Planos e bichos, muitos bichos


O Net Geo Wild está bombando aqui em casa, é o canal queridinho do momento. A moda agora é ver mabecos e hienas. Os espantos são muitos, mas os deslumbres também; tem selvageria, mas não falta encantamento. Os diálogos das crianças andam permeados de dados sobre o habitat dos abutres, num minuto, e a fofice dos filhotes de leão, no seguinte. 

O motivo por trás da bicholândia é um só: estamos planejando, animadíssimos, um curto período de férias na África do Sul, no final do ano. É só no final do ano, mas a julgar pelo entusiasmo das crianças (só das crianças, sei), parece que já vamos partir. Mesmo com toda a euforia, acho bom o tempo que ainda nos separa da viagem, teremos meses para planejar tudo com cuidado e selecionar os passeios que nos pareçam mais interessantes (e viáveis). Há tanta coisa a decidir que acredito mesmo que o assunto vai render por cada um dos 103 dias que ainda nos separam do embarque - viram, estou contando os dias. :-D

Conhecemos alguns amigos que já estiveram por lá, estudando inglês ou passando férias, e os relatos nos deixam na maior animação. Mas só teremos cerca de dez dias para conhecer o que der, então precisamos ser seletivos. Os safáris são o principal atrativo, o assunto que arregala os olhos das crianças e me faz sonhar com rinocerontes, vejam só. Mas há muito mais que isso, segundo nos conta quem já visitou Cape Town e se derrama em elogios pela bela cidade. Nossos planos atuais são começar a viagem por uma reserva para os safáris (que normalmente integram os pacotes dos hotéis da região) e só depois seguir para o extremo sul do país. A reserva escolhida inicialmente era a que fica no maior parque do país, o Krueger National Park, mas a malária que ronda a região, especialmente nos meses de verão, alterou nossos planos. Por ora, o escolhido é o Pilanesberg National Park. De lá devemos seguir para Cape Town, na segunda metade de nosso passeio.

De certa forma, nossa viagem já começou. Perceberam, né? Esse blog ainda vai ficar selvagem.

Here, there, everywhere


Planejar uma boa viagem está na minha lista das top five coisinhas boas da vida. Reservar passagens, hospedagem, pechinchar, pesquisar sobre comidas e costumes do lugar, planejar passeios, botar pilha na garotada, hum, é tudo bom. Gosto tanto que entro na vibe mesmo quando a aventura não me pertence. A amiga me conta que tá indo e eu meio que tô indo junto. Sou companheira de viagem, nem que seja só na empolgação. Ou na torcida. 

Não sei o que há na água que minhas amigas virtuais estão bebendo, mas tá todo mundo arrumando as malas. Já combinei com o Ulisses que vamos cuidar de tudo por aqui, varrer as praias e apagar as luzes, porque tá todo mundo indo embora. Chamo de "virtuais" porque as conheci pela rede, mas a verdade é que já abracei quase todas e agora gostaria de poder abraçar de novo, para desejar boa viagem. Uma está indo para terras francesas acompanhar o marido em um pós-doutorado e também tocar projetos suculentos dos quais certamente receberemos boas notícias depois. A outra vai cruzar o oceano para seu próprio doutorado em Portugal e por quatro anos o Brasil terá menos risadas rasgadas que só ela tem. Ela não mora aqui em Floripa, mas sua partida me deixa saudosa como se normalmente eu a visse todos os dias. A outra vai de vez, talvez. Vai morar na Inglaterra, com o amor a tiracolo, aventurar-se em uma vida quase que inteirinha nova. Daqui sei que quem cruzar o caminho dessas garotas do lado de lá do mar tem um tanto bom de sorte.

O bom da rede, eu sei, é que meu contato com elas provavelmente permanecerá da mesma maneira. No entanto fica no ar um gostinho de saudade, lá se vão para bem longe três das melhores pessoas que essa blogosfera me apresentou. Vou segui-las de pertinho, elas sabem, vibrando com tanta reviravolta que essas meninas estão experimentando - porque são todas viagens cheias de ótimas expectativas. São também ótimos motivos para que eu mesma planeje uma visitinha nazoropa de vez em quando, se der. E mesmo que não role de eu vê-las por lá, tudo certo, porque já estou mesmo viajando um pouco com elas, na delas, torcendo por elas. Boa sorte, meninas, boa viagem. 

Memórias de um sábado barulhento


Ontem levamos as crianças para jogar "futebol". Num primeiro momento, apenas os papais se misturaram ao fuzuê. Nós, mamães, disfarçamos por alguns minutos, fingimos interesse em outras conversas, mas logo entramos no jogo também. Revelamos talentos, fizemos gol e chutamos o ar como ninguém. Descobri meu jeito todo especial de perder gols imperdíveis e me diverti demais. Da série nunca diga desta água não beberei: jogar pelada  no fim de semana é um troço bom.

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Depois do futebol, almoço em bando e minha casa invadida por crianças a tarde inteira. À certa altura, Ulisses falou que estava gostando bem da ideia de ter mais crianças ali na mesa, na hora do lanche, aquela barulheira incrível. Falei que com cinco ou seis filhos eu nem me importaria mais com nomes, todos receberiam um número e só: 1 já comeu, 2 e 3 querem suco, 4 e 5 não estão com fome. Eu não teria mais neurônios para gravar nomes. Meu pai teve dez irmãos. Acho que é conversa fiada, ninguém sobreviveria, né. Deve ser papo. :-)

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Brincamos de Stop!. Recentemente ressuscitamos a brincadeira que tantas vezes salvava tardes de tédio em minha infância. Eu estava só esperando a Amandinha aprender a escrever para poder brincar junto. Categorias escolhidas, dedos para definir a letra da rodada e todo mundo se esforçando para lembrar nomes de frutas com a letra N, animal com V, filme com S. Quem nunca?

