamborilar dos dedos na coxa, enquanto Morrissey espalha sua melancolia no ar e a gente observa a paisagem que passa?

Pois é assim, às vezes. Não é que eu ache que será um grande evento, capaz de gerar ondas de entusiasmo. Ou que eu veja tudo com lentes de aumento. Nada disso. Apenas acho que as miudezas trazem em si o mesmo pó de que são feitas as grandezas. É tudo estrela, não dizem? Então. Também vai ser bom, como se. Como a chuva fina tocando as folhas na calçada, como o aroma do café fresco, como a voz do Morrissey, there's a light and it never goes out. Vai ser tão bom. 

Mal posso esperar. 

Contas, cor, colar, calor




"Com seu colar de coral,
Carolina
corre por entre as colunas da colina.

O colar de Carolina
cobre o colo de cal,
torna corada a menina.

E o sol, vendo aquela cor
do colar de Carolina,
põe coroas de coral
nas colunas da colina."
(Cecília Meireles)

***

No Facebook, vi que a filhota da amiga que tá em cidade fria e chuvosa passou a tarde fazendo pulseirinhas. Aqui não temos o pretexto do frio, mas o calor trouxe junto a preguiça. Passei a semana programando um domingo paradão e nem o sol me arrancou de casa. O resultado talvez seja menos vitamina D, mas certamente mais cores e continhas. Os fechos tortos e os nós mal dados são culpa minha; o "design" (para todos os estilos imagináveis) é da pequena. ;-)

A caixinha de coração também é obra dela, que pintou, decorou e agora a encheu de pulseirinhas.



No saquinho, presentinhos para amigas. 

***

Ontem à noite faltou luz em nosso bairro. Reclamamos, achamos as velas, as crianças escovaram os dentes com lanterna em punho. Quando tudo ficou em silêncio, com a casa às escuras, vi que o luar invadia nossas janelas e desenhava formas geométricas no tapete da sala. Senti-me grata. A vida é uma graça. 


O bombom


Houve uma vez uma menina que ganhou uma caixa de bombons. Mal podia acreditar quando recebeu a caixa de tampa dourada e laço de fita. Reconhecendo o nome que tinha visto na TV, já desmanchou o laço sabendo o que seus olhos encontrariam. Sua boca salivou com urgência e um "obrigada" emocionado lhe saltou pelos lábios. Sorriu agarrando-se à caixa, já temendo que alguém lhe pedisse um. Guardou em seu quarto, à vista, ao alcance fácil da mão. Comeu o primeiro como quem viaja pela primeira vez. Foi feliz.

Quando restavam cinco bombons, achou por bem parar. Quis prolongar aquele estado de felicidade simples, poder pensar por mais tempo que tinha bombons finos para comer quando quisesse. Suspendeu a alegria da boca e se contentou com o saber que estavam ali e eram seus. Chegava eventualmente a tocar as bordas do papel brilhoso que envolvia um ou outro. Cheirar, não, era muito perigoso. Até o dia em que o verão ia alto e a menina, que agora tinha o laço de fita no cabelo, resolveu se permitir. E ao abrir o papel laminado colorido viu derretido e disforme o que deveria ter sido um bombom de consistência boa e certa. 

Nunca mais adiou abraços.
 
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