Porta aberta


Li o post da Carol e até comentei lá que nem escreveria mais nada porque ela tinha dito tudo. Mas, ah, vou dizer também. Eu me colocava no lugar do Wagner Moura, cantando no palco com o Dado e o Bonfá. Com os caras da banda da vida dele. Eu me colocava no lugar dele e pensava, gente, que coisa mais legal. E tava na cara que o cara tava tendo o momento da vida dele - e tava mesmo, tal qual ele falou depois numa entrevista doida lá. Morri de saudades do Renato, lembrei-me do dia em que ele se foi e a gente ficou assim, caraca, cantei as músicas que embalaram minha adolescência e foi tão bom relembrar aquelas letras. As letras do Renato. Amor amor amor. Uma banda que passou toda sua carreira pregando amor e delicadeza, celebrando a gentileza e o diálogo, falando das mazelas do país e dizendo que as respostas passam pelo amor ao próximo, essa banda merecia um tributo assim: apaixonado. E como disse a Carol, qualquer um cantando bonitinho demais só teria escancarado mais a grande lacuna. Renato era Renato. E era um tributo, né. Uma homenagem, não era um show pra ser quadrado. Eu curto shows quadrados, às vezes, tudo certo, impecável, espetáculo. Tem seu valor. Mas ontem vi uma galera boa tocando as músicas mais lindas. Celebrando a poesia. Cantando Legião. Ai, amei demais. Wagner, seu empolgado, a gente sabe como é. Esquenta não, toda vez que faltava voz a gente cantava junto. "O amor tem sempre a porta abertaaaaaaaaaaa..."

Blogversário


Flores, sempre.

Sou craque em me esquecer de aniversários. No último sábado foi a vez desta estrada. Três anos e nem me lembrei, tadinha. Não é justo. Nesses últimos anos multipliquei amigos, conheci ótimos blogs, li muita coisa boa rede afora, escrevi aqui e para a gaveta, tudo mais ou menos intermediado pelo Estrada. Através do blog amigos e familiares que moram longe acompanham o crescimento das crianças, recebem notícias incríveis sobre minhas plantas, meus cachorros e minhas gripes, olha que importante. Já dei muita risada nesse tanto de posts e por causa de pessoas que conheci através do blog as redes sociais por onde transito são quase sempre fontes de trocas muito positivas. Sem falar nos encontros virtuais que ganharam espaço no mundo de carne, osso e abraços. Se nada disso fosse válido, ainda restaria o prazer de registrar momentos que sei que vou querer relembrar depois. Tantas vezes escrevo como se conversasse com vocês, outras tantas escrevo para mim mesma. Sei que um dia vou receber essas mensagens com o coração aos pulos e isso me basta para que eu mantenha o blog ativo, às vezes tagarelando com quem passear por essas bandas, às vezes falando com as paredes. 

Há algumas semanas passei horas lendo e relendo as páginas do diário de minha tia, um inventário de memórias mantido durante 14 anos com notas sobre a rotina dela e daqueles que ela amava. Dias de solidão e saudades, de incertezas, dias de alegria, de marasmo ou planos mirabolantes, todos guardados nas páginas escuras de um caderno velho. Se daqui a muitos anos esse blog provocar em mim, no Ulisses ou em meus filhos algo semelhante ao que senti relendo o velho diário de minha tia, toda esse palavrório vai ter valido a pena. A expressão é até descabida: "valer a pena"; não há pena alguma. A verdade é que me divirto pra caramba e nos momentos mais pesados ainda encontro doses extras de escape e ombro. 

Tal qual minhas amizades que perduram apesar dos telefonemas de aniversário que nunca chegam (ou que sempre chegam com atraso), segue a estrada. E nunca é demais: obrigada pela companhia, sempre me toca. Tem mais gente chegando, mas a estrada é larga. No sol a gente canta, na chuva a gente dança e é com alegria que recebo cada visita, cada espiada, cada aceno. Obrigada demais. 

Papo necessário



Na semana passada um amigo compartilhou no Facebook uma fala da psicóloga Viviane Mosé. O vídeo é de um programa de TV e a fala da Viviane gira em torno dos desafios da educação na atualidade. Bem na linha defendida pelo inglês Ken Robinson, a fala de Viviane tem minha simpatia e divido com ela os mesmos anseios. Não sei se divido o otimismo; concordo que o momento é propício para grandes mudanças de paradigmas na educação (o papel da internet entra como elemento fundamental aí), mas tenho medo das amarras enferrujadas dos métodos mais tradicionais de ensino. Deixo aqui o link para a entrevista. Fica o convite para que assistam. A conversa começa morna, meio devagar, mas engrena que é uma beleza. Em um dos meus momentos favoritos, ela diz:

"O mundo não é o lugar onde a gente veio pra se dar bem, não é. (...) A alegria é compartilhada." <3


Mês


Em trinta dias cabem muitas revoluções. Cabe um tanto bom de planos e outro tanto de saudades. Em um mês uma plantinha cresce alguns centímetros e alimenta lembranças de anos inteiros


Ao lado da planta cultivada por Tia Maria, que nos deixou há um mês, há um vizinho de cabelo espetado que Amanda ganhou como lembrancinha de um aniversário. Imagino que as conversas devem ser ótimas.

Cabelo Espetado: - Você tem saudades da Tia Maria?
Plantinha da Tia Maria: - Sim. E você?
Cabelo Espetado: -- Não a conheci.
Plantinha da Tia Maria: - Ah, então deixa eu te falar dela...





