"...the vast blue eye of the sea"


Depois de três meses em alto mar, cheguei. Terminei hoje a leitura de Moby Dick. Eu tinha minhas expectativas, especialmente pelos comentários da Fal, mas é claro que não sabia exatamente o que encontraria nas 846 páginas do arquivo digital que li. Foi muito mais do que eu esperava, em vários aspectos: muito mais tecnicalidades, muito mais detalhes, muito mais poesia. A prosa às vezes hipnótica de Melville também me rendeu por dias com um incômodo bloqueio: eu não conseguia escrever nada, nothing, rien, niente. Li alguns capítulos entre envolvida e chateada porque não contava com aquele efeito silenciador do livro em mim. Como se eu não devesse ousar tentar juntar três palavras que fossem e enfeiar o mundo. Moby Dick tem frases perfeitas. É meio humilhante. 

Quem nos conta a história é Ishmael, anos depois dos fatos que descreve. Ishmael, que sempre recorre ao mar "quando se faz Novembro em sua alma"*, é um experiente baleeiro que se junta à tripulação do navio Pequod, comandado pelo capitão Ahab. A missão do Pequod é caçar a temida baleia Moby Dick, um cachalote com fama de invencível e que já teria vitimado incontáveis homens do mar como Ahab e Ishmael. A caçada empreendida por Ahab tem contornos especiais, contudo: não seria seu primeiro encontro com Moby Dick; o que ele pretende, na verdade, é se vingar do animal  que arrancou uma de suas pernas no primeiro confronto entre os dois. Ahab sabe que reconhecerá a fera, já que ela carrega em seu enorme corpo as marcas das muitas batalhas que já venceu. E isso naturalmente dá o tom de pelo menos uma camada do romance: é uma história louca. Um homem conduz uma equipe pelos mares do mundo à caça de uma baleia que ele reconhecerá e de quem se vingará da agressão que sofrera enquanto tentava matá-la. Ao mesmo tempo, é no absurdo dessa trama que reside parte da sedução de Moby Dick: uma grande aventura que flerta com a insanidade, atiça nossa imaginação (aquela mesma das histórias fantásticas da infância) e brinca com nossos objetivos e limites. 

Herman Melville era, digamos, prolixo. Ele gostava de contar. Em detalhes. Os mínimos. Não é à toa que o livro é grande também na quantidade de páginas. Cada detalhe (juro) da pesca da baleia, na forma como era praticada no século XIX, é descrito minuciosamente - um whale author, para usar suas palavras. O leitor consegue uma imagem muito nítida da trabalheira insana que aqueles homens do mar encaravam para que boa parte da população do mundo tivesse óleo para iluminar suas casas. Mas não é só isso. Além de inúmeros capítulos (são 135 ao todo) dedicados às partes do navio baleeiro, aos mecanismos utilizados para içar a baleia morta, para retirar sua gordura, o óleo e o espermacete (substância usada na fabricação de cosméticos), para armazenar tudo; além dos capítulos que descrevem cada centímetro da operação de descida dos barcos, lançamentos dos arpões, todo tipo de cordoamento envolvido na magnífica operação de captura dos imensos animais; além dos capítulos que nos contam sobre as centenas de tubarões que cercavam o cadáver e de como eles acompanhavam por dias o navio; além de tudo isso e muito mais sobre a pesca da baleia, há os muitos e muitos capítulos sobre... a baleia. 

Melville incluiu um capítulo sobre o esqueleto da baleia. Um sobre sua cauda. Outro sobre o sistema auditivo. Sobre os olhos. Sobre a respiração. A boca. Os estudos anatômicos acadêmicos conhecidos na época. As divergências sobre o tamanho da baleia. A cabeça. O cérebro. Baleias, minha gente. Tudo sempre descrito com muita propriedade (o próprio Melville embarcou diversas vezes em navios baleeiros mundo afora) e com sua prosa indefectível. Mas é muita baleia. 

