Longe do quarto





Houve uma vez um dia muito difícil. Meu coração estava quebrado e minha respiração pesava muito. Voltei para casa tão triste, tão sozinha, que o único destino possível era o travesseiro. Eu não queria fazer nada, falar com ninguém, saber de coisa alguma nesse mundo porque na véspera eu tinha perdido um bocado de esperança. Era minha dor, era grande e eu precisava chorar. Nada naquele dia me faria sorrir. Eu me lembro nitidamente do momento em que você entrou no meu quarto e se sentou ao meu lado, enquanto eu, de bruços, encharcava o travesseiro. Eu amava muito e por isso sofria muito e disso você entendia muito bem. Você foi tão solidária. Não cobrou, não me incomodou com detalhes, não me pediu para parar de chorar. Apenas passou a mão nas minhas costas e perguntou se eu queria dividir minha história, aliviar a carga. Você se dispôs. Foi tão amoroso. Eu aceitei e falei do jeito que consegui. E, sem qualquer julgamento, você elogiou minha coragem, minha força. Nem disse que iria passar logo, afinal conhecia a natureza da minha dor. Simplesmente me olhou com olhos de amor, amizade e solidariedade que me seguraram naquele dia, que me puseram de pé. Depois fomos tomar café naquela mesa da cozinha e o dia seguiu, depois outro, a semana, meses, anos, vida. Que sorte a minha de você ter entrado no meu quarto, torcendo tanto por mim. Eu sentia a torcida, nas suas mãos, nos seus olhos. Como sempre.

Hoje uma cena semelhante ocorreu em uma sala bem distante do meu antigo quarto. Você teria me ajudado outra vez. Não fosse o infeliz detalhe de que hoje meu choro era inteiro por saudades de você. 

Acho que me rendo



(Ulisses e Arthur conversam animadamente, olho no olho, na maior empolgação. Eu tento participar.)

Ulisses: - Então, mas o Lord Voldemor...
Arthur: - Ah, isso, ele mesmo! O Voldemor foi quem bla bla bla.
Ulisses: - Ah, mas a razão disso você só vai entender depois, no final do livro!
Eu: - A causa de quê?
Ulisses e Arthur: [Ignoram minha pergunta] Espera...
Arthur: - E a Hermione também ficou na mesma casa!
Ulisses: - Sim, lógico, ela e o Rony.
Eu: - Rony é aquele garoto que...
Eles: - É.
Eu: - ... que...
Arthur: [Que de repente se levanta e ergue uma varinha imaginária] Expecto Patronum!! 
Eu: [Desistindo da pergunta sobre Rony] - Esse feitiço faz o quê, hein?
Ulisses: [Sem me dar bola e imediatamente assumindo postura defensiva] - Protego!!
Etc, etc, etc. Conversam, brincam, conversam, brincam, etc.

Aí eu saio do ambiente, completamente ignorada. Se insisto, ouço um "vai ler, Rita, pra conhecer a história e parar de fazer pergunta". Bem assim, gente. Desse jeito.

Quer dizer.

Acho que vou ler Harry Potter. Tá chato ficar o tempo todo de fora das conversas animadas. :-(

Cedo, tarde, sempre




Coragem


A professora perguntou quem queria ir lá na frente, cantar no microfone. No mesmo segundo senti o rebuliço na cadeira ao lado da minha. Ficou tão nervoso, queria tanto, mas cadê coragem? A professora insistiu muito, mas ninguém vai? Que coisa! Ah, vamos lá, gente, uma musiquinha só. E enquanto ela insistia com a aluna do violino, ele buscou lá do fundo da alminha espevitada dele a coragem, a grande coragem. E me passou a flauta, levantou-se, pegou na mão da professora e foi lá pra frente. Ela voltou e ele ficou lá, com a professora regente, microfone pesado na mão, olhar compriiiiido pro meu lado. Eu, fazendo muitos "joias" com o polegar, pensava "não acredito". Os violinos encheram a sala, os violões acompanharam e as flautas complementaram, bem bonitinho. Todo mundo cantou junto, mas eu só ouvia a vozinha dele no microfone, não muito alta, na medida para me embalar. "Sou eu que vou seguir você do primeiro rabisco...", cantou, todo banguela. Tão corajoso, ele. E tão espaçoso: o dedinho da mão livre não parou de reger os outros alunos um minuto sequer. Ficou se achando, mas só um pouquinho. ;-) (Parabéns, filho.)

***

Aquarela

Há um quê de eternidade quando eles se sentam no chão da sala para montar quebra-cabeças. Ficam assim, em um só quadro, minha infância e a deles, numa misturinha de tempos que dá certo. A gente troca peças, conversa, canta, enquanto monta o mapa do mundo. O mundo que eu queria conhecer como a palma da minha mão quando era do tamanho deles, o mundo que até hoje me fascina porque não perdi tudo. Ainda tenho uma porção boa dessa coisa que brinca nos olhos deles quando apoiam os dedinhos na Oceania e, num pulo, desembarcam no Canadá. Zuuum, cheguei! Como na outra música do Toquinho, igualzinho. Eu também não sabia do meu futuro, mas preservava numa esquina muito bem guardada de minha alma aquela chama preciosa com luz bonita. Eu sentia que podia seguir por ali, guiada pela chama. Sabia que o mundo poderia, de vez em quando, ter cores e formatos que eu quisesse. Aí me distraio e a África fica faltando um pedaço porque me esqueço da peça rolando na minha mão. É que olho para eles e tento adivinhar se também sentem, se já perceberam a chama. Eu queria tanto saber. 

***

Pipoca

A Amanda ainda não entendeu as aulas de ballet. Passado o encanto diante do fato de sair de casa fantasiada de bailarina e ser oficialmente "aluna do ballet", ela quer mesmo é cantar de galo. A professora é só dela, faz o exercício se quiser e quando quiser, faz de tudo para chamar a atenção. Em suma, mais atrapalha do que dança. A professora já trocou figurinhas comigo e estamos de olho nessa primeira fase meio adaptação, meio piti. O padrão pipoca de comportamento que na natação não causa maiores transtornos (pula.sem.parar.) não serve para a aula de ballet. E não pensem que se trata de uma aula rígida e exigente, nada disso. Aliás, algo de que gosto muito na metodologia da escola em que ela está é o caráter lúdico das aulas. Nem sei se dá pra ser diferente com meninas entre quatro e cinco anos de idade, o fato é que o que vejo da aula me agrada demais: as crianças fazem o que precisam fazer, ou seja, brincam. E vão aos pouquinhos se familiarizando com o mundo da dança, no tempo delas, saltitando e fazendo graça. Mesmo assim, Amanda pede colo, vira menininha choramingona. Depois esquece e entra no clima, mas só até o momento em que a janela parece mais interessante. A professora dá o tempo que ela precisa para sentir interesse pela aula outra vez e assim vamos. Ela não é a única a se distrair, mas é para ela que estou olhando, obviamente. Já perguntei se a professora não acha que está cedo demais. A resposta que ouvi foi que, na verdade, está cedo demais para todas elas. A ideia é brincar mesmo e despertar o interesse por algo a que vão se dedicar mais tarde, se for o caso. O clique vai acontecer com algumas, claro, não com todas. Tenho cá minhas dúvidas em relação a Amanda. Observemos. Ela já me falou que gosta mesmo é de dançar "no palco", hahaha. Falei que para dançar no palco é preciso antes dançar na aula. O problema é que não quero insistir. Insisto no entendimento de que é preciso seguir as regras da aula, uma vez que ela está lá. Que não é admissível desobedecer à professora, por exemplo. Piso em ovos para não parecer que estou insistindo para que faça a aula. Já disse com todas as letras que ela só vai se quiser. Ela diz que quer e acho mesmo que queira. O problema é que quer do jeito dela. Fico me perguntando se ela vai perceber que não é assim que a banda toca. Se, daqui a pouco, não vai preferir ficar em casa fazendo piruetas com o Floquinho. Ou se vai seguir em frente e tentar imitar a Greice. Só o tempo dirá. 

