Une fête


Das coisas que celebro, a que mais gosto é sua vida comigo. Não há nada que me traga um sorriso tão fácil e inteiro. Alguém diria "mas e os filhos", ao que respondo "eles fazem parte dessa inteireza". Minha vida com você é. Minha vida com você se desenrola. Tudo parece suave ou, ao menos, possível. Minha vida com você é, dentre as possibilidades que já ousei vislumbrar, a mais plausível, a mais bonita, a única grande. Dizem que se chama privilégio ou sorte. Há, também, quem chame de destino. Quanto a mim, chamo de alegria diária, de amor maiúsculo, de amor. Celebro com o coração aos saltos porque ainda me lembro de como olhei e desejei tanto que você fosse meu, e o medo era de acreditar e não alcançar. Celebro porque sei do luxo que é acordar todos os dias e saber que será mais um dia com você. Degusto assim, com a boca cheia, cada pedaço dessa delícia de vida que você me traz, meu amor. Feliz aniversário, com as cores que você desejar. O mundo, essa loucura, gira bonito por causa de pessoas como você.

Seja feliz, um tanto mais. Te amo sempre. 

Countdown


Faltando duas semanas para as férias, começo a desacelerar os motores estressantes e aquecer os devaneios. É a primeira vez que viajarei para um lugar de onde não sei muito bem o que esperar e isso me agrada ao mesmo tempo em que me deixa um pouco ansiosa. 

Na primeira vez que saí do país, fui sozinha. Fui tão cheia de expectativas que qualquer coisa poderia ter me decepcionado. Felizmente não foi o que aconteceu e ainda guardo na memória minha primeira temporada na Inglaterra como uma lembrança bem vinda - sem muito dinheiro, sem boa comida, estudando, arriscando e andando muito, foi crescimento do primeiro passo no aeroporto ao dia da volta, meio ano depois. Apenas tempo bastante para experimentar de leve o sabor bom de se perder com coragem, meio de propósito, de mudar os planos, de largar o espelho e olhar além. Mesmo que eu nunca tivesse estado lá antes, contudo, visitar a Europa é algo que, de certa maneira, já fazemos sabendo um pouco o que esperar. Conhecemos muitos relatos, vemos ao longo da vida milhares de referências às suas cidades velhas e magníficas. Reconhecemos seus monumentos, seus rios e prédios nos filmes, nos livros, nos olhos do mundo. Agora, não. Vou para o Pilanesberg Park e preciso ir ao mapa um milhão de vezes para memorizar a localização desse lugar de onde eu nunca tinha ouvido falar na vida e que agora será o primeiro ponto de parada das férias de minha família. Não consigo imaginar que paisagens vislumbrarei ao longo da estrada que nos levará do aeroporto de Johannesburgo até lá, algo que, ao mesmo tempo que reflete um pouco da minha imensa ignorância em relação ao continente africano, não deixa de dar um tempero incrível ao passeio. Como será? Não sabemos. Não fazemos a menor ideia.

Na única oportunidade que tive de conversar com alguém vindo da África do Sul, aos meus ouvidos o inglês pareceu "diluído" em um sotaque "escorregadio". Que impressões terei agora? Não sei. Será que terei a chance de ouvir diálogos em algum outro idioma africano? Não sei. O que comeremos no café da manhã, que frutas estarão lá? Não sei. A África do Sul é o país mais industrializado do continente africando e recebe um fluxo enorme de turistas todos os anos. Quão "igual" ela se torna, em uma comparação superficial a outros pontos turísticos que já visitei? Não sei. Não faltam fontes na internet, lógico. Já troquei ideias com duas ou três blogueiras que estiveram por lá, já fucei blogs. Os conhecidos que visitaram o país já me falaram de seus encantos. Mesmo assim, por mais que eu leia, pergunte e me informe, há algo diferente dessa vez. Não sei bem ao certo o porquê, mas não vou com deslumbre - talvez eu o faça em outras visitas, se houver. Por enquanto, vou com vontade. Se uma das coisas de que mais gosto na Europa são seus ares de antigamente, os sinais do tempo, hei de gostar de pisar nas terras desse velho continente contador de histórias ainda tão desconhecidas pra mim.

Não há garantias. Podemos ir aos safáris e não ver nenhum dos grandes mamíferos. Podemos não gostar da comida. Podemos achar tudo longe demais. Ou igual demais. Ou diferente demais. Podemos sentir calor demais ou achar tudo caro demais. Ou não. Não sabemos, não há garantias. É quase como crescer.


