A estreia de Harry Potter



Hoje Arthur vestiu a fantasia que o amigão emprestou, pegou sua varinha e sua flauta, ambas mágicas, bem se sabe, e foi. Ficou um pouco nervoso, mas encarou o frio na barriga, respirou e tocou em público pela primeira vez. Fantasiados e executando temas do cinema, alunos e professores, crianças e adultos, apresentaram-se juntos por quase duas horas. Nós assistimos, aplaudimos, babamos e vimos, mais uma vez, que esse negócio de música é divertido demais. 

Cenário lindinho.

 A espera, enquanto as bandas se apresentavam. 

Antes da orquestra formada pelos alunos e professores da prática de conjunto, bandas de alunos se apresentaram. Adorei as meninas. Que ninguém se enganasse com os trajes: Bela abria a boca e soltava a voz no maior rock and roll, Alice foi de Born to be Wild. :-) Enquanto isso, Arthur esperava.

Tensão, tensão...

Quando a hora chegou, ele foi. A orquestra cinematográfica tinha Rocky Balboa, o Fantasma da Ópera e Christine, Mortícia Addams, Elizabeth Swann, Branca de Neve, a Pantera Cor de Rosa, Cleópatra, Pocahontas, Bela, Eduardo Mãos de Tesoura, o protagonista de Cantando na Chuva e muitos outros. Abaixo, um Harry Potter ansioso se prepara ao lado de Alice, Batman com seu batviolino, Chaplin e uma ótima Fiona mandando ver no violão. 


E quando o momento chegou, Harry cantou ao lado da Professora Chapeleira Maluca e tocou sua flautinha ninando meu coração babão. 



O Oscar de babação foi disputadíssimo, vocês nem fazem ideia. Abaixo, dois contemplados.


Parabéns, Arthur. Que a música ainda traga muitas alegrias pra sua vida, meu amor. 




Rapidinhas


Daí fomos ver Prometheus, bem animados. Uma palavra: argh. Outra: dispensável. Que bom que o mundo é grande, um monte de gente gostou do filme e Ridley Scott não precisa se preocupar com a minha opinião. Ou a do marido. E a de todos os amigos que foram juntos e também não gostaram. Próximo.

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Amanda queria brincar de mamãe e filhinha. Eu queria desenhar e pintar. Aí ela disse "já sei! a gente pode brincar de mamãe e filhinha que tá desenhando e pintando!". Tadinha. E assim foi. 

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Tirei Amanda das aulas de ballet. Ela mais reclamava que curtia. Adiamos as piruetas por mais alguns anos, até que ela pare de inventar dor de barriga na hora do alongamento - ainda que a dor suma imediatamente após o alongamento.

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Também interrompi as minhas aulas por causa do horário: tarde de sábado. Cada sábado um motivo diferente e as faltas já não me deixavam mais acompanhar o grupo: uma visita, uma festa infantil, festa na escola, outro passeio. E ter que estabelecer horário para almoçar no sábado estava me dando nos nervos, eu que passo a semana com os olhos no relógio. No, thanks. Perdi uma boa fonte de diversão, mas, olha, o mundo do ballet clássico não perdeu nada. Believe me.

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A cara do blog vai mudar, já falei? Mas ainda vai levar umas semaninhas. 

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Faço filminhos caseiros do Arthur enquanto ele tira dúvidas da Amanda que agora quer ler tudo. Assisto e já me vejo aos prantos revendo os vídeos daqui a algumas décadas. Muita gente me entende. <3

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Durmo ao seu lado e sonho com você. Pra mim, um sinal de que tá tudo certo. 

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Olho o trânsito pela janela do trabalho e me pergunto o que estamos esperando para aderir ao home office de forma ampla e irrestrita.

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Vamos ao cinema tentar reverter o jogo a nosso favor. Tim Burton, quem sabe. 

Como se compra um piano?


Eu tinha uma amiga em meu antigo colégio que tocava piano. Ela era um ano à minha frente, mas tínhamos uma amiga em comum e acabamos nos aproximando. Além de tocar em eventos da escola, ela dava aulas de música para crianças e tocava de vez em quando no velho piano do auditório sempre que conseguíamos nos esgueirar até lá, só de farra. Eu achava graça quando ela tocava reclamando da afinação do piano. Como se fizesse diferença, pensava eu, achando tudo lindo e sem entender lhufas de afinação. Um dia ela se sentou ali e começou a tocar qualquer coisa enquanto o ensaio para a apresentação de sei lá o quê não começava. Fiquei com cara de pamonha, ouvindo a música que saía dos dedos dela e invadia nossas cabeças. Quando ela terminou, perguntei que música era aquela e ela sorriu. É Beethoven, sinfonia tal, movimento tal, disse ela. Acho que seu sorriso tinha uma ponta de orgulho, de alegria por apresentar a música de Beethoven a alguém. Também sorri. Meu sorriso tinha uma ponta de admiração por aquela garota um pouco mais velha que eu que se sentava ali casualmente no intervalo da aula e, ploft, sacava um Beethoven das mãos, eu que não conhecia a diferença entre um dó e um ré.

Ontem a professora de música do Arthur disse que quando ele terminar o terceiro livro do curso de flauta estaria, teoricamente, em um bom momento para experimentar outro instrumento. Vejo claramente que ele ainda não sabe que instrumento quer experimentar, mas as opções mais mencionadas são piano e violino. Ulisses sugeriu que ele experimente uma aula de cada um para ver como se sente. Vai ser por aí, acho. Hoje me lembrei de minha amiga das antigas enquanto almoçava e Arthur enchia a casa com sua flauta. Fiquei imaginando o som do piano invadindo nosso ambiente como quando eu ouvia minha amiga tocar. Adorei a ideia. Mas é preciso ver se a empolgação dele pelas aulas se mantém, se sentirá vontade de tocar outro instrumento ou optará por permanecer apenas com a flauta. A decisão será dele. 

A decisão é dele, mas a empolgação é minha. Um piano é um investimento significativo, mas a verdade é que teríamos aqui em casa duas outras almas dispostas a fazer aulas (e quem sabe uma terceira, se a Amanda se animar também). Enquanto esperamos a decisão do Arthur, não custa fazer planinhos... Não sei nada sobre pianos. Vou conversar com a professora de música, mas vou esperar pitacos de alguém que passe por aqui e saiba das coisas. Que marcas preferir? Quem são os bons fabricantes de piano vertical? "Vertical" e "de armário" são a mesma coisa? O que levar em conta  numa possível compra? Que perguntas fazer ao antigo usuário (certamente compraríamos um piano usado)? Como se compra um piano, gente? Ajuda aí. Não temos pre$$a agora, mas estou toda animada. É o meu jeitinho.