***
Allegro

Um dia por semana saio da sala de espera e vou para a sala de aula. Estou gostando tanto da experiência que não quero escrever sobre isso ainda. Deixa o tempo passar mais um pouco. O que pretendo com as aulas de ballet? Nada, não. Estou só fazendo o que já fazia lá na infância: seguindo aquela chama de luz boa. E me divertindo um monte.

***

Sala

Mas o que o Floquinho quer mesmo é correr e passar por cima do quebra-cabeça, misturando tudo de novo. Arthur enlouquece de raiva, fica bravo e manda o Floquinho dar o fora! O cachorro entende tudo errado e fica em posição de "vou pular porque sei que você quer brincar comigo" bem em cima do que restou do quebra-cabeça. O rabo gira tanto que qualquer hora dessas ela vai sair voando, vai vendo. Olha, só rindo. 

Sem anestesia


Hoje li umas coisinhas a respeito da época em que a humanidade ainda não conhecia a microbiologia. Quando pouco ou nada se sabia sobre a dinâmica das doenças. Sobre o tempo em que a anestesia não existia e as pessoas se submetiam a intervenções cirúrgicas de toda sorte, mesmo assim. Sobre o tempo em que se acreditava que lavar a pele abria os poros para a entrada de doenças e o mundo não era exatamente um lugar cheiroso. Fico impressionada que sobrevivemos a tudo isso. A humanidade vingou e acho isso fora de série porque tínhamos tudo para dar muito errado e sucumbir à falta de noção.*

A noção foi vindo, foi vindo, estamos aí na caminhada. Não é pouco. Que as pestes não tenham aniquilado a população inteira da Terra é algo espantoso, dadas as condições em que as pessoas lidavam com as epidemias. Ainda assim, estamos aqui, um banho por dia (pelo menos), anestesia, antibiótico, toca o bonde. Ficamos, inclusive, cada vez mais eficazes quando o assunto é inventar formas de aniquilar os outros. Incrível.

Alguma porção dessa capacidade formidável de superação e crescimento dentro das adversidades deve habitar nosso inconsciente coletivo; quem sabe está diluída em nosso DNA. No fundo, a gente sabe que dá conta. Que as explicações virão e que as coisas vão, pouco a pouco, fazer sentido. Claro que muitas coisas habitarão sempre o reino do inexplicável, mas a gente vai seguir tentando. Nem que seja aos trancos e barrancos, mais ou menos como os médicos do século XVIII enfrentavam seus enormes desafios, tateando. Hoje em dia, ainda que não sejamos capazes de evitar a morte (e isso não daria muito certo), ao menos conseguimos aliviar muitas formas de sofrimento. Então a gente aprende que vale a pena e segue na busca: os otimistas esperando que o lado bom do homem prevaleça, os pessimistas lamentando nossa sorte em uma caminhada tão sofrida. Na maior parte do tempo, nossos lados otimista e pessimista dialogarão e nos empurrarão pra frente. 

Esse tanto de força e garra herdado de tão longe certamente habita também nossas emoções. E é bom que seja assim, especialmente nos dias em que o peito experimenta aquelas pontadas. Aquelas contra as quais não há anestesia. A gente enfrenta no cru mesmo porque sabe que é preciso dar conta.

***

*Ainda estou a bordo de Breve História da Vida Doméstica (Bill Bryson, Cia das Letras, trad. Isa Mara Lando).


O fantasma dos móveis arrastados


Flagrante raro de fantasma arrastando móveis em um apartamento. Vítima desconhecida.

Houve um tempo em que tive vizinhos abaixo e acima da minha cabeça. Até entrar na faculdade e sair de minha cidade natal, vivi em casas. A partir daí morei em seis apartamentos, em três cidades diferentes. Foram cerca de onze anos lidando com regras de condomínios, avisos, síndicos, taxas, normas confusas para vagas de garagem, escadas em prédios sem elevador, etc. E vizinhos. Em cima e embaixo. No geral, tive sorte, acho. A julgar pelas histórias que ouço e leio por aí, minha experiência com condomínios até que foi bem tranquila. Não fosse pela vizinha que me alugou a vaga de garagem e desistiu de uma hora para outra, eu nem teria uma história de tribunal de pequenas causas para contar. A primeira história que me vem à cabeça quando penso em desavenças de vizinhos em apartamentos, no entanto, nem é a da garagem; é a dos fantasmas do andar de cima.

Aconteceu no segundo apartamento em que morei. Fiquei por lá durante uns cinco anos, acho, talvez menos. Eu morava no primeiro andar e a vaga de garagem descoberta que eu ocupava ficava bem abaixo da varanda. Era um condomínio simples, com muitos apartamentos, relativamente próximo à universidade e bem longe de meu trabalho. Eu gostava muito de lá, apesar de nunca ter me entrosado com muitos vizinhos (ou justamente por causa disso, hohoho). Na verdade, eu gostava mesmo era de ter um apartamento só meu, onde podia estudar e trabalhar com tranquilidade, além de receber os amigos sempre que quisesse. E tudo era mesmo muito tranquilo. Até o dia em que a vizinha do térreo, do apartamento abaixo do meu, resolveu cismar comigo.

Certa noite, no momento em que abri a porta do hall de entrada, ela surgiu na porta de seu apartamento e me abordou. Pediu que eu, por favor, parasse de arrastar os móveis em horários tão inconvenientes, que minha mania estava incomodando toda sua família. Levei alguns segundos até entender do que ela estava falando. Ao ouvir "arrastar os móveis", lembrei-me que, de fato, eu já havia notado ruído semelhante, quando julguei que o barulho tivesse vindo do segundo andar, do apartamento acima da minha cabeça. Assegurei à minha vizinha que eu não era a responsável pelo barulho de móveis arrastados, até porque todos os móveis da minha casa de estudante pé duro eram tubulares, com exceção do guarda-roupas - que eu nunca, nunquinha, tirava do lugar. Ou seja, ainda que eu de fato tivesse o estranho hábito de brincar de arrastar móveis, eles não gerariam muito barulho. Além do mais, eu passava o dia inteiro (todos os dias) fora de casa, alternando meus horários entre o curso de Letras e o trabalho na escola de inglês. E ninguém mais morava comigo. Dei a história por esclarecida e subi as escadas. 