Dos pais, da música, do Sertão


Eu me lembro da coleção de discos de vinil da minha casa quando eu era criança. Era uma coleção modesta, com alguns discos de música instrumental, quatro ou cinco discos infantis, um de música religiosa, vários com gravações da década de 40 ou 50. E, claro, os muitos discos de Nelson Gonçalves que meu pai ouvia como quem reza, sentado no sofá da sala, concentrado, prestando atenção. Quando minha adolescência chegou, surgiram outros poucos discos de bandas de rock ou pop music, mas nossa coleção nunca chegou a ser pomposa e logo transferi meus afetos para as fitas k-7 que moravam no meu quarto. Eis que ontem me lembrei de outros dois ou três discos que também faziam parte do nosso parco "acervo" naquela casa onde a música nem sempre era sinônimo de celebração e festa -  às vezes apenas substituía a conversa, mas isso é outra história. O que quero dizer é que me lembrei de outros discos e daquela voz rouca que saía deles porque vi suas capas no filme Gonzaga - de Pai para Filho. Gonzaga era talvez a única unanimidade em uma casa onde cada um gostava de um estilo de música diferente. De Gonzaga todo mundo gostava, ainda que, certamente, por razões distintas.

Para mim, Gonzagão resgata três universos pelos quais minha vida circulou por algum tempo. Um deles era a alegria discreta de minha mãe. Minha mãe não era de gargalhadas, então aprendi a ver sua alegria nas outras embalagens que ela tinha; e talvez  ela não fosse grande entusiasta do mundo da música, mas o Xote das Meninas sempre a fazia sorrir. "Ah, essa é linda!", ela dizia e cantava fora do tom a música que eu adorava e ainda adoro dançar. Um outro universo que a voz de Gonzaga me faz revisitar é o das festas juninas na escola e, mais tarde, na terra do maior São João do Mundo. Os grandes festejos que sacodem Campina Grande todo os anos deixavam minha mãe de cabelo em pé, meus pés cansados de tanta festa e os assuntos renovados por muitas semanas. São muitas as variações regionais do bom e velho forró que surgem a cada ano, mas duvido que ainda hoje a sanfona de Gonzaga não seja ecoada incessantemente nas festas juninas de lá.

No entanto, não foi o Xote das Meninas (que nem aparece no filme) ou a lembrança das festas de Campina Grande que me deixaram de olhos inchados no cinema ontem à noite. Foi outra coisa cujo nome desconheço, mas que deve ser muito maior em mim do que suspeito. Por não saber o nome, minha cabeça dá giros na tentativa de identificar que coisa é essa que entra na gente em nossa infância e nunca mais vai embora. Não sei o nome, mas sei que dos cheiros e cores e, claro, dos sons. E sei que boa parte da vida de meu pai foi sombreada por fantasmas que ninguém entendia e que seu sorriso era raro; mas várias das poucas risadas de que me lembro ver saindo de sua boca vieram acompanhadas de canções de Luiz Gonzaga. Ele cantava e ria das conversas de Gonzaga cortando a música, eu me lembro bem. E até acho que um filme contando a vida de Nelson Gonçalves teria mais ibope com meu pai, mas para mim é impossível não lamentar que ele não tenha tido a chance de ver esse filme.

A gente vê o artista e não faz ideia. A gente imagina o sertão, mas também não faz uma ideia muito precisa do que tenha sido viver ali nas décadas de 30 e 40 no século passado. Ou da valentia que aquele povo tinha - ou retirava da terra, como eles dizem. E quanto mais penso nas lonjuras e na pobreza, quanto mais penso no abandono e na sobrevivência improvável, maior fica a beleza das canções de Gonzaga. O filme me ensinou muita coisa sobre o lado menos glamouroso da vida do "rei do baião" e, longe de me decepcionar, mostrou a desordem, as confusões emocionais que o fazem parecer mais próximo de nós. Não há como não se emocionar com a triste infância de Gonzaguinha, que experimentou o abandono em várias formas, e fico me perguntando quanto da dor que ele viveu o inspirou a compor o hino de alegria que é sua famosa canção O que é, o que é?. Porque a vida dos artistas tem dessa alquimia louca que transforma solidão em poesia e sede em festejo. Quanto a mim, fiquei ali na cadeira do cinema, chorando tanto que o soluço me sacudia.

Ainda não sei o nome dessa coisa que a música de Gonzaga foi buscar nos quintais da minha memória. Sei que fiz minha pequena alquimia particular e transformei aquele açude que jorrava dos meus olhos inchados em uma silenciosa homenagem à memória de meu pai. Sua morte completa doze anos neste sábado e Assum Preto, que ele assobiava alto e afinadíssimo, me chega como um hino. Hino de carência, de perguntas, até de um certo rancor - entendo muito o Gonzaguinha mostrado no filme. Também de alegria por ter tido em minha infância trilha sonora tão nobre.