Menina Lispector

Li alguns livros e artigos sobre a obra de Clarice Lispector na faculdade de Letras, naturalmente. Comecei a ler sobre a autora na mesma época em que comecei a ler sua obra - e quase acrescento a palavra "naturalmente" a esta frase também. É que acho mesmo natural sentir curiosidade em torno da vida de quem escreve o que ela escrevia. Pelo menos eu sentia, sempre quis saber. Queria saber como tinha sido a rotina da pessoa, da mulher que escrevia aquelas coisas, que via o mundo e nossa experiência nele com aquele olhar. Tenho dessas bobagens, às vezes. As referências à vida de Clarice que eu lia por aí, no entanto, normalmente eram um tanto frustrantes. Não que fossem textos ruins, apenas se prolongavam por demais em assuntos que pouco me interessavam. Se alguém me perguntasse "mas afinal, que raio de informação você está procurando?", eu diria um desanimado "não sei". Porque eu não sabia mesmo. Todo mundo sabe de fatos da vida cosmopolita da escritora e esposa de diplomata que morou em vários países e conhecia várias línguas; todo mundo sabe que era filha de imigrantes ucranianos; que morou em Recife logo após chegar ao Brasil; que foi mãe e morreu vítima de câncer. Essas e várias outras informações abundam em biografias e artigos por aí. E eu seguia incapaz de apontar exatamente o que mais eu queria saber. Quando o livro Clarice, uma biografia, de Benjamin Moser (tradução de José Geraldo Couto, Ed. Cosac Naify), chegou às minhas mãos, confesso que junto com a alegria pelo presente veio o pensamento "here we go again". Temi pela minha paciência em atravessar mais uma biografia com as mesmas informações que já vi repetidas vezes. Eu estava docemente enganada.

Comecei a leitura e fui esperando o momento em que as informações já tão familiares começariam a pular das páginas. Ando ali pela página 120 e isso ainda não aconteceu. Moser se dedicou a pesquisar e nos mostrar o contexto histórico que levou a família de Clarice a migrar para o Brasil e a ressaltar o papel da infância na formação da mulher Clarice. Mais do que mencionar en passant os efeitos gerados pela Primeira Guerra e pela Revolução Russa na história da família, Moser descreve detalhes da saga dos Lispector, forçados a deixar suas terras por conta das perseguições implacáveis aos judeus. Quando Clarice nasceu, em 1920, sua cidade natal, Tchechelnik, no sul da Ucrânia, amargava fome, epidemias e toda espécie de misérias causadas por saques e invasões. As temperaturas chegavam a 30 graus abaixo de zero e sua família a chamou de Chaya Lispector. O bebê que nasceu em meio a um cenário de horror, a pequena criança, com menos de dois anos, acomodada na imunda terceira classe de um navio na longa e dramática travessia do Atlântico (rumo a uma terra completamente desconhecida para a família), a garota de infância pobre em Maceió e Recife, a aluna com boas notas mas com mau comportamento, a menina que dava nome aos azulejos do banheiro e brincava o dia inteiro com uma palavra, essa Clarice é a que eu procurava em outras biografias. Achei, agora sei. Tem sido de longe a biografia mais envolvente que li sobre ela. Irônico que eu esteja dizendo isso de um autor estadunidense. Ou talvez não haja ironia alguma pois, como diz o próprio Moser*, há tantos aspectos grandiosos na escrita de Clarice que talvez o termo "literatura brasileira" nem seja o enquadramento mais relevante ao se descrever sua obra. Moser descobriu a autora brasileira - porque ela fazia questão de ser brasileira - quando estudava língua portuguesa, com A Hora da Estrela, e se apaixonou a ponto de dedicar boa parte de sua vida acadêmica e profissional à autora, pelo menos até aqui (ele ainda deve ter longa carreira pela frente, tem apenas 33 anos).

Agora sei que Clarice se via como uma criança fracassada naquela que teria sido sua principal função nesse mundo: curar sua mãe. Durante algum tempo, circulava entre algumas populações mundo afora a crendice de que uma mulher poderia se curar de sífilis se engravidasse. Quando já tinha duas outras meninas, Mania Lispector foi contaminada por soldados que a violentaram durante as perseguições antisemitas de que sua família, entre tantas outras, foi vítima na Ucrânia. A gestação de Clarice seria, portanto, uma tentativa de cura. A cura nunca veio e durante anos as irmãs mais velhas de Clarice cuidaram da mãe em seu lento calvário até a morte em Recife, em 1930. As palavras da Clarice adulta dão uma ideia do turbilhão de sentimentos experimentados pela Clarice menina: "...fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei. (...) Sei que meus pais me perdoaram eu ter nascido em vão e tê-los traído na grande esperança. Mas eu, eu não me perdoo. Quereria que simplesmente se tivesse feito um milagre: eu nascer e curar minha mãe." Tinha nove anos quando perdeu a mãe, época em que já tinha a reflexão sobre a linguagem como elemento forte em sua vida. Moser fala da busca pelo milagre, por palavras mágicas que tivessem o poder de restabelecer a saúde da mãe. Clarice brincava de entreter a mãe moribunda com encenações e teatrinhos, criando situações mágicas em que uma palavra a salvaria da terrível doença. A brincadeira de procurar o poder oculto das palavras continuaria e daria o tom de toda sua obra. A brincadeira de Clarice para salvar sua mãe aliada à sua aguçada sensibilidade a levariam a confrontar nossa relação com a linguagem de maneira revolucionária em nossa literatura. As tentativas da menina Clarice de curar sua mãe e o que foi gerado a partir daí continuam me emocionando. Lamentavelmente, a origem de tudo isso carrega a sombra dos horrores a que a família Lispector foi submetida.

