Minha Tia Maria


No final da tarde da última quinta-feira meu primo me ligou lá do Nordeste. Um minuto e meio depois minha cabeça dava voltas tentando assimilar a notícia que ele me deu. Tia Maria havia nos deixado. Morreu em casa, na companhia dos sobrinhos que a socorreram e dos enfermeiros que atenderam ao chamado de emergência. Sucumbiu ao problema cardíaco que a acompanhava há alguns anos e foi embora.


Deixei o trabalho, busquei com o Ulisses as crianças na escola e fui para casa organizar as coisas para viajar no primeiro voo disponível. Não consegui voo na noite de quinta e compramos minha passagem para o dia seguinte, às sete da manhã. Eu não chegaria a tempo de ajudar minha família em muita coisa, mas pelo menos poderia velar o corpo de minha tia, acompanhar seu enterro. Não seria nada perto de estar com ela horas antes para ajudar a diminuir o medo que ela certamente sentiu ao sentir o peito apertar e seu coração perder o ritmo, mas ainda seria muito para mim. Eu poderia ver seu rosto mais uma vez e, junto com aqueles que também a amavam, participar da despedida simbólica.

Agarrada a esse pensamento, fiz diversas ligações para parentes, chorei com eles por telefone, chorei com Ulisses, falei dela para as crianças. Arthur se lembrou assim que Ulisses lhe contou da morte dela: "Ela gostava muito de mim, me dava mamão no café da manhã." E dava mesmo, nas férias, de colherinha. Atravessei a noite pronta para partir na manhã seguinte, dormi um pouco. Eu ainda estava em Florianópolis, mas minha cabeça estava lá na Paraíba com meus primos e tios que velavam o corpo dela. 

Na manhã seguinte parti para um voo muito, muito longo. Por causa do mau tempo em Congonhas, o voo da Gol que me levaria ao aeroporto de Confins/MG, para a segunda conexão, partiu com atraso. Mesmo sendo da mesma companhia, o voo que saiu de Confins não esperou os vários passageiros que viriam de Congonhas e partiu. Ao desembarcar, com 15 minutos de atraso, recebi da funcionária da Gol a notícia de que eu já tinha hotel reservado para passar o resto do dia e aguardar o próximo voo que me levaria a Campina Grande, onde eu chegaria doze horas após o previsto, às duas e meia da manhã. Passei alguns segundos esperando que ela dissesse que era uma brincadeira macabra, mas logo enfrentei a pior notícia que eu poderia receber naquelas circunstâncias: eu não conseguiria sequer ver o corpo de minha tia. Desesperada, liguei para Ulisses e para meus parentes sem saber direito o que dizer. Pedi que me colocassem em um voo para João Pessoa, mas não havia nada disponível, nem em outras empresas. Não verifiquei nada, aceitei as notícias que a funcionária da Gol me passava porque eu não tinha condições de fazer nada. A essas alturas eu chorava convulsivamente apoiada à primeira parede que encontrei. Fui amparada por uma desconhecida que também estava no mesmo barco e que viajava ansiosa para ver seus pais. Essa alma boa, de nome Cátia, foi meu ombro naquela tarde infinita num quarto de hotel nos piores momentos que vivi desde a morte de minha mãe. Foram vários telefonemas ao longo da tarde, parentes e amigas me consolando pela minha ausência. Às cinco da tarde, enquanto eu chorava no hotel o cortejo partiu e o corpo de Tia Maria foi enterrado. Não vi, não ajudei, não levei flores, não segurei a mão de ninguém. A palavra é solidão.

Às duas e meia da manhã desembarquei emocionalmente destruída em Campina Grande. Fui recebida por meu primo e sua esposa, as mesmas pessoas que havia socorrido Tia Maria no momento em que ela passou mal. Exaustos e desolados, ainda me receberam e foram ombro e ouvido. A palavra, meus queridos, é gratidão.

A sensação que experimentei ao chegar lá foi de que não havia muito para mim. Voltar à casa de minha mãe já tinha sido uma experiência desafiadora em dezembro passado, mas ali ainda houve o abraço fofinho da Tia Maria. E o que vou aprendendo é que vazios crescem.

Em 2001, quando me visitaram em Floripa: mamãe, eu e Tia Maria

Tia Maria tinha 82 anos. Dez anos mais velha que minha mãe fez com ela uma dupla e tanto em minha vida. Foi uma figura fundamental em minha infância, tantas vezes me trazendo a leveza que faltava em minha casa em tempos mais difíceis. Foi companheira de minha vida escolar nos anos em que me acolheu em sua casa para que eu frequentasse o colégio que ficava em sua cidade. Anos depois mudou-se para a cidade de minha mãe e virou muito mais que uma vizinha. Foi companheira inseparável de minha mãe nos últimos anos de sua vida, testemunha diária da difícil luta que ela travou contra seus muitos problemas de saúde. Era uma voz de conforto, era um abraço fácil e sempre longo, muito bom. Tinha a pele incrivelmente macia e mãos tão suaves. Ela era suave, quase sempre. "Tão bom abraçar Tia Maria, né?", vários diziam. Porque era mesmo, toda fofinha e sorridente. 


Com Arthur, em dezembro de 2005.


Tia Maria era a rainha absoluta das palavras cruzadas. Cresci vendo-a de caneta na mão e nos últimos meses recebi pelo menos dois telefonemas feitos exclusivamente para resolver um desafio que ela sozinha não conseguiu decifrar: "Rita, como era mesmo o primeiro nome de Van Gogh?" "Vincent, tia." "Ah, é verdade... mas não era Claude?" "Não, esse é o Monet." "Ah, é. Tchau." Não satisfeita em apenas solucionar inúmeros passatempos em suas muitas revistinhas, Tia Maria dedicava horas a criar seus próprios desafios. Bastava que dois ou três sobrinhos se reunissem perto dela e lá vinha Tia Cebolinha, caneta em punho, sorrisinho  de quem trazia nas mãos uma relíquia, desafiá-los a solucionar suas cruzadas inventadas. Em sua casa encontramos caixas de revistinhas que nem consegui tocar. Foi em sua casa que aprendi a fazer palavras cruzadas, foi ela quem me ensinou a fazer ponto de cruz, quem decorou meu quarto quando fiz 15 anos, quem viajou comigo de férias tantas vezes, quem fez tantas outras coisas comigo, memórias que agora desfilam pela minha cabeça em uma tentativa quase inócua de tentar diminuir minha frustração por não ter estado lá mais cedo.