Para mim, o livro teve três "momentos". O início, arrebatador: a linguagem de Melville é cativante. Suas frases são... boas, muito boas. A gente lê e tudo soa lindo. A história começa fluente, convidativa. Ishmael nos deixa curiosos, sua vida parece misteriosa, seu destino, grande. Logo no início da trama ele encontra Queequeg com quem embarcará na caçada a Moby Dick. Li por aí que o relacionamento dos dois levantou muito debate, que haveria algo "estranho" na amizade dos dois marinheiros. Achei curioso, pois para mim é indubitável que Ishmael e Queequeg formam um casal apaixonado e até entendo que o assunto tenha causada celeuma no século XIX, mas hoje em dia? Sério? Diga-se, de passagem, que não há mulheres em Moby Dick. Enfim, os primeiros capítulos do livro são devoráveis em grandes porções.

O segundo momento do livro para mim é formado pelos muitos capítulos sobre as tais tecnicalidades de que falei. Ainda que não comprometam o prazer da leitura (são todos bem escritos, tudo muito bem encaixado na trama, as caçadas às baleias são incríveis, ocorrem encontros com outros navios, momentos tensos entre a tripulação, etc.), a certa altura comecei e me perguntar onde está Moby Dick, please?

Aí vem a parte final do livro. Quando o bicho pega pra valer, se é que vocês me entendem, senti-me como quando ouço certas sinfonias longas que terminam de forma grandiosa: a gente já gosta da música toda, mas ainda há aquele final arrebatador, aqueles instrumentos todos conversando ao mesmo tempo e montando uma combinação vibrante que nos faz suspirar "nossa, que música linda". Moby Dick é uma música linda e seu final tem estrofes inesquecíveis. Algumas frases li repetidas vezes, em voz alta, pelo simples prazer de ouvi-las. Esse é, de longe, o ponto forte do livro para mim: a linguagem de Melville. A trama é louca, Ahab é louco. Mas o oceano nunca foi tão grandioso, nem tão poético. 

Adorei ter lido. Obrigada, Fal.  

* "Whenever I find myself growing grim about the mouth; whenever it is a damp drizzly November in my soul; (...) I quietly take to the ship."

Vários pingos


No banheiro do shopping center Amanda observou a descarga que oferece duas opções de quantidade de água utilizada. A diferença é indicada pelos desenhos nos dois botões de acionamento: um pingo para menor quantidade de água, vários pingos para maior quantidade. Amanda, que acabara de fazer o número 1, olhou e decidiu:

- Esse aqui com muitos pingos, porque meu xixi não teve um pingo só.

:-)

Feita com muito esmero


Minha cozinha é aberta, sem paredes que a isolem da sala ao lado. É certamente um dos pontos de que mais gosto em minha casa. A comunicação visual entre sala de jantar, sala de estar e cozinha, quase transformando tudo em um ambiente único, torna o lugar mais desarmado, mais amplo, deixa a luz passear; os cheiros do fogão estão sempre ao alcance do nariz. A luz se espalha e faz de minha casa um lugar claro e isso é outra coisa de que gosto muito, foi mesmo o motivo que me fez cair de amores por ela cerca de cinco anos atrás. Gosto muito de morar aqui, gosto do bairro, da rua, da sala, do escritório, do quintal. E da cozinha aberta, cercada de espaços visíveis por todos os lados. Quem entra em minha casa logo vê a morada dos biscoitos.