Clarice brincou com as palavras até o fim. Semanas antes de morrer, disse à amiga que a acompanhava ao hospital: "Faz de conta que a gente não está indo para o hospital, que eu não estou doente e que nós estamos indo para Paris". Se para acalmar os que a cercavam ou se para zombar de sua própria brincadeira infantil, não sei; o fato é que em outros momentos a "brincadeira" se transformava no incrível exercício filosófico que foi sua escrita. O que é a palavra? Que poderes tem? Como nos reconhecemos para além dela? É possível tal reconhecimento? Até que ponto somos moldados pela linguagem que acreditamos usar para "nos expressar"? Sempre aceito os convites para observar as "brincadeiras" e reflexões de Clarice. Até aqui, quando lia qualquer texto dela, trazia comigo a imagem da mulher elegante e um tanto antipática nas fotos que circulam por aí. Agora não mais. Vou ler pensando na menina que ficava no banheiro dando nomes aos azulejos**. Vontade de dizer: posso brincar também?

***

Ganhei Clarice, uma biografia da leitora, colega-blogueira e finíssima flor Juliana. E ela dizendo lá no blog dela que não sabe dar presentes, vejam vocês. Estou longe de terminar a leitura - e sem qualquer pressa.


***

Há posts sobre Clarice e sua obra escritos por Benjamin Moser no site da editora do livro.



***


* Li a afirmação em algum lugar no site da editora (link acima), mas não consigo agora localizar o post exato.


** Engraçado como em uma das biografias que li há vários anos, Clarice, Uma Vida que se Conta, de Nádia B.Gotlib (Ed. Ática), há duas fotos de Clarice ainda criança. Revisito essas fotos agora antes de encerrar o post e vejo que em uma delas ela veste luto pela morte da mãe, aos nove anos. É como se eu visse a foto pela primeira vez. A biografia escrita por Gotlib não se demora sobre a infância de Clarice, apesar de haver ali várias menções a ela, e só as palavras de Moser me fizeram ver a foto.




Resgate


Amanda canta, a todo vapor, canções de Natal. Mês que vem tem festa junina, deve ser por isso. Enfim. Ela canta:

"...bate o sino, pequenino, sino de beléééém... já nasceu deus me livre para o nosso beeeem..."

É como um resgate. :-)

De perdas e buscas


Um acidente de carro na tarde da última terça-feira perto da cidade onde nasci deixou dez vítimas, sendo seis fatais. Entre os mortos estava o sobrinho da esposa de meu tio. Um primo de meus primos. Meus primos, os mesmos que me ampararam na morte de minha mãe, que sofreram comigo a perda de Tia Maria há menos de um mês, agora enfrentam o sufoco de se despedir de alguém próximo que vai embora de repente de uma maneira que nos parece absurda. Uma distração, chuva, fim. Lamento por eles que perderam alguém com quem dividiram a infância.

Sei que eles sabem que sinto muito, mas a morte traz consigo essa coisa pesada que faz com que toda palavra pareça oca. Digo mesmo assim que trago todos em meu coração.


Ontem fiquei sabendo que uma amiga querida também perdeu uma prima em um acidente de carro aqui em Santa Catarina. Estava grávida e deixou um filho adolescente.


A vida às vezes parece misteriosa demais pro meu gosto.


Busco luzes no fim da estrada e vejo algumas. Torço para que meus primos se mantenham fortes para receber, em poucas semanas, o bebê que seria o segundo filho daquele que se foi. À minha amiga fica o consolo por saber que todos os órgãos da prima foram doados.


Para além disso, só me chegam as tais palavras ocas.

Neblinas


Dois episódios da segunda temporada bastaram para me deixar com vontade de acompanhar a série Game of Thrones. Agora vou rezar para Nossa Senhora do Tempo Sobrando e ver se consigo ver a primeira temporada inteira e ainda os episódios da segunda que perdi. Oremos. 

***

A biografia de Clarice que estou lendo (vide barra lateral) finalmente me fisgou. Passeei pelas primeiras folhas um tanto quando alheia ao livro em dias em que minha mente estava nublada demais para eu me concentrar. Agora comecei a enxergar o livro e estou embarcando com prazer na leitura. Mais depois. 

***

Jane Eyre foi o primeiro livro que li em inglês, tarefa do cursinho em outras épocas. Lembro-me que consultei o dicionário inúmeras vezes, tropecei em várias frases, tirei milhares de dúvidas com a professora (oi, Sinara, tudo bem?), mas li mesmo assim. Tantos anos depois não me lembrava bem de detalhes da história. Guardei na memória a atmosfera de pesar da vida sofrida da garota órfã que um dia iria se envolver com um homem cheio de mistérios. Há dois dias vi o filme e gostei. Gostei da atriz (que não me agradou muito em Alice, mas me convenceu em Jane Eyre), dos cenários, do ritmo. Minha experiência com o filme, contudo, teve gostinho saudosista. O cursinho de inglês era mais que uma escola, era um portal. E eu nem sabia onde dava, mas não fazia muita diferença. A caminhada já valia.

***

Arthur e Amanda estão enamorados. Querem sentar um ao lado do outro na mesa, ele escova os dentes dela, ajuda com o cabelo, na hora de calçar o tênis, lava as costas dela no banheiro da academia de natação. Antes de rumar cada um para sua sala de aula despedem-se com abraços e beijinhos. Ele vai à festa da amiga, ela fica com saudades. 

Aí um quer o mesmo brinquedo que o outro e a briga rola solta. 

***

No último domingo acordamos por volta das cinco e meia da manhã com os latidos do Floquinho. Ulisses desceu pra ver o que tava rolando. Tava rolando água. A caixa de descarga do lavabo rachou. A sala estava uma Veneza e nós amanhecemos o dia com rodos e panos de chão. Foi bem divertido. Estamos pensando em instituir a prática. No domingo que vem, vamos alagar a outra sala. Ah, o tapete foi colocado no quintal para secar. O Roque rasgou o tapete. Aqui é assim: um cachorro dá o alarme e o outro se aproveita. Estamos pensando em instituir a prática. Na semana que vem, vamos botar as almofadas lá fora. 