Com Amanda.


Também era especialista em plantas, seu jardim era sua paixão. Desde a antiga casa onde me hospedava, com um jardim que mais parecia um desfiladeiro morro abaixo, até a atual onde mantinha um pequeno canteiro no quintal, Tia Maria dedicava muitas horas de suas semanas aos cuidados com as plantas. Gostava delas como nem todo mundo gosta de gente e foi com esse tanto de carinho que cuidou daquelas florzinhas cuja história contei no post que fiz por ocasião de seus 80 anos. Há cerca de um mês, ela me ligou dizendo que, infelizmente, a florzinha amarela havia secado e morrido. Lamentamos juntas, mas acho que a planta me deu muito mais do que eu esperava quando a comprei. Agora eu trouxe comigo uma de suas plantinhas e espero, ainda que com muito atraso, fazer o mesmo que ela fez com a florzinha que lhe dei.


Descobrimos que Tia Maria tinha um diário. Durante quatorze anos, de janeiro de 1992 a dezembro de 2005, registrou em um caderno eventos, impressões, pequenos gestos de sua rotina às vezes solitária, às vezes cheia de aventuras. São registros breves, geralmente uma linha para cada dia. Estão lá o nascimento dos filhos de seus sobrinhos, a morte de pessoas conhecidas, as visitas de amigos, pequenos passeios; também coisas tão simplórias como uma consulta médica ou um programa de TV que ela viu; suas aventuras pela Europa em sua viagem mais ousada que ela organizou caladinha e revelou à família às vésperas do embarque, quando tinha 69 anos; em registros cheios de amor, lá estão marcados os aniversários de seu casamento, ainda que fosse viúva desde 1985: "bodas de prata" ou "30 anos de meu casamento"; várias vezes a linha se resume à palavra "solidão", ainda que ela não estivesse fisicamente sozinha. Li maravilhada cada linha desse caderno valioso que trouxe comigo e que vou guardar pelo resto de minha vida. Já me perguntei se ela gostaria que suas palavras fossem lidas. Nunca vou saber. Ninguém na família sabia da existência desses registros que agora valem tanto para nós. Encaramos o caderno como um inventário de parte de sua vida, palavras que nos trazem um pouco dela de volta cada vez que lemos. Meu coração dançou quando vi ali registrado o dia em que ela conheceu o Ulisses, na primeira vez em que namoramos, em 1996. "Ulisses simpático" está lá. Meus telefonemas ao longo dos anos estão lá. Nossos passeios. O dia em que engravidei pela primeira vez. O nascimento de Arthur. E o último registro, em dezembro de 2005, que aqueceu meu coração: a visita que ela recebeu de "Ritalice e Ulisses". Sem qualquer justificativa registrada, o diário se encerra ali. Ela, que adorava uma charada, dessa vez me pegou de jeito, não sei o motivo que a levou a abandonar o diário 14 anos depois de iniciá-lo. Talvez tenha se cansado, talvez tenha ficado sem paciência para os curtos relatos. No fundo tenho uma suspeita: desorganizada como ela só, pode ter parado de escrever por não se lembrar onde guardou o caderno (desculpa, tia, tô brincando).




Levei flores. Enfeitei seu túmulo, ao lado do de sua irmã que teria sentido muito sua partida.   Às duas levei minhas lágrimas e minha saudade. Três dias antes da morte de Tia Maria, tive aquele sonho. Minha amiga Verônica tinha ido e visto que o túmulo estava lindo. Jamais suspeitávamos que voltaríamos lá, três dias depois. A vida tem coisas esquisitas. O túmulo de minha mãe estava mesmo lindo e agora virão as flores de Tia Maria para que seu túmulo também fique. Ela, que sonhava tanto com minha mãe. Ela, que foi quase um mãe pra mim, tantas vezes. Ela, que agora é mais um silêncio em minha vida. Ah, Tia. Que saudade, que vontade de receber seu abraço. Como foi bom ser sua sobrinha, como foi bom. Que pena, Tia. Que pena.

Foco


Não é legal quando a gente conversa com um filho e vê que ele conseguiu entender com precisão a mensagem que gostaríamos de passar? É uma sensação muito gratificante despender algum tempo para aquele papo mais sério e no meio da conversa perceber que eles estão captando ensinamentos importantes no dia a dia. Vejam esse diálogo que tive outro dia com meu filho de 6 anos, por exemplo, e observem como ele chegou ao cerne da questão:

Eu - ...então a gente não precisa fazer alguma coisa só porque um amigo fez. Às vezes o amigo erra também, faz algo que não é legal. Se você perceber, pode até ajudá-lo e fazer certo ao invés de simplesmente copiar o erro. 
Ele - Eu sei, mãe.
Eu - Bla bla bla bla ....
Ele - Hum-hum.
Eu - Bla bla bla ... afinal não é porque Fulano ou Sicrano faz alguma coisa que a gente precisa fazer também, ora. Né não?
Ele - [Com ar pensativo] É...
Eu - Às vezes o tal Sicrano vai até nos agradecer por a gente ter sido legal e mostrado a coisa certa e...
Ele - [Muito compenetrado] Mãe?
Eu - Diga.
Ele - Quem é Sicrano?

Aí chamei pra almoçar porque, né, o papo já tinha dado o que tinha de dar.

