Conforme planejado, mantive a decisão que expressei no final do post de ontem: "ficar em casa ou, no máximo, jantar com minha família em algum lugar bonitinho". Pois bem. No fim do dia, enquanto íamos buscar as crianças na escola, Ulisses me convenceu a ir a um restaurante. Ele já havia feito a reserva e combinamos que seria algo rapidão, comer, brindar, voltar. Pegamos as crianças e fomos para casa. Arthur foi pro banho, arrumei a Amanda, minha sogra toda animada, queridíssima - bem sei que ela não gosta de sair à noite. Vamos lá. Quando estávamos saindo de casa comecei a me preocupar com a escolha do Ulisses, um restaurante que adoro, mas sem qualquer estrutura para receber crianças. Mais de oito horas da noite, as crianças com fome (o que, para a Amanda, nem sempre é sinônimo de "disposta a sentar e comer bem") e cansadas depois de um dia com natação, ensaio para festa junina, aulas - o cenário começou a me parecer meio tiro no pé. Mal saímos de casa, o telefone do Ulisses tocou. Pausa para contextualização.
Minha sogra em breve irá se mudar para seu próprio apartamento, num condomínio a dois minutos de nossa casa, cujas chaves recebemos na última terça-feira. Há dias Ulisses vinha tentando entrar em contato com o gesseiro que fará/faria o rebaixamento do teto em algum ambiente do apartamento. O homem nunca retornou as ligações. Fim da pausa.
Eu dizia que o telefone do Ulisses tocou. Era, claro, o homem do gesso, no exato momento em que saio de casa com minha família para meu jantar de aniversário. Ulisses trocou meia dúzia de palavras com o cara, das quais ouvi com especial atenção duas palavrinhas: "cinco minutos". Desligado o telefone, seguiu-se algo como:
- Amor, o cara do gesso tá aqui do lado, no apartamento da mãe, vou lá rapidão, cinco minutinhos só pra mostrar a ele...
- Cinco minutos, Ulisses? Onde que esse cara só vai tomar cinco minutos da gente?
- Pois é, que hora pra ligar, mas eu tentei falar com ele e ele não ligou antes e ..
- Ah, mas as crianças tão com a gente, Ulisses, vão ficar impacientes e com fome...
- Tá, eu vou só entregar as chaves do apartamento pra ele e a gente vai embora.
- Você vai entregar as chaves do apartamento prum cara que você nem conhece?
- Ah, ele foi indicado por Fulano.
- Esquenta não, etc.
Nesse momento minha consciência me mostrou que eu estava enchendo o saco do Ulisses que, gentilmente, tinha me convencido a ir jantar com ele para um brinde de aniversário, todo empenhado em tornar o dia mais legal e tal. Falei, então:
- Tá, faz do jeito que você achar melhor.
A essas alturas, já estávamos entrando no condomínio, praticamente ao lado de nossa casa. O carro estacionando e eu pensando "não vou nem descer do carro". Ulisses abre as portas e convida:
- Vamos, criançada, dar uma olhada no apartamento da vovó.
Olha. Suspiros.
Seguimos pela área de lazer do condomínio e aí desencanei. Comecei a parabenizar minha sogra porque o lugar tá uma graça e eu ainda não tinha visto a área de lazer depois de pronta, tudo novinho e bem cuidadinho e muitos outros inhos. Eis que o homem do gesso liga novamente para dizer que estava esperando pelo Ulisses numa salinha de reuniões do condomínio, sei lá onde, ali perto de nós. Seguimos. Ulisses atrasou o passo para pegar Amanda, acho, e apontou "é aí, amor, nessa porta". Cheguei até a porta e dobrei à direita para entrar. O mundo explodiu.
Um estouro de gritos, palmas, risadas, coisinhas luminosas caindo sobre minha cabeça, um cenário tão completamente inesperado que precisei de muitos segundos até ser capaz de absorver aquilo ali. Enquanto eu preparava minha pior cara de poucos amigos para encarar o "homem do gesso" que estava atrasando meu jantar, dei alguns passos e me deparei com uma salão de festas cheinho de muitos amigos. Uma festa surpresa bem barulhenta. O homem do gesso nunca existiu e em seu lugar comecei aos poucos a reconhecer cada rosto, a receber cada abraço. Não sofro do coração, falei pra vocês? Com a ajuda de amigos, Ulisses providenciou tudo e os detalhes tinham tanto amor que todas minhas carências devem ter sido extintas definitivamente. De cada balão preso no teto pendiam fotografias minhas com pessoas queridas que não podiam estar ali. Amigas que moram longe, minha mãe. Fotos de minha infância e adolescência (imaginem os cabelos). A sala estava linda, colorida e cheia de gente querida. Arthur dançava e batia palmas junto com seus amigos que também estavam lá. Amanda surgiu com flores e Ulisses me deu outras para eu enfeitar os vasos solitários das mesas e minha mão tremia tanto que eu mal conseguia enfiar as flores nos vasinhos. Uma taça de champanhe aterrissou na minha mão. Outro amigo, outra amiga, outro abraço. Foram muitas horas de muvuca, abraços, afofações, brindes, bolo. Eu queria saber dizer bem direitinho como me senti, mas minha competência linguística não vai tão longe, desconheço as palavras.
Aos poucos os bastidores foram se revelando e certamente ganhei anos de vida com o tanto de risada boa que dei. Todo mundo me enganou. O amigo que nem me deu os parabéns na escola das crianças, enquanto ele também buscava o filho, me fez conversar sobre o presente que eu receberia em breve sem que eu soubesse. Ninguém me ligou durante o dia, mas, né, tava todo mundo ali no Facebook, com mensagens tão carinhosas... o tal documento que Ulisses precisava levar no banco era balela, álibi para ir providenciar os preparativos. Atrapalhei um monte porque precisei do carro no meio da tarde para buscar um bolo que serviria aos colegas no trabalho, bem na hora em que Ulisses iria buscar a comida encomendada. O livro mencionado no café da quarta-feira virou presente de outro amigo. A vizinha me abraçou de manhã, na academia de natação das crianças, com cara de paisagem. A esposa do "homem do gesso" me perguntou no Facebook se haveria "um bolinho" à noite. Respondi que não... A propósito, o nome do amigo que se passou pelo "homem do gesso" no telefone é Daniel. Caso eu tivesse visto a tela do telefone do Ulisses no momento da ligação-senha, não teria visto "Daniel", mas "Fernando - gesso". Assim, bem cinematográfico. Arthur sabia e não revelou nadinha. Para Amanda, tudo foi surpresa também.
À certa altura da noite, levei as crianças e minha sogra para casa. Depois voltei para o melhor presente de aniversário da vida e comi, bebi e conversei até as três horas da manhã. Já agradeci mil vezes, mas a balança ainda não se equilibrou. Estou em dívida com todos.
Foi o maior abraço do mundo. Obrigada, vocês.
Obrigada, Ulisses, de novo. A vida com você é absurda de tão boa.
Falando sobre o futuro, escrevi no final do último post que "a gente nunca sabe." Olha aí. Nunquinha. E se é verdade que alegria rejuvenesce, na noite de quinta-feira fiquei bem mais nova.