***

Nosso multiprocessador quebrou. Assim como o interfone e o ar-condicionado. Mas, enfim, foco: o multiprocessador estragou. Aí mandamos para a assistência. Um mês depois, nada. Ligamos para o fornecedor que disse que a assistência tinha informado que o cliente já havia recebido o produto consertado. Oi? Ao verificar que a peça sequer fora mandada para a assistência, o fornecedor disse que mandaria a peça em dez dias. Não são legais? Não. Aí o Ulisses falou que, de acordo com o código do consumidor, após trinta dias o cliente tem direito a um produto novo. Foi só falar e fez-se a mágica. Quatro dias depois recebemos um novo. Mas se a gente não tivesse falado... né?

***

Ontem Florianópolis amanheceu escondida sob forte neblina. Fui para o trabalho admirando a paisagem que parecia ter migrado dos cenários das irmãs Brontë. Cheguei sem maiores problemas ao meu destino, não é preciso ver a baía para saber que ela está ali, não é preciso ver o semáforo à distância para diminuir o ritmo. Meu espírito tem tido dias assim também: sigo firme porque conheço o caminho, mas a neblina ainda é bem densa. 


A room


Passei a manhã de domingo no quarto da filhota arrumando, separando brinquedos e roupas para doação. Ela me ajudou em tudo e me surpreendeu com as escolhas dos brinquedos para doar. Ficava toda saltitante imaginando "a alegria de quem vai ganhar o ursinho!". Fiquei até de olho para ver se não havia um esforço exagerado ali para se mostrar generosa, mas não. Deixei o tal urso (lindo) bem à mão até o final da faxina, mas não houve recaídas. Duas sacolas de brinquedos a menos, duas sacolas menores de lixo e, ah, como tudo parece tão melhor. Quando penso em minha infância, vejo que minhas melhores lembranças no quesito quarto de dormir são do último quarto da última casa em que morei com meus pais. Mas ainda me lembro do penúltimo, menor, com móveis cor de laranja (ou seriam vermelhos?), pequenos brinquedos de plástico, uma ou duas bonecas grandes, uma Emília de pano sobre a cama, os Sete Anões de plástico enfeitando a parede, os Barbapapas de isopor. 


Meu quarto era o cenário onde meus sonhos se desenhavam. Era onde eu conversava sozinha, estudava, brincava, chorava escondida, escrevia meus diários. Espero que as lembranças da Amanda sejam boas. Torço que ela se lembre do verde que vê da janela, dos pulos que dá pelo quarto, das histórias lidas com o pai na hora de dormir. O resto, fotografei para dar uma mãozinha. 

Miniaturas fofas (o chinelinho, gente...)

Os Sete Anões, também.

Dona Joaninha.

Baús, porque ainda não inventaram nada melhor para guardar brinquedos-tralha.

O canto dos livros (eu tinha acabado de arrumar, normalmente é mais caótico).

Lembrança da Tia Maria...

... e da Vovó Berna.

Boneca que minha amiga Ju trouxe pra mim do Japão, há tanto tempo. A boneca e a amizade continuam.

Boneco que eu trouxe da Áustria, mais ou menos na mesma época em que a boneca japonesa chegou.

Pássaro pintado pela dona do quarto. Ao fundo, quadro pintado pelo cunhado da ex-babá, a partir de uma foto da Amanda em um jardim.

Detalhe do quadro.




Os companheiros de soninho (a gatinha Marie não foi encontrada para a foto).

A vista.


A foto mais honesta: coisas espalhadas pelo chão. ;-)



Poema de boas vindas ao final de semana


- Fico vendo você deslizando, borboleteando pra cá e pra lá, e vejo como sou tão feliz. Amo você demais. 

(Ele falou enquanto eu estava buscando a faca para cortar a baguete. Porque buscar a faca aparentemente também pode ser um ato poético.) 

***

Passei pela locadora e peguei três filmes, dois dos quais há muito queria ver. Devo passar boa parte do sábado concentrada em um trabalho que não posso, não quero e não devo adiar. Preciso arrumar o quarto da filhota. Estamos montando um quebra-cabeças de mil peças. E ainda pretendo borboletear pela casa, claro. Friday, I'm in love. 



No banho



- Amanda, não se esquece de lavar atrás da orelha.
- Tá, mãe, já lavei atrás, o ouvido e a audição. Lavei até o olfato.
- Sei. 
- Mãe?
- Oi.
- Não é que os cinco sentidos são o paladar, o olfato, a oudição...
- Audição.
- Tá, tá, tá, eu sei: paladar, olfato, aaaaudição, visão e tato bola?

:-D 
Como não amar?