Não deixem de ver o filme. E leiam o lindo texto da carioca Juliana, uma ótima amostra de como a obra do menino pobre que mal sabia ler, nascido nos cafundós do mundo (ou no centro do mundo, dependendo de onde se olha), de riso fácil e vida confusa, tocou tanta gente de tantos lugares desse país incrível. Salve, Gonzagão.

A você, José Flor.


November rain


(A primeira parte desse post foi rascunhada ontem. Hoje abri para dar uma olhada e, sem querer, cliquei em "publicar". Logo depois reverti para rascunho, mas ele ficou no Reader, incompleto mesmo. Se você lê o blog pelo Reader, vai ter sensação de dejà vu.)

***

Os novembros dos últimos dez, onze anos, têm me trazido os anúncios da perda. O próximo dia 24 marcará 12 anos da morte do meu pai. Quinze dias depois, já em dezembro, a morte de minha mãe completará dois anos. Chega tudo junto: os enfeites de Natal, os planos de férias, as lembranças das últimas semanas deles, os filminhos da memória insistente. Até 2010, antes de minha mãe sucumbir e nos deixar, ela também revivia a partida dele e certamente revisitava seus longos anos de convivência (às vezes tão dura) com ele. Agora fiquei eu, com os filminhos. Lembro sempre, como se o calendário, que insisto em dizer que não manda em mim, não falhasse nunca em me fazer ver que datas, afinal, marcam. Existem. E nos puxam pela mão, se deixarmos. Eu deixo, às vezes. Meu pai foi ausente; nossa relação teria ficado pra próxima, se eu acreditasse em próximas. Mas ele esteve ali, na minha infância, na minha vida, na vida de minha mãe, do jeito que foi. E ela foi ela, minha referência para mais coisas do que aprendi a perceber até aqui. Então os novembros chegam e me dizem "vem ver, de novo". Há cerca de duas ou três semanas, corri os olhos por alguns posts antigos à cata de uma receita. Uma coisa leva à outra e logo me vi relendo os posts em que trato dos dias mais difíceis que vivi até hoje. O tanto que chorei relendo aqueles relatos escritos com dor e saudade não medem o que sinto, nem revelam a pessoa que tenho me tornado desde a morte de minha mãe. Ainda assim, as lágrimas e os soluços não deixam de ser ecos de palavras que digo tentando me aproximar do que ficou dela em mim. É novembro e está bem quente, já. Todo dia tem um pôr de sol mais bonito que o anterior; eles ajudam a camuflar a sombra e o frio do calendário.

***

Hoje conversamos com nosso filho de sete anos sobre o Dia da Consciência Negra. Papo vai, papo vem, uma coisa puxa a outra e, bem no meio de uma frase sobre como os negros já foram escravizados no Brasil, ele me interrompe com ar de estupefação e diz:

- Rá!! Queria ver se tivessem feito a mesma coisa com os brancos! Esses brancos teriam gostado?? Hein??! Humpf.

E acrescentou sei lá mais o quê sobre cada um ter uma cor diferente e tal. Ulisses falou que no fundo somos uma grande mistureba que começou há muito tempo e dissemos que precisamos olhar para as atitudes das pessoas, aquele papo todo. Daí a irmã de cinco anos encerrou a conversa, com ar de quem já entendeu tudo sobre os conflitos sociais do mundo:

- O que importa é o coração. Que é vermelho em todo mundo.

:-)


Bolo de inverno no quase verão


Meu filho falou que anda meio enjoado de comer chocolate e me pediu bolos com outros sabores, vejam vocês onde essa geração vai nos levar! :-) Resolvi atender ao pedido com um bolo divino de limão e laranja que vocês deveriam fazer hoje e que já entrou para a lista dos favoritos aqui de casa. Não satisfeita, aproveitei o embalo e fui procurar outra receita no livro Cupcakes bolos & doces, o mesmo de onde retirei a receita dos muffins de chocolate que viraram hit aqui também. Como adoro bolo de maçã e há tempos não fazia um, fui por esse caminho e escolhi uma receita que resultou num bolo lindo e perfumado. Um bolo com massa leve, superfície repleta de maçãs finamente fatiadas e visual sedoso por causa da calda feita com limão siciliano está programado para agradar, concordam? O preparo é simples e quatro maçãs pequenas do tipo gala são suficientes para que vocês preparem tudo e comam algumas fatias durante o processo. Segue a receitinha como está no livro, com minúsculas adaptações. Guardei o que sobrou na geladeira por precaução, por causa das maçãs, e ele é bem gostoso se servido geladinho também (o que faz dele um bolo camaleão: aposto que é perfeito no inverno, servido morno; delicioso em dias mais quentes, servido geladinho). Como acompanhamento, sugiro café e amigos. 

Em tempo: diante da mesa servida com os dois bolos e muffins de chocolate, adivinhem o que meu filho comeu? Começa com mu e termina com ate. Pois é.