Aqui é preciso falar da rede. Nessa mesma época, havia no meu prédio um barulho de rede balançando. Quem tem rede em casa sabe que um suporte de rede mal lubrificado causa um barulho semelhante a uma dobradiça de porta no mesmo estado. Nhenc nhenc nheeeenc nheeenc. O barulho costuma reverberar pelas paredes e pode ser ouvido vários andares abaixo ou acima do apartamento de quem se balança. É de bom tom, portanto, manter suportes de redes bem lubrificados, caso você more em apartamento. Enfim, eu vinha há tempos ouvindo o barulho da rede e já havia comentado com meus amigos que, assim que descobrisse de que apartamento vinha o som, deixaria um tubinho de óleo lubrificante de presente na porta. Para se ter uma ideia de quão alto era o som da rede, não raro eu o ouvia assim que saía do carro, ainda na garagem. 

Assim que entrei em casa naquela noite, comecei a me perguntar se o vizinho de cima não seria o responsável tanto pelo barulho de móveis arrastados como pelo da rede. Ambos prosseguiram, assim como as reclamações de minha vizinha do térreo. Diversas vezes ela interfonou para minha casa pedindo que eu parasse com aquilo, que ninguém conseguia mais aguentar, onde já se viu arrumar a casa àquela hora da noite, ainda mais depois de uma tarde inteira de barulheira, etc., etc., etc. Certo dia, depois de ela interfonar para minha casa mais uma vez, desci e bati à sua porta para dizer, olhando em seus olhos, que naquela tarde meu apartamento tinha permanecido vazio, como acontecia todas as tardes. Que o som que a incomodava certamente vinha do vizinho de cima. Foi então que ela me disse que aquilo era impossível, já que os apartamentos do segundo e terceiro andares (na linha acima do meu) estavam desocupados. Só restava eu. Surpresa, convidei-a para subir ao meu apartamento e ver meus móveis, por mais ridículo que aquilo estivesse se tornando. Minha vontade era gritar na cara dela: eu passo o dia fooooooooooooooooraaaa!!! Enfim. Ao invés disso, acrescentei: "incrível, pois eu achava que a rede vinha de lá de cima também". Ao que ela respondeu: "a rede? Não acredito que você escute minha rede". Quer dizer.  

Ali estava, diante de mim, a dona da rede. Que não morava no segundo andar, mas no térreo. Não sei o que acontece com a acústica desses prédios, que leis malucas da física nos levam a jurar que um som gerado lá embaixo vem lá de cima. Sei que olhei para minha vizinha e disse, lentamente: "eu ouço a sua rede do estacionamento; todo mundo ouve". Rá. Indignada, ela disse que aquilo era um absurdo e que não aguentava mais uma vizinha tão barulhenta bla bla bla. Fui embora, satisfeita. 

O ruído da rede diminuiu logo em seguida (hihihi), mas os vizinhos do segundo e terceiro andares, de fato, não existiam. Os apartamentos estavam vazios há algum tempo. Por falta de explicação melhor, passei a acreditar que o barulho viesse do subsolo, mesmo sem saber quem morava lá - formigas gigantes? Tatus? A outra opção eram os fantasmas do andar de cima. A vizinha parou de me encher o saco, certamente por vergonha da rede, já que móveis continuaram a ser arrastados - eu ouvia tudo nas noites e finais de semana em que não viajava para a casa de minha mãe. Era uma mudança eterna, uma arrumação sem fim, mas ninguém sabia em que lugar do prédio.

Comentando o assunto com amigos, fiquei então sabendo que isso é um clássico. O fantasma dos móveis arrastados habita muitos prédios e incomoda muita gente, gera discórdia entre vizinhos mundo afora. Ouvi relatos de dois ou três casos semelhantes, do barulho de móveis que ninguém sabia de onde vinha, ou do toc toc de saltos altos supostamente vindos de apartamentos onde não morava nenhuma mulher. 

Mais tarde, em outras cidades, outros apartamentos, incomodei vizinhos, de verdade. Um dia reclamaram do som alto e tinham razão. Pedi desculpas e passei a tomar mais cuidado com o volume do rock & roll. Nunca reclamei dos móveis arrastados, no entanto, porque já tinha know-how e sabia que aquilo era coisa dos fantasmas. Quando criança, aprendi que eles arrastavam correntes. Só quando fui morar sozinha e não tinha mais medo deles, descobri que também gostam de móveis. Acho meio estranho, mas é mais plausível do que tatus arrastando mesas. 



Superpoderes



Hoje Amanda me pediu que fizesse um bracelete. O modelo está em um livro que ela ganhou há algum tempo e que conta a história de uma bailarina (Eu quero ser uma bailarina, Ed. Ciranda Cultural). Nele há também modelos para uma saia de ballet e outros apetrechos de dança, tudo para ser confeccionado em papel. Com um pedaço pequeno de cartolina, giz de cera, cola, purpurina e fita adesiva, fizemos juntas, em menos de 10 minutos, o tal bracelete, simples e bonitinho. Arthur logo cresceu o olho e pediu um relógio "de espião". Com o mesmo material, fizemos um relógio "irado", com bússola e GPS incluídos, hohoho. Munidos de seus acessórios de papel cheios de superpoderes, os dois brincaram por horas, esgueirando-se pela casa, à caça sabe-se lá de quê, comunicando-se em códigos secretíssimos. Todos os outros brinquedos descansaram, esquecidos em seus lugares. Floquinho cochilou, certamente aliviado pela folga dada pela Amanda. 

(Vou guardar este post para que eles leiam no futuro, se o blog ainda existir. Para que se lembrem de que às vezes precisamos de muito pouco. É só manter a cabeça aberta e enxergar que o que torna um objeto valioso é a forma como lidamos com ele. Afinal, todos temos superpoderes.)



Das nuvens de chuva


Choveu muito em Floripa hoje, bem diferente do dia 22 de março de treze anos atrás. No dia em que me mudei pra cá, fazia sol e a cidade era toda convite. É fácil me lembrar da data exata de minha mudança por causa do feriado pelo aniversário da cidade um dia depois. Há dois anos fiz um post sobre a vinda pra cá e nele agradeci pelo apoio que minha mãe me deu por ocasião da mudança. Hoje reli o post. É engraçado ver que o que escrevi ali em relação à presença dela em minha vida continua verdadeiro mesmo depois de sua partida. "Eu sinto sua mão, vejo seu olhar, ouço sua voz, todos os dias. Nunca estamos longe", escrevi. A diferença é que há dois anos eu pude telefonar para ela e relembrar a data. Na verdade, ela deve ter me telefonado antes, como de costume. É claro que "nunca estamos longe" é verdadeiro em certa medida apenas. Porque é óbvio que a ausência dela por vezes gera um buraco sem fundo. No entanto, é verdade dizer que seguimos juntas porque o relacionamento que tivemos fez muitas tatuagens em minha alma. Tenho sonhado com ela com certa frequência. Nem sempre ela fala alguma coisa nos sonhos, mas sua presença é sempre muito nítida.


Este post não chega a lugar algum, é um texto sem final. Sou eu olhando para trás, sorrindo pelo que deu certo. E deixando que o peito pese com minhas dores, como o céu de Floripa no final do dia. Acho que é assim que se vive.

Greice

Greice, em Paris.

