Melville e os pequenos torcedores


Alguns autores que leio despertam em mim uma vontade quase incontrolável de escrever. Largo o livro, normalmente quando termino a leitura, e venho correndo para o computador escrever coisas que ninguém vai ler. Às vezes o surto dura dias, semanas, às vezes meses. Sinto vontade de escrever assim como de comer ou dormir, necessidade mesmo. Isso em nenhum grau quer dizer que eu escreva algo digno de nota, não significa necessariamente que eu tenha talento. Também sinto vontade de pintar e não tenho qualquer talento para a coisa. Com a escrita, contudo, é como se logo ali estivesse a chave para a alegria ininterrupta. Procurar palavras, a busca sem fim, poderia me entreter por duas vidas.

Há autores, contudo, que me calam. Leio e as palavras parecem inalcançáveis. Nenhuma das duas situações reflete meu juízo de valor sobre as obras. Há livros que amo e me inspiram, outros que amo e me dão um branco total radiante. Este tem sido o caso com Moby Dick. Não me sinto capaz de escrever uma frase minimamente interessante após ler um capítulo escrito por Melville. Algo em seu bom humor, suspeito, não me permite arriscar nada: qualquer coisa soaria sem graça demais. Algo em sua fluência escancara meus tropeços. À primeira vista, pode parecer comparação simples e sem sentido; no entanto, não é bem isso. A leitura é um componente da escrita, ajuda a compor cada linha que criamos, então falo de causa e efeito, não de comparações estapafúrdias. 

Tenho gostado muito do livro, mas torço para que ele não acabe com um de meus passatempos favoritos. :-) Sai pra lá, Melville.

***

Arthur e Amanda brincam, aprontam, brigam, fazem as pazes. Vira e mexe, dão uma olhada nas Olimpíadas. E torcem. E como torcem. Vejo dois futuros sofredores. Arthur vibra a cada ponto do vôlei, lamenta cada saque na rede. "E isso lá é hora de errar saque??!", reclama, indignado. Invade o banheiro durante meu banho para me dizer, eufórico, que a Coreia do Norte ganhou no tiro de arco por um ponto, yeah! Almoça com os olhos grudados nos ginastas e, de boca cheia, não deixa ninguém comer em paz: "Olha isso!!". 

Amanda conta nos dedinhos a pontuação do set decisivo do vôlei. 20 para o Brasil, 22 para as adversárias. "Só dois, mamãe!!". Mas não dá, perdemos o jogo. Arthur lamenta. Ela consola: 

- É só fingir que foi a gente que ganhou, Arthuuuur!!!


Da volta


As férias curtíssimas chegaram ao fim e o balanço é positivo. Ontem quando voltamos para casa Ulisses e eu, como dois bons velhinhos, festejamos como é bom estar em nossa casa, nosso sofá, nossos travesseiros. Uns caras-de-pau é o que somos, porque metade de nosso tempo é gasto com planos de andanças por aí. Ou por aqui. Mas é muito bom ter um porto, como não? Para mim é tão valioso partir com malas cheias de expectativas como voltar com boas lembranças. Talvez por estar numa fase da minha vida em que as crianças ocupam um espaço enorme, voltar para casa tem gosto de abrigo e cara de pantufas e é muito bom. Lembro-me bem de quando voltar tinha cara de monotonia; também me lembro das voltas que mudaram planos e rumos para sempre. Por ora, volto para o lar mesmo. 

Regressamos com duas crianças relembrando as brincadeiras com os primos e a praia fora de estação. Confesso que sinto uma pontinha de alegria especial quando vejo meu filhote todo feliz por ter passado alguns dias em minha antiga casa. Ele não sabe disso, mas é um carinho imenso que ele me faz. "Sabia que aquele era o meu quintal?" "Jura??!" "Sim." "Uau..." E, claro, acho graça, porque o quintal (aparentemente) não tem nada demais, mas eu sei do que ele está falando. Amanda falou sozinha e imaginou cenários no mesmo lugar em que eu o fazia. Só se eu fosse feita de pedra a cena não me tocaria.

Agora temos um só assunto, Olimpíadas. Hoje vimos ginastas voando e acho o programa mais legal do mundo. Sou bem facinha.


Vento e sorte


Primeiro: Achei que tivesse deixado minha máquina fotográfica em casa. Não deixei. Deixei no banco de trás do táxi.

Mas: Normalmente vamos ao aeroporto com o mesmo taxista.

Então: Liguei pra ele. Uma passageira do táxi avisou que havia uma bolsa no banco de trás. Ele guardou nossa máquina. 

Moral: Sou uma cabeça-de-vento com sorte.



A casa onde eu sempre morei


Em certa medida é assim: um pedaço difuso de mim nunca se mudou. Ontem visitei a casa. Meu tio agora mora lá.

Bom demais ver Arthur e Amanda tão entrosados com os primos, filhos de meus primos com quem também dividi parte da infância. Durante dois dias correram e gritaram sem parar pelo quintal que foi o meu quintal, jogaram e brincaram de tudo e se despediram com carinhas de quem queriam mais, muito mais. Vendo Arthur no carro na volta para João Pessoa, carinha de tristeza por se separar dos primos, pensei em como era mesmo tão triste o último dia de cada período de férias "nos meus tempos". Mas como era bom saber que meses depois tudo seria bagunça outra vez. Só para dar uma ideia do furdunço, Amanda hoje brincou de se pendurar em um varal de roupas. À certa altura, os pés do Arthur ficaram tão pretos que ele mesmo se assombrou: "nossa!". Pega-pega, esconde-esconde, uma variação de mamãe-filhinhos em que Amanda botou ordem em todos, detetive, pique-congela e sei lá mais o quê, tudo com muitos decibéis. Houve primo matando aula para brincar e cabelos tão emaranhados que achei que jamais conseguiria pentear. E planos de férias futuras, mais longas e com mais bagunça.

A casa cheia com seu ar para sempre vazio. A ausência de minha mãe é algo que quase consigo tocar com minhas mãos. Ou seria a presença? A presença dela em vários cantos. Minha tristeza por ver a beleza que ela não está vendo, seus netos brincando com os netos de seu irmão, crianças de quem ela também era um pouco avó. Seu túmulo tem margaridas e muita melancolia. Ao lado, o túmulo de Tia Maria. Cada visita que faço a essa cidade aperta tanto meu peito. Tanto. Minha saudade tem esquinas e salas muito bem desenhadas em minha memória e revê-las é resgatar dores. Ao mesmo tempo é também abraçar pessoas que se parecem com ela, que têm histórias com ela, que olham pra mim e se lembram dela. A vida vai por aí.