Bolo de maçã com calda caramelada

350 g de maçã verde descascada e sem sementes, cortadas em fatias finas (usei maçã gala)
suco de 1 limão siciliano (para regar as maçãs durante o preparo da massa e evitar que escureçam - não fiz)
350 g de farinha de trigo com fermento (usei farinha sem fermento e adicionei 6 1/2 colheres de chá de fermento em pó)
350 g de açúcar demerara (usei cristal)
4 ovos grandes ligeiramente batidos
225 g de manteiga sem sal derretida
1 colher de sopa de açúcar

Para a calda
100 g de manteiga sem sal
100 g de açúcar demerara (de novo, usei cristal)
1 colher de sopa de suco de limão siciliano
uma pitada de sal

Preaqueça o forno a 180 graus Celsius. Forre o fundo e as laterais de uma assadeira retangular (22cm x 30cm) com papel-manteiga. Coloque as fatias de maçã em uma tigela e regue com o suco de limão para evitar que escureçam enquanto você prepara a massa. Peneire em uma tigela grande a farinha, o fermento e o açúcar e misture bem com uma colher de pau ou espátula. Junte os ovos batidos e a manteiga derretida e misture com a batedeira até obter uma massa lisa. Coloque a massa na assadeira e alise a superfície. Disponha as fatias de maçã em três ou quatro fileiras sobre a superfície do bolo e polvilhe com açúcar (esqueci de polvilhar). Leve ao forno por 45 minutos ou até que o bolo esteja firme ao toque e que um palito espetado no centro saia limpo (a receita sugere 45 minutos de forno, mas eu deveria ter assado por menos tempo; o fundo ficou um pouco seco em alguns pontos e quase queimou; recomendo que vocês programem o forno para assar em 35 ou 40 minutos e verifiquem o andamento da coisa após esse tempo).

Enquanto o bolo assa, prepare a calda. Derreta em uma panela a manteiga, o açúcar, o suco de limão e o sal, batendo com a batedeira até obter uma pasta espessa e lisa (achei esquisito, mas funcionou perfeitamente: separei o batedor da base da batedeira e bati enquanto tudo derretia). Retire do forno e deixe esfriar um pouco. Com o bolo ainda na assadeira, pincele as fatias de maçã com a calda. Fica bem lindo. :-)



Atores


Outro dia Arthur fez um comentário qualquer sobre um filme, dando a entender que os personagens eram reais e que a história havia acontecido de verdade, confundindo fantasia e realidade como as crianças tantas vezes fazem. Daí expliquei que aquilo era um filme, como o Harry Potter. Que Fulano era só um personagem inventado e que aquele menino do cabelo assim e assim era um ator com outros papéis em outros filmes, etc. E ficamos de papo sobre a profissão de ator e atriz, coisa e tal. Amanda ouviu tudo por ali, cercando minha conversa com o irmão.

Dois dias depois, Amanda viu um desenho animado da Barbie e adorou. E me contou toda empolgada que a princesa trocou de lugar com a pop star e cantou assim e assim. Que não sei quem era do mal total. E que a parte preferida dela foi quando a Barbie fez não sei o quê. E aí parou, pensou, fez pose de menina sabida e disse que sabia muito bem que eram só atores e que a história não tinha acontecido de verdade.

Aí comecei a explicar tudo de novo, porque vida de mãe é assim mesmo.

"Brindes" em sala de aula: sem problemas?


Quando eu estudava na quarta série do que hoje chamamos Ensino Fundamental, a professora um dia entregou às meninas da turma um livrinho. Fomos instruídas a levá-lo para casa, mostrar às mães e ler com elas. Todas receberam e trocaram olhares eufóricos. Levei meu exemplar agarradinho contra o peito e mostrei a minha mãe. Ela aprovou o conteúdo e disse que eu poderia ler sem qualquer problema. E então eu aprendi o que era menstruação.

Depois de esclarecer algumas dúvidas técnicas com minha mãe (o que é fluxo? o que é ciclo? como assim, todo mês? óvulo? quando começa?), tive um caso de amor com o livro. Era lindinho (ou assim me lembro), com ilustrações de uma garota muito feliz com sua menstruação e seus absorventes. Esperei ansiosa minha vez de usar os tais absorventes "aderentes à calcinha" - hahahaha! Ai, chamávamos absorventes de "aderentes". Enfim, divago. 

Aliás, só divago, porque ainda nem toquei no assunto deste post. Chego lá já, vão vendo. 

Mais tarde, quando minha primeira menstruação chegou, comprei feliz da vida vários pacotes do absorvente cuja marca patrocinara a edição do tal livreto da quarta série. Durante muito tempo, eu sequer cogitei comprar outra marca de absorventes que não fosse aquela divulgada no livro. Havia outras opções disponíveis no mercado, mas eu nutria certa relação afetiva com aquela marca, daquele livro, daquelas gravuras da menina feliz e menstruada, e por muito tempo foi aquela marca que consumi.