Das melhores coisas que minha mãe deixou pra mim



Vivo dizendo para meus filhos que quem tem amigos tem tudo.

Na noite passada sonhei que bebia alguma coisa em uma taça de cristal. Não qualquer taça. Era uma taça grande, cor de laranja, muito antiga e frágil, que pertencia à minha mãe e que hoje mora no meu armário. Não sei o que eu bebia no sonho, mas sei que falava com ela sobre a fragilidade da taça. Minha mãe estava ao meu lado e conversava comigo; ainda que seu rosto não fosse muito nítido, sua presença o era. Amanheci com o que vou chamar de "sensação do sonho"; a imagem propriamente dita ou a lembrança do que eu havia sonhado só me veio horas mais tarde, quando eu já estava no trabalho. Senti uma urgência tão grande de... de... não sei. Senti uma urgência. Um buraco urgente. Um vazio urgente. Uma coisa esquisita. Não sabia o que fazer e fiz aquilo que me pareceu menos etéreo: liguei para a amiga de minha mãe e pedi que fosse ver o túmulo dela. Não sei ainda se ela teve tempo para ir e isso não faz diferença. O que importa é que ela não achou estranho, nem esquisito, nem descabido. Não me achou folgada ou inconveniente e disse que iria. Não sei se me faço entender, mas é muito acolhedor saber para que número ligar quando o peito aperta e a distância não nos permite depositar aquela flor. A gente liga e recebe da amiga um sim que também vem como uma flor.

Vou continuar dizendo para meus filhos que quem tem amigos tem tudo. E sempre vou gostar de me lembrar dos amigos que minha mãe deixou pra mim.


Lições do ballet


Coisas que as aulas de ballet têm me mostrado até agora: 

- as posturas de equilíbrio do yoga, com pé plantadão no chão, não são tão desafiantes assim, vai;
- meu cérebro não sabe que existe uma coisa chamada "lado esquerdo" - ele já ouviu falar, mas se preciso executar ou desenvolver qualquer coisa em direção ao "lado esquerdo" ele fica muito confuso;
- uma pirueta legal no jazz não significa uma pirueta legal no ballet;
- dançar tonta é uma arte;
- tudo no ballet é mais difícil do que parece;
- tudo no ballet é mais gostoso do que parece;
- é preciso não temer o mico;
- tombos virão.

Não importa se nunca for perfeito, harmônico, cem por cento suave e preciso - nunca será. Minha relação com a dança, a essas alturas, é de um amor mais calmo, sem os arroubos e exigências das paixões arrebatadoras. É uma troca tranquila: ela me dá prazer e uma dose generosa de desafio; retribuo com admiração e a dedicação que estiver ao meu alcance. Sendo assim, meus limites não me revoltam nem me entristecem e abraço com alegria todo pequeno avanço.

Fazer aulas de ballet tem aguçado meu olho diante de bailarinos experientes. Por ter uma noção mais acertada do empenho necessário para se atingir precisão técnica e leveza, aquilo que antes eu achava lindo agora acho lindo e incrível. Dançar bem ballet clássico não é moleza. E é muito bom descobrir uma forma de enxergar ainda mais beleza no mundo (e, de quebra, ainda exercitar o corpo, bien sûr).
   

Dúvida


Amanda, 4 anos:

- Mãe, onde é mais frio: no Paulo Norte ou no Paulo Sul?
- :-)

Musical home


Ao som do violão que vem do quarto junta-se a voz. Às vezes rouca, às vezes grave o suficiente para aquecer a casa inteira, a voz gosta de melodias velhas. O passado que ela momentaneamente traz de volta pode ser dissonante ou perfeitamente harmônico, não importa: tem os tempos e os tons de nossa história. 

Agora há também as notas que saem da flauta e essas enchem casa, carro e calçadas. Enquanto a voz de menina canta versos curtos de passarinhos e galinhas cantoras, a flauta segue. Gosto das hesitações, das notas atrasadas, das acertadas, de tudo. Rimos muito das notas trocadas que torcem a canção. Admiro a rapidez com que novas notas desafiam os dedinhos quase todos os dias e o modo como as mãos do menino aceitam a brincadeira - e embalam nosso ninho. 

Contribuo para o concerto com um coração que samba. 

Comer - Co-mer - C-O-M-E-R


A gente aprende já na infância que a mastigação é uma fase importante do processo de digestão. Normalmente como devagar e parte da lentidão vem do fato de que costumo mastigar bem os alimentos. Nada como a galera que só engole depois de mastigar um número cabalístico de vezes qualquer - não chego a tanto; mas gosto de saborear a comida sem pressa (quando dá).

Estou há três dias me alimentando de líquidos e alimentos pastosos. Posso falar? Estou morta de fome. É como se não estivesse comendo nada. É impressionante a diferença entre comer normalmente e comer desviando da língua, empurrando a comida goela abaixo sem saborear nada. Nem deveria se chamar "comer"; o que tenho feito nesses últimos dias é algo como preencher a barriga, mas não é comer. Hoje, desesperada por alguma coisa além de fruta amassada, misturei o feijão e o arroz ao purê de legumes, esmiucei o peixe em fiapos e cortei a salada em microscópicos pedacinhos. Olhando para a quantidade de comida que mandei para dentro da barriga até que devo ter me alimentado bem. No entanto, para minha profunda tristeza, foi como se nada daquilo tivesse entrado em mim. Se não mastigo, se não deixo a língua brincar com os alimentos e mandar recados deliciosos para meu cérebro, é como se nem tivesse me sentado à mesa. 

Desde pequena sei que mastigar bem é importante. Nunca foi tão evidente, no entanto, quão prazeroso o troço é. Toda a magia da refeição gostosa passa por saborear sem pressa, ali entre os dentes todos, com as bochechas cheias e a língua experimentando tudo. Comer é isso. Snif, snif.