O truque


Existe uma praia em Alagoas chamada Ipioca. Muitos anos atrás me hospedei em uma casa de praia que pertencia a um primo meu. A casa foi emprestada à minha tia por uns dias fora da temporada e viajei com ela e seu marido. Foi a única vez que visitei Ipioca, de modo que  não faço ideia de como o lugar está hoje em dia. Naquele tempo, era uma praia relativamente deserta, com grandes casas de veraneio se multiplicando na área (essa foi a impressão que ficou, mas é bom levar em conta que visitei o lugar fora de temporada). Eu tinha dez anos e havia na casa outra menina da mesma idade, filha não sei de quem, que conheci durante a viagem e de quem nunca mais tive notícia. Ela foi minha companheira de férias e, por dez dias, minha melhor amiga para sempre.

As ruas de Ipioca eram todas de barro e por causa das chuvas passei aqueles dias enfiando o pé na lama. Era impossível chegar à praia sem cruzar as ruas com enormes poças de água barrenta e até hoje a cor marrom daquela água disputa espaço em minha memória com o verde do mar, os móveis de alvenaria da casa e a enorme mesa onde comíamos peixe todos os dias. Duas coisas tornaram aqueles dias paradisíacos para mim: as chuvas fortes com carão de temporal que despencavam à tarde, encharcando até os pensamentos, e a maré. A maré em Ipioca recuava quilômetros e eu brincava de dizer que seria possível caminhar até a África. Nas horas de maré baixa, andávamos muitos metros mar adentro com a água fresca e transparente na altura da canela. Minha tia voltou daquela viagem com muitas sacolas de conchas lindas que ela depois transformou em enfeites para sua casa. Eu amava aquelas manhãs de biquini, sacos de conchas, caminhadas "dentro do mar", lama na rua. Nossas tardes quase sempre tinham banho de chuva e bronca da minha tia, não necessariamente nessa mesma ordem.

Numa tarde, logo após o temporal, saí com minha nova melhor amiga para a praia. Fomos apesar dos protestos de minha tia, pois já tínhamos tomado banho e estávamos "arrumadas". Teimamos, digo, argumentamos que iríamos só até a esquina e evitaríamos as poças. Dez passos depois estávamos com os pés cobertos pelo barro mole recém formado com a chuvarada cujo cheiro inebriante ainda dominava o ar. Corremos às gargalhadas pelas ruas ladeadas por casas em construção, terrenos alagados e grandes casas desertas, rumo à praia,  dizendo uma para a outra que iríamos dar um pulinho rápido na África. Ao chegarmos à "praia" fiquei muda. Ainda me lembro do deslumbre que foi ver o mesmo mar que na manhã daquele dia mais se assemelhava a uma grande piscina cristalina agora transformado em um gigante feroz e terrivelmente barulhento. As águas turvas se quebravam em ondas imensas e ameaçavam o limite entre a praia e a rua. Toda a faixa de areia fora engolida pela ressaca, a praia havia desaparecido. O vento que quase arrancava meus cabelos nos forçava a gritar para sermos ouvidas e nem consigo dizer do medo que senti daquele Mr. Hyde enfurecido. Ficamos as duas ali, rindo nervosas diante das ondas absurdas que estremeciam o mundo como trovões. Ainda assim nos aproximamos do mar o suficiente para nos encharcarmos com os respingos que pareciam vir de todas as direções. 

Foi a maior bronca da viagem, obviamente. Horas mais tarde, depois de termos tomado banho novamente, minha amiga e eu ainda olhávamos espantadas uma para a outra, rindo de vez em quando. Não sei se ela ria só pela excitação da aventura, pela imagem impressionante daquele mar enorme. Sei de mim. Eu ria para disfarçar o terror que senti, o medo que tive de ser engolida por aquelas ondas. Ainda hoje o mar de Ipioca visita minhas lembranças envolto num ar ameaçador e tento me livrar da imagem rapidamente. Porque me lembro que até dançamos olhando aquelas águas escuras que se erguiam em enormes paredes vivas, mas enquanto eu dançava sentia muito medo de morrer ali, engolida pelo mar.  Eu brinquei de me sentir corajosa. Mas foi só brincadeira. De vez em quando ainda uso o mesmo truque. 


O homem de mar



Um dia conheci um pescador que me contou de como era preciso arrastar seu barco para a areia todos os dias. Disse que onde morava e trabalhava não era possível ancorar os barcos. O homem de pele queimada e enrugada trazia seu barco de volta para a areia há quarenta anos. Com receio de interromper sua narrativa, que era mansa e sem ondas, perguntei se ele vivia só da pesca e que tipo de peixe ele pescava. Ele então me contou, com sua voz calma de maré baixa, que seu peixe era a tainha e que as coisas tendiam a melhorar por causa da retirada da pesca industrial de sua região. E me explicou que nos piores tempos seu único filho tinha ido embora porque não via futuro na atividade do pai. As tainhas estavam sumindo e entendi que, no retorno à praia, um barco vazio pesa mais que um barco abarrotado de peixes. Nossa conversa foi curta e não houve tempo para eu ouvir o que mais queria, relatos da pesca em si, da solidão dele lá no mar, da solidão dele na decisão do filho. Ou talvez não houvesse solidão, mas eu queria que ele tivesse me falado sobre isso. Queria que, além da praia, ele falasse do mar, o mar que ele trazia no olhar. Mas não houve tempo e fiquei só com a sede das conversas, das conversas de pescador. Nunca em minha vida vi olhos tão azuis e tão grandes. Duas enormes e profundas íris azuis. O homem caminhava devagar. Andava por aí como quem arrasta o barco e olhava azul, imenso. Era um homem feito de mar.

Les petits ici et là-bas


Hoje Arthur foi ao último ensaio antes de sua primeira apresentação com o grupo da escola de música. Vou junto e volto pra casa mais leve por causa das canções tocadas por lá. O tema do Fantasma da Ópera, por exemplo, nos deixa, os dois, meio boquiabertos. No próximo sábado estarei de máquina em punho, coração na mão, torcendo. Boa sorte, meu menino. 