***

Os junhos da minha década de oitenta tinha sábados de canjicada. Meu pai trazia espigas de milho da feira local e em nosso quintal retirava a palha que mais tarde cobriria as pamonhas; a etapa seguinte, a retirada dos cabelos do milho, era minha tarefa. Durante todo o dia, mamãe, Tia Maria, eu e nossa cozinheira nos misturávamos na cozinha moendo grãos de milho, peneirando em grandes peneiras de palha (que chamávamos de arupemba), temperando, mexendo caldeirões gigantes com colheres de pau e, finalmente, no jantar, servindo travessas de canjica amarelinha temperada com canela (eu nem dava bola para as pamonhas, sempre fui canjiqueira). 

Ontem, quando cheguei por lá, uma bacia de espigas de milho me esperava no mesmo quintal. Minha prima e eu retiramos os cabelos do milho, dividi o moinho com o filho do primo que um dia me ensinou a andar de bicicleta, vi a esposa de meu tio temperar aquela maravilha com leite, sal e açúcar e mexi, num revezamento bem bagunçado com minha prima, o primeiro caldeirão de canjica em mais de vinte anos, a primeira canjica que mexi sem ter sido preparada por minha mãe.

Canjica boa é a que "dá corte". A nossa deu. A substância cremosa adquire uma consistência mais firme à medida que esfria. Para nós, a perfeição tem forma de fatias temperadas com canela e o auge da felicidade é comê-las no café da manhã do dia seguinte (gosto da canjica gelada, inclusive), com café quentinho. Obrigada, gente. Adorei. 

O moinho.

 
A arupemba.

O caldeirão.

A alegria.

Raspar o caldeirão é tradição. Fui atender a porta e quando voltei os esfomeados já tinham acabado com tudo. Aff.

Vem, gente.

The day after.

***

Estamos de volta a João Pessoa para os últimos dias de nossas curtas férias. As Olimpíadas já estão na área e vamos ver tudo, ou tudo que der. Eu ia reclamar de não ter marcado as férias para as semanas dos jogos, mas não posso reclamar de nadinha. Considero um luxo poder passar as férias das crianças com elas. De longe, estou no lucro. Mas vou torcer, chorar e contar medalhas, que sou dessas.

Malas erradas, coisas esquecidas, férias velozes, Jogos Vorazes


Algo trava em meu cérebro e não consigo arrumar malas adequadamente para uma estação que não seja aquela em que me encontro no momento da arrumação da mala. Traduzindo: em Florianópolis, com meias grossas, moletom e encolhida de frio eu simplesmente não tinha coragem de botar na mala apenas roupas leves. Meu cérebro não deixava. Fiz um esforço enorme e coloquei algumas camisetas leves para o Arthur e uns dois vestidinhos para a Amanda (cada um acompanhado de uma meia-calça e uma blusa de mangas compridas por garantia). No momento em que pus os pés no aeroporto de João Pessoa pensei na mala das crianças cheias de blusinhas quentes. 28 graus. Sou gênia. Nem parece que morei por essas bandas por mais de duas décadas. Um dia eu aprendo, não percam a fé.

***

A geladeira do avô das crianças tem frutas picadinhas e caixas de chocolates lotadas. Que infância, não?

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Ainda em Floripa: para não correr o risco de esquecer nada, tomei providências. Na véspera da viagem deixei tudo arrumadinho para evitar correria na hora de sair para o aeroporto, até os anéis que eu queria usar na viagem deixei separados, ao lado do relógio. Pus o carregador do i-pad (valiosa peça em tempos de i-books) dentro da bolsa da máquina fotográfica para evitar sustos. E lá, no mesmo lugar em que foram colocados, ficaram. Já no avião dei por falta da máquina, viajei sem relógio (bom, férias) e vieram só os dedos, nada de anéis. Quando a carga restante da bateria do i-pad acabar, não haverá Moby Dick, nem o livro que o Ulisses está lendo, nem eventuais jogos para os pequenos. Todo mundo curtindo a paisagem. Férias. Eu trouxe a cabeça porque esta ainda fica em cima do pescoço. Só me restou ligar para a pessoa que ficou em nossa casa e pedir que guardasse tudo, por favor.

***

Viajamos com duas crianças, mas, olha, nem parece. Tranquilidade total. Conexão tranquila no Galeão, voos suaves, lanche razoável (que devorei como se fosse um banquete, estava faminta) e leitura descansada. Agarrei-me a Jogos Vorazes (Suzanne Collins, Ed. Rocco, Tradução de Alexandre D'Elia) e concluí a leitura agora há pouco depois que as crianças dormiram, já vestida em meu pijama quente demais para a noite morna. Então. 

De tanto o povo falar, fiquei curiosa. Não fazia ideia de que se tratava de "literatura juvenil" (é assim que se chama?). Só me dei conta quando peguei o livro, que ganhei de presente de aniversário, e vi o selo da "Rocco Jovens Leitores". Naturalmente, a informação diminuiu bastante o grau de ansiedade diante da obra. Some-se a isso o fato de eu estar lendo também outro livro com apelo muito mais forte (pra mim, claro), é natural que minha relação com Jogos Vorazes tenha começado cambaleante. Dito isso, foi bem divertido. 

A história se passa num futuro desanimador, ambientada no que restou da América do Norte após uma série de desastres ambientais e guerras por sobrevivência terem quase aniquilado o continente. O que restou passou a se chamar Panem, um conjunto de treze distritos unidos em torno de uma Capital. Um levante dos distritos, conhecido com Dias Escuros, teria levado à destruição de um deles. Os doze distritos restantes passaram a viver sob o jugo da Capital que mantinha os moradores em uma espécie de escravidão, com racionamento de todo tipo de recursos e outras restrições severas. Para celebrar o poder da Capital e lembrar a todos que a rebelião não deveria se repetir, foram criados os Jogos Vorazes. Uma vez por ano, cada distrito é obrigado a enviar um casal de representantes para participar dos jogos que consistem, basicamente, em uma matança transmitida em tempo real pela TV. Somente um representante pode sobreviver e os  jogos duram até que os outros 23 estejam mortos.

Quem narra a história é Katniss, moradora do Distrito 12, o mais miserável de todos. A proposta do livro me pareceu interessante por várias razões, mas senti falta de profundidade em várias descrições (resoluções simples para situações de muito suspense tendem a frustrar expectativas) e acho que vários personagens poderiam ser bem mais explorados (alguns participantes dos jogos me deram a impressão de que teriam um papel bem maior na história, o que nem sempre se confirmou). Por outro lado, há personagens cativantes também e quem leu sabe que a pequena Rue está na lista deles. Além disso, a espetacularização da tragédia, uma população inteira torcendo por jovens que se matam em uma arena montada para transformá-los em bestas desvairadas, a crítica que a autora propõe quando aborda o papel crucial da mídia na manutenção do poder e do sistema são elementos muito bons na história. Ao mesmo tempo, a trajetória de alguns personagens, que prometem, mas não se mantêm interessantes, deixa no ar a sensação de tudo poderia ser bem mais rico do que é. Daí me lembro que o livro mira num público mais jovem, leitores adolescentes, talvez, e me pergunto se a autora não quis mesmo pegar leve. Certamente quis, acredito. No fim das contas,  gostaria de ler uma versão para maiores. :-) Há muito pano pra manga. Um futuro sombrio em um planeta semidestruído onde tudo sucumbe, menos a eterna mania de poder, o autoritarismo sem medidas da Capital, não parecem um prato pronto para um bom livro de ficção? Jogos Vorazes tenta e, em certa medida, até que se sai muito bem. E agora quero saber como nos outros dois livros da trilogia Suzanne Collins explora estes aspectos que ela aponta no primeiro livro. E ainda que o livro não seja excelente, pode ser uma boa pedida para longas horas de voo e uma noite morna de férias. E rende um tanto bom de papo legal. Férias. 