Além da fome e da consequente dorzinha de cabeça me rondando o dia inteiro, tem sido um desprazer irritante o fato de que não consigo parar de tocar os pontos da cirurgia com a ponta da língua. Olha. É só pensar no assunto (o que ocorre a cada cinco segundos) e, tchan-ans, sinto a coisa ali. Meu dia hoje foi um esforço misto para: não sentir os pontos (em vão), sentir o sabor da comida (em vão), engolir sem mastigar, pensar em outras coisas (em vão). Tá chato.

E quer saber? Não quero mais sorvete. Nem banana amassada. Ou abacate. Ou iogurte. Nem potinhos de açaí. Nem ovos mexidos frios...


Em casa



Em dias como esse quando fico aqui mais tempo e ouço os sons que rondam nossa casa; em que ligo para seu trabalho, sob qualquer pretexto; em dias como esse em que tenho tempo de perambular pelos quartos deles, dos dois; em que vejo sua sombra nos objetos que você deixou pela sala e sinto seu cheiro pela escada; em que olho ao redor e vejo o pedacinho visível de nosso mundo e já gosto tanto; é em dias assim que aquele riso vem fácil. É quando bate aquela certeza que me preenche e me faz levitar: é com você que vou, que estou, que sou. Amo muito dias assim, mais lentos e silenciosos, quando posso rabiscar planos e já lamber os lábios porque sei que você estenderá a mão. Não é que eu precise desses dias para me lembrar de nós dois. É só que gosto de celebrar.  

Mais uma do bruxismo


Hoje foi a segunda vez que o bruxismo me levou a uma intervenção odontológica mais séria que as revisões rotineiras. Na primeira vez, como vocês já sabem, precisei fazer um canal de emergência depois de ter exposto a polpa de um dente. Desta vez, precisei "cavar" a gengiva de outro dente para deixá-lo do mesmo tamanho dos vizinhos, já que o coitado estava enterrado devido a tanto empurra-empurra. Já pus resina na ponta desse mesmo dente diversas vezes para substituir os pedacinhos que aos poucos vou raspando durante as muitas fricções noturnas que ocorrem entre minhas arcadas dentárias. No entanto, cada vez que a ponta de resina se desprende leva junto mais um pouco de esmalte. A solução (espero que seja mesmo solução) virá com a excavação feita na pequena cirurgia de hoje mais a capa superpower que revestirá meu dente dentro de poucas semanas.

Hoje estou de molho, falando baixo, fazendo compressas geladas. A cirurgia foi na primeira parte da manhã, mas o efeito dos sedativos (leves) me manteve adormecida por quase toda a tarde. Não sinto dor, mas não posso comer nada que não seja gelado ou pelo menos bem frio. Meu almoço foi purê de batatas com cenouras frio e um pote de açaí. Amanhã retomo aos poucos a dieta quase normal, tudo morninho, mas ainda estou visitando as fruteiras da cozinha em busca de tudo que for amassável. Eu queria conversar mais com vocês gora, mas preciso ir ali fazer o enorme sacrifício de tomar sorvete. Costumo seguir à risca orientações médicas, sabe como é.
  

Acabou-se a margarina



Consultei uma nutricionista que segue a linha da nutrição funcional e estou às voltas com leiturinhas sobre o assunto. Também estou às voltas com sementinhas, aveia e afins. 

Em curtíssimo prazo teremos uma geladeira sem margarina (por motivos, entre outros, que você pode ler aqui), uma dieta com diminuição drástica no consumo de proteínas do leite e aumento significativo no consumo de aveia. Meu objetivo inicial era só ganhar uns quilinhos, mas agora estou toda empolgada revendo certos hábitos alimentares. Não deve ser nada muito radical porque na verdade considero minha dieta bem equilibrada (excluam-se as festas infantis). Mesmo assim, ainda há espaço para ajustes. 

Foi a primeira vez na minha vida que um profissional cogitou uma possível alergia à proteína do leite. Incluindo aí dois nutrólogos, ninguém nunca associou minhas alergias do trato respiratório e minhas faringites e sinusites de repetição ao consumo frequente de leites, queijos e iogurtes. A nutricionista me explicou que o leite de que precisamos é o materno, no início da vida. Pronto. Depois disso, nosso organismo paga certo preço para lidar com a tal da lactose. Podemos ler algo na mesma linha aqui, expiem lá. Como não mamei no peito e minha mãe passou muito aperto por causa de minhas alergias a várias marcas de leite quando eu ainda era recém-nascida, é possível que eu tenha desenvolvido certa reação alérgica crônica, mas não grave, à lactose. O que ocorre em casos assim, segundo a nutricionista, é que o corpo apresenta um processo inflamatório constante, especialmente nos intestinos, e permanece em estado de alerta, pronto para reagir exageradamente a estímulos externos que representem ameaça ao organismo. Daí qualquer resfriado básico desencadeia uma sinusite, por exemplo. Decidi fazer o teste e verificar se sinto alguma mudança significativa na frequência de faringites e sinusites de cada inverno.

Gostei muito da consulta, centrada em mim, Rita, em minha história alimentar, no histórico de minha saúde, de minha família. Nada de contagem de calorias ou meta de quilos ganhos, nada disso. Toda a conversa girou em torno do melhor aproveitamento dos alimentos digeridos e na qualidade deles. O assunto ainda pode render por aqui, então vamos parar por enquanto para não encher o saco de vocês. Só mais uma coisinha, falando de novo da margarina: a consulta me fez lembrar muito do cardiologista de minha mãe de dos meus tios. A nutricionista disse que se tivesse apenas cinco minutos com cada paciente e pudesse dar apenas uma dica a cada um deles, diria: nunca consuma margarina. Tal qual o cardiologista da minha família, que diz ser melhor beber óleo do que consumir margarina, a nutricionista foi taxativa: contém gordura vegetal hidrogenada? Não coma. Margarina? Nunca, em nada, de jeito nenhum, nenhuma marca. Nem as tais ricas em ômega não sei das quantas compensam o estrago causado pelos outros componentes da fórmula. Não é pra ter em casa, simples assim. Não vai ser grande sacrifício abolir margarina aqui em casa, tem gosto de nada mesmo.