Boletim


Hoje meu filho trouxe para casa o primeiro boletim de sua vida escolar. Em meio aos parabéns pelas ótimas notas, fico pensando por que cargas d'água precisamos dar notas para avaliações de crianças com sete anos de idade. Não seria essa a fase de estimular a curiosidade e despertar a paixão pelo conhecimento? De tornar a escola um lugar divertido por excelência? Sei não, estou amadurecendo pensamentos acerca do tema, mas me pergunto se plantar a semente da ansiedade e da competição tão cedo não pode mais atrapalhar que ajudar. Sob o pretexto de "preparar para o mundo competitivo lá fora", temo que a escola, na verdade, só contribua para manter o tal mundo competitivo do jeitinho que ele está. Não seria mais produtivo cultivar pequenos amantes das descobertas pelo prazer das descobertas em si e não pelo desempenho em testes que, ao meu ver, chegam cedo demais em suas vidas? Não estou bem certa se a maioria das crianças nessa idade têm maturidade emocional para lidar com a ansiedade que inevitavelmente cerca um sistema de avaliação pautado em notas. O que estamos testando afinal? Os professores alegam que a avaliação contínua (adotada pela escola de meus filhos, com testes praticamente todas as semanas) permite aos professores manter um controle muito preciso do desempenho das crianças. Acredito, não questiono isso. Questiono o sistema de notas que gera uma ansiedade a meu ver absolutamente desnecessária nessa idade. Penso que avaliações podem ser desenvolvidas sem tanta pressão por resultados. Em nosso sistema educacional atual, a segunda série do Ensino Fundamental é o momento em que as crianças passam a ter contato mais direto com disciplinas fascinantes como Ciências, Geografia ou História, entre outras. Não seria um pecado vê-los mais preocupados com o boletim que com os conteúdos em si? Nem digo que isso esteja ocorrendo agora, não tenho elementos para fazer tal afirmação, apenas temo que isso passe a ocorrer muito em breve. Já vi crianças reclamando por não terem tirado a nota máxima, mesmo tendo tirado uma excelente nota. Sei não, tenho a impressão de que isso não combina com eles. 

Posso estar equivocada e este pequeno post é um convite à reflexão. Gostaria de saber como funciona o sistema de avaliação em outras escolas do Ensino Fundamental por aí. Estou procurando chifre em cabeça de cavalo? 

Os planos e as cordas



Vira e mexe Ulisses vem com aquela conversa do barco. Que um dia viajaremos pelos mares por aí. Hoje afirmei que, tudo bem, eu topo. Com uma condição: deixaremos uma corda prendendo o barco à nossa casa. Uma corda bem grande para que a gente possa ir bem longe, o quanto ele quiser. E para que a gente possa voltar em segurança se algo der errado, tipo, se nublar. Ele me olhou com aquela cara. Aí eu disse:

- Você sabe que eu vou, não sabe?

E ele disse:

- Claro!! Quando a gente estiver em alto-mar eu removo a mordaça e as cordas que estavam te amarrando e digo "ah, amor, que bom que você veio".

São uns planos aí que a gente tem.

***

Adoro saber dos planos dos outros, assim como adoro alimentar os meus. Os favoritos são os radicais, como largar o emprego (ainda que temporariamente) e sair pelo mundo; ou sair pelo mundo, simplesmente; ou mudar de país, nem que seja por um tempo determinado, para experimentar outros olhares. Tenho alguns amigos nessa vibe agora e acho que eles estão vivendo partes importantes de suas vidas, torço por eles. Outros já embarcaram e ainda saboreiam o gostinho que é lançar-se no mundo sabendo que isso intensifica muito nossa percepção do que é estar aqui. 

Ainda me recordo do frisson que era planejar a mudança, do friozinho na barriga que vem com a decisão de abrir mão do bom salário. Ou embarcar em uma viagem longa apenas com metade das pontas amarradas. Botar à prova a fluência na língua estrangeira, com a cara e a vontade. É muito bom. É vibrante, instigante. Claro que há milhares de modalidade de planos ousados que não necessariamente envolvem passagens e malas. Minha loucurinha atual tem mais cara de paredes que de mares, e nem por isso me excita menos. É Ulisses que vem com esses papos de ir por aí, sabe. Gosto dessas conversas que espicham a vida lá pra frente, então imaginamos o céu impossível que poderemos ver da popa. Ou da proa, sei lá. Antes disso ainda há muita terra para a qual pretendo arrastá-lo e vou ganhando tempo à espera de que o Amir Klink que mora em mim dê o ar de sua graça. 

A essas alturas vocês já perceberam que estou escrevendo sobre nada. Estou só alimentando minhas caraminholas enquanto seu lobo não vem. De vez em quando levanto voo e saio por aí, sem cordas, com meus delírios mirabolantes, minhas viagens que podem ou não se converter em fotografias um dia. Quem sabe. Na minha última aula de francês, aprendi uma expressão que traduz dois ou três saltitos que já dei em outros tempos. Pretendo fazer bom uso dela, ainda. Ah, pretendo: jeter tous par la fénêtres*. Em francês fica ainda mais tentador, obviamente. 

***

Alguém aí com planos mirabolantes? Vou revelar um: planejo arrumar o quarto da minha filha no final de semana! Adrenalina é isso aí.


* Algo como chutar o pau da barraca, enfiar o pé na jaca, jogar tudo pro alto, essas coisas sensatas e bem planejadas. ;-)


As sapatilhas de porcelana


Quando fiz quinze anos ganhei um pequeno par de sapatilhas de porcelana que enfeitou a parede de meu quarto nos anos que se seguiram. Quando me mudei da casa de meus pais, o enfeite ainda ficou na parede pelo tempo que minha mãe julgou conveniente. Aos poucos ela foi se desfazendo daquele e de outros badulaques, depois que ficou evidente que eu não combinava mais com aqueles lacinhos ou com os bichos de pelúcia; depois que ficou evidente que eu dificilmente voltaria a morar ali, como de fato nunca aconteceu. Vários itens foram doados para outras crianças, outros tomaram rumos que desconheço. Assim como desconhecia, até bem pouco tempo, o rumo que tinha tomado o par de sapatilhas.


Duas semanas atrás, quando estive em minha cidade natal, uma grande amiga de minha mãe me contou que tinha recebido as sapatilhas das mãos dela. E que ainda as tinha, guardadas em algum lugar de sua casa. Disse também que gostaria de que eu as recebesse de volta para repassá-las a Amanda, agora às voltas com aulas de ballet. Eu sequer me lembrava das sapatilhas até minha amiga tocar no assunto; a visão delas, contudo, jogou-me imediatamente no meu antigo quarto e em lembranças da adolescente que fui.  Aceitei a oferta, obviamente, e contaria do efeito que o gesto teve em mim se eu soubesse como. Sei que agora o parzinho branco e rosa integrará o cenário da infância da Amanda  pelo tempo em que ficar no quarto dela. Ela adorou. 