Então tá. O tempo passou, anos depois me dei conta de como o fabricante dos absorventes deve ter lucrado com a edição daquele livreto. Fiquei pensando na estratégia dos publicitários da marca em abordar as escolas e oferecer a distribuição dos livros às alunas. Centenas, milhares de futuras consumidoras ali, ao alcance, tão perto, tão fácil. Vira e mexe, lembro-me do episódio com aquela cara de ah, danadinhos, vocês me pegaram de jeito. Há alguns dias, pensei nisso outra vez. Adivinhem por quê?

Meus dois filhos chegaram da escola com um livreto ilustrado, cheio de desenhos para colorir, adesivos para colar e valiosíssimas instruções sobre o uso necessário do protetor solar. Informação muito bem vinda às vésperas do verão tropical que se aproxima, tudo lindo. O livreto deve ter agradado a praticamente todas as crianças do colégio - livrinho com personagens conhecidos por dez entre dez crianças brasileiras. De brinde extra, um sachê com protetor solar da marca X lançado no mercado em parceria com a empresa criadora dos personagens. Olha. 

Aposto que não, mas vou perguntar: só eu me incomodo com a publicidade invadindo a escola? Com produtos que não escolhi usar em minhas crianças chegando às mãos delas antes de passar pelo crivo meu e de meu marido? Acho válido demais a escola ensinar sobre os benefícios e perigos da exposição aos raios solares, obviamente. Mas acho igualmente válido que ensine a eles sobre os recursos dos quais a publicidade pode lançar mão para atrair consumidores. De preferência, sem levar à sala de aula um produto travestido de bom moço (notem que não faz a menor diferença se o produto em questão é ou não de boa qualidade, o ponto é outro). No momento em que a publicidade voltada ao público infantil está no centro de debates país afora, eu esperaria encontrar na escola um ambiente engajado no debate até o pescoço. Minha primeira atitude foi mostrar aos meus filhos que ali estava sendo aplicado o mesmo recurso do suco de caixinha que tem o personagem mais legal na embalagem, mas não necessariamente o suco mais bacana. Acho que entenderam e dificilmente me pedirão para comprar o produto. E se pedirem, adivinhem a resposta. Mas, convenhamos, a escola deveria estar me ajudando nessa função e não dificultando o processo.

(Ainda não conversei sobre o assunto com a direção da escola, de que gosto muito, aliás. Farei, em breve.)

A room with a view


Uma caixa de papelão.


 Ou uma casa com janela.




A fundação


No início dos anos 80 Paulinho morava em um bairro de classe média de Manaus. Tinha a infância de sua época, o que em parte quer dizer que o playground era a rua. Paulinho tinha família, pai e mãe zelosos, frequentava a escola e fazia aula de música no conservatório, mas era na rua que sua infância se desenhava pra valer. Nos dias de férias ou de final de semana era comum ele engolir o café  da manhã de qualquer jeito. Tinha pressa de sair correndo para encontrar a turma de amigos, moradores da mesma rua, e com eles passar praticamente todo o dia. A mãe bem que gritava da janela do apartamento quando o almoço estava  pronto, mas nem sempre o som de sua voz alcançava as orelhas de Paulinho, ocupadas com os sons dos meninos de sua idade. Ou talvez Paulinho estivesse distante demais para ouvi-la, pedalando na bicicleta emprestada pelo amigo mais abastado que morava no alto da rua. Somente quando a fome berrava ainda mais alto que sua mãe, lá pelo final da tarde, ele voltava para casa. E aí jantava, antes de descer para as brincadeiras noturnas com a mesma turma.

Ao lado do prédio onde ficava o apartamento de Paulinho havia um terreno abandonado. Tempos antes dessa história, tinha funcionado ali a sede de uma fundação beneficente; ou de uma associação qualquer. O lugar era conhecido como "a fundação". O prédio havia sido praticamente destruído por um incêndio e ninguém se encarregara de providenciar a recuperação do lugar. Quer dizer, quase ninguém. Porque a turma do Paulinho vislumbrou ali um cenário bom do qual se lembrar depois. Em meio às paredes que sobraram de pé após o incêndio, eles se organizaram e limparam um dos lados do terreno, removendo os escombros para o outro lado, já cheio de mais escombros. E ali instalaram a "quadra de vôlei" do grupo. A rede improvisada era uma ripa de madeira retirada do que sobrara do assoalho das ruínas. Na época da quadra, Paulinho tinha dez anos e seus pés viviam descalços e pretos de grude.