Duas viagens


Temos férias e Ulisses tem saudades do pai. Vamos ao Nordeste. 

Ir lá nos últimos tempos tem sido uma viagem com dois roteiros. Vou com eles e vou sozinha. De um lado, paisagem de férias. Do outro, meu peito encolhido. Durante muitos anos ir ao Nordeste foi sinônimo de visitar minha mãe. Acho que, em alguma medida, nunca vai deixar de ser assim. Faço malas, dou telefonemas, planejo visitas. No momento em que puser os pés na cidade onde ela me criou, sei que meu peito ficará suspenso e vou ver coisas que ninguém mais vê. De certa forma, viver é um troço solitário.



Valentia cacheada


(Possíveis spoilers)

Eu estava tão ansiosa para ver Valente que antecipei a ida ao cinema com medo de que algum evento do final de semana me impedisse de ver o filme. Que bom que fui porque gostei muito do que vi: Merida, uma princesa sem frescuras, uma heroína feminista aberta ao aprendizado e disposta a construir seu próprio destino numa fábula com encantamentos, ursos e bruxa. 

Temi pelo enredo à certa altura, parecia haver ursos demais na história, mas tudo se costurou direitinho. Também temi no momento em que Merida parecia prestes a deixar sua liberdade escorrer pelas mãos. Felizmente, a mãe/rainha em Valente não é substituída pela madrasta malvada, tampouco é ausente ou invisível como nos acostumamos a ver em tantas histórias. O que vemos é o  oposto disso, uma mãe que se junta à protagonista em valentia e o faz lindamente. O resultado é uma troca em que ambas saem no lucro. Merida é decidida, teimosa, rebelde; mas também se dá conta quando precisa voltar atrás e consertar seus erros. Ao mesmo tempo, a personalidade forte da filha dá à mãe a chance de revisitar velhos hábitos e, juntas, as duas tomam as rédeas da história. Bonito de ver.

Valente é uma história linda sobre a relação mãe-filha, sobre a liberdade, sobre as transformações que surgem quando encaramos a difícil aventura de questionar nossas verdades (e aqui falo mais da mãe que da filha). E, claro, de quebra, Merida ainda tem aquela cabeleira maravilhosa. Corram pro cinema, vale a pena demais. 

Beauty is everywhere




Ontem à noite assistimos a parte de um documentário sobre mariposas e borboletas. Nos detalhes captados pelas câmeras de alta definição estavam os inacreditáveis disfarces, a voracidade das lagartas, asas incrivelmente coloridas, os balés de imensos grupos de borboletas tão lindas que nos causavam espanto, troncos de árvores e paredões de pedra cobertos por milhares de asas bordadas, crisálidas transparentes como gotas d'água, o formidável mundo dos minúsculos, tudo tudo tudo absolutamente encantador. Logo em seguida trocamos de canal e vimos um dos muitos programas da série "encante-se com o universo você também". Deve ter sido o décimo programa que vimos desse tipo, Ulisses e eu, mas lá estávamos nós de novo achando graça de algumas hipóteses que os cientistas adotam  que mais nos parecem algo na linha "na falta de uma explicação melhor vai essa mesmo". No entanto, cada comentário "que viagem" é logo seguido de um "vai saber, né". Porque lado a lado com hipóteses que nossa Ciência ainda está longe de comprovar estão constatações de coisas tão incríveis que a gente pensa mesmo que qualquer absurdo tá valendo. Os planetas gigantes sem superfície sólida, o escudo de Júpiter protegendo o equilíbrio de nosso sistema contra asteróides que  nos destruiriam sem dó, as explosões assombrosas que iluminam o espaço infinito, tudo tudo tudo absolutamente encantador. Já escrevi essa frase antes, né. Mas é por aí mesmo.




Hoje de manhã um pássaro rondou o bebedouro de passarinhos da Amanda, certamente curtindo os dois graus a mais no termômetro. Depois de vários dias de chuva o sol veio. Impossível olhar para o colorido da rua e não pensar na grandeza do sistema solar que eu tinha visto em tantos ângulos lindos na noite passada. No final da tarde precisei sair de casa e enquanto dirigia na via rápida próxima à minha casa fui me encantando com o mato colorido pelos reflexos do sol que já se despedia. Uma tela pronta para algum pintor de plantão; eu via e pensava nas angulações da Terra em relação ao sol que nos proporcionam tamanha lindeza. Nosso planeta pode ser descrito como uma bola de pedra girando no espaço, mas as tramas de cores que vi hoje à tarde, assim como as cores das asas das borboletas  na TV ontem à noite, são matéria-prima do mesmo encantamento que deve motivar os astrônomos. A luz do sol na asa da borboleta. Ou a poeira colorida dos anéis de Saturno. Dona Beleza, sempre a postos. Meu queixo cai, toda vez. Toda vez. E acho tão bom que seja assim.

Nunca fui princesa, mas...


...  já fui príncipe. 

Dessine-moi un mouton?

1974

(imagem daqui)

***

Ouvi muitas vezes a história de que eu não queria ficar em pé com medo de cair durante o desfile (eu estava em cima de um suporte bem alto). Minha mãe me prometeu uma boneca, caso eu vencesse o medo. Não funcionou e fiquei sentada o tempo inteiro. Assim que o desfile acabou, eu me levantei e pedi a boneca. Não funcionou. 

Talvez se ela tivesse me oferecido um desenho de um carneiro, quem sabe?

Inverno: lado A, lado B


Gosto de frio, adoro o inverno. Mas. 