- Passa a margarina, por favor? 
- Tem não. 

Se vou ganhar peso, não sei, mas estou gostando de relembrar os porquês em torno das recomendações para o consumo regular de certos alimentos. E já achei uma receitinha maluquete que me deixou revirando os olhinhos. Vou testar no final de semana e, se der certo, mostro pra vocês. Se der errado, a gente xinga junto. Combinado?

Porta-puzzle


Comprei um quebra-cabeças de  500 peças para montar com a criançada. Seria nosso primeiro quebra-cabeças grande para montarmos juntos e precisávamos resolver um probleminha antes de começar a brincadeira: onde montar. Reservar um cantinho no chão para deixar as peças avulsas durante os dias da montagem não é uma opção viável por causa do Floquinho (contei pra vocês que praticamente não é mais necessário varrer a casa? #papatudo). A mesa da minha sala ainda é uma pequena mesa redonda dos tempos em que morávamos num apartamento, também descartada. Poderíamos montar em um dos quartos das crianças, por onde o Floquinho não circula, mas seria um estorvo todas aquelas peças espalhadas por ali dias e dias. Quando montei o grandão de 3.000 peças usei uma mesa de plástico do quintal que mantive por algum tempo numa sala que temos nos fundos da casa, mas essa sala agora tem outros móveis e não há mais espaço para a mesa. Resolvi , então, experimentar o porta-puzzle e gostei tanto que quero deixar aqui a sugestão para quem for da turma das pecinhas.



O porta-puzzle nada mais é do que um pedaço de plástico (parece uma espécie de lona fina) com uma extremidade inflável. Tudo que precisamos fazer é pedir ao marido que encha encher essa parte inflável, espalhar as peças sobre a parte que se estende plana sobre a superfície que você escolher (no nosso caso, o chão da sala ou dos quartos) e botar a mão na massa. Cansou? É só rolar a parte inflada sobre o quebra-cabeças parcialmente montado e as peças avulsas. Duvidei que tudo se manteria no lugar, mas me surpreendi: ao desenrolar o troço no dia seguinte, tudo estava perfeitamente em ordem. 

Só me lembrei de fotografar depois que estava pronto, desculpaê.

Enquanto não decido se boto ou não moldura para um dos quartos dos pequenos, vou guardando aí. Foi só enrolar...

...enrolar...

... e amarrar.

Essa foto foi tirada depois que enrolei e desenrolei, só para curtir o fato de que o troço não se desmancha, hehehe.

Montamos nosso quebra-cabeças em três "sentadas". Como escolhi uma gravura bem colorida, a montagem foi mamão com açúcar. Nosso porta-puzzle comporta quebra-cabeças de até 1.500 peças, mas há modelos maiores para quebra-cabeças de até 3.000 - pelo menos é o que diz a embalagem (compramos o da marca Grow). Se você gosta de montar quebra-cabeças grandes, recomendo. Muitas vezes adiei a brincadeira por falta de espaço para largar a coisa durante os dias/semanas/meses da montagem. Agora vou correndo providenciar o próximo. Vamos?


Do tamanho do universo, duas vezes



Em novembro de 2009 fiz um post sobre os óculos e o tampão ocular usados por meu filho. É um texto que atrai um número considerável de visitas ao blog e espero que ele seja útil às famílias envolvidas com crianças que precisam de tratamento oftalmológico semelhante ao do Arthur. Acho bom falar sobre uso do tampão ocular já que, apesar do desconforto que normalmente causa, é uma necessidade na infância de muita gente. No caso do Arthur foram quase cinco anos convivendo com o tampão ocular e seus incômodos. Notaram o verbo no passado? :-) Ontem meu filhote recebeu "alta do tampão". Não sei medir minha alegria, nem tentei. Só olhei para ele pulando no consultório da oftalmo e segurei as lágrimas. Boba, eu. Segurar pra quê, né? Devia ter deixado rolar mesmo, a ocasião é grande.

O olho esquerdo do Arthur tinha a visão subdesenvolvida. Quando isso acontece, o cérebro tende a priorizar o "olho forte". Sem tratamento, é uma questão de tempo até que o cérebro "desligue" o "olho fraco" e leve à perda parcial da visão (ou pelo menos a um sério comprometimento da funcionalidade daquele olho). Essa diferença entre a capacidade visual dos dois olhos é conhecida como ambliopia. Muitas vezes, como no caso do Arthur, a ambliopia pode estar relacionada ao estrabismo que, por sua vez (também no caso do Arthur), é consequência de uma diferença marcante no grau de visão dos olhos. Em outras palavras: Arthur precisa de cerca de dois graus em uma lente e mais de quatro em outra; é uma diferença grande que, sem os óculos, causa o desvio de um dos olhos e prejudica o desenvolvimento da acuidade visual. Em casos assim é preciso respirar fundo e encarar, junto com a criança, o desafio de dar ao "olho fraco" a mesma capacidade visual do outro olho; isso se faz com o uso do tampão: tapando o "olho bom", o outro é forçado a trabalhar e, consequentemente, desenvolver-se. E foi essa etapa que o Arthur acabou de superar, com seus olhos agora em igualdade de condições no quesito acuidade visual. Meu banguela sentou-se na cadeira da oftalmo e mandou ver. Pra baixo, pra cima, pra esse lado, pro outro lado, não errou nenhum "E" na escala optométrica. Daqui a três meses ele repetirá o exame como teste final para verificar se não há mais perdas. Em algumas crianças o uso do tampão pode se prolongar até os 9 anos, pois é nessa fase, entre 7 e 9 anos, que a visão atinge seu ponto máximo de desenvolvimento (no próximo mês Arthur completa 7 anos). Como nos últimos meses ele já não usou o tampão e, mesmo assim, houve uma melhora significativa entre a penúltima consulta e a de ontem, tenho motivos de sobra para acreditar que daqui a 3 meses o exame também será um sucesso. Se o desempenho dele se mantiver pelos próximos 3 meses, vou jogar todos os tampões no lixo, numa cerimônia que terá gargalhadas e sorvete. Ou chocolate quente, porque vai ser no inverno. 