Não havia luz no terreno da fundação, naturalmente. Quando as noites quentes de Manaus chegavam, o vôlei do dia cedia lugar para outra brincadeira popular entre aqueles garotos: o bom e velho esconde-esconde. Os escombros empilhados, as paredes parcialmente destruídas, os morros de tralha, tudo servia como possível esconderijo perfeito. Paulinho apostou nisso na noite em que levou a paulada na cabeça. 

Outras crianças dividiam a rua com o grupo de Paulinho, claro, e naquela noite havia um grupo de meninas brincando com suas massas de ginástica rítmica. No lado da rua oposto ao da fundação, o mesmo poste que iluminava as acrobacias das garotas fazia as vezes de barra de salvação do esconde-esconde dos meninos. Como manda o figurino, alguém contou até vinte e todos se espalharam. Paulinho atravessou a rua, pulou o muro (única forma de ter acesso à fundação) e mergulhou no breu do labirinto de cacarecos semicarbonizados. Subiu, desceu, escalou e se esgueirou. Aquele silêncio momentâneo que antecedia a gritaria dos vitoriosos fazia com que Paulinho pisasse com cautela sobre o chão irregular para não ser flagrado pelos companheiros. Sem enxergar um palmo à frente do nariz, foi tateando aqui e ali. E para não despencar no meio daquela bagunça imunda, apoiou a mão esquerda no que achava ser uma parede - e aí sentiu a fisgada. A dor foi forte o suficiente para incomodá-lo, mas não tão forte a ponto de fazê-lo gritar e correr o risco de, deus o livre, ser encontrado e perder a rodada. Buscou a saída das ruínas sentindo a região do pulso latejar. Desceu, escalou, desceu de novo e se esgueirou. Após pular o muro com dificuldade, alcançou a rua. E a luz então lhe mostrou o corte profundo na base de sua mão, ali do ladinho do pulso. Assustado e com mais dor (a visão do corte aumenta a dor, todos sabemos), Paulinho até cogitou uma gritaria, mas no mesmo momento percebeu que a barra estava vazia e adiou o berreiro por alguns segundos - sabe como são as prioridades. Correu pela rua em direção ao poste, segurando o grito de dor e medo. Chegou a alcançar a barra e se salvar, bem ao lado das meninas que brincavam exibindo suas habilidades com as massas da ginástica rítmica. Habilidades que não deviam ser assim tão incríveis, já que uma das massas tomou um rumo doido e acertou em cheio a cabeça de Paulinho - que, agora sim, já sem riscos de perder na brincadeira, entregou-se às dores e despencou a chorar e berrar. Os amigos acudiram sem saber bem o que tinha acontecido, uma vez que Paulinho ora apontava para a cabeça alvo da paulada, ora para a mão cortada. Foi nessa noite que ele voltou para casa mais cedo e a mãe nem precisou chamar.

Meu marido Ulisses, o verdadeiro Paulinho, já me contou essa história algumas vezes. Na última delas, ele tinha acabado de verificar se Arthur e Amanda estavam brincando em segurança. Os dois estavam aprontando estripulias radicais numa sala de recreação montada em um restaurante que frequentamos de vez em quando. A "arriscada" manobra da Amanda, equilibrando-se em pé sobre uma pilha de almofadas num ambiente com tapetes e borrachas, claro, fez "Paulinho" rir e me mostrar a cicatriz perto do pulso mais uma vez. 

Continuo levemente neurótica com riscos de queda, queimaduras e sei lá mais o quê, mas o episódio do esconde-esconde no terreno da fundação de vez em quando serve com um banho de deixa-de-frescura. Funciona (nem sempre, tá). Se uso como parâmetro um esconde-esconde noturno em um terreno queimado e sem luz, cheio de cacos pontudos escondidos nos escombros, passo a achar que despencar da gangorra (oi, Arthur) e se ralar toda andando de patins (né, Amanda?) parecem, digamos, brincadeira de criança. 



Pernuco


Arthur e eu andamos brincando com um jogo de tabuleiro que tem o mapa do Brasil. Amanda sempre pede para ser da minha "equipe" (a equipe somos eu e ela contra o Arthur). No estilo "café com leite", a gente dá dica pra ela poder participar da brincadeira. Ela adora e fica se achando.

Arthur: - Vai Amanda, que lugar é esse? Começa com "a" e termina com "oas". 
Amanda: - Alagoas!
Arthur: - Issoooo!
Amanda: :-)

Arthur: - Começa com "m" e termina com "ão".
Amanda: - Maranhão! :-)

Ou forçando um pouquiiinho mais:

Arthur: - Esse começa com as quatro primeiras letras de Paraná. Quer dizer, começa e termina.
Amanda: - [pensa pensa pensa...] Pará!! :-D

Ou a minha preferida:

Arthur: - Começa com "p" e termina com "uco".
Amanda: - [pensa pensa pensa, nada]
Eu ajudo: - Começa com uma parte do corpo [e aponto para a perna dela]
Amanda: - Já sei! PERNUCO!!!