Na primavera gelada de Londres, dois anos atrás, lidávamos todos os dias com o choque de temperatura cada vez que saíamos de casa. Nos dias mais frios, com o termômetro oscilando entre cinco e quinze graus na rua, a temperatura dentro do apartamento que alugamos era muito, muito mais alta. Andávamos de roupas curtas dentro de casa, descalços ou de chinelos; os pijamas grossos que levei para as crianças voltaram para a mala no segundo dia de viagem. Se pudéssemos, teríamos diminuído o calor dentro de casa, mas o controle do aquecedor era centralizado. Na hora de sair era um pequeno sufoco: era preciso agasalhar bem as crianças para o frio da calçada, mas elas não aguentavam mais que dois minutos dentro de casa com tanta roupa. Vestíamos somente as roupas "de baixo", blusas no estilo "segunda pele" e thermal nas crianças; somente na horinha de sair, chaves de casa na mão, colocávamos as outras camadas de roupas. Bem agasalhados, raramente nos incomodávamos com o frio. Água sempre quente na torneira, a primavera com temperaturas de inverno era uma estação muito linda e só.

As temperaturas nos últimos dias têm sido bem baixas por aqui. E a gente se agasalha, usa luvas se preciso. A gente sabe que dura pouco e logo os termômetros ficam razoáveis outra vez, então a gente curte. Mas é claro que é irritante sentir tanto frio dentro de casa. Não é confortável. Adoro casacos, mas eles foram feitos para a rua e eu não queria precisar usar blusas pesadas dentro de casa. Mesmo vendo nossos filhos embrulhadinhos em seus edredons e tomando meu chazinho quente, calefação é aquela palavra que não nos sai da cabeça. É muito ruim se virar no colchão e sentir o lado vazio do travesseiro completamente gelado, quase úmido. É ruim ir ao banheiro. É preciso coragem para tomar banho. Mesmo com água quente nas torneiras, os primeiros jatos gelados que nos brindam quando vamos lavar as mãos ("fenômeno" comum por causa do sistema de aquecimento solar aqui) parecem saídos direto da geladeira. 

Imagino casas com estrutura fraca, com o vento penetrando por frestas e soleiras. É muita heresia dizer que os governos dos estados mais frios do país deveriam colocar calefação como item prioritário em construção de casas populares? Por mim, seria uma regra da engenharia por aqui. Porque se não tá fácil digitar com os dedos congelando, imagine ver seus filhos dormindo sob cobertores úmidos em quartos gelados. Eu gosto de inverno. Mas uma coisa é chá, sopa e fondue. Outra bem diferente é criança passando frio dentro de casa. Dureza. 

Amor-perfeito


A casa amanheceu com cheiro de pão. Francês, da maquininha, que o marido disse parecer mesmo com os da França. O mel cristalizado foi derretido em banho-maria. O café foi repetido porque a caneca aquece as mãos. O cachorro maior foi para a casinha, o pequeno ficou na cama. Cada um escolheu uma atividade sedentária que não exigisse o nariz fora de casa e a manhã passou assim. Li e me encolhi. Saímos para almoçar e passar frio enquanto esperávamos vaga no restaurante. A espera valeu os lábios rachados e comemos tanto que pensei que fôssemos todos explodir em conjunto. Vinho e sobremesa. Arthur foi para a casa do amigo e fomos com Amanda comprar terra e sementes. Ela pediu um daqueles penduricalhos para atrair passarinhos. Nossa casa agora tem um penduricalho cor-de-rosa na varanda. Pode não atrair passarinhos, mas certamente vai atrair olhares. Estou pensando em colocar um aviso: "cuidado com a abelha". Amanda queria sementes de amor-perfeito. Vai plantá-las amanhã. A moça da loja nos ensinou a recuperar a orquídea, deu dicas sobre a planta da sala e a outra do vaso lá de trás. Faremos transplantes de flores. À medida que o dia ia tirando graus no termômetro, fui acrescentando camadas de roupa. Tenho planos que visto como se fossem blusas e também me aquecem. Quero ver um filme tomando chá. Escrever um livro de memórias alheias. Quero viajar e, como disse a uma amiga hoje (falando dela, mas agora de mim), colocar minhas raízes em um vaso que eu possa levar a qualquer lugar. E elas podem sustentar plantas que se pareçam com as da minha menina: raízes de amor-perfeito. Acho um plano bom. 




Sunny winter and a bit of art



As férias das crianças começaram com um dia de inverno ensolarado. Bicicletas e patinetes foram nossos companheiros no final da manhã (no início dela estávamos dormindo), junto com algumas borboletas que erraram de estação e um ou dois passarinhos mais animados. Raptamos o amigo do Arthur e fomos curtir o sol. Ontem eu conversava com minha sogra sobre as muitas horas que passamos à frente de computadores e outras telas e não demorou muito para a frase "o mundo é isso aí" ser dita por uma de nós. Mas também falamos que o mundo é o que fazemos dele e que se é verdade que tanta tela faz parte da vida de nossas crianças, o mesmo não equivale a dizer que elas são a única fonte de diversão, cultura e conhecimento, obviamente. As horas que o trio de pimentas curtiu hoje conosco foi uma pequena amostra do quanto as crianças estão abertas a muitas outras formas de diversão desde que sejam ofertadas a elas. Então hoje foi dia de correria para espantar o frio. O sol ajudou muito e por volta do meio-dia os três estavam sem camisa, escalando árvore e brinquedos, enfrentando monstros. Perdi para Amanda por 10 a 5 na caça às borboletas, mas tá tudo certo. Sem fotos, porque a câmera ficou em casa, aquela preguiçosa.



***

Eu adoraria saber desenhar. Aproveito a disposição das crianças para rabiscar e sempre que posso me junto a elas pintando, tentando copiar uma gravura qualquer, desenhando o que for. Temos montes de folhas com nossas "criações" nada incríveis, mas que me contam sobre horas impagáveis que tenho com eles. Nada se aproveita do que faço, mas isso não importa; aproveita-se o processo, os pitacos que trocamos, os elogios derramados, as cores que criamos misturando tintas. Os desenhos da Amanda são sempre cheios de brilho e cores vivas, os do Arthur são cenários para suas histórias ou variações infinitas do clássico desenho da casa com árvore no jardim e céu ensolarado. De vez em quando organizamos exposições na sala e nossas telas são disputadíssimas pelos muito visitantes imaginários de nosso museu. Pensando bem, saber desenhar direito já seria pedir demais, o troço todo já é bem divertido.

Ontem recebi um novo caderno de desenho que encomendei pensando em usar para rabiscos mais inspirados. Grande chance de o caderno morrer vazio, mas eu queria muito de qualquer jeito. É que eu sabia que seria lindo, pelo menos na capa. Uma amiga minha recentemente se descobriu artesã e agora anda por aí produzindo belezas em tecido. Uma das técnicas que ela gosta de usar é o patchwork embutido. Quando vi os cadernos que ela andou encapando, encomendei o meu e ontem ele chegou. Veio lindo, um mimo, envolto em laço de fita e muito capricho. Arthur e Amanda cresceram o olho para meu caderno e já sei que ao invés de desenhos "mais inspirados" ele abrigará desenhos feitos a seis mãos, cheios de manchas e traços refeitos, brilho e sol sorrindo. Tanto melhor, será apenas um motivo a mais para guardá-lo por muitos e muitos anos. Porque um caderno assim a gente não quer mesmo jogar fora nunquinha. 