Não faço ideia de quem me deu as sapatilhas na primeira vez. Mesmo assim sou grata, talvez mais do que quando as recebi anos atrás. Sou grata a minha mãe por tê-las entregue à sua amiga; e a esta por tê-las guardado por tanto tempo e pelo sensibilidade em me passá-las agora. Não é maravilhoso ganhar o mesmo presente duas vezes, com anos de intervalo, e ver como a peça se valorizou tanto que nem podíamos supor? Eu acho. Acho um luxo mesmo, desses que têm o valor de mão estendida, de abraço solidário. Do melhor tipo de presente. Daqueles que a gente nem sabe como agradecer.



Band-aids


As duas últimas semanas não foram as melhores da minha vida. Desde a morte de minha tia tenho estado "meia-pilha". Tenho andado mais triste que aqueles três tigres que comem trigo. Tenho me esforçado (vide frase anterior) para não deixar a peteca cair, então mereço os parabéns. Obrigada. A virada abril/maio me ofereceu uma sequência de baques que pôs à prova minha capacidade de lidar com a tristeza sem despencar barranco abaixo. Sou muito grata pelas crianças, que tornam tudo tão mais fácil, e aos amigos que não economizam palavras e gestos de pura doçura. Faz muita diferença sentir a empatia do outro, receber aquele telefonema, aquele e-mail ou mesmo um rápido, porém doce, tweet. Ô, gente, vocês são todos lindos.

Faço sala, converso, dou risada. O esforço, sabe. O que quero, porém, é que seja inteiro. Sei, já aprendi, que a dor tem seu tempo, mas quando se acumulam as surpresas ruins a gente sente urgência. Estou com pressa de me sentir bem de novo. Só que não é exatamente assim que funciona. Entrego-me, portanto, às possibilidades: um dia por vez, uma alegria pequenina aqui, um papo leve ali e daqui a pouco vou estar de novo em paz. 

Uma semana após minha tia ter ido embora perdemos um colega de trabalho. Não era uma pessoa com quem eu tinha muito contato além dos bons dias e boas tardes nos corredores e elevadores, mas seu desaparecimento repentino foi uma rasteira forte em mim e em muitos onde trabalho. A morte de alguém jovem é algo esquisitíssimo. De alguém jovem e querido por muitos, que vai embora de forma trágica, é algo que não sei nomear. 

Hoje minha casa está mais cheia e barulhenta e acho bom. Por causa do dia das mães a família de meu marido está reunida aqui. Dia das mães - não seria exatamente a data ideal para o calendário me apresentar agora, mas vamos tentar. Por causa desse mesmo dia das mães já ganhei das crianças uma coleção de desenhos onde apareço fina, elegante e sincera. Pensei em usá-los como band-aids da alma. Acho que vai funcionar.

Eu e Amanda, by Amanda.

***


Bandidos


Amanda está gripada e adorou o sabor do remédio. 

- Mãe, quero mais remédio.
- Não pode. Remédio tem que ser na dose certinha. Se for na dose errada faz mal e é bem perigoso.

E ela, que assimilou a ideia de que bandidos são pessoas que fazem coisas erradas:

- Os bandidos tomam remédio errado, né mãe? Aí a polícia vai e dá o certinho. 


As três marias na janela


No domingo passado minha filha Amanda e eu compramos vasos para nossa janela da cozinha.

 
A violeta que a vizinha me deu.


 A plantinha que Tia Maria plantou e que eu trouxe comigo há pouco mais de uma semana.

A plantinha que filhos e marido me deram quando voltei. Sugestão da filhota de 4 anos. <3



Ao contrário da minha tia com dedos verdes, não levo muito jeito com plantas, ainda que seja fã delas. Mesmo assim, vou cuidar dessas. Acompanhemos. Tomara que eu não afogue nenhuma ou deixe alguma morrer de sede, porque gosto muito mais de minha cozinha agora. Muito mais.


1957


 Minha mãe, aos 17 anos.



Será que tinha planos ou que suspeitava de metade do que experimentaria em seus setenta anos de vida? A quem gostaria de mostrar essa foto? Será que, como eu na mesma idade, acreditava que o mundo lhe pertencia? Ou vivia um dia por vez esperando resignada o que o amanhã trouxesse? 

Ontem sua neta pediu doces "do pote da vovó Berna". E isso me basta para pensar no tanto que ela nunca soube, nunca viu. 

Essa foto estava guardada entre outras na casa da Tia Maria. Ninguém da família tinha visto, minha mãe nunca me falou dela. No verso há uma dedicatória dela para minha tia, "da mana que a estima" - a cara dela, "mana que a estima". E ouço com os olhos, a caligrafia dela é como a voz fazendo eco. E acho que está linda na foto. 

Olha pro céu, meu amor


Foto daqui.