Quando a compramos tinha sido construída há dois anos. Seu primeiro proprietário aceitou nosso apartamento no negócio e mudou-se para lá deixando uma gata para trás. Os caminhões das mudanças se cruzaram no caminho e cheguei com marido, filho e barrigão. O primeiro cachorro viria semanas depois, a gata sumiria em seguida; meses depois nasceria a Amanda. Mas eu falava da cozinha, de onde vejo as coisas. Ao longo desses cinco anos fomos aos poucos transformando nossa casa, as paredes, as cores. E fomos também acumulando coisas para consertar. A persiana da sala, os pontos de luz da bancada da cozinha, a mancha no teto, o varal da lateral, o tapete que o cachorro mastigou, as almofadas das cadeiras da churrasqueira que o cachorro comeu, os porta-retratos que nunca troquei, as velhas cadeiras da mesa redonda que ainda estão por aqui, o interfone que segue quebrado, o pedaço de chão onde mora a palmeira que sempre enlameia quando chove, a TV para filmes na "sala de trás" que nunca chegou, o suporte da cortina do escritório que se arrebentou, o spot de luz do meu quarto, o cesto do banheiro lá de cima que precisa ser trocado, o corrimão descascado. A casa que se gasta. Não sei o que é, mas algo no ângulo de onde vejo a persiana da sala quando estou na cozinha sempre me faz pensar nas pendências espalhadas pelos outros cômodos. Aí eles descem pela escada fazendo ruído. Meus filhos.

Meus filhos estão crescendo nessa casa um pouco gasta que tem a cara da infância deles. Eu tive duas casas em minha infância (ou pelo menos duas que ficaram em mim) e muitas de minhas memórias têm o contorno das paredes e estantes de lá. Meus filhos têm esta que pretendo manter por sei lá quanto tempo e me pergunto como ela habitará a memória deles no futuro. Porque para mim a poltrona que hoje vive no escritório é a poltrona onde eles foram amamentados, mas para eles talvez venha a ser a cadeira de balanço que eles escalavam para alcançar os livros e DVDs e por isso levavam bronca. O corrimão descascado da escada para eles é a montanha proibida. A sala de trás, de que gosto muito e nunca acabo de arrumar, dá medo à noite, eu sei. O lavabo, para mim, tem uma bancada que insiste em juntar água, bem irritante; para eles é um lugar com muitos gibis. Eu sei como é. A goiabeira de minha antiga casa era um portal para mim. Para minha mãe, que mandou cortá-la, era um incômodo, motivo de desavenças com o vizinho. O xodó da Amanda é a pitangueira - da calçada do vizinho, diga-se. O do Arthur é a sala, seu reino. 

Gosto de ter o pé no mundo e no fim paredes são só paredes; em certa medida, contudo, os papéis se invertem e nossa casa mora um pouco dentro da gente. É por gostar de minha casa que eu a queria arrumadinha, sem persiana despencada. Mas algo nas prioridades atuais me parece muito certo e tenho investido mais em arrumar malas do que em arrumar salas. E no fim das contas minha vida se parece com minha casa: é cheia de gente, confortável sem ser perfeita, com pendências eternamente adiadas e certo grau de desordem que é o que deixa espaço para os saltos. É também cheia de luz porque gosto de ambientes claros, dentro e fora de mim, com poucas paredes para que eu tenha ao menos a chance de ver um tiquinho mais longe, sempre. 

Dos quadros que se formam


Diálogo no filme O Caçador de Pipas:

- Você precisa dar um jeito nesse menino.
Pausa. O interlocutor responde:
- Uma criança não é um desenho que a gente pinta com as cores que quer.

Quero pensar na beleza que há nisso.

Sweet cupcakes


Há mais de um mês comprei uma cupcake surpresa pensando no aniversário da Amanda e guardei no armário. Faltando poucos dias para o aniversário ela me pediu uma de presente. Yes! Prometi procurar a boneca, fiz suspense e cara de paisagem. Ela adorou quando abriu o pacote, deu pulinhos de alegria. 





Tchan-ans!




Uma amiga presenteou a Amanda com outras duas; e a vovó tratou de providenciar o restante da coleção (ela gostou mais da boneca do que a própria Amanda, vão por mim). Agora o quarto da minha filha tem cheiro de baunilha. A carinha é a de sempre, "faltou imaginação" para os cabelos e a cor da pele, mas são lindinhas demais. Fofice do final de semana.