Amanda, 4 anos:

Amanda: - Mãe, aprendi a fazer um grand jeté.
Eu: - E o que é um grand jeté?
Amanda: - É assim. ["executa" um grand jeté...]
Eu: - Uau. E quem te ensinou?
Amanda: - A Greice.
Eu: - Greice? Quem é Greice?
Amanda: - Uma grande bailarina. Ela mora em Paris. É uma amiga minha.
Eu: :-o
Amanda: - Ela faz os grand jetés mais elegantes.

E me deu as costas e foi pra cama, dormir. 

***

Olá, amigas imaginárias. Sejam bem vindas. A minha se chamava Kelly e tinha cabelos lindos.

O luxo dos sorrisos podres



Sigo lendo Breve História da Vida Doméstica (Bill Bryson, Ed. Cia das Letras, trad. Isa Mara Lando), sem pressa. De vez em quando me deparo com essas:

"Os britânicos sempre gostaram de açúcar, tanto que quando tiveram acesso a ele, por volta da época de Henrique VIII, o colocavam em quase tudo - nos ovos, na carne, no vinho. Colocavam quatidades de açúcar sobre as batatas, salpicavam sobre as verduras, comiam puro às colheradas, quando podiam se dar ao luxo. Embora fosse muito caro, as pessoas o consumiam até seus dentes ficarem negros; e, se os dentes não ficavam negros naturalmente, eles os enegreciam artificalmente, para mostrar que viviam no luxo e podiam gozar desse prazer." 

Será que é verdade? Bryson não fala como as pessoas enegreciam os dentes artificialmente. Se isso realmente acontecia, só nos resta rir, né. A humanidade, essa pândega. 

Prata




Hoje o dia está tão bonito na minha janela, lá no trabalho. Gosto daquelas nuvens espalhadas como se alguém tivesse passado os dedos por elas e desarrumado um pouco. Elas não escondem o azul, só o decoram e sussurram: outono. A água da baía está prateada pelo sol. Se prolongamos o olhar, o espelho d'água parece inerte. É só quando olhamos para as águas que se aproximam da borda e observamos os pontos de prata que percebemos a dança da água com o vento. Do ponto onde minha janela está, posso ver três braços de terra que se espicham mar adentro, como pequenas penínsulas. Há muita coisa nesses pedaços de terra e na água que os abraça. Interessam-me os tons e os contornos: morro, verde, azul, mais azul. E os pontos de prata. Posso ver mais um pouco, se me posiciono no canto da janela. De lá vejo a linha onde a água se torna esverdeada e brinca com meu olhar, que cor? E também as árvores que sombreiam banquinhos pintados de verde. Pergunto-me se elas gostam mais da vista que têm ou de fazer parte dela. Por fim, há a avenida com os carros que até me pareceriam robôs, se eu não soubesse de seus condutores: quantos deles cantam como cantei hoje de manhã, som do carro desligado? Quantos deles estão encantados como eu estava hoje de manhã, com esse sol, esse mar? Quantos deles quase desejam trabalhar um pouco mais longe, só para ter a baía por mais alguns minutos? Quantos deles invejam os ciclistas, como invejei horas atrás? Quantos deles vão abrir a janela do carro, entra, vento? Quando ergui as persianas pretas de minha sala no trabalho, senti-me muito privilegiada por não precisar me despedir desse quadro, apesar do computador e dos papéis. 


No meio da manhã me levantei, peguei um café e fui para a janela curtir a paisagem. Foi aí que vi uma gaivota tocando os pontos de prata. E me lembrei de como são lindas também as muitas paisagens que trago dentro de mim. Nelas sou a gaivota e os pontos de prata estão inteiramente ao meu alcance. 

***

(Post rascunhado no final da manhã; o dia passou e não tive tempo de publicá-lo) 

Quem dá mais


Arthur: - Mãe, sabia que eu não gosto de você?
Eu: - É? :-(
Arthur: - Eu AMO você!
Eu:  - Oba! Eu também, filho. Amo você demais.
Amanda [me puxando pelo braço]: - Mãe! Sabia como eu amo você?
Eu: - Como?
Amanda: - Amo você do tamanho do universo!
Arthur: - E eu amo do tamanho do espaço sideral!
Amanda: - Eu amo do tamanho de tudo que existe!
Arthur: - Eu amo do tamanho de tudo que existe duas vezes!
etc
etc
ad infinitum


Não acho saudável estimular a competição entre irmãos. Mas às vezes eu não me importo muito, não. ;-)

O bis que não pedi


E se eu contar a vocês que hoje fui a uma festa naquele mesmo lugar? E que aconteceu tudo outra vez? Meu coração quase saiu pela boca. A coisa toda não durou mais que dois minutos e, dessa vez, Ulisses estava comigo. Mesmo assim, depois do primeiro minuto eu já estava em pânico.

Como contei no outro post, o lugar tem dois ambientes distintos, para abrigar duas festas simultaneamente, além de um grande espaço para os brinquedos. Fiquei no salão 1 e as crianças se esbaldaram nos brinquedos no salão grande. Na hora de ir embora, enquanto eu me preparava para juntar todo mundo e sair, Amanda se enganou e entrou no salão errado, o da festa 2. Viu um monte de pequenos brinquedos espalhados pelo chão, daqueles que acompanham balas em lembrancinhas. Resolveu catar o que cabia em suas mãozinhas enquanto eu, louca, procurava por ela pelo resto da casa imensa. Ulisses chegou a entrar no outro salão, mas, cego de preocupação, não a viu. Quando a encontramos eu já estava chorando e o moço da portaria chegou a passar a mão em minha cabeça para me consolar. Olha, deu, já chega, já passei minha cota de sustos desse tipo. Já falei que não gosto daquele lugar? Ninguém vai me dizer que estou de implicância, vai?

***

Ao perceber que tinha entrado no salão errado, Amanda olhou pra mim e abriu um berreiro, as mãozinhas abarrotadas de brinquedinhos de plástico:

- Buáaáá''aáá... eu vou ter que devolver todos os brinquedinhos!!! Buááá''aáááá....

***

Na hora de dormir dei colinho e cantei a música da bailarina. Ela não faz a menor ideia do que senti.

Dueto




O bom de tocar sua vida com alguém é a sensação de compartilhamento. Sua alegria se estica porque atinge outra pessoa e o milagre da multiplicação das alegrias é algo muito divertido. Nas fases mais pesadas, sua tristeza tem colchão para se espalhar e isso é um alento maior do que pode parecer aos desavisados. É bom comemorar, reclamar, descobrir uma banda, detestar um filme, cair pra trás com a novidade, tudo a dois é bom. Aqui em casa nos damos muito bem com esse negócio de vida a dois. Até nos dias chatérrimos, quando o mau humor pegar carona no engarrafamento e se agarra ao nosso pé na sala de espera de um consultório azedo, até nesses dias sabemos que seria pior se não fosse a dois. É muito comum experimentar certa euforia por saber disso e trocar um beijo ao som de "é tão bom ter alguém, né?". Parece piegas e, alguns diriam, bobo demais, algo meio adolescente. A gente tá cem por cento nem aí. 

Há uma coisa em que somos especialmente bons: fazer planos. Saber se extrapolamos e damos conta de efetivamente segui-los é outro papo. O que importa é que fazemos ótimos planos e sempre nos divertimos muito com eles. Desconfio que o tempo tem outra cadência quando traçamos um roteiro, imaginamos os passos seguintes, planejamos cortes e gastos. Como se o plano nos olhasse lá do futuro, todo convidativo enquanto a gente acena pra ele. Fazer planos é ficar na ponta dos pés para tocar o futuro com a pontinha dos dedos das mãos; depois recuar um pouco e recomeçar a caminhada com mais riqueza. E a dois é ainda mais excitante.