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Também estou ensaiando. Para trocar o layout do blog. Enquanto não decido que caminho tomar, vou divulgando outros. A e a Mariana se uniram em um blog cheio de boas dicas para quem vai visitar ou morar em Paris com crianças, Paris des petits. Passei lá hoje (no blog, não em Paris, mimimi) e achei tudo de bom. Confiram. Tive a alegria de conhecê-las no ano passado e posso dizer que de passeio com a criançada essas duas entendem. :-) 

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Se esse blog de repente ficar estranho, não se assustem, sou eu mexendo nas configurações. Tudo, tudo, tudo pode acontecer. 



Perdi


Alguns dias atrás precisei comprar um dicionário para o Arthur. Eu tinha ido ao shopping center próximo à minha casa por outras razões e aproveitei para dar uma passada rápida na livraria. Chegando lá mudei de ideia. O lugar estava bem cheio, pessoas em pé próximo à porta de entrada, o maior zum zum zum, alguns com taças de bebida na mão. Pensei que deveria estar rolando o lançamento de algum livro e desisti, meu tempo era curto, vai que eu nem acharia quem me atendesse, sei lá. Fui embora. No dia seguinte, meu marido foi à mesma livraria comprar o dicionário e perguntou ao vendedor que o atendeu se tinha havido algum lançamento na véspera. O vendedor confirmou e mostrou o novo livro. E Ulisses viu que a autora tinha nascido em 1927. O livro pode até ser ruim (não faço ideia), mas gosto tanto da imagem de alguém indo à noite de autógrafos de seu livro, aos 85 anos de idade. Se eu soubesse, teria entrado para dar os parabéns, olho no olho.   

(A gente sabe que canalhas também envelhecem, mas me deixem idealizar só um pouquinho.)

O homem do gesso


Passei a quinta-feira me emocionando. O tanto que fui paparicada me estragou por décadas, coitados de vocês. Já escrevi em algum lugar desse blog que hoje em dia podemos ser rejeitados em várias frentes, no twitter, no facebook, no celular, no e-mail, etc. Também é verdade que podemos ser afagados nas mesmas frentes e, olha, ontem vocês capricharam. Ainda não sei se dei conta de agradecer a todos. Se deixei escapar alguém, saibam que li todas as mensagens em todos os canais e curti (mesmo) cada uma delas. Bando de lindos e lindas, vocês.

Conforme planejado, mantive a decisão que expressei no final do post de ontem: "ficar em casa ou, no máximo, jantar com minha família em algum lugar bonitinho". Pois bem. No fim do dia, enquanto íamos buscar as crianças na escola, Ulisses me convenceu a ir a um restaurante. Ele já havia feito a reserva e combinamos que seria algo rapidão, comer, brindar, voltar. Pegamos as crianças e fomos para casa. Arthur foi pro banho, arrumei a Amanda, minha sogra toda animada, queridíssima - bem sei que ela não gosta de sair à noite. Vamos lá. Quando estávamos saindo de casa comecei a me preocupar com a escolha do Ulisses, um restaurante que adoro, mas sem qualquer estrutura para receber crianças. Mais de oito horas da noite, as crianças com fome (o que, para a Amanda, nem sempre é sinônimo de "disposta a sentar e comer bem") e cansadas depois de um dia com natação, ensaio para festa junina, aulas - o cenário começou a me parecer meio tiro no pé. Mal saímos de casa, o telefone do Ulisses tocou. Pausa para contextualização.

Minha sogra em breve irá se mudar para seu próprio apartamento, num condomínio a dois minutos de nossa casa, cujas chaves recebemos na última terça-feira. Há dias Ulisses vinha tentando entrar em contato com o gesseiro que fará/faria o rebaixamento do teto em algum ambiente do apartamento. O homem nunca retornou as ligações. Fim da pausa.

Eu dizia que o telefone do Ulisses tocou. Era, claro, o homem do gesso, no exato momento em que saio de casa com minha família para meu jantar de aniversário. Ulisses trocou meia dúzia de palavras com o cara, das quais ouvi com especial atenção duas palavrinhas: "cinco minutos". Desligado o telefone, seguiu-se algo como:

- Amor, o cara do gesso tá aqui do lado, no apartamento da mãe, vou lá rapidão, cinco minutinhos só pra mostrar a ele...
- Cinco minutos, Ulisses? Onde que esse cara só vai tomar cinco minutos da gente?
- Pois é, que hora pra ligar, mas eu tentei falar com ele e ele não ligou antes e ..
- Ah, mas as crianças tão com a gente, Ulisses, vão ficar impacientes e com fome...
- Tá, eu vou só entregar as chaves do apartamento pra ele e a gente vai embora.
- Você vai entregar as chaves do apartamento prum cara que você nem conhece?
- Ah, ele foi indicado por Fulano.
- Ulisses...
- Esquenta não, etc.

Nesse momento minha consciência me mostrou que eu estava enchendo o saco do Ulisses que, gentilmente, tinha me convencido a ir jantar com ele para um brinde de aniversário, todo empenhado em tornar o dia mais legal e tal. Falei, então:

- Tá, faz do jeito que você achar melhor.

A essas alturas, já estávamos entrando no condomínio, praticamente ao lado de nossa casa. O carro estacionando e eu pensando "não vou nem descer do carro". Ulisses abre as portas e convida: 

- Vamos, criançada, dar uma olhada no apartamento da vovó. 

Olha. Suspiros. 

Seguimos pela área de lazer do condomínio e aí desencanei. Comecei a parabenizar minha sogra porque o lugar tá uma graça e eu ainda não tinha visto a área de lazer depois de pronta, tudo novinho e bem cuidadinho e muitos outros inhos. Eis que o homem do gesso liga novamente para dizer que estava esperando pelo Ulisses numa salinha de reuniões do condomínio, sei lá onde, ali perto de nós. Seguimos. Ulisses atrasou o passo para pegar Amanda, acho, e apontou "é aí, amor, nessa porta". Cheguei até a porta e dobrei à direita para entrar. O mundo explodiu.