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Hoje sou uma pessoa com dor nas pernas. E agora Arthur e eu curtimos o Net Geo Wild assim: "oba, Carcaju, outro animal com C!". Minha vida. 


Intouchables


Fui uma das últimas pessoas a saber que a Mostra Varilux de Cinema Francês estava rolando também aqui em Floripa, não tinha lido sobre os filmes, não sabia em que salas estavam sendo exibidos. Vi várias pessoas conhecidas mencionando Intouchables no twitter e no Facebook como sendo um dos favoritos dentre os que elas tinham visto e só. Ontem no trabalho um colega me passou um panfleto da Mostra, vi que já era o último dia e que Intouchables seria exibido na última sessão do festival em uma sala de cinema perto de minha casa. 

Marido aceitou o convite e comentou que seríamos os únicos na sala do pequeno "cinema" (um auditório, na verdade) que costuma exibir filmes fora do circuito comercial (descobrimos isso ontem, nem conhecíamos a tal sala). Assim que chegamos vimos que ele estava equivocado. Estacionamento disputado, fila na entrada, sala lotada. Ficamos alguns minutos na "lista de espera" e só entramos porque concordamos pagar meia-entrada para ver o filme sentados no chão. Que bom que entramos. (Quem não viu certamente terá a chance de fazê-lo em breve, ouvi comentários de que o filme entrará em cartaz fora do festival nas próximas semanas.)

Intouchables fala basicamente de amizade. Conta a história verídica de dois amigos vindos de backgrounds completamente distintos que se conheceram em uma entrevista de emprego. Suas vidas se cruzam quando um está em busca da negativa que lhe garantiria acesso ao seguro desemprego, enquanto o outro procura um assistente bem qualificado. Durante a entrevista, a exigência por qualificação muda de patamar e o desempregado muda de planos. O que segue é aprendizado, risadas e algumas lagriminhas. Há elementos na trama que poderiam facilmente levar o filme às raias do drama-superdrama, mas Intouchables passa bem longe disso e acho que vale uma espiada. Se sentada no chão nem vi o tempo passar, imagine você, confortavelmente instalado/a? ;-)

Update reflexivo: Intouchables tem estereótipos e piadinhas infames, mas não chegam a comprometer o filme, ou pelo menos não em um primeiro momento (estou aqui pensando no filme, como vocês podem ver).

O dia em que vi uma baleia. Mais ou menos.


Sempre imaginei que ver de perto uma baleia seria um troço emocionante e inesquecível.

Todo esse papo em torno das baleias em Moby Dick me fez relembrar um episódio que vivi aqui em Floripa alguns anos atrás. Logo que me mudei para cá, e lá se vão  13 anos, passei a cogitar um passeio de barco para avistar baleias na época em que as belezuras se aproximam da costa catarinense. Os anos se passaram, até agora nenhuma baleia abanou o rabo pra mim e continuo vendo as beldades pela TV como quando morava no Nordeste. Tuuudo bem. Eis que um belo dia uma pobre gigante encalhou e acabou morrendo em uma praia da ilha. Uma operação relativamente complexa foi montada, com alguma morosidade, para retirada do imenso cadáver da areia e fazer sabe-se lá o quê com o que restou da coitada. Pois bem. Era a minha chance, tchan-ans! Quem não tem baleia viva exibindo a cauda, vai de baleia morta. Isso foi horrível, mas vocês me entenderam. Eu queria ver o bicho gigante de perto. Vivo seria melhor, mas... Enfim.

Ideia ruim de verdade a gente divide com os amigos, que é pra isso que eles existem. É claro que eu não fui sozinha, mas acompanhada de umas cinco ou seis pobres almas que tiveram o azar de atender o telefone naquela manhã de domingo. (Detalhe: pensando nisso agora, estou na dúvida se a ideia não partiu, na verdade, de minha amiga e eu aceitei o convite; mas isso pode ser só um recurso gerado pela culpa para eu me sentir melhor.) E lá fomos nós ver a baleia morta na praia. Que ficava longe. Bem longe. Sem acesso de carro. :-) 

A informação que tínhamos dava conta de que a baleia havia encalhado em uma praia "vizinha à praia do Moçambique". Naquela época, Moçambique era uma praia que eu frequentava de vez em quando nos dias em que queria sol sem muita muvuca. Pode ser considerada uma praia "mais afastada", mas não é o fim do mundo. Vamos. Deveríamos ter apurado melhor o que estavam chamando de praia "vizinha". Moçambique era na verdade o ponto final dos carros, o ponto de partida para a caminhada que nos levaria ao cadáver cetáceo (cadáver cetáceo é coisa de quem tá lendo Moby Dick, relevem). Uma caminhada longa, bem longa. De horas. Sob o sol. Ô gente, estou vendo a inveja de vocês daqui. 

Tudo valeria a pena se a gente chegasse à tal praia e desse de cara com uma baleia como a conhecemos. Percebam, contudo, que a notícia da morte da coitada circulara durante toda a semana. Estamos, portanto, falando de um gigante que havia morrido há vários dias. Deveríamos ter preparado nossa visão para certo grau de decepção. E, principalmente, deveríamos ter preparado nosso olfato. Porque, queridas e queridos, o que vimos foi bem decepcionante, mas não foi nada comparado ao que sentimos. Ao fim da longa e cansativa caminhada, apreciamos um imenso monte de geleia branca, uma montanha de gordura disforme que tanto poderia ser de uma baleia como de uma lesma gigante. E "apreciamos" por cinco segundos, o tempo que conseguimos suportar em meio ao odor nauseabundo que já sentíamos desde metade da caminhada e que até hoje me pergunto como não bastou para que desistíssemos da ideia de jerico de seguir em frente. 