É claro que dá para fazer tudo isso sozinha, fui sozinha por muito, muito tempo. E fiz planos ótimos e não me faltou vento para esparramar minhas alegrias nem colchão para os choros. Muitos planos até cumpri, vejam lá. Admito, no entanto, que o compartilhamento diário do queijo fatiado e das broncas nas crianças combina comigo. Aceito que não combine com muita gente, aceito toda forma de alegria nessa vida, quem me conhece sabe. É que hoje eu queria celebrar que gosto de ser par. 

Hoje fizemos planos e comemos pizza. E, como de costume, foi bom. 

Esperação e Aceitação



Eu: - Amanda, enquanto você faz sua aula eu vou esperar aqui na sala ao lado, tá? Aquela do sofá
Ela: - Tá bom.
Eu: - Beijinho, meu anjo. [smack, smack]
Ela: - Beijinho. [smack, smack]
Eu: - Boa aula, meu amor.
Ela: - Boa esperação. [abraço]
:-)


***

O diálogo acima tem toda a poesia de que preciso, mas já que hoje se comemora o Dia da Poesia, um pouquinho mais não nos fará mal.

Aceitação

"(...)
Não me interessam nem as estrelas, nem as formas do mar, 
nem tu.

Desenrolei de dentro do tempo a minha canção:
não tenho inveja às cigarras: também vou morrer de cantar."

Cecilia Meireles, que dizia umas coisas lindas de vez em quando.

Cacoete

No ano passado compramos um livro para as crianças que passou para a lista de nossos favoritos ainda no carro, no caminho de volta pra casa: Cacoete, de Eva Furnari (Editoras Sonho&Fantasia e Ática). O livro é visualmente lindo e a história é divertida, dois elementos que normalmente buscamos nos livros infantis. Cacoete, no entanto, tem mais uma coisinha: charme. Sabe aquele livro que você lê prestando atenção em cada cantinho da página, porque tudo vale a pena uma espiada? Desses.

As ilustrações (que renderam ao livro o prêmio Jabuti e foram feitas pela autora) vão dos traços retos e harmoniosos no início da história ao jogo descontraído de cores das páginas finais - bem ao modo do que acontece com a vida dos habitantes da curiosa cidade de Cacoete. 

As casas certinhas de Cacoete.

Os objetos guardados de acordo com a forma geométrica.

Tudo em Cacoete é muito certinho, todos são muito organizados e a ordem alfabética domina até a disposição das ruas: a Rua dos Alfinetes fica ao lado da Rua das Berinjelas, que fica ao lado da Rua do Calcanhares, etc. O mesmo para os moradores das casas: Holêncio, Irtes e Jurvina são vizinhos, por exemplo. O protagonista é Frido, que mora entre a Euzinete e a Dona Griselda. 


Quando a história começa, ele, como todas as crianças de Cacoete naquela época do ano, está às voltas com a importante missão de comprar a maçã para o Dia dos Professores. Todas as crianças de Cacoete dão maçãs no Dia dos Professores. No entanto, algo sai errado nos planos de Frido e ele vai parar na casa da Bruxa Núrcia, fora da cidade, quando queria mesmo era comprar uma maçã na casa da Dona Lúrcia. Enquanto espera ser atendido, Frido se vale de sua mania de organização e limpeza e muda tudo na casa da bruxa. É o suficiente para enfurecê-la. Um feitiço e, tchuns, foi-se embora a ordem cacoeteca. 


As meninas, que antes só vestiam roupa de bolinhas, agora usam roupas coloridas e variadas; o que era reto ficou torto, o que era óbvio ficou confuso; e os objetos adquiriram outras funções inusitadas, muito bem descritas na prosa aconchegante de Furnari:

"Para piorar a situação, alguns objetos viraram desobjetos. A panela de pressão agora tocava música. A escova de cabelo despenteava. O fogão tinha quatro bocas, um nariz e cinco olhos, falava, cheirava e enxergava muito bem." 

Tudo muda, tudo vira bagunça e novidade:

"Além do cacoetês, agora estudavam língua de gato, língua de sogra e língua de trapo."

As ruas retinhas de Cacoete ganham curvas, cores e telhados de toda forma e tamanho. E os vizinhos podem ter nomes começados por qualquer letra. 


Além da bela diagramação do livro, outro detalhe me chamou a atenção. Parte do texto vem em letra de forma, parte em letra cursiva. Para as crianças na faixa etária do Arthur, entre seis e sete anos, que estão começando a ter um contato mais frequente com a letra cursiva na escola, o livro pode dar uma mãozinha - ou, pelo menos, ajudar a suavizar os primeiros contatos com a novidade. Algumas crianças podem demonstrar certa resistência na aquisição da nova modalidade de escrita e uma ajudinha divertida é sempre bem vinda. O livro começa em letra cursiva, muda para a letra de forma e lá pelas tantas uma mesma página apresenta três tipos de letra: forma, cursiva e letra de bruxa. 


Pra toda criança ficar craque, ainda que a gente não saiba exatamente que papel a letra cursiva terá na vida deles, não é verdade? Mas vai que a letra de bruxa pode ser útil. Nunca se sabe, esse mundo anda meio estranho. 

***

(As páginas do livro têm fundo bege ou mais escuro e fiz as fotos à noite. Perdão.)

Sem letrinhas, com notinhas



Não sei se o blogger decidiu acabar com a cultura de comentários, mas o fato é que as letrinhas de verificação têm impedido muita gente de se manifestar por aí. Vários leitores me disseram no twitter que estavam desistindo de comentar porque é impossível decifrá-las. Eu mesma não consegui publicar meu comentário no blog da Mariana outro dia (quer dizer, achei que não tinha conseguido e segui tentando; viu, Mariana, não foi de propósito aquela bagunça; o blogger publicou todas as tentativas sem me avisar que eu já tinha conseguido comentar) e em outros acho que tenho tido sorte. Tem sido mais fácil fechar os olhos e digitar qualquer coisa no teclado do que entender o que raios está escrito ali. Resolvi excluir a verificação no Estrada, apesar de alguns amigos terem me alertado para o pesadelo do spam. Farei o teste: se o filtro de spams do blog funcionar a contento, as letrinhas ficam de fora de vez. Se a coisa se tornar muito chata, vejo o que fazer depois. 

***

(Olhem pra lá, vou corujar.)

Hoje o Arthur tocou pela primeira vez na aula de prática de conjunto. Tocou pequenos trechos introdutórios em duas canções, com o auxílio carinhoso da professora, não mais que quinze ou vinte notas por canção. Mas tocou. Junto com todo mundo, na hora certa, no ritmo certo. Sentiu-se tão feliz que passou de levemente amedrontado a tagarela em dois segundos e meio. Eu sei que foi grande. Porque foi um desafio e ele tinha um medinho. Foi imenso. Vinte notinhas de nada, em um momento muito, muito grande. No meu coração, uma sinfonia inteira.

(Eu avisei.)