Não é fácil. Descrevi as fases e avanços do tratamento do Arthur lá no post de 2009. Nos últimos tempos, até o final do ano passado, eram apenas duas horas diárias, um passeio no parque para quem antes ficava o dia inteiro de tampão. No entanto, o Arthur já andava meio de saco cheio e não é pra menos. Mas perseverou e, mesmo descontente, usou quando foi preciso. Uma lição que servirá para sempre, um exemplo sentido na pele de que a vida às vezes exige paciência e disciplina. A vitória veio com seus olhinhos a mil enxergando longe e bem. Ele ainda usará óculos por muitos anos porque, como eu, tem astigmatismo. Por causa da diferença marcante de grau entre os olhos, ainda ocorre o desvio se ele fica sem óculos (aprendi com o tratamento do Arthur que grau é uma coisa e capacidade visual é outra). Mas essa diferença também vem diminuindo e mais tarde ele poderá a) seguir com os óculos (hoje em dia, é o que ele diz que vai fazer); b) optar por lentes de contato; c) fazer uma cirurgia corretiva de grau, se ainda usar óculos aos 18 anos e quiser se livrar de tudo (como fez o Ulisses); d) não fazer nada e largar os óculos, caso tudo se resolva naturalmente. É um detalhe diante do fato de que ele poderia ter perdido a visão do olho esquerdo se não tivéssemos tratado a tempo. E aqui entra o olho bom do Ulisses que percebeu o desvio no olho do Arthur quando ele tinha apenas 2 anos. Amanda tinha acabado de chegar e foi uma época cheia de desafios para o Arthur: a irmã mais nova no pedaço, os óculos, o tampão. Agora é correr pro abraço. 

Se você chegou aqui porque está vasculhando a internet em busca de informações sobre o tratamento da ambliopia, digo que siga em frente e encare o tampão. É muito tentador desistir e livrar nossos filhos do incômodo. Afirmo de coração aberto que nada se compara à alegria de ver o tratamento funcionar e de termos a certeza de que contribuímos para garantir a saúde dos olhos deles. É difícil, alguns dias são desanimadores, mas vale a pena. Tomara que a oftalmologia evolua a ponto de o tampão ser superado por técnicas menos desconfortáveis para as crianças. Tomara mesmo. Enquanto isso não acontece, brincar de piratinha pode ser um caminho bom.

***

Arthur, meu amor, seus olhos lindos me deixam sempre de queixo caído. E como você consegue enxergar tudo tão longe, menino? Estou tão feliz por você, sabe quanto? Do tamanho do universo, duas vezes. Te amo demais. Parabéns, seu pititico.


Mini



(Tenho a mania insuportável de fazer posts sobre viagens, sejam pacientes, já vou parar.) 

O minimundo de Gramado, suspeito, não deve ser dos melhores do grande mundo. A conferir, ainda não visitei outros. Seja como for, era o que tínhamos por lá e decidimos espiar. O Arthur gostou, sem muito entusiasmo. O amigo do Arthur já conhecia e se divertiu, também sem grandes alvoroços. Juntos, os dois banguelentos passaram longos minutos apreciando o trajeto do trem que circula pelas instalações que têm miniaturas interessantes - mas não deslumbrantes. Quem se esbaldou mesmo foi a Amanda. E eu, a louca da máquina fotográfica. O lugar está em reforma e parece que perdemos a maior-menor atração, um minivulcão. Não tinha vulcão, mas tinha casa de chá com garçonete fofa. Espiem só.

Amigos há quase cinco anos...






:-)


O mundo é mini, mas os ratos são enormes.





Páscoa na Serra


Com exceção de um ou dois tweets, passei os últimos dias afastada do mundo virtual. Nada como voltar e ver que estou longe de ser a única a sair com cara de tranqueira em fotos 3x4. Alguém na caixa de comentários do post anterior sugeriu um concurso. Gostei da ideia. Como tenho absoluta certeza de que seria a grande vencedora, sugiro que o concurso se chame Grande Concurso Rita Paschoalin de Foto-Tranqueira. Eu não concorreria para dar chance a todos os participantes e premiaria o grande vencedor com um post em que sua foto 3x4 seria publicada ampliada. Que tal? Sou legal? ;-) Hihihi, morri de rir imaginando a cara de vocês nas fotos. À Ângela, que tentou me subornar, prometo que mostro minha foto em um momento social regado a vinho, bem longe da internet, qualquer dia desses.

***


E aí teve Páscoa. Não significa muita coisa pra mim, mas significa chocolate. E crianças. E, dessa vez, passeio bom. Subimos a Serra Gaúcha rumo a Canela e Gramado e gostamos tanto, mas tanto tanto tanto, que já estamos espiando o calendário à procura de novas chances de fugir pra lá outra vez. Quando fui a Gramado e Canela, há muitos anos, fui com amigos, rapidinho, em uma esticada que fizemos em um passeio a Porto Alegre. Ulisses e as crianças nunca tinham ido, então a viagem teve gostinho de primeira vez com os deslumbres que isso normalmente traz. Escolhemos um hotel em Canela indicado por umas almas boas que sigo no Twitter, convidamos uns amigos e tchau. O Arthur se esbaldou na companhia de dois amigões que estudam com ele e Amanda formou a quarta ponta do Quarteto Fantástico. Nós, pais e mães, curtimos a companhia da filharada em passeios divertidíssimos, tomamos o vinho que deu, passamos frio ou não, desbravamos o centro de Gramado com toda a coelharada do mundo por lá e nos encantamos com a beleza natural da Serra. Olha, se ainda não foi, dê seu jeito. Lindo define.