Vamos enchê-lo de obras de arte. Ou traços tortos. Ou figuras de dedinho. Não importa.

Da rosa pro favo


Infância é mesmo um troço mágico. Em que outra fase da vida andamos por aí vestidas de abelha? Esse tem sido o traje de minha filha de quatro anos há cerca de duas semanas. Desde que comprei a fantasia ela só não é abelha enquanto dorme, toma banho ou vai à escola. Aliás, hoje foi ao último dia de aula com a fantasia, toda feliz. Anda cheia de amores pelas abelhas por causa do projeto de sua turma de Ensino Infantil. Sabe tudo sobre a dinâmica das colmeias, diz que é operária e não rainha, descreve o que faz um apicultor e agora anda por aí vestida de abelha. Entoa a canção que conheci na voz de Moraes Moreira em minha infância e essa semana cogitou dormir com a fantasia (mudou de ideia com medo de rasgá-la durante o sono). 

O que você tá fazendo, abelhinha?

Pose, mamãe.

Amanda adoça nossa vida desde que  nasceu, mas é temperamental e pimenta e não gosta que mexam com ela quando está brava. Acho que a fantasia lhe cai muito bem.


 

Pão nosso


Meu xodó atual no quesito apetrechos de cozinha é a panificadora elétrica. Sou adepta dela há alguns anos e adoro fingir que sei fazer pão. Faço cara de quem sabe das coisas, abro o livrinho de receitas que acompanha a máquina, escolho uma, jogo os ingredientes lá dentro, aperto dois ou três botões e, horas depois, anuncio na maior cara de pau: fiz pão! Todos elogiam e eu recebo os elogios sem o menor pudor, com a boca cheia.

Pois bem, minha maquininha se quebrou, fuén. Uns amigos que me amam me deram outra, êba! <3 A nova versão vem com capacidade para pães maiores e com o livrinho de receitas cheio de novas possibilidades. Vou dividir uma com vocês, que adaptei para nossa alegria. Se você tem a maquininha, procure lá por "pão light de aveia e mel". Ou não procure, porque as minhas alterações na receita não estão lá, né. Se você não tem maquininha e curte fazer pão na munheca, parabéns pela disposição e espero que a receita também lhe sirva.

Segue a receita adaptada com indicações do que foi alterado em relação à original. Para as medidas utilizo os acessórios que acompanham a máquina (um copo de 240ml e uma colher de sopa/chá dosadora).

*1 3/4 copo de água; - a quantidade de água da receita original (1 1/3 copo) deixa a massa muito pesada para a máquina; na primeira vez utilizei a quantidade indicada e foi necessário retirar a massa para sovar na mão (obrigada, Ulisses).
*1 1/2 colher de sopa de manteiga; - a receita original contém margarina (é ruim, hein!);
2 colheres de sopa de mel;
*2 colheres de chá de sal - meia colher de chá a mais que o indicado na receita original;
* 60 g de aveia;
*50 g de amaranto;
* 50 g de gergelim - esses três últimos itens substituem os 160 ml de aveia da receita original; acho que o pão ganha em sabor, em valor nutritivo e em grau de frescura;
*2 1/2 copos de farinha de trigo especial - uso a mesma farinha de trigo que uso em bolos;
 1 copo de farinha integral;
2 1/2 colheres de chá de fermento biológico.


É só colocar todos os ingredientes na forma da máquina, selecionar o tipo de pão, o tipo de casquinha (mais clara, mais escura) e pronto. Também é possível programar a máquina para assar o pão dali a tantas horas, o que garante cheirinho de pão pela casa às sete da matina. <3


 O resultado é lindo e muito saboroso. Sucesso aqui em casa e nas redondezas por onde tem circulado. :-)

 Fica bem fofinho.


Recomendo com força. Ou sem força, na maquininha de pão.


O prazer dos livros eletrônicos


Meio ano atrás eu me disse toda preocupada com o advento dos e-books. Coerente como só eu consigo ser, estou agarrada com um. Tudo bem, eu não estava exatamente preocupada, no sentido oh meu deus, o que será de nós. Era algo mais no sentido óóóó, mas livros de papel são fofos, etc. Assim, uma inquietação científica, vocês me entendem. Entre os ótimos comentários daquele post, a Lud opinou
  
que a história dos livros vai se aproximar mais à do cinema/videocassete+DVD do que à do vinil/CD. Ou seja, leitores digitais e livros impressos conviverão alegremente, cada um proporcionando uma experiência diferente.

Dormi agarrada ao comentário da Lud e me acalmei. Pois bem. Daí, como vocês já sabem, pintou Moby Dick. E, olha, pessoas, caí de amores pelos e-books. Da obra falo depois (estou adorando). Queria mesmo era dividir com vocês todo meu deslumbre pelas gracinhas que o aplicativo ibooks traz junto com o livro.

Não tenho kindle, então estou lendo através do ibooks no nosso i-pad. A biblioteca "do i-pad" dispõe de vários títulos para download gratuito, em categorias como Biografias, Culinária, Ficção e Literatura e várias outras. As buscas podem ser feitas por categoria ou autor e vi na "minha loja" obras em inglês, francês, português, alemão, espanhol e russo, tudo gratuito. É só clicar, baixar e ler. Moby Dick é minha primeira experiência com livros digitais, então deem um desconto para tanta pirotecnia. Espero poder voltar a este post daqui a algumas décadas e rir bastante (ha ha ha, eu achava isso legal, tão ultrapassado, etc.). Resumindo em uma descrição bem elaborada: acho tudo fofo.


É só escolher e baixar.

Entre ler com a tela na vertical ou na horizontal, prefiro a segunda alternativa, pelo grau mais elevado de fofura.



Virar a página só não tem barulhinho (no kindle tem?).



Na mesma "página" em que podemos visualizar capa e índice, estão arquivadas todas nossas pausas (marcadores) ou as notas, um ótimo recurso para quem curte escrever nos livros que lê, marcar tudo, sublinhar, anotar, etc. Se esse é seu time, o e-book também permite fazer anotações. Não costumo riscar os livros que leio (salvo os acadêmicos que eu marcava, anotava, sublinhava, desenhava setas, etc.), mas geralmente crio orelhas nas páginas que têm trechos que sei que vou querer retomar depois, seja para reler, para comentar com alguém ou mencionar nos posts do blog. Posso fazer tudo isso no e-book também.


A marcação pode ser feita com cores ou sublinhados. As notas são criadas em balões que se abrem com um clique e além de ficarem visíveis nas margens do texto (como se fosse um pequeno post-it), estão também disponíveis lá no item "notas" na página do índice, o que nos permite retornar às páginas em que elas foram feitas sem precisar folhear tudo para encontrá-las. Grau máximo de fofura.
 