Um estouro de gritos, palmas, risadas, coisinhas luminosas caindo sobre minha cabeça, um cenário tão completamente inesperado que precisei de muitos segundos até ser capaz de absorver aquilo ali. Enquanto eu preparava minha pior cara de poucos amigos para encarar o "homem do gesso" que estava atrasando meu jantar, dei alguns passos e me deparei com uma salão de festas cheinho de muitos amigos. Uma festa surpresa bem barulhenta. O homem do gesso nunca existiu e em seu lugar comecei aos poucos a reconhecer cada rosto, a receber cada abraço. Não sofro do coração, falei pra vocês? Com a ajuda de amigos, Ulisses providenciou tudo e os detalhes tinham tanto amor que todas minhas carências devem ter sido extintas definitivamente. De cada balão preso no teto pendiam fotografias minhas com pessoas queridas que não podiam estar ali. Amigas que moram longe, minha mãe. Fotos de minha infância e adolescência (imaginem os cabelos). A sala estava linda, colorida e cheia de gente querida. Arthur dançava e batia palmas junto com seus amigos que também estavam lá. Amanda surgiu com flores e Ulisses me deu outras para eu enfeitar os vasos solitários das mesas e minha mão tremia tanto que eu mal conseguia enfiar as flores nos vasinhos. Uma taça de champanhe aterrissou na minha mão. Outro amigo, outra amiga, outro abraço. Foram muitas horas de muvuca, abraços, afofações, brindes, bolo. Eu queria saber dizer bem direitinho como me senti, mas minha competência linguística não vai tão longe, desconheço as palavras.

Aos poucos os bastidores foram se revelando e certamente ganhei anos de vida com o tanto de risada boa que dei. Todo mundo me enganou. O amigo que nem me deu os parabéns na escola das crianças, enquanto ele também buscava o filho, me fez conversar sobre o presente que eu receberia em breve sem que eu soubesse. Ninguém me ligou durante o dia, mas, né, tava todo mundo ali no Facebook, com mensagens tão carinhosas... o tal documento que Ulisses precisava levar no banco era balela, álibi para ir providenciar os preparativos. Atrapalhei um monte porque precisei do carro no meio da tarde para buscar um bolo que serviria aos colegas no trabalho, bem na hora em que Ulisses iria buscar a comida encomendada. O livro mencionado no café da quarta-feira virou presente de outro amigo. A vizinha me abraçou de manhã, na academia de natação das crianças, com cara de paisagem. A esposa do "homem do gesso" me perguntou no Facebook se haveria "um bolinho" à noite. Respondi que não... A propósito, o nome do amigo que se passou pelo "homem do gesso" no telefone é Daniel. Caso eu tivesse visto a tela do telefone do Ulisses no momento da ligação-senha, não teria visto "Daniel", mas "Fernando - gesso". Assim, bem cinematográfico. Arthur sabia e não revelou nadinha. Para Amanda, tudo foi surpresa também.

À certa altura da noite, levei as crianças e minha sogra para casa. Depois voltei para o melhor presente de aniversário da vida e comi, bebi e conversei até as três horas da manhã. Já agradeci mil vezes, mas a balança ainda não se equilibrou. Estou em dívida com todos.

Foi o maior abraço do mundo. Obrigada, vocês.
Obrigada, Ulisses, de novo. A vida com você é absurda de tão boa.

Falando sobre o futuro, escrevi no final do último post que "a gente nunca sabe." Olha aí. Nunquinha. E se é verdade que alegria rejuvenesce, na noite de quinta-feira fiquei bem mais nova.  



Da sede que faz feliz. E alguma melancolia.

Eu.


Eu tinha imagens idealizadas durante a infância do que seria a eu adulta, visões esporádicas e sem muitos detalhes. Hoje tentei resgatar a forma dessas lembranças, mas não tive muito sucesso. Consigo me lembrar de que pensava nisso, mas não consigo saber que contornos eu dava a mim mesma nos pensamentos. Só ficou isso: eu me via feliz.


Depois que a gente cresce e, como o Renato Russo, entende que não é mais criança a ponto de saber tudo, é comum perceber que o conceito de felicidade é algo bem mais amplo que nossas idealizações infantis. O tempo nos mostra que não importa o quanto gostemos da vida que levamos, de vez em quando todo mundo vai se deparar com as incertezas, os equívocos, as escolhas infelizes, as dores, as perdas. A boa notícia é que a gente também se depara com as boas descobertas, com o aprendizado, as boas escolhas, as alegrias, o crescimento. Vou achando que se sentir feliz parece ter mais relação com a forma como lidamos com a geleia da vida do que com a quantidade de eventos "bons" ou "ruins" que cruzam nossos caminhos. E que se libertar de um conceito idealizado de felicidade é um passo importante para se sentir bem nesse mundo. Acho que fiz isso há bastante tempo e talvez esteja aí uma das razões de eu me considerar uma pessoa feliz, ainda que eu tenha sempre tido, aqui e ali, motivos para me preocupar, reclamar, lamentar, etc. Porque ninguém é feliz o tempo todo, obviamente, mas ainda é o conjunto da obra que importa.


Sei que larguei um tanto bom de bagagem pelo caminho, trocando por outras cargas que julguei mais leves ou mais atraentes. Ainda assim, olho para a eu criança, ou para o que ficou dela em minhas memórias, e vejo que trouxe para a vida adulta algo muito valioso que eu já trazia comigo lá atrás. A sede veio junto, cresceu comigo. Ainda quero aprender mais, no sentido mais vasto a que essa palavra possa remeter, todo dia. Pode ser aprender a ficar quieta, a ouvir; a falar outra língua, dançar outro passo, conhecer outro quadro; aprender um jeito mais eficiente de aproveitar a infância de meus filhos, aprender uma receita nova, conhecer outro país; aprender a pilotar um barco, fazer um coque ou tirar mancha de tecido; qualquer coisa. Eu gosto assim: não sabia e agora sei. Gosto de saber que ainda serei muitas outras a cada dia, pelo tempo que for. Isso me faz feliz.


Eu tinha vinte e quatro anos quando conheci Ulisses. Tinha trinta e três quando meu primeiro filho nasceu, trinta e cinco quando a caçula chegou. Não há a menor chance de eu dizer que tenho saudade dos meus vinte anos. Eu fui feliz aos vinte, também, mas minha vida tomou dimensões tão maiores nas últimas duas décadas que seria meio incoerente lamentar a passagem do tempo. Eu quis muito aos vinte, muita coisa, e, ainda assim, não consegui visualizar naquela época quão feliz eu me sentiria agora, aos quarenta. E quem me conhece sabe que tenho minhas fontes de choro e saudade, tenho tristezas não resolvidas como todo mundo, tenho fracassos e desistências e medos e traumas, um tanto bom de frustrações. Mas a soma do que vi, li, descobri, aprendi e até do que me esqueci, tudo me empurra para um estado de espírito de bem com a vida. Também é verdade que tenho medos imensos desse mundo e que ter filhos é perder um pouco a paz, mas enfrentar os medos e ver os filhos crescendo parece compensar a tremedeira. No fim das contas, remo, remo e o nome da ilha é amor.