Tic tac


As semanas sempre passam rápido desde que me lembro. É quase um mantra falar que o tempo voa, é o hino da nossa era. A gente fala e nem sabe mais se lamenta, exatamente. Se faço algo que aprecio e os dias escorrem como areia fina, o lamento vem acompanhado de certa leveza: tá passando rápido, mas é isso aí, estou aproveitando da melhor forma que conheço. Se, por outro lado, o tempo some enquanto faço coisas que preferiria não fazer (oi, Bartleby, tudo bem?), aí o incômodo aumenta. A frase "ainda bem qua passa rápido" quase em nada mitiga a péssima sensação de horas desperdiçadas. 

A noção de desperdício, claro, é algo muito relativo. Dormir para mim não é desperdício. Nem bater papo. Ou jogar Clue no tapete. Há um céu infinito de coisas que se encaixam na categoria ócio que transfiro mentalmente para a categoria "aproveitar a vida". Porque no fim das contas aquela afirmação não sei de quem de que a vida é o que acontece enquanto fazemos planos faz muito sentido. Então deitar no sofá e acompanhar a brincadeira do passarinho pela janela é aproveitar a vida pra mim. Só lamento que eu tenha tido cada vez menos esta sensação durante as horas que dedico ao trabalho. Pra você ver. Li em algum lugar que eu deveria estar me sentindo bem por contribuir para o bem comum e zzzzzzzzzz. Talvez amanhã. Ou na semana em que uma reestruturação bem planejada em meu meio profissional me devolva a fé que eu deveria ter na relevância da minha função. Mas esse é um papo TÃO chato que vou poupá-los.

Enfim. Tenho oscilado entre a leveza do prazer pelo tempo rápido-delícia e o lamento pelo tempo-rápido-o-que-cargas-d'água-ando-fazendo-que-não-vejo-a-semana-passar. Tenho me dividido entre tarefas que escolhi para mim e outras que me foram temporariamente impostas. Virei aluna de novo em um curso de especialização à distância. Parte do material do curso é até bem interessante, mas não escolhi fazer, não estou "no clima". E o esforço despendido para tornar minha participação minimamente relevante faz com que eu me sinta uma fraude. Porque o curso não está em mim, ele não ocupa meus pensamentos nos momentos em que não preciso pensar nele. Bem diferente das aulas de francês ou de piano que, essas sim, têm permeado minhas semanas com momentos generosos daquela sensação boa de tempo-delícia.

Hoje de manhã meus filhos queriam pintar uma caixinha de papelão. Não havia tempo (meu pensamento automático), faltavam apenas 15 minutos para o almoço corrido de meio de semana. Mas algum neurônio mais alerta me cutucou e, ora, vamos ver o que fazemos em tão pouco tempo. Montei o circo e eles executaram por pouco mais de dez minutos a primeira etapa de algo que, suspeito, vai ficar uma graça. A tinta já deve ter secado e logo eles vão continuar a "obra". Ainda bem que cedi, já que este foi o momento mais colorido de meu dia. É preciso ficar alerta - a vida passa muito rápido.

High five!


Você é mais ou menos assim: 


gosta de feijão com arroz, farofa, carne, purê de batatas com cenoura, tomate picadinho, tomate grandinho, tomate-cereja, tomate. Gosta de morango também, misturado com o feijão;

gosta de banana em rodelinhas, cereal com iogurte, presunto enroladinho, leite com Nescau, maçã, ameixa, mexerica, pêra; mas nem olha para o coitado do mamão, a manga ou o abacaxi; minhas rabanadas, antes ignoradas, agora fazem sucesso com você;

você é o que chamamos de chocólatra; e sorvetólatra; e sucólatra;

você come de-va-gar;

recentemente você decidiu aceitar minha sugestão de levantar da cama quando acorda ao invés de gritar "papaaaai!"; gostei da mudança, gosto quando você chega em nosso quarto, toda grandinha e cheia de "bons dias" sonoros;

até alguns dias atrás você reclamava quando tinha que lavar o cabelo; de um dia para o outro você decidiu que lavar o cabelo é algo legal e passou a reclamar quando não precisa lavar o cabelo. Você gosta de reclamar sobre lavar ou não o cabelo; passadas as reclamações, você canta no banho, sem parar;