Quando li meu primeiro livro em inglês, Jane Eyre, mil anos atrás, lembro-me que consultar o dicionário a cada palavra desconhecida era quase um entrave ao prazer da leitura. Não faltava motivação, então segui em frente, mas entendo quem acha desanimador interromper a leitura para consultar um dicionário de vez em quando. E ainda que você seja fluente em um idioma estrangeiro, ninguém está livre de se deparar com vocábulos ou expressões desconhecidas em um romance qualquer. Quando o primeiro termo me pegou em Moby Dick, corri para um dicionário online; é que só um dia depois descobri que é possível acessar um ótimo dicionário ali mesmo, na tela do texto, com dois toques.


Cômodo demaissss!


Irresistível. O melhor da história? De repente, tenho centenas de novos livros. De graça. \o/ Vem, gente.

Vida de filme real


O Arthur precisava de fotos antigas para uma tarefa da escola. Abri o grande portal das memórias impressas (já infinitamente menor que o portal das memórias digitais) e em dois segundos me vi cercada por fotografias em preto e branco de meus pais e avós, fotos do Arthur e da Amanda quando bebês, registros de outros tempos, outras vidas. Em um pequeno envelope plástico algumas fotos de minha própria infância renderam boas risadas e algum desaforo:

- Você saía na rua com esse cabelo, mãe?
- Ha ha, que engraçado, só que não.

Mais tarde comentei com o Ulisses que me acho muito sortuda por não sermos da mesma cidade. Acredito piamente que, caso ele tivesse crescido me vendo cruzar a rua para ir à padaria com aqueles cabelos, não estaríamos juntos hoje. Ele nega, generoso. E como o pensamento é um cavalo sem rédeas, fico imaginando que coisa maluca essa vida, que delícia esses roteiros de nossos filmes.

No ano em que nasci Ulisses morava em Juiz de Fora/MG, sua terra natal. Ficou por lá até os nove anos de idade, quando se mudou para Manaus/AM. Nessa mesma época eu vivia na mesma cidade onde nasci, no interior da Paraíba, onde roía as unhas e ia à padaria com aquele cabelo. Menos de três anos depois, ele se mudou para João Pessoa, numa época em que eu ainda brincava com meus amigos imaginários. Tempos mais tarde, em 1988, ele começou a faculdade em Campina Grande, quando eu ainda cursava o ensino médio em outra cidade do interior paraibano. E foi nessa mesma cidade que comecei minha primeira faculdade, que só largaria quase três anos depois para, só então, começar Letras no mesmo campus onde Ulisses já cursava Ciências da Computação e Engenharia Elétrica. E só um ano depois de entrar na faculdade de Letras, cruzei com ele a caminho da biblioteca. Com aquele menino que morava em Juiz de Fora quando nasci. E como se estivéssemos acostumados às muitas bifurcações antes dos grandes encontros, ainda colocamos Belo Horizonte e Florianópolis na equação, para ver se era mesmo isso. Pois era, mas só dez anos depois de nos conhecermos, sete anos depois de nos separarmos. De vez em quando olho para Arthur e Amanda e acho graça da quantidade de quilômetros que foram rodados para que esses dois nascessem.

Conheço histórias com roteiro de todo tipo, de casais que se olhavam desde sempre, de gente que começou a namorar praticamente na infância e está junto até hoje; gente que esperou em outro país por cinco anos até que o amor da vida concluísse a faculdade; gente que largou noivo quase no altar por um amor à primeira vista, fulminante; gente que se conheceu na balada; gente que encontrou uma cara-metade em terras muito, muito distantes. Não falo de "finais felizes", porque não saberia dizer o que é isso, mas todos esses exemplos de que me lembro agora são de pessoas que vivem atualmente suas histórias incríveis. Olho para essas histórias como se visse filmes bons daqui de dentro de meu próprio filminho. E gosto muito.

A foto escolhida para a tarefa do Arthur tem Ulisses e os irmãos em um barquinho, em Manaus. Tinha nove anos. Eu tinha sete na época e se uma fada tivesse me mostrado a foto e me dito que o futuro amor de minha vida era aquele menino magricela e que ele estava em Manaus, eu teria estragado tudo. Ele logo se mudaria de lá e eu poderia ter passado a vida toda procurando no lugar errado. Ainda bem que nem todo filme tem fada. 

 

No intervalo


Eu queria um marca-páginas de conversa. Imaginem. Estamos eu e Ulisses lá na cozinha engajados na maior discussão filosófica (sei) do século e, pimba, lá vem Amanda perguntar se pode pintar. A gente responde e se levanta, vai lá e monta a parafernália, lápis, papel, pincel, borracha, sei lá. Volta a conversa. Onde estávamos? Não sei. Mas deixa eu te contar outra coisa. Daí eu tava lá na minha sala trabalhando e ... o Arthur quer ver o DVD que sumiu. Ah, filho, não sei, vê lá na gaveta. Tá, o que você ia contar? Putz, esqueci. Enfim. Um marca-páginas nos mandaria de volta ao lugar exato onde a conversa parou, à frase exata, ao suspense perdido. Seria um item bem útil, especialmente em uma família de desmemoriados como a nossa.

Gosto bem dos marca-páginas, os de verdade. São só objetos, mas vou chamar de generosos. Seguram a história para nós. É claro que sem eles também poderíamos retomar a viagem, sempre podemos decorar o número da página ou dobrar o canto superior dela. O charme, contudo, é deles. Ficam ali ouvindo os ecos das últimas frases que lemos e espiando as que virão. São eles que conhecem antes de nós o início dos próximos capítulos. Eles que leem antes a sequência que precisamos adiar para dormir, atender o filho, ir para o trabalho; ou simplesmente respeitam nossa preguiça e seguram as pontas. Meu favorito era um vermelhinho em formato de traça sorridente. Um bookworm (a palavra inglesa para "traça" -  e também algo como a gíria "rato de biblioteca"); a graça era colocá-lo entre as páginas e deixar a cabecinha espiando o mundo lá fora. Perdi por aí, esquecido em algum lugar. Em algum canto bagunçado do quarto do Arthur está um que herdei de minha mãe, de plástico, em espiral. Não gosto muito, porque deixa marcas no papel, mas tem valor especial por razões óbvias. 


Fofura em forma de marca-páginas, presentinho luxuoso da Mari. Veio com Mrs. Dalloway "ao redor". \o/

Charminho no i-pad. Sou dramática e fico com pena dos tradicionais. 

Um dia as pessoas visitarão marca-páginas nos museus. Olha, a maioria era de papel. É, como os livros. Verdade.



Truco!