Ontem terminei a leitura da biografia de Clarice e, do nada, um detalhe sem qualquer importância deixou meu coração aos pulos. A data da morte dela coincide com a data da morte de minha mãe, 9 de dezembro. Foi a gota d'água que faltava para eu encarar a falta que se anuncia para este 21 de junho. Mais uma vez não haverá o telefonema dado bem cedo com sua voz orgulhosa de mãe coruja me saudando. "Quarenta, hein", ela diria. Bem sei que haverá muitos abraços por aqui e que a tristeza será cercada de afagos. É uma ótima certeza, eu diria, apesar do vazio deixado por ela. De novo, a vida tem disso e quero os abraços que valorizo com o coração cheio.


Optei por não fazer nenhuma comemoração barulhenta. Vou ficar em casa ou, no máximo, jantar com minha família em algum lugar bonitinho. Sei que vou convidar aquela menina que idealizava felicidades futuras para que ela veja que a gente nunca sabe. E com esse pensamento vou encarar a nova etapa. Que venham outros quarenta. 



Still



Femme au jardin, Claude Monet, 1867.


(Quantos verdes tinha a paleta de Monet?)

A mesa


Quando nos mudamos para a casa onde moramos atualmente deixamos a sala de jantar fora da lista de prioridades. Montamos os quartos, fizemos uma pequena reforma nos fundos da casa, trocamos o sofá. A mesa de jantar viria um dia, quando as crianças fossem maiores e já não usassem a sala como pista de motocas. Nos últimos anos temos improvisado quando recebemos visitas, por falta de espaço para que todos comam juntos à mesa.

Ontem recebemos nossa nova mesa, uma távola retangular grande o suficiente para Ulisses sugerir a instalação de interfones nas cadeiras, ha ha. Adorei o efeito que a mesa teve em nossa sala, trazendo ares de, não sei, casa de fazenda. Talvez pela madeira, as cadeiras de espaldar alto de que gostei demais, talvez pelos tons de marrom, não sei ao certo. Algo em minha sala agora me faz pensar em casas de campo. Ah, como gostei. 

Inaugurei a mesa lendo a biografia de Clarice (ainda). Optei por seguir com ela ao invés de voltar às páginas do livro da Fal, que comecei a ler ontem à noite. Raramente leio dois livros ao mesmo tempo, mas não resisti à tentação de dar só uma olhadinha em Sonhei que a Neve Fervia, recém-comprado, e lá ia eu pela página 45 antes de piscar. Engraçado como as coisas se misturam em minha cabeça oca e hoje pensei que o tal pensamento de "sala de fazenda" em torno de minha nova mesa ecoa o lugar onde a Fal se recolheu após a grande mudança ocorrida em sua vida, tema central de seu livro. E naquelas sequências imprevisíveis que nossos pensamentos formam, recordei uns papos com a Fal em que falávamos sei lá o quê sobre Veríssimo, o filho. Penso nisso e duas páginas depois leio sobre o período em que Clarice se aproximou da família Veríssimo, nos anos em que morava em Washington. Leio e fico com uma vontade danada de falar com a Fal, pensamento que abandono porque, na verdade, não há assunto. "Oi, acabei de ler sobre quando a Clarice conheceu Verissimo, o pai", não, ela tem mais o que fazer. A sensação de histórias intercaladas, no entanto ficou, e acho isso muito engraçado. Como se eu estivesse lendo os dois livros de forma complementar, quando um não tem absolutamente nada a ver com o outro. Divagação, meu nome do meio. 

Vou lendo sobre os trabalhos de Clarice como colunista de moda e "comportamento feminino" para pagar as contas enquanto não conseguia publicar seus livros, sobre sua luta contra a depressão, contra os fantasmas de sua infância pobre, as lembranças do sofrimento de seu pai forçado a abandonar sua terra natal. Vou lendo e tentando imaginar suas angústias. Acostumei-me a pensar em Clarice como grande escritora celebrada, o mito literário, de modo que tem sido de descobertas a leitura dessa biografia que revela tanto da mulher insegura, ansiosa, arrebatada por uma inteligência ímpar e um olhar tão analítico que a levava às raias da loucura. Como disse a Caminhante, saber das dificuldades enfrentadas pelos artistas só aumenta nossa admiração. Clarice não teve vida fácil, perdida entre papéis sociais que desgostava e uma busca incessante por descrever os mistérios da vida. Obviamente, percalços não são garantia de talento, mas em Clarice sofrimento se convertia na efervescência de sua escrita. Também vou lendo e me decepcionando, mas só um pouco, tenho sido generosa nos descontos. Não consigo, no entanto, não me incomodar com algumas observações feitas pela escritora que deixariam as feministas do mundo de cabelo em pé. Vou lendo e xingando "tá, doida, Clarice?". Toda íntima, eu. Sentou à mesa comigo, rolou certa intimidade, sabe como é. 

Uma mesa seria uma mesa e só, não fosse pelas pessoas que reunimos ao seu redor ou pelos textos que espalhamos sobre ela. Que bom que a tal mesa nova é bem grande, comporta muita conversa jogada fora, tal qual nesse post. Vem, Fal.

Para Gregório



Amendoeira em Flor foi pintado por Vincent Van Gogh quando seu sobrinho nasceu, um presente para o filho de seu irmão Theo. Acho lindo, o azul incrível. Hoje esse quadro ilustrou uma das postagens que a tradutora Denise Bottmann fez em referência a um de seus trabalhos atuais, a tradução de uma biografia do pintor holandês. Saber que alguém que enfrentava enormes desafios pessoais pintou algo tão delicado para um bebê que acabara de chegar me toca. É como se uma lembrança falasse baixinho dizendo que, a despeito das agruras da vida, seus encantamentos também estão ali, à espreita.

Hoje ficamos sabendo que nasceu o segundo filho de um amigo muito querido nosso, um bebê muito desejado. Chega acelerando vários corações, a gente tá sabendo. Um evento bom na vida de várias pessoas e que, desejamos, tocará a vida de muitas outras nos anos que virão. Comemoramos daqui, torcendo que a mamãe e o papai do fofucho curtam cada momento dos próximos meses animados. Longe vários quilômetros, não podemos morder o pezinho. Então ficamos aqui corujando à distância, como Van Gogh fez quando seu sobrinho nasceu. E como não sabemos pintar, tomamos o quadro emprestado. 

Bem vindo, pequeno.
Que sua vida seja assim: azul, com muitos pontos de luz. 