Você gosta de fazer poses.

você largou o balé quando descobriu que ele exigia disciplina demais; você gostava das coreografias, mas sempre sentia dores esquisitas durante o alongamento, anote aí;

você adora as aulas de natação e suas braçadas descoordenadas formam uma linda coreografia; deixemos o balé para mais tarde, ou não (eu acho que você vai gostar mesmo é do judô);

(Toda orgulhosa com o primeiro "diploma" da natação.)

você começou a ler recentemente e agora escreve bilhetes pela casa; o de hoje é para a vovó e transcrevo aqui: "quando xega ésas barbes você pode couprar ésass barbes"; então você gosta de bonecas, apesar de elas não serem, pelo menos por enquanto, suas favoritas; e eu nem saberia por onde começar a lista de suas brincadeiras favoritas, mas ela certamente incluiria mergulhar em seu mundo imaginário, que deve ser lindo e colorido, e falar por horas com seus amigos invisíveis, exatamente como eu fazia em minha infância; mas é preciso dizer que eles não são páreo para seu irmão, seu companheiro favorito de aventuras pela sala, seu parceiro tudo de bom com quem você divide sua infância, aquecendo meu coração todos os dias;


você adora vestidos. Adora. Via de regra, você se irrita quando precisa usar calças. Ou mesmo saias. Seu negócio é rodopiar com vestidos lisos ou floridos, longos ou curtos. E por isso você adora o verão, já que escapa de meus longos argumentos sobre o frio e as pernas cobertas; preciso ser justa e dizer que ultimamente você tem aceitado bem os shorts das pedaladas e até a calça do uniforme escolar em dias mais frios, mas você sempre dá uma conferida antes: "posso ir de vestido"?

você adora seu cabelo cacheado e sempre confere depois do banho, com os fios ainda úmidos, se os cachos já voltaram: você se torce toda para olhar o cabelo no espelho e às vezes fica um pouco preocupada, mas eles sempre voltam, meu amor;


você adora seus amigos, fala sempre deles e se derrete toda em carinho e suspiros; você se sente feliz no meio deles e eu acho que eles gostam muito de você; você faz "grandes amizades", acho tão lindo;

você tem uma memória incrível e se lembra de coisas de quando era bem pequena, exatamente como seu irmão; acho que todas as crianças são assim, na verdade, acho o máximo; e de vez em quando você comenta daquele passeio de quando tinha dois ou três anos. E diz que quer morar em Paris quando crescer e eu não tenho nada contra;

você nunca se esqueceu da Monalisa e sempre que alguém fala em Leonardo Da Vinci, você diz: "ele fez a Monalisa", né?"

você adora bichos, de todos os modelos e tamanhos; "ai que fofo" serve para cachorrinhos peludos e hipopótamos bocudos, besouros cascudos e formigões;

você é brava e reclamona, doce e sorridente, chorona e carinhosa, teimosa e companheira, charmosa e birrenta; tudo junto, às vezes, num espaço de dez minutos; você experimenta o mundo a partir de vários ângulos, hahaha;

você é tão linda que às vezes seu pai e eu trocamos olhares de puro encantamento; já vi lagriminhas nos olhos dele, sabe; e às vezes tudo que você faz é nos contar aquela história incrível do momento em que você viu o amigo derrubar o lanche; a história nem tem nada demais, mas algo no jeito entusiasmado com que você descreve a cena, balançando os bracinhos, arregalando os olhinhos muito azuis, movendo sua boquinha vermelha e buscando expressões muito precisas para descrever sua história, ah, Amanda, algo em você nos inebria; essa coisa que é você, sabe, essa luzinha que você tem; a gente ama muito;

Há dias você faz contagem regressiva. Chegou a hora de "encher uma mãozinha", como você diz. Cinco anos, minha flor. Cinco anos. Nessa festa tem de tudo um pouco, você sabe. Tem um pouco de susto porque o tempo passa rápido e tenho medo de não aproveitar tudo que posso com você. Tem melancolia, minha pequena, porque Vovó Berna não está vendo você crescer e se transformar nessa menina tão linda. Tem nossa alegria sem fim por festejar sua existência que torna nossas vidas tão mais ricas, festejar o privilégio de sermos seus companheiros nessa viagem incrível. E tem um dia inteirinho para você brincar e se sentir o que você realmente é, especial. No início da noite você vai poder abraçar seus amiguinhos e brincar com eles, como você tanto quer. E bem linda, de vestido e tudo.