15 segundos


Pelo telefone a professora tinha me explicado que a experiência valeria para quebrar o gelo da relação com o palco, mostrá-lo como é estar lá em cima sozinho, cara a cara com o instrumento e a partitura. Concordei, mesmo achando que tudo seria rápido demais, afinal a melodia era tão curta, com suas onze notas miúdas. E perguntei ao principal interessado no assunto se ele gostaria de ir à apresentação anual dos alunos de piano. Ele disse que sim. A apresentação durou o tempo de tirar a foto. Os aplausos duraram o triplo e a sensação de vitória vai durar alguns dias. Terminada sua primeira e meteórica exibição pública ao piano, juntou-se a nós na plateia para babar diante das amigas, que, com seus dedinhos ágeis, tocaram lindamente melodias mais complexas. Amanda eufórica aplaudiu muito a gurizada talentosa e se derreteu diante do coleguinha de sala, de cinco anos, que também se aventurou no palco por outros tantos segundos. Depois reclamou da demora e da fome, lógico. Dós e mis não matam a fome de ninguém e por isso tudo acabou em pizza.

Foi exatamente o que vocês estão pensando: uma daquelas noites em que só pais e familiares babões se divertem. E não duvidem: a gente se diverte.  

Parabéns, seu corajoso!


Carteirados e vacinados


Hoje retiramos as carteiras de identidade das crianças na Secretaria de Segurança Pública. Quebrando toda uma tradição duramente construída ao longo dos anos por mim mesma, eles ficaram lindos nas fotos. Mas é verdade que as "assinaturas" roubam a cena e que corujice de mãe e pai não tem limites. "Oh, que assinatura linda!" foi dito e repetido por aqui hoje. 

Depois fomos em bando a família toda ao posto de saúde tomar vacina contra a febre amarela. Ficamos cerca de uma hora por lá. Desse tempo, uns dez minutos foram gastos com a vacinação em si; o resto foi preenchimento de cadastros e carteiras. Não vou reclamar (muito). O posto estava vazio, pareceu-me bem organizado e fomos bem atendidos. Não vou fazer escândalo só porque as duas funcionárias com quem lidamos escrevem de...va...gar. Nem porque as tais fichas de vacina não saem impressas ao invés de serem preenchidas à mão. Ou porque o banheiro não tinha sabonete. Nem papel higiênico na "casinha" que a Amanda escolheu. O que importa é que havia brinquedos que mantiveram as crianças entretidas todo o tempo. E que agora estamos protegidos contra a febre amarela por dez anos, eba.

O processo é quase indolor, mas Amanda garantiu o berreiro por todos nós - mesmo assim enfrentou o medo e tomou sua picadinha. O Arthur nem sentiu, todo lindo. Ainda precisamos validar nossas vacinas no posto da ANVISA para obter o Certificado Internacional de Vacinação, mas já foi um passinho a mais rumo às férias de dezembro. O próximo passo é aprender a usar mais recursos da máquina fotográfica, já que terei modelos especiais e quero acertar nos clicks. ;-)

Ansiosa, eu? Não sei do que vocês estão falando.

Edícula


A sala é clara por causa das janelas amplas com molduras brancas e vidros transparentes. A vista dá para o jardim que é colorido porque o gosto por flores nunca passou. A outra parede, sem janelas, tem um quadro de muitos anos, com moldura restaurada; é um portal, mas poucos sabem disso. Abaixo dele um vaso de pedra abriga as raízes de uma planta robusta que se alimenta da mesma luz que ajuda a desbotar o quadro. Há o recanto do sofá; é verdade que anda gasto, mas ainda não é páreo para as dores antigas de sua dona. Há uma TV que de vez em quando mostra filmes vistos pela metade, abandonados sem culpa em troca de um abraço raro ou uma xícara de café morno nas cadeiras de corda do jardim. Há mais cafés que abraços e, por isso, mais canções. O outro extremo, mais distante das janelas, e por isso mesmo mais secreto e propício a sussurros, guarda o piano marrom. Tem teclas sem pó que ecoam notas distorcidas pelos segredos que recebem dos dedos enrugados dela. E ela sabe que a cada melodia as cores do quadro velho com moldura nova se aproximam mais e mais dos cinzas e marrons do passar do tempo. É uma dama de histórias e por isso no vasto centro da sala clara habita a grande mesa escura. Uma mesa velha, de madeira sulcada, com gavetas. Suas cadeiras são tão pesadas que aquela que fica à cabeceira esquerda sequer é recolhida após o uso. Está sempre à distância certa da mesa, um trono pronto para recebê-la. Passa a maior parte entre o silêncio da mesa e as lembranças cada vez mais difusas que voltam com as notas do piano. Outra canção, menos cor. Outra história e a mesa cresce, escurece. Tudo vai passar. Haverá um tempo em que a TV será doada junto com o sofá. A mesa ainda ficará lá por muito tempo, com sua madeira muito escura e gavetas apinhadas de papéis e rabiscos ininteligíveis. Ficará lá, na sala sem plantas ou fotos, de janelas sujas e paredes quase nuas. Restará apenas uma estranha tela sem cor, emoldurada como se fosse um quadro pronto. Uma tela sem sentido algum, que não dirá nada a ninguém. Muda, como o piano abandonado. 