Brincando de ignorar o calendário, fomos ontem a uma festa junina. Pus um vestido caipira e fiz dezenas de tranças no cabelo. Completei com um arco que prendia um pequeno chapéu no topo e minha filha de quatro anos adorou:

- Mãe, você tá linda!!
- Ah, filha, obrig...
- Tá parecendo uma palhacinha!!
- :-/

Era, na verdade, o aniversário de um amigo, o homem do gesso. A festa foi organizada em um galpão escondido no meio desse mundo, com comida típica e forrozinho pé de serra. A noite estava gelada e dançar era a solução mais óbvia, mas depois do casamento caipira (protagonizado pelo aniversariante e meia-dúzia de amigos que o mundo da dramaturgia está perdendo) e da quadrilha, o negócio era mesmo comer e jogar truco.

Aceitei o convite para a jogatina. Era a primeira partida de truco da minha vida (prefiro pôquer) e depois que Ulisses me passou as instruções mais básicas combinamos nossos sinais. Acertamos que se eu tivesse apenas cartas ruins, franziria o nariz de leve; se tivesse cartas matadoras, tiraria a tiara do cabelo. A partida rolou e lá pelas tantas me esqueci completamente do combinado. O homem do gesso tinha acabado de distribuir as cartas da rodada quando a pressão que o arco exercia atrás de minhas orelhas passou a me incomodar demais e retirei o troço da cabeça. Vendo aquele sinal inequívoco de bonança, Ulisses cresceu na partida e gritou truco! feliz da vida. Truco! Truco! Truco! Tadinho. Eu, novata na história, fiquei achando que não tinha entendido as regras direito. Por que cargas d'água Ulisses parecia tão empolgado? É claro que perdemos de lavada porque eu não tinha nada de bom nas mãos. Prometi mais atenção na próxima vez. 

***

Primeiras impressões sobre Jogos Vorazes: BBB + Jogos Mortais. Aguardemos. Li a primeira página de Moby Dick e já me senti feliz. 

*** 

E eu acho muito esquisito que agora todo mundo seja fã de luta. Não é ironia, não. Fico espantada mesmo. Assim, do nada, o troço vira febre. O mundo é assim, moda vem, moda vai. No caso das lutas, no entanto, acho estranho como as pessoas não se incomodam. Tipo, tourada causa repulsa, mas pessoas ensanguentadas não? (A comparação é péssima porque o touro não tem escolha, eu sei. O que quero dizer é que dia desses, Ulisses ligou a NET e o canal de abertura estava exibindo uma luta e ficamos sem acreditar na quantidade da sangue que estava rolando.) Sei lá. Gosto é mesmo como nariz. :o) :-) :<)

***


A baleia que a Fal me deu


Terminei a leitura de Sonhei que a Neve Fervia, de Fal Azevedo (Ed. Rocco), e, mantendo minha tradição mais verdadeira, chorei um monte. 

Não foi, contudo, a primeira vez que chorei com essa história. Isso já havia acontecido quando recebi em casa dois outros livros da Fal, O Nome da Cousa e Minúsculos Assassinatos e Alguns Copos de Leite. Naquele dia, como diriam na bíblia, abri o pacote do Correio e folheei os dois livros quentinhos, saboreando as novidades. Aí li a dedicatória do primeiro, "Para o Alexandre, que sabe quanto e como", e lamentei comigo mesma porque sabia que o Alexandre, marido da Fal, já havia ido embora. Mas foi só quando li a dedicatória do livro seguinte, publicado depois que a Fal o perdera, que meu peito se apertou de vez: "Para Alexandre Azevedo Cardoso, que sabia o quanto e como". Então o Alexandre já era alguém nos livros anteriores da Fal, já aparecia discreto ali, na letra dela. Sonhei que a Neve Fervia nos conta o que aconteceu, como foi perdê-lo, como foi e é enfrentar a morte de alguém que amamos.

Parte da história seus leitores já conhecem dos relatos em seu blog que dispensa apresentações. É de correspondências com amigos, e com leitores que viraram amigos, que parte do livro é feita. A isso se juntam os registros em forma de carta ao marido falecido e temos uma colagem de momentos vividos ao longo do primeiro ano após a morte de Alexandre. São relatos de experiências e situações doloridas, intensas, difíceis, desafiadoras; ou ternas, hilárias, surreais; ou engraçadíssimas, relatadas com o jeito Fal que quem lê o Drops já conhece. E é muito bom ler esses relatos e ter a sensação maluca de que estamos driblando o tempo e segurando a mão da Fal em cada soluço, cada lágrima, cada dia vazio.

Várias passagens me tocaram como uma dorzinha fina, outras me fizeram rir alto e em muitas pude ouvir a voz da Fal. Uma longa conversa de um ano sobre o que fazemos de nossas vidas, sobre o amor, sobre a dor, sobre amigos e encontros, sobre gatos e cachorros, mudanças e mais amigos. Amigos que a Fal deve ter aos montes. Ela é adorável, inteligente e engraçada. Quem não quer? Amor demais.

"O meu amor permanece, intacto, cuidado como uma coisinha de cristal. (...) Ele está no mesmo lugar - ouça, por favor -, no mesmo lugar em que esteve, a vida toda, a vida toda. 
Ele nunca saiu dali." Fal

***

E aí a Fal nos conta que seu livro favorito é Moby Dick. Juntos, ela e Alexandre chegaram a ter seis edições do livro. Fui lendo e anotando mentalmente "dar uma lida, dar uma lida". Findo o Sonhei, peguei na estante um livro que ganhei de aniversário, meio suspirando na base do "not really in the mood for that right now...". Antes de transferir o marca-páginas para o tal livro da estante (ato simbólico da maior importância: uma vez transferido o marca-páginas, segue a leitura), resolvi dar uma chance ao I-pad, novo queridinho do Ulisses que agora não quer mais saber de livro de papel. Abri a biblioteca de free download e vocês têm uma chance de adivinhar o primeiro da lista dos títulos disponíveis na categoria "Classic Novels". Claro, Moby Dick. Não acredito em bruxaria, mas acredito na Fal e no I-pad e vou me aventurar em minha primeira leitura "grande" sem papel. No entanto, preciso ir aos poucos, então decidi começar a ler os dois livros mais ou menos ao mesmo tempo. Fiquei com muita pena do marca-páginas órfão e o transferi para a primeira página de Jogos Vorazes (curiosa). Vamos ver aonde isso vai me levar. Eu falei que ia ler dois livros, não disse que seriam parecidos.



Dreaming in the rain



Eu gostava de olhar a chuva bem de perto, da soleira da porta, sentindo os pingos que sobravam e salpicavam meus pés. A chuva tinha o poder de me transportar para outros lugares; bastava chover para minha imaginação se desgarrar sem qualquer controle e eu me ver em outro corpo, outra vida, outro mundo, longe. Minha infância era melhor em dias de chuva. O barulhão das águas fortes sobre o telhado da minha casa alta me deixava em tal estado de graça que hoje acho espantoso que eu conseguisse me conter. Quem me visse na sala, concentrada em ouvir uma tempestade, não podia imaginar a bagunça da minha cabeça naqueles momentos. Sou de chuva. Gosto do som, do cheiro, das folhas de palmeira balançando, da calha transformada em cachoeira. Não é só o adormecer embalada pelas gotas na vidraça, eu gosto da ideia da chuva. Gosto de cenas com chuva, histórias com chuva, poemas que falam de chuva.