O cheiro da baleia morta e podre impregnou minhas roupas e meus sapatos, fez com que eu sentisse nojo de mim mesma, penetrou em minhas veias e cérebro. O desconforto pelo fedor durou dias porque a memória do mau cheiro fazia meus pensamentos federem também. Esfreguei o par de tênis que usei até meus braços quase caírem de cansaço e o cheiro não sumia. Acreditem em mim: é um troço insuportável. Sabe peixe podre no lixo? Fichinha. 

E assim se encerrou meu único contato com uma baleia. Foi, sem dúvida, emocionante. E eu nunca vou me esquecer. 


Dos festejos equivocados


Não sei detalhes porque não vi nem a notícia na internet. Não vi noticiário ou li qualquer coisa a respeito. Mas basicamente, parece que houve um assalto a mão armada em um mercado de minha cidade. A polícia foi acionada, chegou a tempo e matou o assaltante com um tiro nas costas. O assaltante estava armado, segundo fiquei sabendo. Tinha dezesseis anos, também segundo meu informante. É só o que sei.

Não vivo no país das maravilhas. Acho bom manter a capacidade de vibrar com piados de coruja, mas não estou tão anestesiada que não tenha certo grau de noção, mínimo que seja, sobre o mundo que me cerca para além da calçada. Então não precisa me lembrar de que o buraco é mais embaixo, estou sabendo. Ainda assim.

Ainda assim, não vejo motivos para se festejar um acontecimento como esse. Não há nada bom nessa história, sabe. Há uma rede muito longa de falhas e lamentos que poderíamos desfilar ao se falar do caso. Não há motivos para comemoração, por qualquer ângulo que se escolha para examinar o que ocorreu. É tudo lamentável. Que o assalto tenha ocorrido, que o garoto tivesse uma longa ficha policial, é dolorido isso. É muito triste que sua vida tenha se encerrado com um tiro nas costas. É só triste. 

Não me leve a mal, cara. Não é pessoal. Mas procure outra pessoa com quem festejar uma notícia assim, porque eu escuto e fico triste e acho sua alegria muito esquisita. 

Dos dias comuns


Houve um tempo em que abrir o diário e não ter o que escrever me deixava angustiada. Meu diário fechado com cadeado devia ter coisas importantes, afinal. Era algo secreto e segredo que se preza é valioso. Infelizmente para o grande mundo secreto dos segredos valiosos não eram raras as noites em que não havia muito a registrar. Nenhum menino me lançara um sorriso na escola, nenhuma amiga havia ido estudar em minha casa, nada acontecera. Eu então preenchia as poucas linhas do dia com frases doloridas como "hoje foi um dia comum" ou "escola, casa, nada diferente", fechava o cadeado, guardava o diário na gaveta e apagava o quebra-luz. Nos sonhos, a esperança de que o dia seguinte me presentearia com episódios importantíssimos, dignos de nota em letra bonita.

Não tenho mais lamentado os dias comuns, não nos últimos anos. Meus diários, se sua existência tivesse se espichado aos dias de hoje, agora viveriam abarrotados de letras atropelando-se para marcar na página tanto acontecimento. Com dois filhos, pfff, haja caneta, querido diário, haja caneta. Isso sem contar que compartilho os dias com aquele menino que me sorriu na faculdade, haja caneta.

A verdade é que a quantidade de poesia que preenche nossos dias, se prestássemos atenção, poderia nos deixar mudos e boquiabertos. Todos os dias. Talvez seja bom mesmo, tanta desatenção. Ou não? De vez em quando, contudo, a poesia fala tão alto que se faz inevitável: cabelos assanhados, pão quentinho, cachorro cochilando na escada, uma mão afagando minhas costas enquanto ligo a cafeteira. Meus diários poderiam ter guardado muito mais, hoje sei. Muito mais. "Dia comum" é coisa enorme, eu que não sabia.

Há ainda poemas por aí. Ou frases felizes como essa que um amigo compartilhou hoje na rede: 

"Temos que entender que tempo não é dinheiro. Essa é uma brutalidade que o capitalismo faz como se o capitalismo fosse o senhor do tempo. Tempo não é dinheiro. Tempo é o tecido da nossa vida".

Tempo é o tecido da nossa vida, nota mental em caneta de tinta firme. E como se fosse pouco, fiz rabanada no café da manhã e os piados anunciam que temos de novo corujas em nossa rua. Eu diria assim: querido diário, veja que maravilha, meu dia hoje foi bem comum. 

Falta de noção canina


Temos dois cachorros, Roque e Floquinho. Roque é um American Staffordshire, Floquinho é um Lhasa Apso.

Roque tem uma boca de jacaré, um cabeção de leão e um pescoço de hipopótamo. Floquinho é um "tisco", se tosado parece um gato grandinho. Quando Roque come, Amanda, nossa filha de 4 anos (sempre sob nossa supervisão), mexe na comida dele, se ela quiser. Ele se afasta levemente para o lado, para que ela tenha espaço de mexer onde bem entender. Quando Floquinho come e alguém mexe em seu prato, ele rosna e ameaça atacar. Meu marido encara e retira o prato, faz o cachorro esperar. Dois segundo depois repete a experiência e o folgado rosna de novo. E de novo, sempre. 

Ou seja, vou comprar um espelho pra cada um. (Pensando bem, só pro Floquinho.)