***

Às vezes acho que presto atenção demais. Preciso ser mais distraída. Assim: de repente, foi. Ou assim: não vi, passou. Sem crises. Nem tudo precisa ser notado ou corrigido. Às vezes acho que é na distração que mora a mágica. Quando menos esperamos, ela acontece. É básico, eu sei, mas me esqueço de ser distraída. Não estou falando de perder coisas, esquecer objetos ou a hora do remédio, nisso sou ótima. Estou falando de filosofia de vida.

***

"Não quero ser triste
Como o poeta que envelhece
Lendo Maiakóvski na loja de conveniência
Não quero ser alegre
Como o cão que sai a passear com o seu dono alegre
Sob o sol de domingo
Nem quero ser estanque
Como quem constrói estradas e não anda
Quero no escuro
Como um cego tatear estrelas distraídas"

Ah, Baleiro.





Alguns micos, uma lua e muita festa


Minha carteira de motorista está vencida e precisei ir ao DETRAN para renová-la. Fui. Para minha surpresa, o atendimento foi ágil e de ótima qualidade, as filas sumiam em minutos. Só precisei esperar um pouco para se atendida pelo médico que conduz o exame de vista. Tudo muito diferente das minhas experiências anteriores com o DETRAN, de onde sempre saio reclamando da demora, da burocracia, do péssimo atendimento, do calor, etc. Dessa vez, tudo lindo. Até chegar à sala do médico e descobrir que sem os óculos não consigo enxergar as letrinhas. Saí de lá com a licença pendente até que volte com os óculos e prove que não sou cega. Saí de lá de taxi, tá?

***

O exame de vista frustrado foi só o primeiro mico de uma série no final de semana. Bom é assim, em sequência. Aos poucos a gente se habitua e nem se constrange mais. Aproveitando um intervalo entre as quatro festas que frequentei na sexta e no sábado, experimentei minha primeira aula de balé clássico da vida. Noção é para os fracos, quero é me aventurar. Depois que eu voltar a sentir as pernas, conto tudo pra vocês. 

***

Duas festas infantis e duas festas adultis (pode?) me deixaram com folga para dormir e morgar por muitos finais de semana pela frente (até parece, acabo de receber mais um convite de festa infantil para o próximo domingo - gente, isso não acaba nunca). Minha dieta balanceada em coxinhas e brigadeiros garantiu a energia para comemorar o aniversário de um colega num barzinho-com-cara-de-balada, falar até quase perder a voz e encerrar a maratona de festas na praia, na noite de sábado. Coroando a sequência de micos, dancei pseudo ula-ula num luau inesquecível organizado por amigos festeiros, portando aquelas saias e aqueles colares. E para me recuperar da aula de balé, dancei forró às duas da manhã com o pé enfiado na areia. Já falei que não sinto as pernas hoje, né?  

Na última vez que eu tinha ido a um luau morava há pouco tempo em Florianópolis e detestei. Praia lotada, gente vestida para matar e muitas caras e bocas, a coisa mais parecia uma boate na praia. Dessa vez não. A estrutura impecável que nossos amigos montaram não tirou o charme da festa que, vamos combinar, precisa ser despretensiosa para fazer jus ao nome. Ambiente bem descontraído, música boa e variada no volume certo para dançar e conversar, comidinha nota dez, chopinho  pra quem é de chopinho, garrafas outras para quem é de garrafas outras. Quem quis levou cadeira e foi delicioso jogar papo fora sentada na areia. Só não foi melhor do que dançar um bom forrozinho com meu mineiro pé de serra (Ângela, lembrei tanto de você). 

A noite estava perfeita, sem vento na maior parte do tempo, lua linda e céu sem nuvens, maré baixa e temperatura agradável. Quando bateu o frio, sacamos as blusinhas ou dançamos mais e tudo se resolveu. Nem mosquitos incomodaram muito. Em certo momento olhei para os casais que dançavam iluminados pelas tochas (que se apagavam a toda hora) e pela lua refletida na areia molhada e, de boa, me senti dentro de um filme. Ou na ilha de Lost, o que dá quase no mesmo. Lindo demais, Floripa. Lindo, viu? (Volta, Lúcia.)

Eu adoraria ter as fotos comigo agora para mostrar algumas a vocês, mas o pessoal que registrou tudo ainda deve estar por lá, curtindo o dia de sol. Essa galera sem filhos pequenos não conhece limites, vocês sabem. :-) Já se aproximava das três da manhã e seis ou sete casais ainda dançavam ao som do forró incomparável do paraibano Flávio José, quando a bateria do equipamento de som acabou. Daí ouvi do organizador-mor "calma, tem back up". De fato, o equipamento foi imediatamente substituído por um similar com capacidade para outro tanto de festa. Ou seja, eles realmente devem ter amanhecido na praia.

Quanto a mim, voltei para casa para dormir um pouco antes de encarar o domingo com Arthur e Amanda. Acordei sem as pernas e com aquela alegria tranquila de quem relaxou tudo que devia. Vem, semana. (E fiquei na cama até tarde porque Ulisses se levantou cedo e ficou com as crianças. Forrozeiro festeiro e paizão, tem aqui.)

***


Update fotográfico. Eis o que os últimos casais a deixar a praia ganharam de presente. :-)


(Foto: Sérgio Teidi)

Passeando pela casa (e desculpas esfarrapadas da minha mãe)



Não tem sido tão divertido quanto o primeiro livro que li de Bill Bryson, mas tenho tido meus bons momentos com Em Casa - Uma breve história da vida doméstica. A frase "não sabemos quase nada sobre..." se repete mais do que eu gostaria em um livro que tem a palavra "história" no subtítulo, é verdade. No entanto, nada me resta a não ser aceitar a informação como legítima: não há mesmo registros sobre a rotina dos homens das cavernas, por exemplo. 


A presença de lacunas desse tipo não compromete o valor do livro. Quem conhece a proposta de Bryson sabe que sua pesquisa pode levar a algum lugar alternativo. Mas pode também constatar que os únicos registros são mesmo aqueles contidos nos livros tradicionais de História. Na verdade, incomodam-me mais algumas "explicações" nitidamente pautadas em "dizem por aí". É o caso da passagem em que Bryson se refere a um grande incêndio que teria devastado Chicago em 1871. Nela lemos que "segundo se conta, uma vaca que pertencia à sra. Patrick O'Leary deu um coice em um candeeiro a querosene" e deu-se a catástrofe. Anedótico demais, vamos combinar. Há vários episódios com esse nível de "precisão" ao longo do livro (estou lendo como no tempo das velas e ainda nem cheguei à metade). 

Antes que todos vocês virem de vez a cara para o livro, contudo, já adianto que há um tanto bom de informação interessante nas páginas de Em Casa. Ou, pelo menos, o tipo de discussão que nos ajuda a olhar para certas coisas sob uma nova perspectiva, mesmo quando o assunto está longe de conter revelações inesperadas. Quando, por exemplo, relembro o fato de que somente em 1882 a lâmpada elétrica revolucionou o mundo, dou-me conta de que o século XX, que se iniciou logo depois, viu mais evolução social e tecnológica do que jamais tinha experimentado em toda a história da humanidade até então. E o século XX é um segundinho de tempo nessa história. Ou, como fico repetindo sem cansar em minha cabeça: até o finalzinho do século XIX, o mundo como o conhecemos hoje não podia sequer ser concebido pelo mais genial dos homens. De lá para cá passaram-se pouco mais que 13 décadas. Não sei vocês, mas acho pouquíssimo tempo em um planeta cujos habitantes humanos experimentaram as noites como sinônimos de escuridão quase completa por milhares e milhares de anos. E hoje estamos aqui, na blogosfera. No mundo da banda larga e outros detalhes.