Quarteto Fantástico, aos pés da Catedral de Pedra de Canela/RS

Todo o stress de se ter 6 ou 7 anos

As fotos traduzem melhor o estado de espírito que reinou nos últimos dias, então nem vou conversar muito. Vou só dizer que errei feio na arrumação da mala e precisei comprar agasalhos para mim e as crianças (minha mala tinha saias, camisetas e sandálias; e assim cheguei em Canela 15 graus). É bem verdade que nos últimos dias as temperaturas obedeceram a previsão e tudo deu certo. Vou dizer também que Gramado tem engarrafamento de gente grande. Que erramos e comemos num péssimo Café Colonial, mas acertamos lindamente na casa de fondue, assim como acertamos na pizzaria. Que Amanda quase delirou com tanto Coelho da Páscoa espalhado pela cidade. Que a catedral de Canela iluminada à noite só renova meu amor pela arquitetura de templos e igrejas. Que as ruas das duas cidades são decoradas com tanto charme que a gente tem vontade de abraçá-las. (As seis fotos abaixo foram tiradas de dentro do carro, então não reparem na qualidade e olhem a decoração com olhos de criança. :-))









Vou dizer ainda que há por lá um Parque Temático muito bom, cujo tema é um mistério (há índios e dinossauros, homens das cavernas e sereias, duendes e bichos esquisitos), mas que isso em nada interfere na diversão porque, no final, tudo acaba em chocolate. E que descer a Serra Gaúcha em dia de sol é algo que toda pessoa de bem deveria fazer. De vez em quando. Nem que seja só para se lembrar de que o mundo é lindo. 


As flores de Gramado. Gosto mais da de casaco.






Ulisses e eu no Parque Temático Cujo Tema Não Entendemos (o parque se chama Terra Mágica, então o tema deve ser tudo que é esquisito, exótico... mágico; vamos voltar um dia para investigar melhor)


Catedral de Pedra, Canela/RS

A vista deprimente da varanda no restaurante do hotel


As duas fotos acima foram tiradas durante a descida da Serra

Não visitamos tudo, não fizemos tudo, claro. E eu nem tinha pressa, queria tudo devagar mesmo. Quero saborear aos pouquinhos, ir de vez em quando, se der. Nem é tão longe, algumas horas de viagem e lá estamos. A companhia foi excelente, as crianças adoraram e nós precisamos descobrir qual o Café Colonial correto, qual o tema do parque, se é bonito fora da Páscoa, se aquela árvore dá flor, se o inverno por lá é mesmo tão aconchegante como dizem, se os amigos vão voltar junto, se aqueles outros vão querer ir também, se...





- Rita, olha o passarinho! - Não!


Da próxima vez que precisar tirar uma foto 3x4, que espero que seja nunca, vou usar uma máscara. Não importa o modelo. Qualquer máscara vai sair mais bonita e parecer mais fotogênica do que eu em fotos de documentos. Eu poderia ilustrar esse post e elevar o número de visitas do blog à estratosfera. Se publicasse minhas fotos 3x4, ficaria famosa. Meu post bombaria no Twitter e no Facebook e seria uma daquelas situações em que um blog vira notícia em grandes portais. As manchetes seriam irresistíveis: "blogueira perde de vez a noção e publica fotos ridículas de si mesma"; "post em pequeno blog causa furor nas redes sociais com fotos hilárias de blogueira", por aí. Portanto, nem peçam.


Acho normal que minhas fotos de documentos na infância mostrem uma menina emburrada. Eu era emburrada. Acredito que sem qualquer exceção, estou horrorosa em todas as fotos 3x4 tiradas até os 12 anos (são várias, as escolas têm essa mania irritante de pedir fotos). Depois, aos 14, fiz o que provavelmente é a foto mais feia do mundo, em todos os tempos. Foi tirada exclusivamente para minha primeira carteira de identidade. Até hoje, se a carteira de identidade de alguém cai em minhas mãos, tenho o cuidado de deixar muito claro que não estou interessada na foto, tudo porque esse era meu desejo quando alguém examinava a minha: eu rezava em silêncio algo como "Deus, não deixe que ele/ela veja a foto, etc" (mentira, eu não rezava, mas torcia forte). Durante muitos anos escondi meu RG no fundo da carteira e jamais (ja-mais) mostrava aos amigos. Guardava como uma carta na manga, caso quisesse terminar algum namoro ou espantar um assaltante. Minha digital era mais bonita que a foto porque naquela época eu usava as franjas criminosas dos anos 80, parecidas com grandes bigodes na testa. Uma coisa muito, muito, esquisita. Jamais vou entender de onde eu tirava coragem para sair à rua com aquilo.

A partir daí, passada a magricelice da infância e a cara de perdida da adolescência, normal seria que as fotos acompanhassem as melhorias da pessoa, néam? Mas cadê? Anos depois, com mais de 20 anos, consegui uma foto razoável, é verdade. Fiquei apenas feia, normal, nada demais (meu rosto parece inchado, os olhos apertados; o cabelo parece um capacete). É assim que estou hoje, no meu RG atual. Não peçam. Meu primeiro passaporte trazia algo estranho, mas já me esqueci dos detalhes, só me lembro de que não gostava do que via. No atual, até que estou apresentável, deve ter rolado um photoshop. Um dia esqueci a bolsa no taxi (já contei aqui, nesse post com ótimos comentários de vocês) e precisei tirar uma foto de emergência para a carteirinha do metrô. Fiquei tão estranha que o moço da loja onde fiz a foto comentou: not very happy, are you? Juro. Mas o que ele queria? Eu tinha perdido a bolsa, não dá pra sair sexy na foto, baby (como se eu tivesse saído sexy em todas as outras...). 