Um clássico



- Hora do banho!
- AAAHHHHH, NÃÃÃÃOOOO!
- *suspiros*

Todos. Os. Dias. (Tudo bem, nem toooodos os dias. Umas seis vezes por semana, só.)

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Minha mãe verificava o umbigo. Se estivesse quente, batata! O banho tinha sido uma farsa e voltávamos para o chuveiro. Tinha aprendido com minha avó e se gabava do método infalível. Nem chego a isso, ainda. Verifico durante o banho mesmo e o umbigo sempre fica frio. Meu método é mais eficiente, acho. 


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Amanda Independente Futebol Clube quer tomar banho sozinha, mas pede ajuda na hora de secar as costas: quer que eu a ajude a segurar a toalha de modo a deslizá-la de um lado para outro. Não consegue e se torce toda, numa dancinha maluca, acho fofo. 

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Minha estratégia consiste em dizer que vão pro banho com ou sem reclamação, para evidenciar a perda de tempo e latim. Mas parece haver muito tempo e muito latim. E pouca paciência. 

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A bucha é colorida, o sabonete é cheiroso, o chuveiro é forte e o tapete é de peixinho. Que mais esse povo quer? 


Moon river


Imagine um poço raso, com água fresquinha. Quem bebe de sua água percebe que a aparente falta de profundidade esconde outros veios que o conectam a uma rede sem fim de água boa. É preciso beber da água, ou, ao menos, tocar sua superfície, para perceber.

Horas treinando, no teclado, os exercícios de minha aula de piano. Poupo os ouvidos dos vizinhos e dos familiares tocando com fones de ouvido e vivo momentos secretos daquela alegria quase, quase clandestina. Aquela que vem dos recantos que carrego aqui. Quem não traz dentro de si esses poços? Parecem rasos, mas é só ousar tocar a água se dar conta da infinitude. Tenho alegrias que ninguém suspeita e a música parece conhecer o caminho. 

Eu tocaria para minha mãe e acho que ela gostaria de ouvir essas melodias simples de aluna iniciante. E brinco disso. De fones, somos só nós duas. Finjo que a água é tão profunda que segue por veios que perfuram o tempo e a vejo sorrindo, coruja, sem perceber meus erros grosseiros, meus dedos confusos, as notas trocadas.

Chama-se ausência. E hoje veio travestida de serenidade, que a dor também passeia por águas calmas. 

Old dream maker
you heart breaker
wherever you're going
I'm going your way.  

(Musical) treats


O finado Halloween foi um ótimo pretexto para inaugurar loucamente a minha mais nova paixonite no quesito coisinhas de cozinha. Como não comprei antes as forminhas de silicone? Sou mesmo devagar, não tô falando? Na linha antes tarde do que nunca agora faço muffins sem cortar os dedos nas velhas forminhas de alumínio com bordas afiadas que sempre se mostravam na hora de lavar, obrigada.


Embalados, ficaram assim:



Minhas bruxas eram as mais assustadoras.




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Certo dia eu estava na casa de minha amiga lá na Pensilvânia, arrumando uma bolsa para pegar a estrada no dia seguinte. Iríamos para não sei que cidade daqueles lados ver um show do Cake. O ingresso estava comprado há algum tempo, quando ainda estávamos no Brasil e soubemos que eles tocariam por ali. Estávamos animadíssimos, os cinco: Ulisses, eu, minha amiga, o marido dela e o Arthur (este último, dentro da minha barriga). No momento em que eu botava uma blusa de frio na bolsa ouvi o marido de minha amiga dizer "Guys!" e fui ver o que ele queria. Ele havia acabado de descobrir que o show tinha sido adiado. Para uma data em que já estaríamos de volta ao Brasil. Suspiros.

Ontem ficamos sabendo que o Cake virá a Sampa em março de 2013 (não pela primeira vez). O resto vocês podem deduzir. Ou não, se não souberem o quanto gosto dessa banda e da voz de seu vocalista. A Voz. Já aprendi que não sabemos o dia de amanhã, para o bem e para o mal. Então, né, canja de galinha. Mas se aquele apocalipse prometido para dezembro não acontecer, grande chance. Ou se a banda não adiar o show, né, lógico.

 
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