Check list da alegria


Amanda, quatro-anos-quase-cinco:

A.- Mamãe, minha escola é tão legal, né?
Eu - Ah, eu acho bem linda.
A.- É. E tem tanta coisa legal. No seu trabalho não é legal, né?
Eu - É diferente...
A.- Você não tem parquinho, né?
Eu - Não, não tenho parquinho lá, não.
A.- Nem aula de artes...
Eu - Não...
A.- Nem hora do lanche?
Eu - Ah, isso tem, eu levo lan...
A.- Mas não é no pátio, né?
Eu - Não, não tem pátio lá...
A.- É... e você também não tem muitos amigos.
Eu - Ah, eu tenho amigos, mas não aquele tantão que você tem na escola.
A.- Viu? Só um pouquinho de amigos, né? E você não tem recreação.
Eu - Não.
A. - Não tem hora da história, não pode cantar...

Etc. 

Bom, a essas alturas ela afagava meu cabelo enquanto sua cabeça pendia um pouco para o lado e seu olhar era o mais solidário do mundo. Mas o que ela queria mesmo era mostrar que minha vida é um tédio enquanto ela se diverte pra caramba. Deixa ela comigo. Quero ver quando eu for pro cinema e ela tiver que estudar pro vestibular. Rá! ;-)

Ebony and ivory


Com exceção das aulas de canto, não estudei música na escola. Quando tinha uns 17 anos comprei um violão de quinta mão vendido por um amigo que me ensinaria a tocar o instrumento. O violão deve ter pertencido a um hippie em algum momento, já que sua caixa era toda talhada com figuras "cabeça" como uma pirâmide, o símbolo do infinito, o símbolo da paz e umas folhinhas esquisitas. Deve ter custado muito barato, já que eu não tinha mesada, minha renda independente vinha das poucas aulas particulares que dava e paguei com meu dinheiro. Pois bem, só precisei de uma aula para perceber que eu não tinha qualquer talento para a coisa. Notei que eu tinha superestimado minha opinião sobre minhas habilidades com os dedos da mão esquerda. O violão ficou comigo durante muitos anos, sempre encostado na parede do meu quarto à espera de que algum amigo ou amiga prendado/a me visitasse para uma rodinha de som. Dei por encerrada minha carreira musical, tão nova, tadinha.

Quando meu filho começou a estudar música (flauta) no início deste ano passei a frequentar com ele as aulas de prática de conjunto, não como aluna, apenas como acompanhante. Nessas aulas passei a ter contato com alunos de piano, violino, violão ou percussão. O ambiente vibrante dessas aulas (certamente monótono para quem se importa em ouvir a mesma canção executada diversas vezes em pouco tempo) sempre me alegra, é um momento especialmente bom em minhas semanas. Aos poucos fui lamentando cada vez mais não ter experimentado algo além daquele violão maluquete. E estava assim lamentando quando me perguntei "por que não"? O pior que poderia acontecer seria constatar de novo que não tenho jeito pra coisa. E assim me matriculei nas aulas de piano.

Foram três aulas até agora que me deram um repertório de cerca de doze canções simplificadas para começar a brincadeira. Temos em casa um teclado que vivia guardado em um gavetão, herança da última banda de rock do Ulisses, o melhor brinquedo do mundo. Treino no teclado as canções que aprendo no piano da escola e digo feliz que estou me divertindo muito mais do que supunha possível quando me inscrevi no curso. O que eu tinha em mente eram horas de uma dedicação quase tensa, lutando contra minhas limitações. Não estava contando com o método de ensino que funciona e faz tudo parecer fácil ou, no mínimo, prazeroso.

Estou de novo desafiando minhas mãos, feliz por já ter ido além da primeira aula. Estudar as notas, praticar as sequências, repetir até conseguir executar tudo no tempo certo são meus novos passatempos. Não há qualquer pretensão além de tocar para mim mesma em minha sala tendo como plateia as plantas que observam da janela. E isso já basta para que eu olhe à frente e veja anos cada vez mais divertidos. Estou quase saltitante.



Os medos da infância


Ah, os medos da infância. Havia a ideia de que alguma criatura vivia embaixo de minha cama e poderia puxar meu pé durante a noite. Como consequência, eu dormia sempre com os pés encolhidos e bem cobertos. O medo do escuro e suas sombras me levava a cobrir a cabeça na hora de dormir deixando de fora somente olhos, nariz e boca. Não o fazia sempre, meus medos tinham fases e era comum eu me esquecer deles para meses mais tardes experimentá-los outra vez. Tive os medos coletivos, aqueles compartilhados por toda a turma: a loira do banheiro era um clássico da categoria (na verdade eu não tinha medo da loira do banheiro, mas me lembrava dela de vez em quando durante o banho e não era exatamente uma coisa bacana). Tive medos temporários, como o que sentia enquanto lia O Exorcista ou o medo do som da porta do banheiro que, quando deixada entreaberta, batia repetidas vezes e ecoava pela casa durante a madrugada. Desconheço o motivo que impedia um de meus pais de ir lá fechar ou abrir a porta de vez; sei de mim que não ia lá fechar por causa do outro medo, o do escuro. Também experimentei o pavor de achar que minhas bonecas mexeriam a cabeça a qualquer momento, tudo por causa da infeliz ideia de assistir o filme Não Adormeça. Enquanto estava de férias, na casa da prima onde vi o filme, tudo era festa. Passadas as férias e de novo dormindo sozinha em meu quarto, ai ai.  

Fui crescendo e dando jeitinhos. Encarando um quarto escuro aqui e ali, indo à cozinha sozinha no meio da noite beber água, essas coisas. Mas de todos os medos, o mais difícil de ser domado era o medo da fotografia da minha avó materna. Minha mãe mantinha com todo carinho do mundo uma fotografia de sua mãe, que morreu muitos anos antes de eu nascer, na parede da sala principal da casa. A foto é uma ampliação de uma 3x4 e nela minha avó é uma figura muito séria, lábios cerradíssimos e cabelos bem presos, com aquele olhar que me seguia pela casa à medida que eu atravessava a sala. E sempre me seguia porque eu não conseguia passar pela foto com indiferença, sempre dava uma conferida para inevitavelmente constatar que, sim, ela estava me observando. A paz na terra era ter mais gente na sala. Sozinha, contudo, lá vinha o olhar da vovó.