Se você trabalha comigo e procura por meu ramal no sistema, vai me ver sorridente. Mas não se engane, não é alegria; é uma tentativa (vã) de não sair tão horrenda. Tipo, os colegas podem comentar: ela é estranha, mas parece tão feliz, né? Certa vez usei crachá e minha fotografia nele parecia um pão doce. Houve um tempo em que usei cabelos muito curtos, bem "Joãozinho" mesmo. Fiz uma foto nessa época até bem decente, mas não acho que valha a pena cortar o cabelo bem curto só para ficar bem nos documentos.

Enfim, dias atrás renovei minha CNH. Gente. Assustada define. E tudo bem que eu saia branca e magra na foto, pois sou branca e magra, mas não precisava sair com cara de doente. O cabelo está torto e levemente desgrenhado, a boca travada numa tentativa de... sei lá, mastigar a língua? Minha primeira reação ao ver a foto foi pensar "Gente, alguém precisa ajudar essa garota! Oops, sou eu.". Olha, um problema a tal foto. Se a PRF me parar na estrada, vou preferir pagar multa a mostrar a carteira: tenho CNH não, moço, precisa, é? Porque não tá fácil. Hoje no twitter conversei sobre isso com amigas e procurei um jeito de definir minha nova foto. A melhor explicação que encontrei foi algo como doente, assustada e meio louca. Não dá pra sair mostrando por aí, né, a PRF pode até querer me deter, vai saber. 

Nunca fui fotogênica, mas não chego a me importar com o assunto. Às vezes fico bem, às vezes nem tanto, como todo mundo. Como a Julia Roberts, assim, normal, hohoho. A autoestima vai bem, obrigada. Mas foto 3x4 (por quê, hein? que praga!), na próxima vez, só se for de burca.

(Não, este post não tem fotos.)

Miniconto displicente IV



Exausta

Aos poucos foi deixando de tirar os sapatos quando chegava em casa. Não mais se jogava no sofá nem retirava a maquiagem. Por não conseguir deixar as amarras na calçada, passou a trazer a rua para dentro e, sem perceber, foi perdendo a capacidade de jogar a bolsa, prender os cabelos num coque torto ou tomar água direto da jarra. Era como se todos voltassem para casa com ela, todos os dias. O resultado foi a fadiga. Cansada demais, deixou de dar de ombros e abandonou as amplas coreografias na sala. Seu sofá não tinha mais farelos, sua carteira estava sempre dentro da bolsa e era simpática o tempo todo. Somente no banho, nua de tudo, voltava a si. E, exausta, chorava.

De chapéu com a borboleta na Lagoa, ou quase isso



Terminei de ler um livro comecei outro vi dois filmes cochilei no sofá (vi um filme e meio) fui mas não deveria ter ido editei risquei acrescentei amei ri bebi e tava bom abracei busquei levei apresentei brinquei corrigi estudei junto dancei comi e repeti dirigi passeei montei quebra-cabeças mostrei fotografei afaguei fiz tranças fiz coque escovei fiz bolo e café não sei onde guardei as vírgulas ponto

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A borboleta veio conhecer Floripa. Papo furado. A borboleta veio me ver. Papo bom. Tanta conversa, tanta coisa boa que essa blogosfera faz. No final de semana corridíssimo a gente até que fez boa parte do que pretendia. E foi bom não ter feito tudo para que não faltem pretextos de retornos. Não houve o extremo norte da ilha, mas houve barzinho no Sambaqui com as luzes da ponte abandonada que merece mais carinho; houve um pedaço do sul, uma lagoa linda banhada pelo céu azul; um pezinho na Joaquina, uma olhada na Mole e sei que já nem precisava mais. A frase logo veio, "minha preferida". Pois então, Floripa faz dessas, vira favorita depois da primeira subida ao morro. Num domingo de outono, sem trânsito, com aquele charme que as primeiras horas do dia têm, tanto mais fácil.

Estou habituada a alimentar amizades que se mantêm fortes apesar das distâncias, mas é claro que a presença tem seu valor. Luciana sentou no chão da sala com as crianças, tomou o café da sogra, copiou a receita do bolo, gargalhou e esperou. Foi junto, bebeu e dançou. Temos planos e confidências como amigas de escola e nossos recreios são dos melhores. 

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Sou uma anfitriã tão boa, tão eficiente, que levei minha amiga cearense, em sua única noite de sábado na capital catarinense, a uma... festa nordestina!!! Palmas para mim. Querem saber o que ela achou? Tá aqui, num dos 569 blogs que ela mantém. O que eu achei? Não posso falar ainda. Preciso antes me esquecer do escondidinho de carne seca que comi. Porque cada vez que penso nele, sinto uma saudade quase dolorida. Foi ontem. Sou dramática e é isso que sinto: saudades do escondidinho de carne seca que comi ontem. Posso só dizer que dancei forró, obviamente, repeti o prato e tirei muitas fotos com chapéu de couro. Nunca na minha vida usei um chapéu de couro nos 26 anos em que morei na Paraíba. Na festa temática, num apartamento qualquer do centro de Florianópolis, era eu com chapéu de couro. Como não amar essa vida?

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A primeira frase de um livro pode causar estragos, perder leitores e resultar em volumes abandonados nas livrarias. Ou pode segurar nossa mão e nos convencer que vale a pena, em dois segundos. Um amor, de Dino Buzzati (trad. Tizziana Giorgini), começa assim:

"Certa manhã de fevereiro, 1960, em Milão, o arquiteto Antonio Dorigo, quarenta e nove anos, telefonou para a dona Ermelina."

Comigo funcionou, já quero saber quem é Ermelina e qual o motivo do telefonema. Devo ser sincera, contudo, e dizer que, para mim, essa é a segunda frase do livro. A primeira foi: "trouxe uma coisa pra você". Ganho livros de presente e retribuo com festas nordestinas em Floripa. Sou boa amiga. Não sou? Espera aí, Harry


 
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