Algumas partes do livro valeram pela informação factual mesmo. Não me lembro de ter lido qualquer coisa na escola sobre Skara Brae, uma aldeia datada da Idade da Pedra Polida, descoberta na Escócia, em 1850. Naquele ano, uma tempestade destruiu e arrastou uma colina na ilha escocesa de Orkney, revelando a aldeia. No interior das casas, havia ainda muitos objetos e rudimentos de móveis, como prateleiras de pedra e gaveteiros! Algumas casas tinham trancas nas portas, além de sistema de drenagem. Sobre seus moradores, naturalmente, "não sabemos absolutamente nada", o que se há de fazer. Imaginação está aí pra isso. 

Outras partes do livro servem à sempre bem vinda mania de derrubar mitos ou, pelo menos, salpicar de comentários maldosos essa ou aquela biografia costumeiramente enaltecida pelos livrões de História. Quem nunca? Thomas Edison não só não teria sido o primeirão a fazer experimentos com a lâmpada elétrica (os iniciados sabem disso, mas a grande massa ignora o fato, ou não?), como também é descrito como alguém "disposto a roubar patentes e subornar jornalistas para conseguir matérias favoráveis". Gente... quem diria, não? Pois então, o britânico Joseph Swan saiu na frente na lida com os primeiros exemplares da lâmpada elétrica, mas teriam lhe faltado empreendedorismo e método para dominar seu invento. Edison, anos depois, além de dominar o aparato necessário para fazer a novidade funcionar a contento (sistemas, centrais de energia, etc.), foi espertíssimo na escolha dos lugares para as primeiras instalações: Manhattan, Bolsa de Valores de Nova Iorque, Ópera de Milão, o Parlamento inglês. Não acho que ele precisou subornar jornalistas nesses casos. 

Lá pelo meio do capítulo sobre o advento da iluminação elétrica, dei uma boa gargalhada. Bryson fala das reações assustadas de muitas pessoas na época (imaginem). É natural que inventos assim, tão revolucionários, despertem receios que nascem junto com a admiração geral. Com a iluminação elétrica não foi diferente e a maravilha foi acusada de causar fadiga ocular, dores de cabeça e até sardas. O que diziam quando alguém morria eletrocutado, então. Minha risada veio, contudo, de uma lembrança bem pessoal. Quando os televisores coloridos invadiram o mercado, minha mãe não tinha recursos para comprar um. No melhor estilo "quem desdenha quer comprar", ela declarava aos quatro ventos que "aquilo faz mal pra vista". Meses (ou anos?) depois, quando ela finalmente conseguiu comprar sua primeira TV em cores, esqueceu completamente as ameaças à saúde e passou a reclamar constantemente do colorido que "fugia" e nos deixava na mão, a ver a novela em preto e branco outra vez (os aparelhos eram péssimos). Tivesse vivido no início do século XX, tenho certeza de que ela teria desdenhado da lâmpada também, talvez até falando das sardas. 

Vou ali ler mais um pouquinho, entre uma correria e outra. 

Infância é pra brincar


Ando me perguntando se não corro o risco de estressar minhas crianças com tanta atividade extracurricular. Atualmente cada um deles frequenta outros cursos além da escola e não sei se, a longo prazo, eles podem apresentar sinais de cansaço. Decidimos, Ulisses e eu, que nosso guia será a motivação pessoal de cada  um, com exceção da natação que ninguém larga até conseguir nadar muito bem, por questões de segurança (e porque as aulas são ótimas e trazem benefícios que vão além da questão da segurança). Mas além da natação há o judô, a música, o xadrez e o ballet; e para essas aulas a motivação sem grandes sacrifícios é o que os manterá matriculados. Não pretendo insistir para que nenhum deles toque, dance ou dê xeque-mate se não quiser. Com exceção da música, que decidi apresentar ao Arthur para que ao menos ele saiba do que se trata (e a escola de música é na esquina da minha casa, mesmo), os outros cursos são oferecidos na própria escola após as aulas (judô e xadrez) ou, no caso do ballet, atende a uma vontade "antiga" da Amanda. 

Por enquanto, é tudo alegria. Ambos estão empolgados e todos esses cursos não deixam de ser, entre outras coisas, oportunidades para que façam o que precisam fazer: brincar. Mas o ano está só começando e brincar na aula, por mais lúdica que ela seja e mesmo que a criança esteja fantasiada de bailarina, não é o mesmo que brincar na sala descalça e descabelada, despreocupada de tudo. Então se à frase "vamos para a aula de ballet?" segue-se um "vamoooooooooooooooo!", tá tudo certo. Mas se "ai, mãe, hoje não" começar a aparecer, vejo matrículas canceladas no horizonte.


(Adoraria ver artes plásticas, música, dança e outras atividades essencialmente criativas inseridas pra valer no currículo regular de nossas crianças, mas disso vocês já sabem.)


Há quem argumente que assim, desistindo diante de sinais de cansaço, não vou ensiná-los a perseverar e vou tirar a chance de que descubram, lá na frente, que, olha, como foi bom e útil. Mas quero que brinquem enquanto podem porque o futuro, neste sentido, não é muito promissor. Eu queria brincar mais também, mas não tenho tempo. Não quero tirar esse tempo deles.

Eu tinha planos de fazer este post mais elaboradinho, mas a semana tá corrida e etc. :-) Quem sabe volto ao assunto depois, com mais calma. Pitacos?

Passos



Na semana passada:


Amanda: - É amanhã?
Eu: - Não, meu amor, é daqui a três dias.
Amanda: - Amanhã?
Eu: - Não, faltam três dias, você ainda vai dormir três noites.


No dia seguinte:


Amanda: - É amanhã?
Etc.


Ontem:


Amanda: - É amanhã?
Eu: - É! Amanhã, que legal, né?
Amanda [sorriso nervosinho e olhão arregalado]: - Êêêê!


Foi hoje, finalmente. Era tanta alegria que ela abraçava a professora. E quando se sentou no chão, em círculo com o resto do grupo, sentou ao lado da professora e deitou a cabeça no joelho dela. E na hora da rodinha fez questão de segurar na mão dela. Acho que a professora era a personificação do que, até hoje, era só uma ideia adiada. Mas hoje finalmente a coisa aconteceu e ela fez a primeira aula de balé. 


Foi uma aula experimental, sem sapatilha, sem uniforme. Foi só um início de algo que talvez nem venha a ter grande significado em sua vida, quem sabe. Mas foi um pequeno marco em sua infância por causa da alegria estampada naquele sorriso impossível. Sem mais espera, ela é uma bailarina. Pulou muito de mãozinhas na cintura, prestou atenção, às vezes não. Alongou e achou graça e de repente achou mais graça na janela da rua e perdeu a vez na fila. Mas depois pulou de novo e correu e sentou, espichou e virou. E adorou.