Eu não falava nada a minha mãe em profunda consideração ao fato de que, ora, era a foto da mãe dela. Um dia, contudo, tentei dar um jeitinho. Estávamos arrumando a sala, trocando móveis e quadros de lugar, quando ela pediu uma sugestão para o lugar da foto. Assim como quem não quer nada e morrendo de culpa sugeri que a foto ficasse ali, naquele cantinho. Ela olhou, ponderou e acatou. Com ressalvas, mas acabou concordando. As ressalvas vinham do fato de que a fotografia só ficaria visível caso a porta da sala que dava acesso ao jardim estivesse fechada. Se aberta, a porta a encobriria. E foi assim que tive anos de relativa paz, especialmente nos dias mais quentes quando a porta permanecia aberta quase todo o tempo. 

Andei pensando nesses medos por causa de meu filho de 7 anos que recentemente teve notícias, através dos amigos do colégio, da "existência" da loira do banheiro, da Maria Sangrenta e de sei lá eu quem mais que se ocupa de usar nossos banheiros. Anda meio cismado, evitando ficar sozinho pelos cantos. Nos momentos de bravura ele encara tudo numa boa e o medo desaparece. Vejo tudo com naturalidade porque sei que tive medos iguais, apesar de torcer muito para que ele se livre logo do incômodo. Para ajudá-lo a lidar com os seres do além, hoje meu marido e eu o convidamos a inventar nosso próprio monstrengo. A ideia era mostrar a ele que, assim como o nosso monstro não passa de uma invenção, também o são a Maria Sangrenta e sua turma. Criamos então o terrível Homem dos Olhos de Fogo, que vive nas saboneteiras, tchan-ans!. Todo cuidado é pouco. Resta saber se a coisa vai surtir o efeito desejado ou se ele vai passar a sentir medo de tomar banho. Vamos aguardar. Com a luz acesa.

Dó ré mi, amor-perfeito


Dei um nó nas costas, precisei consultar uma médica e recorrer a remédios. Está tudo bem com a coluna e na falta de explicação melhor tenho uma contratura muscular. E nessa de tomar remédios me dei conta de que o inverno está passando e não tomei antibióticos dessa vez. Zero sinusites ou laringites de repetição. Zero. Deve ser o primeiro inverno em vários anos sem consultas a otorrinos. Até tive resfriados leves, passei alguns dias com a garganta esquisita, mas nada evoluiu a ponto de eu precisar tomar antibióticos. Atribuo a bonança à diminuição significativa no consumo de proteína do leite. Na falta de explicação melhor, tá valendo essa. 

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Comecei minhas aulas de piano. Treino em casa com um teclado. Coitados dos vizinhos. Das crianças, do marido, dos cachorros. Vocês têm muita sorte. (É divertido. Din din don don din din.)

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Ainda estou a bordo do navio que segue à procura de Moby DickViagem longa que está valendo cada página.

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O vaso com sementes de amor-perfeito plantadas por minha filha agora tem várias plantinhas minúsculas espiando o mundo aqui fora. Digo assim: minha filha planta amor. (Não é exatamente o que penso quando ela bate o pé para não tomar banho, mas a licença poética e tal.)

Londres 2012


Pronto, desliguei a TV. Depois de duas semanas grudada na tela sempre que conseguia, agora ouço os silêncios da casa... opa, estou mentindo. Agora ouço apenas o barulho das crianças. Adorei as Olimpíadas, como sempre. Botei despertador para ver o judô, sou dessas. Senti falta de minha mãe, com quem teria trocado telefonemas barulhentos a cada medalha e com quem teria dividido cada fracasso. Ela me informaria sobre a vida dos atletas, a idade com que começaram a treinar, o que gostavam de comer ou qualquer dado curioso que ela descobrisse durante os jogos. Entusiasta dos jogos como eu, ela torcia, vibrava, saía da sala nos momentos de susto.

Não tenho remédio, acredito até o último segundo. Menos no vôlei masculino, porque, né, desanimei no quarto set. Acho que o Bernardinho errou feio no final do terceiro set, mas não compartilho da saraivada de críticas que li depois do jogo. Ele errou hoje, mas tem crédito com o esporte brasileiro para o resto da vida. E que lindo esporte é o vôlei. Gosto da dinâmica do jogo, de saber que tudo pode acontecer e que um set ganho não significa vitória certa (se tivesse dúvidas, hoje elas teriam desaparecido, infelizmente...). 

Acabam as Olimpíadas e fico torcendo muito pelo nosso país,  não só para que tenhamos sucesso na organização dos próximos jogos, mas para que eles sirvam de alavanca para investimentos volumosos nas categorias de base de vários esportes. Todos sabemos do poder da propaganda, não é à toa que tantos meninos querem ser jogadores de futebol. Futebol aparece por aqui, é notícia, contagia. A mesma coisa pode acontecer com outros esportes e assim multiplicar o efeito mágico e revolucionário que podem ter na vida de crianças e jovens brasileiros - as Olimpíadas podem funcionar como um poderoso primeiro passo. Aqui estou, até o último minuto, torcendo para que os benefícios superem em muito os problemas de que certamente teremos notícia.

O diferencial desta Olimpíada para mim foi, além da ausência de minha mãe, a torcida compartilhada no twitter. Foi muito divertido assistir a algumas provas "de mãos dadas" com amigos e amigas virtuais. Vibramos juntos, xingamos juntos, lamentamos juntos. De certa forma, os jogos ficaram maiores assim. Essas Olimpíadas também foram uma espécie de ritual de iniciação de minhas crianças no mundo das torcidas. Arthur se revelou tão sofredor quanto eu em alguns esportes, desinteressado em outros (ainda); Amanda adorou a ginástica rítmica e o hipismo ("ôôô, cavalinho fofoooo!", torcia assim), mas detestou minha torcida nos jogos de vôlei ("ai, mãe, você me assustou, tá gritando muito!"). Sorry, dear.