Ainda observo a chuva pela janela, ainda ouço sua música, ouço as pequenas correntezas em torno da casa. Ainda adormeço mais tranquila quando a água lava o mundo e sinto a mão dele perto da minha. Ainda me lembro da porta lateral da casa da minha infância, da minha sandália de plástico laranja toda respingada e da leve tristeza que se anunciava quando tudo enfim se aquietava. Há quem diga que ser feliz é gostar de sol, que chuva longa anuncia melancolias perigosas e deprime as almas. Há quem diga que nuvens carregadas são sinal de mau presságio. Discordo quieta, segurando firme a mão da menina que fui. 


A tal alma do negócio


Não planejei reduzir meu tempo diante da TV a quase zero. Foi acontecendo naturalmente, uma atitude facilitada pela qualidade sofrível de boa parte da programação aliada à falta de tempo. Se tem coisa boa passando em alguns canais nem fico sabendo porque não vejo as chamadas ou consulto os sites das emissoras. Às vezes alguém comenta no twitter sobre algum programa e aí ligo, se me interessar. Quando as Olimpíadas começarem devo "compensar" o tempo sem TV acompanhando tudo, creio. Ainda vejo filmes, um ou outro programa, uma entrevista aqui, outra ali. Falamos da outra tela, a do computador, outro dia.

Uma das consequências da pouca TV dos pais é a pouca TV dos filhos. Pelo menos é o que tem ocorrido aqui em casa. Meus filhos veem muito pouco. Há excelentes desenhos animados que eles acabam perdendo, mas não se pode ver tudo nesse mundo. Chego a sugerir que liguem a TV, enquanto preparo algo na cozinha, por exemplo, mas eles normalmente optam por outra atividade. Quando assistem, largam sem dramas no momento em que chamo para comer ou sair, sei lá. Claro, eventualmente pode rolar uma birra - entre dormir ou tomar banho, o desenho animado ainda parece mais atraente - mas em linhas gerais a TV está numa fase bem negligenciada aqui em casa e praticamente se reduziu a uma tela de videogame.

Daí que no último aniversário do Arthur ele tinha apenas um objeto de desejo - um DS (que não ganhou). Era um pedido bem óbvio que não tinha relação direta com publicidade, mas com o fato de que os amigos mais próximos têm o brinquedo. Fora isso, não pediu nada. Nem um pedido, nem um brinquedo, ele não sabia o que pedir de aniversário. Fomos à loja para ele dar uma olhada e ver que brinquedo despertaria seu interesse e se a compra seria possível. Achei curioso. A conexão com a pouca TV foi imediata, obviamente. (Acabou ganhando um kit de robô/avião para montar, no estilo lego, que normalmente o desafia por horas e tem um resultado incrível - o robô é lin-do.) Amanda vai na onda e também quase não tem visto TV. Mas é só ver por três minutos que sejam e já solta um "mãe, no meu aniversário você me dá um/uma [brinquedo do comercial]?".

Tenho visto com bons olhos toda a discussão em torno da regulamentação da propaganda direcionada ao público infantil. Sem tirar em nada a responsabilidade da família no desenvolvimento do posicionamento crítico dos filhos, acredito na importância do papel do governo nessa questão. É preciso estabelecer limites na publicidade voltada ao público infantil e levar em conta que nem toda criança dispõe de pais presentes e escolas envolvidas na discussão do assunto. Nem toda criança tem um adulto por perto em suas horas de lazer para sugerir uma atividade mais criativa ou, ao menos, ver TV junto para discutir eventuais (frequentes) abusos das propagandas. Num mundo ideal a propaganda seria sincera, todo mundo teria tempo sobrando e as crianças desenvolveriam senso crítico sem grandes riscos. Mas, né. Muitas crianças crescem sozinhas em suas salas enquanto pais se desdobram para se virar num mundo cada vez mais consumista. Além do mais, se é verdade que existe de nossa parte algum compromisso mínimo com a questão ambiental, é para o consumo que a gente tem que olhar. E é na infância, muitas vezes, que os freios se vão de vez.

Flores



Se eu chegar aos 72 anos de idade, espero que seja, claro, com saúde e autonomia. Espero ter ainda projetos, disposição para tocá-los e vários motivos bons para olhar à frente sem muito temor. Quero ser tranquila, muito mais que hoje; mais terna também, mais lenta e seletiva. Quero, principalmente, olhar por sobre os ombros e gostar do que vejo. Quando eu tiver 72 anos, se eu chegar lá, quero memórias que exibam pés de galinha ao redor dos lábios muito mais que rugas tensas em minha testa e que essas linhas fundas de minha pele sejam rastro de tropeços úteis e, de preferência, que ecoem risadas. É claro que quero, é óbvio, todos querem. Mas tem mais uma coisinha. Quero que todos digam que ainda me pareço com você. Quero esticar a lembrança de você o tanto que eu conseguir porque você foi uma coisa bonita nesse mundo. Você trouxe bondade, beleza, amor e sabedoria; trouxe paciência, companheirismo, alegria, você tinha alegria. Era fácil passar despercebida nos últimos anos, eu sei, mas você tinha alegria e eu sei onde morava. Você foi justa, amorosa e tão generosa. Tínhamos diferenças enormes, mas elas nunca me impediram de ver a incrível mulher que você foi. É uma pena que você tenha ido embora tão cedo e que seus últimos dias tenham sido tão difíceis. Diferente de você, o mundo não é justo e você não pôde dar aos seus últimos passos a leveza merecida. Não era para ser como foi, com sofrimento e dor. Era para ter sido bailado ao som de sinfonias, com sorriso largo e saia solta, rodopiando num salão de amigos, como em sua juventude. Era assim que deveria ter sido. Mas o mundo não é assim. E amanhã você não vai completar 72 anos porque você partiu antes. E fico aqui me perguntando se vou chegar lá e então percebo que, se for, quero que seja seguindo o pontilhado que você traçou pra mim de bondade, generosidade, amor, ternura. 

Minha casa tem várias flores. Os girassóis que as crianças plantaram crescem tão rápido que fico impressionada. O que de manhã é semente espiando desconfiada por uma fresta na terra escura à tarde já é um galhinho arrebitado e altivo. Ulisses trouxe gardênias brancas e você gostaria delas. E os lírios invadem nossos narizes com sua fragrância onipresente, transformam nossa sala em um jardim que me lembra você, toda hora. Amanhã é seu aniversário e fico aqui falando de flores porque não sei o que fazer.

 
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