Feliz aniversário, minha menina. Vou tomar emprestado sua declaração de amor preferida e devolver assim: sabe o quanto eu te amo? Amo você do tamanho de uma formiga que atravessou o universo dez vezes! :-)




De Sol em Sol


Meu primeiro equívoco ao iniciar minha brincadeira com as aulas de piano foi associar a nota da pauta ao dedo da mão que a executa no teclado. Foi só a professora me apresentar a um dedilhado diferente para eu perceber a tolice que estava fazendo. O que eu tinha "aprendido" deixou de me servir. Então passei a estudar direito e a tentar enxergar nas teclas, não nos dedos, cada uma das notas. Lidando com duas claves, Sol e Fá, uma para cada uma das mãos, tenho despertado vários neurônios adormecidos. E tenho vibrado com cada melodia que consigo executar, por mais simples que ela seja. É mais ou menos o mesmo tipo de prazer que sinto ao entender frases em uma canção que me é apresentada pelo professor de francês. Entender uma nova língua, aprender a tocar um instrumento, conseguir fazer aquele pão ou simplesmente fazer uma trança perfeita no cabelo da filha: não há nada como a velha sensação de que o mundo é uma espiral infinita de belezas por descobrir. Aceito o convite, muita grata.

O luthier de histórias


Aos 14 anos Ulisses ganhou de seu pai o primeiro violão Di Giorgio. O gosto pela música se manteve desde sempre e vieram outros violões e guitarras, pedais, pedaleiras e toda uma parafernália destinada à produção de barulho. Muitos anos e algumas bandas depois, o velho primeiro violão continua na área. Combalido pelo uso, o instrumento recebeu tratamento recente. Tratamento VIP. 

A indicação veio da escola de música onde atualmente Arthur e eu fazemos aula de piano: um bom luthier? Sim, conhecemos, o Sr. Antonio, rua tal. Ulisses foi lá. E depois me convidou para ir com ele buscar o violão recuperado. Eu fui.

Entrar na oficina do luthier Antônio foi como dar um passinho para dentro da História. O cenário é de contos, de história antiga. A alguns passos da calçada, em uma rua discreta no centro de Florianópolis, está a "oficina do tempo de Noé", como a descreve seu dono. Um desinformado que passa pelo portão sombreado por um buganviile florido não faz ideia do tesouro que se esconde depois dos primeiros degraus. O imóvel contém a oficina do luthier e, nos fundos, sua casa. Não sei com quem ele mora, mas vi uma senhora varrendo a entrada da casa, dois cachorros e um gato. Fomos recebido por um pincher gasguito e pela voz rouca do senhor de 80 anos que consertara o primeiro violão do Ulisses: entrem, entrem, podem vir, é mansinho.


Fui entrando e pedindo licença. Acho que falei meia dúzia de palavras e depois ouvi, por sei lá quanto tempo, muita história. E sei que se houvesse mais tempo teria ouvido muitas outras. Um luthier que trabalha em oficina do tempo de Noé, minha gente, tem muita história pra contar. Eu ouvi. Ouvi que o Sr. Antônio herdou o ofício de carpinteiro e luthier de seu pai, imigrante português. Que seu trabalho já atravessou o mesmo oceano que seu pai cruzou tanto tempo atrás e alcançou reconhecimento de músicos conceituados e maestros mundo afora. Que seus brinquedos, feitos no maquinário velho que me encantou por horas, divertem crianças no Brasil e na Europa - seus olhos brilham e sua voz embarga um pouco de vez em quando à medida que descreve o alcance mágico daqueles piões e biboquês de sua infância. Oitenta anos, inúmeros piões fabricados, mas o encantamento ainda está ali - bem do jeitinho com que Ulisses ainda preza por seu velho violão.