Parabéns, vocês dois, queridos. 

O que será?


Enrolada na toalha de banho, braços escondidos, pezinhos encolhidos de frio, Amanda, 4 anos, olha para o nada e de repente se perde em pensamentos.

- Mãe... meu desejo não se realizou.
- Que desejo?
- Meu desejo...
- Que desejo, meu amor?
- Não posso falar! Se eu falar, ele não se realiza! Mas acho que já passou o dia...
- Quando você fez o seu desejo?
- Lá em Gramado!
- Oi? Em Gramado [há dois meses]?
- Sim, mãe, na ponte dos desejos, não lembra?
- [E aí me lembrei da fonte dos desejos que há no minimundo, onde as crianças, de costas, jogaram moedas, olhinhos fechados e pensamentos a mil] Aaaahhhh, claro que me lembro! Não se realizou, minha flor?
- Não...
- Vai ver ainda vai acontecer, se você pediu algo difícil... [eu, verde de curiosidade]
- Mas eu vi na revistinha que a Magali pediu e aconteceu logo! Sabe o que ela pediu?
- O quê?
- Que a ponte dos desejos fosse dela!
- Ah, que esperta!
- Mas o meu desejo não se realizou... [carinha de desolada]
- Ah, amor, vai ver que na revistinha é mais fácil...
- E a Magali tava de frente pra ponte dos desejos. Mas eu tava de costas...
- Ah, mas não acho que foi por isso. Espera um pouco mais.
- Tá.

E com esse "tá" ela encerrou a conversa. E fiquei assim sem saber o que ela pediu. 

A fila


Antes da primeira palavra trocada entre nós dois houve muitos olhares. Desde o dia em que o vi pela primeira vez no caminho para a biblioteca, e por algum tempo, eu o cobicei em silêncio, olhando somente. Naqueles dias felicidade era receber o olhar dele de volta. E, sendo assim, o dia da fila do passe de ônibus foi inesquecível.

Havia duas filas que se estendiam pela calçada larga da rodoviária velha de Campina Grande. Não me lembro exatamente do critério que definia quem deveria esperar em qual, mas estávamos em filas distintas. Para meu extremo deleite, do ponto onde eu estava tinha visão privilegiada para o ponto onde ele estava. E lá ficamos pelo tempo em que as filas se arrastaram, trocando olhares longos e pidões. Ele com seu cabelão preso num rabo de cavalo, camiseta com litras cinzas e amarelas, bermudão, tênis, cadernos/pastas/whatever na mão. De mim não sei, perdida naquela calçada, prendendo-me nele para sempre. Comprei meu talão e fui embora, flutuando. Por dias pensei na minha sorte em ir à rodoviária no exato momento em que ele também foi. Pensava e sorria, o retrato da tola. 

Muita coisa aconteceu depois.

Nem é por causa do dia dos namorados, não damos muita bola para a data. É que me lembrei da fila hoje, como acontece de vez em quando. E gosto muito de me ver ali. Queria ter o poder de voltar lá agora e sussurrar em meu ouvido: "acredite". Porque nem em meus melhores sonhos, gente, nem em meus melhores sonhos.

Te amo longamente.

O melhor para poder crescer


Sempre que junho chega é a mesma coisa: fico aqui me lembrando das canjicas que comia na época em que morava na Paraíba. A canjica amarelinha, servida com canela, que tomava praticamente um dia inteiro de trabalheira na cozinha e não mais que três ou quatro para ser devorada nos cafés da manhã e da tarde, nos jantares do inverno a 22 graus e olhe lá. Aqui em Floripa chamam de canjica o que para mim era munguzá, uma espécie de papa branca feita sem que o milho seja moído, com caroços inteirinhos. Nunca tinha comido por aqui, mas também comia na infância, minha tia Maria fazia pra mim. Falamos disso no sábado e ontem minha amiga me trouxe um pote de canjica/munguzá. Engraçado como nossas lembranças afetivas se sacodem diante de aromas e sabores "antigos". Foi comer o munguzá e me ver de novo de uniforme da escola na casa da minha tia. Valeu, querida.  

O munguzá encerrou o final de semana de comilança quase descontrolada. No frio, comemos. Na noite de sexta-feira fomos a casa de amigos saborear um jantar grego. Eu adoraria ter memorizado o nome do prato delicioso que comi, mas minha memória é uma lástima. Não gravei o nome, mas devorei dois pratos da iguaria feita com batata, berinjela e sei lá mais o quê. Dos deuses. Gregos. Todos eles.

No sábado meu marido resolveu descobrir os segredos dos cortes de carne. Isso mesmo aí que vocês leram. Foi com o amigo ao mercado, comprou um corte enorme de carne vermelha (vegetarianos, leiam outros posts, porque esse é intragável para vocês) e trouxe aquilo para nossa cozinha. Munidos de facas e facões, os dois separaram alcatra de maminha, filé de coxão duro, picanha de não sei mais o quê. Tudo para aprender a reconhecer melhor as partes do boi (tadinho) e não comprar gato por lebre. Pois bem, cada um com suas manias, tem gosto pra tudo nesse mundo e há quem se divirta aprendendo a identificar o tal "bife do açougueiro" -  o melhor bife, o crème de la crème da carne bovina (um pedacinho de nada da melhor carne que, reza a lenda, os açougueiros não vendem pra ninguém - sei). Não mudou minha vida, mas o tal bife do açougueiro é bem bom mesmo. Eu, que não morro de amores por carne, olhava e via dois marmanjos cortando carne, só. Mas eles juram que descobriram coisas incríveis. 

Mas as aventuras sanguinárias de meu marido no final de semana estavam só começando, porque no domingo, senhoras e senhores, ele desossou um frango. De novo minha cozinha virou banca de bicho morto e lá foram marido e amigo retirar os ossos do frango sem destruir o bicho. Sem ossos, a pobre ave foi costurada e recheada com arroz com brócolis e, olha... Eu já tinha comido o tal frango recheado na casa de nosso amigo, mas admito que foi "bonito" ver os dois preparando o troço. O resultado é delicioso.

Lindo, não? :-)
 
Hummm, nham!

Outros amigos vieram e fizeram saladas lindas, a amiga do munguzá fez a melhor maionese caseira da década e, para não me sentir muito exploradora, fiz um bolo e passei um café.

Dizem por aí que fez frio, mas minha casa estava bem quentinha.       