Ulisses instalou um aplicativo no i-pad chamado GoSkyWatch. Para mim, que tenho uma luneta na lista de sonhos de consumo, foi um presentão. O aplicativo é gratuito e ocupa bem menos espaço que a luneta, então foi aprovadíssimo. Quem não tem cão, sabe como é que é. Ainda não exploramos tudo que o brinquedo pode oferecer, mas por enquanto é o seguinte: corre todo mundo pro quintal; daí escolhemos uma estrela no céu e apontamos o i-pad para ela. O localizador do programa nos mostra o nome da estrela, a constelação à qual pertence e uma série de números e angulações que ainda não sei decifrar (mas pretendo descobrir). O caminho inverso é ainda mais legal: a gente digita o nome de um planeta ou estrela e pede que o programa nos mostre onde o corpo celeste está. Uma bússola na tela nos indica para onde apontar e, voilá, lá está Saturno, aquele ponto grandão; e Marte bem ali; aquela estrela imensa "se chama" Carina e por aí vai. Uma delícia. O aplicativo mostra os clusters de estrelas, a imensidão de corpos celestes que as luzes da cidade não nos permite ver e isso nos deixa com água na boca (quem já teve a chance de ver o céu estrelado longe da cidade sabe do que estou falando); se apontarmos o i-pad para o chão, sabemos que constelações e planetas podem ser vistos do lado de lá da Terra. É um brinquedo, mas é dos bons. O aplicativo é um mapa do céu, um GPS das galáxias (me empolguei); para evitar dores no pescoço, sugiro uma cadeirinha de praia ou uma toalha no chão; ou um pedacinho do gramado, sei lá. Deita lá e chama as crianças. Uma ótima alternativa para elas cuja curiosidade não tem limites, tal qual o céu sobre nossas cabeças.

Em tempos em que a vida na Terra anda me dando sustos, bem que aprovo a ideia de dar uma espiadinha lá em cima. Recomendo. Algumas imagens passam vários anos-luz até nos alcançar, vale a pena conferir de vez em quando.


Birras em lugares públicos - como lidar?


Na semana passada presenciei uma cena bem incômoda (foi "horrível", mas "incômoda" é uma palavra mais aprazível). Uma criança de cerca de 4 anos e meio estava com os pais numa loja de brinquedos. Era uma menina e o pai estava brincando de empurrar um carrinho com a criança dentro. A certa altura da brincadeira, a capota do carrinho emperrou e o pai não conseguiu abaixá-la. O fato irritou um pouco a criança que reagiu dirigindo-se ao pai em tom um pouco ríspido: "larga, pai!". O pai prontamente repreendeu o tom de voz da menina e ordenou que ela saísse do carrinho, encerrando a brincadeira, enquanto explicava: "não é assim que se fala com as pessoas". A menina se aborreceu ainda mais e começou a chorar. Sentou no chão e ficou ali. A mãe passou um brinquedo para as mãos do pai e assumiu a tentativa de encerrar a birra da menina. Segurou a mão da criança e saiu da loja. Sentou-se com ela em um banco que havia no hall do shopping e tentou conversar. Acontece que, ao ser retirada da loja, a menina iniciou uma sequência de berros e chiliques nunca antes vistos na história desse... blog. Não houve conversa possível, ela estava irredutível em sua decisão de chorar e gritar. Se eu não soubesse nada sobre a menina ou a família, pensaria do alto de meus pensamentos equivocados que ali estava uma família em apuros no quesito filhos. Acontece que conheço bem a família. A criança era a Amanda e a mãe era eu. O pai era o... bom, vocês já entenderam.

Ao perceber que Amanda não estava em condições de conversar ou me ouvir, fiz sinal para o Ulisses e segui rumo ao elevador. Ulisses chamou o Arthur e nos acompanhou. A visita à loja de brinquedos tinha duplo objetivo: escapar do trânsito miserável que se espichava lá fora e permitir que o Arthur desse uma espiada em possibilidades para o sábado, dia em que faria 7 anos. Com a birra da Amanda, fomos embora, com trânsito e tudo (que já estava bem melhor, a essas alturas, mas isso nem vem ao caso). A caminho do elevador ela percebeu que estava encrencada. Ceder, no entanto, aparentemente não passou pela cabeça dela. Bateu pé, gritou de novo. Pediu colo e a negação de nossa parte gerou mais nervosismo. Abaixei-me para olhá-la nos olhos e expliquei que o comportamento dela estava horrível, que ela não ia conseguir nada com aquilo e outros blás. Falei firme e deixei muito claro que estava brava (estava muito brava e estou me achando a rainha do equilíbrio emocional porque, né, não surtei). Quanto mais eu falava, mais ela se irritava, chorava, gritava e batia os pés no chão. Lindo, um amor, só que ao contrário. O elevador veio, entramos e o pranto seguiu. Quando um casal entrou no elevador com um bebê no carrinho, falei para Amanda que o choro dela assustaria o bebê (verdade) e só então ela deu uma regulada na intensidade dos decibéis. Não queria sair do elevador, não queria caminhar para o carro. OLHA.


Bronca no carro, mais choro. Uma vez em casa, direto para a cama. Pediu desculpas, mas deixamos claro que o papo rolaria no dia seguinte. No dia seguinte conversamos e explicamos bem desenhadinho as implicações do comportamento dela. Anunciamos os confiscos e castigos, os passeios que não fará, etc. Anunciei ajustes rígidos no "programa piti zero". Enfatizamos que a amamos demais, mas que o comportamento dela foi inaceitável, que ficamos tristes e que ela não ganhou nada com aquilo. Pelo contrário, colecionou várias pequenas perdas (pequenas para nós, mas bem grandes para ela).


Jamais imaginaria um piti desse porte por parte de nenhum deles. E considero Amanda uma criança de gênio forte, mas me surpreendi de verdade. Ela já tinha dado um chilique (bem menos intenso) uma vez numa loja de calçados, mas estava exausta e nossa conduta de levá-la para casa sem o sapato novo (usou o velho surrado por várias semanas até que eu voltasse à loja com ela) rendeu ótimos resultados. Ulisses ponderou que, dessa vez, ela pode ter sentido ciúmes pela ocasião. Estávamos na loja para que Arthur escolhesse um presente para o aniversário ("escolher", claro, com ressalvas) e isso pode ter gerado um desconforto com o qual ela não soube lidar. Não sei, ambos estão bem habituados a ver o outro ganhar presentes sem receber nada. Amanda é uma criança articulada e muito viva, tenho certeza de que tem plenas condições de se expressar sem tanto chilique. Se tivesse dois anos, eu daria maiores descontos. Aos quatro e meio? Não, Amandinha, não é assim que a banda toca, meu amor. Tome tento.