De quebra, pude espiar Londres, assim rapidinho, pelas lindas imagens das corridas que acompanhei. Cidade mais linda não há. Ou há, mas não faz diferença, ela segue imensa em meu coração

Pra frente. Amanhã tem prova de correria e trânsito ruim, almoço rápido, essas coisas. Tudo sem medalha, mas sujeito a emoções a qualquer momento, como todos os dias. 






O semeador de boas lembranças


De vez em quando me pego pensando como teria sido minha infância se eu tivesse tido um pai como o Ulisses, meu marido. Filha de pai ausente e caladão, nem consigo me imaginar subindo em suas costas enquanto rolamos no tapete; ou ouvindo histórias na hora de dormir contadas em voz grave e ornadas com caras, bocas, efeitos. Minha trajetória com meu pai foi mais silenciosa e tudo ficou um pouco menos confuso depois que cresci e enxerguei algumas coisas por outros ângulos. Então tudo bem. O sentimento que me toma quando olho para o Ulisses com meus filhos e penso em minha própria infância é leve, de achar graça e pensar como é bom uma infância com pai presente, tão presente. Um pai inteiro, sem amarras. Penso nas lembranças lindas que meus filhos terão da infância daqui a alguns anos e sei que ele estará em muitas delas. E isso é muito bom. 

Ulisses recebe muitos "eu te amo", alguns sussurrados no pé do ouvido enquanto duas mãozinhas fofinhas seguram suas bochechas, outros gritados em meio a entusiasmadas brincadeiras. Ele sem dúvida sabe do espaço enorme que ocupa na vida dos pequenos dessa casa, mas a gente não se incomoda nem um pouquinho de repetir. Obrigada, meu amor. Feliz Dia dos Pais, de novo, porque você é muito merecedor dessa comemoração. 

Quer trocar?


Devo ter colecionado três álbuns de figurinas em minha infância, não mais que isso. Dois deles me foram dados por minha tia, apenas um foi comprado por minha mãe que achava toda essa história de figurinhas um buraco sem fundo para gastar dinheiro. Ela tinha razão, mas a dor não era no meu bolso e eu torcia muito por cada novo envelopinho. Não colecionei a grande febre dos anos 80, as figurinhas Amar é..., mas adorava meu álbum Bem Me Quer e as figuras fofinhas da dupla Luluzinha e Bolinha. Ah, mais tarde colecionei também um do grupo Menudo. Lembrem-me de apagar essa última frase. 


Arthur e Amanda estão às voltas com seus respectivos álbuns, uma avó que adora comprar envelopinhos e muitas figurinhas para trocar com amigos. Eu nem disfarço, curto muito essa história e me vejo nos olhos do Arthur como se eu estivesse de novo preenchendo meu próprio álbum, com a diferença de que dessa vez meu bolso também sente. 

Arthur escolheu um com personagens de um site de jogos infantis e Amanda recebeu o da Valente de presente. O dele é cheio de bichos fofinhos com aptidões variadas como pilotar foguetes e fazer biscoitos. O dela é lindo, com a história do filme contadinha do início ao fim, um livrinho que poderá ser lido muitas vezes depois. O resto vocês já sabem, um tanto de figuras repetidas, tudo por um envelope e cofrinhos abertos à caça de moedas. Tudo igual, trinta anos depois.

Os novos tons da estrada


Minha janela também anda com tons de anil esses dias.

É como cortar o cabelo ou experimentar um cor nova nas unhas. Talvez como usar um vestido com motivos florais no início do verão, inaugurar as sandálias leves tão bem vindas depois dos meses de botas. No fundo somos a mesma pessoa, mas nos sentimos em algum nível renovados. Assim está o blog, com sua nova cara. Espero que vocês gostem, pois estou curtindo demais. Mais suave, mais primavera talvez. A estrada é a mesma, quem caminha continua com os mesmos saltos no peito, mas olho e gosto do novo ar de quem, vira e mexe, ensaia uns passinhos de dança. 

O moço da fita k7


Um dia uma amiga do colégio me emprestou uma fita k-7 com músicas do Caetano. Copiei a fita e aquela virou a trilha sonora dos anos que viriam. Virei uma fã daquelas mesmo que existem aos montes por aí. Minhas tardes ao som de Lua e Estrela desenharam parte daqueles anos de planos incríveis. O tempo passou, passei a ouvir outras coisas e Caetano andou falando demais. Mas dentre as memórias das coisas que sei que moldaram quem me tornei depois estão as tardes preguiçosas que eu passava ouvindo Caetano cantar cidades, a lua, quereres. Hoje ele faz setenta e já não o idolatro como antigamente, mas o burburinho em torno de seu aniversário me fez pensar que minha mãe certamente me ligaria para comentar a data. Talvez me perguntasse se ainda me lembro do tanto que o ouvia trancada no quarto. Eu me lembro bem. E por saber que foi tão bom, que era tão apaixonante, que suas canções me soavam tão incríveis, fico feliz pelo aniversário do moço. Um chato, às vezes. Mas, ah, deixa, vai. Há lembranças boas demais, vou me apegar a essas. Caetaneemos, pois. 

As casas tão verde e rosa 
Que vão passando ao nos ver passar 
Os dois lados da janela 
E aquela num tom de azul 
Quase inexistente azul que não há 
Azul que é pura memória de algum lugar


 

Febre boa


Alguns efeitos das Olimpíadas nessa casa são inusitados. Meu filho de sete anos hoje me falou:

- Mãe, você anda assistindo televisão demais, hein.