Tiny little beauty




Poderia ter pisado nessa florzinha e nem tê-la visto, de tão miúda. Mora no canto de uma calçada no parque onde fomos pedalar hoje à tarde e as fotos estão péssimas, tiradas com o celular por dedos congelados. Pode e deve ser uma flor bem comum, mas eu nunca tinha visto. Ou tinha, sem ter reparado nos detalhes. Aliás, detalhes demais em tão pouco espaço, meio over,  haha. Linda, mesmo assim.

Aí guardei o celular na pequena mochila que levava às costas e voltei a enfiar as mãos nas mangas do moletom. Nota mental: levar luvas para pedalar durante o inverno. Com doze graus (eu sei, curitibanos, parece muito, né?) e vento, o nariz congela enquanto a bike segue e era preciso seguir devagar - não dá para frear enquanto se pedala com as mangas puxadas sobre as mãos... Nem consegui sentir um calorzinho, a sensação térmica devia ser de uns dois graus a menos. Mesmo assim, o passeio valeu pelo céu azul e um sol esforçado que fizeram com que eu me sentisse menos encolhida. 

O inverno promete. 

E como mais cedo eu tinha achado que o forno deixaria a cozinha um pouco mais quente, depois da pedalada teve bolo. \o/


Trânsito da depressão


Eu estava aguardando a minha vez de virar à direita porque a preferência era dos veículos que seguiam rumo ao viaduto, vindos do meu lado esquerdo. À minha esquerda, uma van branca, dessas com o baú completamente fechado, sem vidros nas janelas de trás, também aguardava para seguir no sentido contrário ao que eu tomaria. Como ela tapava minha visão por completo, nem me preocupei em esticar o pescoço para ver se dava para passar. Simplesmente aguardei, sabendo que quando a van desse a partida eu teria meu sinal verde. Mesmo assim olhei casualmente para a esquerda, na direção da van. O cara que estava sentado no banco do carona sorria e conversava com o/a motorista, sorria, olhava de lado, sorria; de repente abaixou o vidro de sua janela e fez sinal para que eu passasse, agitando o braço para fora da janela em sinal de "vai, vai", ele que tinha visão livre à sua esquerda. Ignorei, sei lá por quê. Não estava com pressa, não quis arriscar, esperei como sempre faço naquele cruzamento, whatever. Sorte a minha. Se eu tivesse avançado como ele tão alegremente sugeriu, teria sido atingida em cheio por um pequeno carro cinza que passou à minha frente, vindo da esquerda, um segundo depois que o cara fez o sinal. Não há chances de o cara não ter visto o carro, sua posição era privilegiada. A única coisa que me faz alimentar o benefício da dúvida é o absurdo que seria o cara brincar de me mandar passar pra ver no que dava. Mas cada vez que penso nos sorrisos e no gesto tão enfático com o braço, vai, vai, e no fato de que a van não avançou (que seria o normal a fazer, se acreditavam que havia tempo para tal), volto a cogitar que hoje cruzei meu caminho com o de um sádico.

  

Cana



Quando a velha casa foi comprada, o quintal era cheio de pés de cana. "Quintal" é modo de dizer, porque o minicanavial cobria praticamente metade de todo o terreno. No início da reforma, que durou meses, muitos pés foram derrubados, mas algumas fileiras foram deixadas ali por um tempo, esquecidas diante de tanta parede a ser erguida. E era lá, entre as folhas afiadas que abriam talhos nos dedos mais distraídos, longe das pilhas de tijolos e da poeira branca do cimento, que a menina se perdia e se encontrava. O tempo do canavial era o tempo dos passeios impossíveis, quando ela se reinventava mais forte, mais esperta, sem o susto do olhar. Era lá, escondida entre as folhas delgadas, que ela tocava sua alma e experimentava a certeza de que o mundo estava a seu dispor, pronto para ser reinventado também. Brincar entre os nós dos pés de cana e suas medulas de açúcar, enquanto conversava com a legião de seres que existiam para servir seus devaneios, tornava a vida mais que suportável: devolvia-lhe o sentido. Quando entrava para o banho, o prato sem graça e o uniforme amassado, era com saudades que o fazia. Arrastava o resto do dia pelas alças da mochila e apertava forte o lápis sobre as linhas do caderno, porque lhe faltava leveza mesmo. Dormia devagar, entristecida. Ou tinha assomos de revolução e sonhava agitada, antecipando como uma vidente. Fosse como fosse, corria para o quintal na manhã seguinte. Se chovesse, tanto melhor.

  

O laço


Essa ponta parece bem firme...

...deixa eu conferir...

... acho que tá bom.

Agora o outro lado...

...oops, escapou...

...peguei e...

...aqui tá ótimo.


Além da gata que Amanda adotou por um dia, havia esse cidadão aí. :-)

De terra, grama e céu




Botamos bicicletas e patinetes no carro, trocamos mensagens "estamos saindo", pegamos o mapa e fomos. O aviso era dos melhores: "o celular não pega lá". Saímos da ilha, pegamos a BR, saímos da BR, acabou-se o asfalto, acabaram-se as placas, encontramos os amigos perdidos, seguimos as curvas e as ótimas referências apontadas no mapa (uma casinha, outra casinha) e chegamos. Um sítio lindo, bem escondido, longe na medida (eu inventei essa medida), um presente-convite que recebemos com gratidão e curtimos com o pé descalço no chão.





Para o Arthur foi correria e bola, bicicleta sem rodinhas (primeiras tentativas, go Arthur!), galos engraçados, vacas e correria de gansos. Foi ver o amigo alimentando a vaca e tirando leite, um mundo novo, outros ângulos, outras lentes. Foi também sorvete na casquinha (esse povo pensa em tudo), esconderijos secretos. E rede, na sacada cercada de verde, balançada pela tia corajosa; bem alto, como eu fazia na sala da minha casa. Infância com rede balançando bem alto, acho que tá tudo indo bem.




Arthur & cia rumo ao galinheiro.


Para Amanda foi a gata siamesa que ela praticamente não largou. E o primeiro leite tirado na teta da vaca, enquanto na outra teta mamava o bezerro bebezinho. "Fofo" foi a palavra do dia repetida ad eternum pela minha cacheada deslumbrada. O dia para ela também foi tangerina colhida no pé e chupada logo em seguida (sem caroço, como o mundo pode me paparicar assim?). Foi sentir os pés na grama enquanto corria e dançava tal qual Rapunzel fugindo da torre.







"Ufa, vou aproveitar que aquela menina tá tomando sorvete e tirar um cochilo..."