Fiz uma breve enquete no Facebook e, pelo visto, nossa atitude foi bem próxima do que fariam vários de nossos amigos: retirar a criança do lugar e explicar que ela não conseguirá nada com aquilo. Apenas uma das amigas considerou inadequado retirar a criança (salvo em caso de teatros, cinemas e afins) por entender que um espaço público é um espaço de todos, inclusive dos birrentos. De minha parte, considero importante poupar os outros dos chiliques dos filhos, apesar de entender a lógica do pensamento da amiga que se posicionou assim. 



Considero meu exercício de paciência da década completado com louvor. 

***

Arthur escreveu uma declaração de amor para mim: entre outras coisas, disse que sou a melhor mãe do mundo porque lavo louça. E aí, conto agora que ele também vai lavar, ou espero o dia chegar? 

Sete


Que haja música por onde você for.

Filhote,

Não sei se você vai ler esse texto um dia. Se o fizer, não sei quantos anos terá. Vou arriscar e fazer de conta. Quero dizer que o abraço de boa noite hoje foi mais longo que de costume, pois nos despedíamos de seus seis anos. A primeira infância está quase indo embora e você está mesmo tão grandão, bem maior do que o bebê gorducho que nasceu sete anos atrás virando meu mundo. Bem mais esperto e cheio de perguntas também. Caso você se esqueça, saiba que na chegada dos seus sete anos você era gentil, engraçado, quase sempre bem humorado, falador como ninguém e muito curioso. Seus amores maiores agora são seus amigos e sua irmã, pega-pega, euzinha, seu pai e ovo cozido no almoço - não sei a ordem. Você anda às voltas com os livros do Harry Potter, gosta muito de sua flauta, das aulas de judô e da escola. De vez em quando diz que odeia História, mas eu desconfio que você anda repetindo o que ouviu por aí, porque, na verdade, hoje você pegou o livro de História e leu várias páginas pra mim, na maior empolgação. Você adora ler e passa muitas horas em meio a gibis e livros de todo tipo. Gosta de dicionários ilustrados também. Gosto de ver você fazer qualquer uma dessas coisas, porque gosto mesmo é de ver você. De ficar olhando. Você também tem momentos difíceis, mas quem não os tem, não é verdade? Como quando não quer parar de brincar para tomar banho. Mas também, né, que mundo é esse, onde as pessoas precisam parar de brin-car (!!) para, pasmem, tomar banho??!!! Sou obrigada a concordar, o mundo não é um lugar perfeito. Não, não é. Mas ele tem coisas boas, meu amor. No meu mundo, por exemplo, tem você. E eu não me canso de comemorar. Vou contar uma coisa: sabe quando você me pede para passar um tempinho deitado em sua cama com você? Eu adoro. Tanto. Você não sabe, mas quando faço aquelas brincadeirinhas com meus dedos em suas costas, rio mais que você. Vou contar outra coisa, mas essa não é novidade: mais; te amo mais, todo dia. Feliz aniversário, meu amor. Parabéns, viu?

Bigger


Quem te viu Floquinho...


... quem te vê Flocão.



Come, brinca e gosta de dormir agarrado ao sapato da Amanda. Um fofo. Diferente de quando chegou, quando sentíamos os ossinhos ao passar a mão, agora é um rocambole com pelos.

Mundos



A morte mexe comigo. Hoje fui ao trabalho normalmente, levei Amanda à aula de ballet, os dois para a escola; Ulisses teve dentista, Arthur teve tarefa e eu me esqueci de meia-dúzia de compromissos - não paguei isso, nem aquilo; não comprei o presente da menina; deixei o professor de francês esperando. Apesar da cabeça na lua, o dia foi um dia comum demais. Fez frio, depois esquentou, o Floquinho fez graça, descobrimos um biscoito bem gostoso. Amanda comeu tudo no almoço, Arthur quis chocolate de sobremesa. Nada extraordinário, nada surreal. O mundo gira e nada parece alterado diante do fato de que minha tia não está mais nele. Seu corpo jaz sob a terra umedecida pela mulher gentil que mantém os túmulos de minha família floridos, mas ela não está mais aqui. A imagem de seu corpo me visita a toda hora, nitidamente por eu não ter podido chegar a tempo de acompanhar o funeral. Um luto incompleto, esquisito. Mas ela não está mais aqui. Há os que acreditam que ela se reencontrou com seu marido, com minha mãe. Há os que se consolam diante da crença de que ela estaria em um plano melhor, um reino que não nos cabe visualizar ou questionar. Há quem não pense nisso. Há quem ainda nem acredite, talvez, como a amiga que conversou com ela horas antes, pelo telefone, cheia de animação. Quanto a mim, não sei. Sei que ela sumiu de minha vida. Claro, sempre terei as lembranças e os vestígios de sua passagem, mas a ideia de que ela morreu (repito em minha cabeça bem devagar: ela morreu, até eu decorar) mexe muito comigo. O que é isso? Arthur disse que gostaria muito que esse negócio de morte não existisse. Eu gostaria de aprender a lidar com ela. Ou talvez eu já saiba: é assim mesmo, algo que vem e chacoalha nossa estrutura, arrancando de nossos mundos pedaços de chão e nos desafiando a reaprender a caminhar.

***

Um pedaço de meu mundo segue assim:

BU-RA-CO
PER-NA
BU-TTER (pronunciado búter)
PI-RA-TAS
TE-SOOOU-RO

Amandinha está começando a ler. <3


 
©A Estrada Anil - Todos os direitos reservados. Layout por { float: left; }