Um folgado. Fiz cara de paisagem, mas depois usei o argumento imbatível:

- São só duas semanas, a cada quatro anos e...

E ele:

- Mesmo assim...

Aí acabei com o desaforo e mandei calçar os chinelos, onde já se viu.

Estamos imersos no mundo dos esportes, encantados com tanta graça, força, coragem, beleza. Hoje fiquei alguns segundos observando a plástica do salto da russa Yelena Isinbayeva, deliciando-me com a variedade infinita de possibilidades de nossos corpos. Olha o que ela faz. Um balé invertido com pernas para o ar, cabeça para baixo, as costas arqueadas por alguns instantes ultrapassando o sarrafo até que se dê a volta mágica e de repente seu corpo está de novo de frente para o sarrafo. Uau. E lá em cima ela começa a assistir sua queda vitoriosa - ou não. É lindo, um quadro lindo. O que gosto no salto com vara é que o movimento é relativamente lento, permite nosso deleite prolongado. Não que a gente não curta as passadas do Bolt, claro. 

Também estamos amargando nossos lamentos. Desde o início das competições em Londres, hoje foi provavelmente o dia em que vi a derrota que mais lamentei. Eu tinha como certa nossa medalha de ouro no vôlei de praia com Ricardo e Pedro. Mesmo feliz da vida com a incrível apresentação do ginasta Arthur Zanetti, cheguei em casa com cara de tédio por causa da eliminação da dupla de praia. Eu não vi a queda do Diego, um dia depois sequer sabia que ele tinha se apresentado, já que estávamos em trânsito no primeiro sábado dos jogos. Então hoje foi meu dia de "putz!". Um "putz" dito no carro, presos no trânsito, vendo o jogo pela TV do kit multimídia que nunca usamos e que só nos lembramos que estava ali depois que mais da metade da partida já havia se passado. Eu vinha tentando obter os resultados pelo twitter, mas a conexão do celular estava uma vergonha. Ulisses já tinha ligado para a mãe dele para saber do placar e estávamos apelando para o rádio, buscando alguma estação mãe que transmitisse os jogos. Até que de repente Ulisses falou as palavras mágicas: "Meu, esse troço tem TV". Somos mesmo feitos um para o outro. 

Nos próximos dias terei outras partidas para torcer, sofrer e esconder o rosto atrás do travesseiro às seis horas da manhã com medo de ver a bola cair no lado errado da quadra ou a rede errada balançar. Vou ainda almoçar com um olho no peixe e outro no cavalo, vibrar como se vibra em gol de copa. Foi assim hoje com aquela nota inacreditável de nosso ginasta (dei pulos olímpicos incríveis), espero que seja assim nas finais que conseguirmos disputar.

E para que meu filho não ficasse com a sensação de que estava sendo trocado pela TV, sugeri hoje que ao invés de assistir aos jogos, apenas deixássemos a TV ligada ali enquanto desenhávamos alguma coisa. Ele topou. Fez um desenho bem legal e ninguém pode dizer que não tentei mudar de assunto.

Olha, mãe, desenhei o hipismo.




Os tomates e a inércia


O supermercado onde normalmente fazemos nossas compras anda abusando. Não que seja conhecido pelos baixos preços, mas ultimamente tem exagerado na dose. Na semana passada me surpreendi com o preço do tomate: 6,78 reais por quilo. Peguei quatro tomates emergenciais (as coisas andaram meio descontroladas aqui em casa por causa das férias e não fiz as compras pela internet, como de costume) e esperei pelo dia da semana em que o setor de hortifruti faz suas promoções. Acontece que perdi o dia e de novo precisei de mais ingredientes emergenciais na sexta-feira. Na saída do trabalho passei por lá rapidinho e tomei novo susto: uma semana depois, 7,68 por um quilo de tomates. Quase um real de aumento em uma semana sobre um preço já absurdo. Comprei o que precisava e saí lamentando a correria que me impedia de 1) falar com o gerente e 2) comprar em outro lugar (o mercado fica convenientemente ao lado do meu trabalho e é uma mão na roda - e outra no nosso bolso, como se vê). 

Ontem, de novo sem ter feito as compras da semana pela internet, fui lá pensando nas promoções do dia. E havia mesmo promoção, um cartaz avisava: Tomate - De 7,99 por 5,99!! Assim, na cara dura, eles anunciavam uma mentira deslavada, já que no dia anterior eu tinha pago 7,68 por quilo e o tal desconto de 2,00 não passava de uma farsa. Olha. Chamei o gerente do setor que, adivinhem, simplesmente me desmentiu. Assim: não, ontem não estava esse preço que a senhora está dizendo, não senhora. Dava respostas furadas, gaguejava e olhava de lado e batia pé afirmando que eu estava enganada, que o tomate estava sendo vendido por 7,99 há dias. Soltei os cachorros (meio delicadamente, mas soltei) e afirmei que aquilo era uma afronta, bla bla bla etc. 

Não sei o que me espanta mais: o preço do tomate (gente!); o despreparo do gerente do setor que não faz ideia de como se relacionar com os clientes; ou a minha inércia, posto que saí de lá com um pacote de tomates comprados "na promoção" e nem falei com o gerente geral porque estava com pressa outra vez. 

Podem me xingar, mas, por razões óbvias, sem jogar tomates.