As paredes têm a obra e o reconhecimento:





Seu Antônio gosta de conversar e não esconde a satisfação que o reconhecimento de seu trabalho lhe causa. E ele me pareceu muito merecedor das honras que recebe. Enquanto sua voz rouca narrava histórias sobre encomendas inusitadas, instrumentos preciosos e clientes insuspeitos, tentei absorver a beleza daquela oficina apinhada de instrumentos musicais - inteiros ou aos pedaços -, brinquedos de madeira, ferramentas aos milhares, máquinas que acredito serem centenárias, pinos, parafusos, madeira. Cantinhos de uma vida inteira dedicada à confecção de instrumentos musicais e brinquedos. Um vida dedicada à alegria. O primeiro passo de algumas danças e a gritaria de alguns meninos em várias partes do mundo nasceram das mãos de Seu Antônio.

A caixa de brinquedos exportada para a Europa, menina dos olhos do Seu Antônio.

Seu Antônio trabalha na companhia de seus bichos que logo se acostumaram com nossa presença e vieram em busca dos pratinhos de ração, ali, entre um instrumento e outro. Em outro recanto, uma cadeira a mais. Sempre vazia, aparentemente sobrando, não é para as visitas. É para São José, o outro carpinteiro que, segundo a fé desse empolgado contador de histórias, está sempre ali, ajudando um tiquinho.


Depois de história, mais história. O cliente alemão com história trágica, o violino raro e valioso, o pranto da pequena garota com o violino quebrado, o outro de oito cordas. Seu Antônio conversa e  diante de meu olhar curioso em torno de tantos objetos garante que nada em sua oficina está ali por acaso. Cada máquina ou ferramenta tem sua função, cada pecinha terá seu destino. Que bom que é assim.






Ulisses aprovou o trabalho em seu primeiro violão que agora espera cordas novas. Acho que seu pai vai gostar de saber. E eu, claro, vou gostar ainda mais das canções vinda do instrumento consertado pelo bom e velho luthier contador de histórias. Que trabalha como se morasse dentro de uma.


***

Saí de lá com um presente de Seu Antônio. Um pequeno brinquedo com o qual só brinca quem descobre seu segredo - que ele nos revelou. Agora Ulisses e eu andamos enlouquecendo as crianças que, por enquanto, olham intrigadas para o pequeno objeto que parece mágico. Seu Antônio me falou o nome do brinquedo, mas é claro que me esqueci. Quem sabe qualquer dia desses volto lá para perguntar e ouvir mais algumas histórias no ateliê do tempo de Noé.



Primaverices


Um amigo nosso visitou recentemente sua família em Rondônia e voltou de lá com um Dourado e um Pintado. A churrasqueira de nossa casa foi eleita para o preparo dos peixosos. A terça-feira virou sexta e a sobremesa improvisada foi bolo ultrarrápido com sorvete. O sabor marcante dos peixes; a mesa cheia de gente; o bolo que quase deu errado, mas deu certo; o jogo no tapete da sala; o texto que eu devia ter lido, mas não li; o vinho argentino; a gripe chegando; a pia de louça. Se você ainda não experimentou um Dourado na brasa, deveria providenciar com urgência um amigo com parentes em Rondônia.

***

Todo ano é a mesma coisa. Setembro chega e eu fico de olho no ipê da calçada. E todo ano ele me diz "ainda não". Nada de flor, as novas folhas já me desiludiram outra vez. *suspiro*


***

Certa está a Amanda, que investe no amor-perfeito.

E já traz flores na roupa, por garantia.