Para mim e Ulisses foi um dia off mundo. Foi correr com as crianças, empurrar bicicletas, tirar o tênis, levar Amanda para tirar leite da vaca e colher frutas, jogar bola e pega-pega com Arthur e seus amigos. Sentir o sol bater no rosto, ensinar a Amanda a segurar a gata sem enforcá-la, comer pinhão na varanda, dançar rapidinho no galpão. Ao final do dia, a mesa se encheu de bolos e pães que comemos com a manteiga e o queijo feitos ali mesmo, daqueles mimos que até esquecemos que existem.






E quando a noite caiu, ela surgiu enorme no céu para nos guiar pela estrada escondida. Não faltou nada, nadinha.



  

Semidiário atrasado de viagem - Canadá e EUA


Visitante do quintal da minha amiga, em Erie, 2004.

O Canadá sempre esteve ali, piscando pra mim. Quer dizer, o Canadá nunca esteve nem aí pra mim, mas eu sempre flertei com ele, sozinha mesmo. Cheguei a cogitar um doutorado sanduíche por lá, ideia que abandonei para concluir a pós em menos tempo. Quando a chance de visitá-lo chegou pra valer, eu estava no início da gravidez de meu primeiro filho, o que, basicamente, significa que eu estava verde de enjoo. Eram minhas primeiras férias em conjunto com o Ulisses depois que voltamos a ficar juntos (sete anos depois de termos "dado um tempo", sabe como é). Ulisses organizou praticamente tudo sozinho, da compra de passagens, passando pelas reservas de hotéis, à escolha do roteiro, enquanto eu me encarregava de comer e me esforçar para não vomitar. O Canadá seria, na verdade, a parte estendida da viagem que tinha como principal objetivo (além de namorar e celebrar nossa vidinha juntos) visitar a Ângela, na Pensilvânia, norte dos EUA. Com pouco mais de vinte dias e um monte de lugares na cabeça, acho que seguimos um excelente roteiro. É claro que deixamos muitos lugares tentadores fora da lista, mas optamos por circular sem pressa e olhar bem por onde passássemos. 

Nossa primeira parada foi Montreal e, com exceção da tarde em que nem dei conta de sair do hotel por causa do enjoo, foi um passeio e tanto. O outono gelado nos recebeu com ventos que despistávamos fugindo para a cidade subterrânea para mais tarde voltar à superfície e curtir as avenidas largas e o astral bom da cidade. Grávida, com o pensamento fixo em comida, elegi como lugar favorito um mercado cujo nome eu adoraria me lembrar. Lá fomos nos dias em que ficamos em Montreal para tomar sucos e comer comidinhas cheias de nutrientes para alimentar o Arthur que curtia tudo no forninho. De Montreal seguimos de trem para Quebec, nosso lugarzinho favorito naquelas bandas. Em Quebec comemos o peixe mais gostoso do mundo (não me perguntem), dormimos no menor hotel do mundo (Ulisses precisava se abaixar para passar pela porta) e nos entregamos à preguiça. Lembro de uma tarde em que caminhamos por um parque grande da cidade, colina acima, escolhemos um banquinho com uma vista boa e lá dormi. Havia gente correndo e jogando bola, mas eu achei um bom lugar para cochilar mesmo. Quebec é um daqueles lugares em que toda esquina se parece com um cartão postal, mas grávidas dormem. Comem e dormem.

Em Quebec pegamos um avião para Toronto onde Ângela e seu respectivo nos esperavam. Começava ali a parte barulhenta da viagem porque a gente nunca mais parou de conversar. Ângela ainda não tinha seus lindos dois filhos (o mais velho faz seis anos hoje), então tagarelamos mais do que nossas crianças tagarelam hoje. Muito mais. Nos dois dias de Toronto conheci parte da família do marido da Ângela, fui hipnotizada diversas vezes pelas cores das árvores (o mundo é lindo) e fomos à cata da filial do tal mercado bom que havíamos conhecido em Montreal (achamos! - sou ótima em planos de viagem: tínhamos apenas uma tarde para explorar o centro da vibrante Toronto e convenci meia dúzia de pessoas a seguir durante horas na busca por um suco de laranja; em minha defesa, todos gostaram do suco). No dia seguinte o ponto alto seria a visita às Cataratas do Niágara, não fosse aquele um dos dias em que os enjoos me pegaram pra valer. Fomos mesmo assim e é claro que fiquei impressionada com o tamanho de tudo, mas eu queria muito que aquele dia terminasse logo. 

Demos tchau para o Canadá e seguimos de carro para a Pensilvânia, norte dos EUA. Curtimos uma semana de sonho na casa da Ângela (o quintal dela é uma floresta), comemos, cozinhamos, fizemos café ruim, rimos, viramos noites, compramos um violão e passeamos pelas margens do Lago Erie, um dos Grandes Lagos. A cidade onde Ângela mora em si nos pareceu tranquila, sem grandes atrativos (com bons restaurantes). O diferencial está na presença do Lago, claro. Imenso, como um mar, margeado por velhas árvores coloridas, compõe um cenário pra ninguém botar defeito. E, para nós, evidentemente, é casa de amigos. E tava tudo lindo e aconchegante, mas, né, Nova Iorque chamou.

É óbvio que foi um deslumbre e é óbvio que eu estava enjoada. Ainda assim batemos perna até não mais poder, fomos ao teatro duas vezes, comemos um monte, visitamos o que deu e dormi no metrô. Comi sanduíches horríveis e pratos incríveis. Nem me dei ao trabalho de lamentar o pouco tempo. Incluí a cidade na lista de favoritas e na próxima vez pretendo não estar enjoada. O efeito que Nova Iorque teve em mim foi algo como "olha só o que você precisa vir curtir com calma". Espera aí, espera aí. E de lá voltamos felizes da vida, planejando um dia voltar para ver o lado de lá do Canadá. Há muito tempo um velho amigo visitou Vancouver e as fotos que vi de lá me deixaram cheia de vontade. Não deu para incluir em nosso roteiro, a cidade fica do outro lado do país e ir a Vancouver significaria não visitar a Ângela ou Nova Iorque. Mas...

O mundo é um ovo. Vocês se lembram do João? Pois é, encontramos a figura (ele disse que posso ficar com o livro) e vocês têm apenas uma chande de adivinhar onde ele está morando desde que sumiu. Bingo, Vancouver aí vamos nós. Não, não é agora; nem dinheiro, nem férias, sem chance. Será depois, um dia aí qualquer, mas a gente vai. Planos já fizemos, só falta o resto.


 
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