Não sei dizer como me senti. Aulas de balé eram um dos muitos sonhos de minha infância. Acho mesmo que eu teria me sentido tão feliz quanto Amanda estava hoje, saltitando numa sala ampla e espelhada. Não sei por quanto tempo ela vai manter o interesse pela dança (que por enquanto nem é interesse pela dança propriamente dito, obviamente), mas sei que ela vai se divertir bem pelo tempo que durar. E eu também, meu povo. Ah, eu também.




Esperando...





***

Vovó Berna, cadê você?

A cultura da realidade camuflada ou os choros calados com presentes



Estou gripada, entediada e com vontade de jogar conversa fora = post longo.

***

Num dia qualquer no início dessa semana, levei Amanda para a sala de aula enquanto Ulisses acompanhava o Arthur rumo ao pátio do prédio onde ele tem aula. Na rampa de acesso às salas do Ensino Infantil, passei por um casal que conduzia pela mão um menino de três ou quatro anos que chorava e gritava, insistindo que não queria ir à escola. Eu já tinha cruzado com essa mesma família outro dia e o quadro era o mesmo, então deduzi que eles devem estar passando por um momento de adaptação um pouco conturbado. Como o casal avançava lentamente, por causa da resistência da criança, Amanda e eu os ultrapassamos. A mãe da outra criança apontou para o presente que Amanda levava, por causa do aniversário de um colega naquele dia, e disse:

- Olha, a amiga tá indo bem linda pra aula. Ganhou até presente porque não chora. 

Tivesse eu um pouquinho de aproximação com essa mãe, teria dito um "não" bem apressado. Mas eu nem a conheço, estava quase atrasada e fiz que não ouvi nada. A postura da mãe está bem longe de me surpreender, já que observo por aí que a prática de camuflar a realidade para obter um comportamento julgado adequado por parte da criança é muito comum. Mas fico me perguntando por quê tanta gente cria problemas que não precisa ter. Criar filhos, como diz meu marido, não é criar pinto. As dificuldades e desafios diários já tornam a jornada emocionante demais. Então por que cargas d'água alguns pais ainda mentem ao invés de conversar com seus filhos sobre o fato de que, oi, o mundo não é exatamente um parque? Aquela mãe sabia que estava mentindo e fico me perguntando se no dia em que o filho finalmente parar de chorar na hora da entrada vai ganhar um presente por isso. E o que ela está dizendo a ele com essa atitude. 

Arthur também chorou algumas vezes na hora da entrada, quando tinha menos de dois anos e já frequentava a creche. Cortava meu coração, mas o prêmio pelo fim do choro vinha sempre em forma de elogios e carinho, em tentativas de fazê-lo se sentir seguro e confortável. Nunca em presentes. 

Mesmo ganhando presentes demais (ainda acho meus filhos ganham presentes demais), de alguma maneira eles costumam lidar bem com os "nãos" recebidos, que são muitos em algumas fases, quase desnecessários na maior parte do tempo. Não temos nenhuma dificuldade em negar o presente a um, mesmo que o outro esteja ganhando alguma coisa por alguma razão especial. Já cansei de presentear Amanda enquanto Arthur só olhava e vice-versa. É verdade que também já enfrentei choro em situações assim, mas sempre optei por conversar e explicar as razões do "não" ao invés de ceder com o intuito de parar o choro. Aliás, o choro birrento costuma ser o caminho mais curto para se perder regalias aqui em casa. 

Um conhecido de meu marido outro dia afirmou que não consegue sair do shopping sem ao menos um carrinho para seu filho, sob pena de enfrentar choro e muita insistência. A afirmação de que "meu filho [de três anos] é muito consumista" me parece quase surreal. E por mais que estejamos enterrados até o pescoço em uma sociedade ultraconsumista, ainda acho fora do comum a cultura das crianças que ganham presente no grito. 

É claro que meus filhos pedem. Desejam brinquedos que não têm. Ficam tristes por não ganhá-los. No entanto, vê-los superar a tristeza, conformar-se com o fato de que o amigo pode ter e eles não e, depois de horas ou dias, acostumar-se completamente à ideia me parece saudável, parte do crescimento. Ensaio para a vida lá fora. Tanto mais na condição privilegiadíssima em que vivem, nascidos em uma família que pode provê-los com harmonia, segurança e, de quebra, doses generosas de conforto (e acho fundamental que eles tenham essa noção, de que são privilegiados). Camuflar a realidade e fazê-los crer que podem ter tudo que desejarem não me parece uma conduta muito compatível com o mundo em que, dizem por aí, todo mundo quer viver. É importante ensinar a lidar com a frustração, nunca é demais repetir. 

No ano passado, fomos a uma loja de brinquedos comprar um patinete para Amanda. Arthur já tinha o dele e a ideia era de que os dois aproveitassem a chance de patinetar juntos pelos parques de Paris. Arthur vinha há dias pedindo um ioiô de presente porque o seu tinha se quebrado. Um ano antes, ele tinha ganhado o patinete em um dia em que Amanda ganhou nada (e ela bem que pediu, mas não encontramos nada adequado para o tamanho dela na época). Dentro da loja, Arthur pediu sei lá o quê e chorou muito por não conseguir. Não havia ioiôs na loja e meu argumento foi "o seu presente será o ioiô, mas aqui não tem". Um patinete versus um ioiô inexistente parece uma injustiça tremenda, mas o contexto era mais amplo que isso e ele chorou o que quis até desistir e esperar o dia do ioiô - que não tardou a chegar. 

Hoje, com a queda do segundo dente em uma semana, Arthur ganhou o direito de abrir o cofrinho, contar suas moedinhas e comprar o que quisesse com elas. Eles não recebem mesada, mas ganham moedas aqui e ali e vão guardando no cofrinho, mais pelo prazer de ouvir o barulhinho do que qualquer outra coisa. Amanda ensaiou um bico em casa, "e eu?". Nossa resposta foi simples: "você espera, assim como fez o mano; quando seus dentes caírem, você compra o que quiser". Nas próximas semanas, Arthur irá a três festas de aniversário (socorro) e combinamos que eu compraria os presentes enquanto ele escolheria o que fazer com suas moedas. Entre espirros e fungados, fomos os três ao shopping enquanto Ulisses dormia no sofá resolvia outras coisas. Fomos, compramos, a garota do caixa contou as moedas, saímos da loja com quatro pacotes e Amanda, de quatro anos, não pediu nada. Nada. Brincou com os brinquedos disponibilizados pela loja, esperou com carinha boa, mostrou coisas que achou lindas e voltou para casa para brincar com Floquinho. Perdoem a corujice, mas acho digno de nota. Uma evidência muito boa de que não precisamos criar problemas extras na já difícil arte de criar filhos.

Arthur comprou um robô e já deu quatro pitis cada vez que se deparou com uma peça mais difícil de encaixar. Interrompi este post nas quatro vezes para baixar a bola dele, mas essa já é outra conversa. Falei que criar filho não é criar pinto? Então.

***

Reli agora antes de publicar e achei o post um pouco com tom "eu sei o que fazer". Não é por aí, tá, gente? Cometo vários equívocos, como toda mãe e pai; tenho dúvidas enormes e busco auxílio quando preciso. Mas não aguento essa coisa de comprar fim de choro com presentes. Tá falado.



 
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