Independence Day


Ontem à noite Ulisses e eu vimos Super 8 pela segunda vez. Gosto de muita coisa naquele filme, mas meu coração se derrete mesmo é por aquela turma de amigos com infância a la anos 80, inventando moda e andando de bike pra lá e pra cá. Eu não andei de bike pra lá e pra cá em minha infância, mas via muitas crianças pela rua curtindo uma liberdade que eu almejava demais. Quando aprendi a pedalar, já era uma adolescente quase adulta. A sensação de poder foi tanta que sou verdadeiramente grata até hoje ao meu primo que me emprestou a bike, me empurrou pela estrada de chão do sítio de meu tio e acreditou que eu conseguiria. 

Ulisses e eu também acreditamos, claro. Mas Arthur, aos 7 anos (hum, que idade boa para abandonar as rodinhas de apoio e começar as pedaladas pra valer...), relutou um monte e desistiu nas primeiras tentativas. Duvidou que superaria o inevitável desequilíbrio dos primeiros momentos sem as rodinhas. Não insistimos muito. Mantivemos o assunto na pauta, oferecemos ajuda, mostramos que estávamos prontos para torcer e empurrar/segurar/equilibrar - e deixamos que o chamado viesse. Ele veio hoje, bem no dia em que eu estava com a imagem dos guris do Super 8 na cabeça. E agora dia 8 de setembro é o dia da independência do Arthur.

Que tentou...





... até conseguir.





A manhã de sábado teve ainda Amanda se preparando para as Olimpíadas.

(Com rodinhas, por enquanto...)



E Floquinho esbanjando charme e virando xodó de metade das crianças do parque.

 Com a vovó.

Cansado de tanta muvuca.

E gavião.


E aquela sensação maravilhosa de superação. De conquista. De infância. Parabéns, meu amor.  Bons voos!




O Horto



Quando me mudei para Floripa passei uns dias hospedada na casa de um primo que fazia mestrado na UFSC. Depois de muitos telefonemas e classificados de jornal, minha amiga e eu encontramos um apartamento que cabia no nosso orçamento e nos mudamos, gratas demais pela hospedagem inicial. Nosso novo endereço era próximo à Universidade e todo mobiliado. Os móveis eram velhos, o apartamento era frio e úmido, tudo mofava, mas tava bom. Para quem passaria os próximos anos com a cara enterrada em textos e livros, não havia necessidade de mais. 

Em frente ao apartamento ficava o horto florestal de Florianópolis, um lugar aparentemente agradável para caminhadas no meio do mato, mas que, infelizmente, estava fechado por tempo indeterminado. Alguém nos contou que o motivo do fechamento fora a queda de um velho eucalipto que tinha atingindo de forma fatal um homem e seu filho. Sempre que eu passava pelo horto e lia a placa de "fechado" pensava na tal história trágica da árvore caída e me perguntava se eles voltariam a abrir o parque. Quando finalmente o horto foi reaberto, sete anos depois do acidente, eu não morava mais no apartamento úmido e mofado. Até fiz algumas visitas ao parque nos anos que se seguiram, mas nunca aproveitei como certamente teria feito se ele estivesse aberto na época em que fazia parte de meu caminho diário entre a universidade e minha casa. 

Hoje voltamos lá com as crianças, fugindo da preguiça que nos impediria de curtir o sol maravilhoso que coloriu o feriado. O lugar cheio de bichos, com suas pequenas trilhas bem amigáveis e parquinho com picolé foi saboreado com gosto pelas crianças. Filhotes de tartaruga, patinhos, coelhos, porquinhos da Índia, jabutis, muitos "oh, que fofo". O jacaré bonachão e a garça, os saguis que quase ninguém viu e algumas árvores grandonas enfeitaram nosso dia. E agora a gente pode se entregar à preguiça, tal qual o jacaré no lago. 

 Amanda e as tartaruguinhas.


A graça da Dona Garça.

Seu Jabuti lanchando. ("Viu, Amanda, ele come todo o verdinho.")

 Seu Jacaré curtindo o feriado.

Senhora Paineira.

E Senhor Pinheiro, lindão.

Porquinho da Índia fofucho.

O rabo do sagui que só eu vi.

Pra mim, uma trilha pequena. Para as crianças, uma trilha de aventureiros. É isso aí.

 
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