Creme de avelã e chocolate feito em casa


De todas as coisas que usamos aqui em casa para passar no pão (manteiga, requeijão, doce de leite, essas coisas), minha filha de quatro anos só aceita uma: Nutella. Costumávamos ter um pote sempre em casa como uma opção para todo mundo e como a única opção para ela. Acontece que tenho me preocupado um pouco com a clara preferência dela pelos doces. Mesmo comendo relativamente bem (comida variada no almoço, frutas todos os dias, zero refrigerantes, por exemplo), se bobearmos ela ferve no doce e decidi suspender a Nutella por um tempo. No fundo eu tinha esperança de que ela passasse a experimentar requeijão ou manteiga, sei lá, mas isso não aconteceu. E agora ela come pão puro. Minha filha. 

Minha preocupação não tem qualquer relação com consumo de calorias, mas com a quantidade de açúcar. Some-se Nutella duas ou três vezes ao dia, leite com achocolatado, biscoitos, sucos, bolos, etc., e no final do dia ela terá consumido açúcar demais. Então ao invés de passar Nutella no pãozinho que ela leva para a escola, por exemplo, prefiro colocar uns dois tabletes de chocolate amargo que ela também adora - mais cacau, menos açúcar (o lanchinho tem outras coisas, mas meu foco aqui é outro). Substituí eventuais biscoitos de chocolate por biscoitos integrais de cacau (ela adora também) e coloco cada vez menos açúcar nos sucos.

Quando comentei com a nutricionista que havia retirado a Nutella do cardápio, ela sugeriu que eu experimentasse a Nutella caseira, supostamente mais saudável que o produto industrializado. Hoje dei uma chance à receita. Devo dizer que o creme de avelã caseiro não resolve a questão da quantidade de açúcar na dieta de minha filha, já que a receita inclui meia xícara de açúcar para uma xícara de avelãs.  Ainda assim acredito que seja uma opção melhor, já que não leva conservantes ou outros "antes" (que o fabricante da Nutella diz que não utiliza, mas eu não acredito). O sabor é praticamente o mesmo do produto que compramos no mercado, mas com uma textura diferente, mais granulosa. Fez sucesso no lanche da tarde de hoje, então preciso tentar a receita com menos açúcar, porque Amanda foi a maior entusiasta da novidade, se é que vocês me entendem. Segue a receita para os formigões de plantão.

Ingredientes

  • 1 xícara de avelãs torradas e sem pele (não precisa se descabelar para tirar toda a pele; tire o que conseguir e siga em frente)
  • 115 gramas de chocolate amargo derretido (usei um com 60% de cacau, meu xodó atual)
  • 2 colheres de cacau em pó (talvez eu use apenas uma colher na próxima vez para poder diminuir o açúcar sem deixar o creme muito amargo)
  • ½ xícara de açúcar refinado (é muito, né? e ainda por cima é refinado, vou diminuir isso aí)
  • ½ colherinha de extrato de baunilha
  • algumas gotas de azeite vegetal (usei azeite de oliva extra virgem)
Modo de preparar

Asse as avelãs por dez minutos, deixe que esfriem e retire a pele. Em um processador triture as avelãs até que virem uma espécie de farinha. Acrescente o chocolate derretido (derreta-o em banho-maria ou no microondas) e os outros ingredientes. A receita que a nutricionista me passou sugere que se adicione mais azeite, se necessário, até que o creme adquira a consistência na Nutella que conhecemos. Devo ter usado uma colher de chá, talvez menos. Não esperei pela consistência "ideal", porque experimentei e achei bom demais do jeito que estava. Pronto, só isso. Coloque em um pote de vidro e guarde na geladeira. Ao contrário do creme de avelã comercial, que dispensa geladeira (sem conservantes, sei), o caseiro precisa ser refrigerado. Não sei quanto tempo dura, conto depois se descobrir. Quer dizer, sei quanto tempo dura aqui em casa, se eu não segurar a Amanda... (Ih, esqueci as fotos; aguardem e confiem.)

Update: no dia seguinte, o creme refrigerado amanheceu endurecido. 30 segundos no microondas devolveram a consistência original. :-)

O baú de histórias


A quantidade absurda de estímulos vindos de toda parte leva a criançada a ler cada vez mais cedo - é a impressão que tenho. Não sei se isso é bom, ruim ou indiferente. O que sei é que a gente deixa rolar e diz sim quando a pequena de quatro anos inverte o jogo e se oferece para contar a história da hora de dormir. Silábica, descabelada e linda. O irmão, todo orgulhoso (que fofa, mãe!), dá dicas e minutos antes da filmagem estava encolhido ao lado dela no cantinho de leitura mais legal que há.




Esse é o Ulisses deixando a infância de nossos filhos mais valiosa a cada dia e dizendo sim para a fantástica ideia de ler dentro do baú. 
 

Geografias


O judoca da Coreia tem KOR no kimono. Amanda:

- Olha, mãe, ele é do Corinthians.

***

Em João Pessoa: 

- Mamãe, por que você não trouxe minha fantasia de abelha e deixou lá no Brasil?

***

Arthur e eu lamentamos o ponto do jogador russo de vôlei.

Arthur e eu: - Aaaahhh!!
Amanda: - Ponto do Brasil?
Arthur: - Não, da Rússia.
Amanda: - É a capital do Brasil?
Arthur: - Nãão.
Amanda: - Então é Paris?
Arthur: - Não!
Amanda: - Itália?
Arthur: Nãuô! É Brasília!
Amanda: - Quem tá jogando é Brasília?
Arthur: Aiiiiiiiiii....

***

Brasil e Montenegro se pegaram no Handebol.

Arthur: - Onde fica Montenegro?
Eu: - Vamos olhar no mapa depois? É na Europa.
Amanda, animada: - Eu quero ir lá! Quantos aviões pega?

***

A gente até tem outros assuntos, mas confesso que até competição de esgrima eu acompanho. E hoje pela primeira vez na vida vi um VT de um jogo cujo resultado eu já conhecia. Daqui a pouco mais de uma semana volto ao normal.

 
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