A folha, as folhas


Foto dos escombros de uma escola destruída por um incêndio supostamente criminoso, no interior de Santa Catarina. Ficava numa aldeia indígena e tinha duas salas de aula. 

"papai"


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No final da aula de francês de hoje, meu professor me apresentou a este vídeo com altíssimo grau de fofura. Tem criança na sua casa? Chama aí. Não tem? Imaginação solta e coração aberto também servem.* 



*Com chamada especial para Ângela, Max e Julia. 
(Faltou dizer que The Fantastic Flying Books ganhou o Oscar 2012 de melhor curta de animação.)

Dos bons clichês



Apesar de ser ignorante em certos territórios das artes, sou feliz por não achar que preciso entender para apreciar. Não sei a diferença técnica entre uma sonata e uma sinfonia, mas sei ouvir e me arrepiar. É claro que eu adoraria saber mais, inclusive adoraria tocar um instrumento, qualquer um. Não estou desdenhando de quem sabe, mas sou sincera ao dizer que me emociono com certas peças ainda que sequer saiba quem as compôs. Nos tempos das velhas fitas K7 (aff...), eu tinha lá a minha coleção. As campeãs de audiência eram, sem dúvida, as fitas do Caetano (não diga) e a do maior clichê do universo da música erudita, As Quatro Estações de Vivaldi, além de uma coletânea de Beethoven, Tchaikovsky e Mozart (que escolhi ao acaso entre as opções disponíveis na loja onde encomendei a gravação da fita - outros tempos, gente). Só muito tempo depois "descobri" Bach, a tonta, e, quando vieram os CDs, pude me envolver um pouco mais com a música clássica. Mas guardo As Quatro Estações num cantinho especial do peito até hoje. Não sei dizer qual o movimento de que mais gosto, mas há grande chance de ser o segundo movimento do Inverno. A culpa é deles, os violinos. 

Depois de várias aulas individuais de flauta doce, ontem o Arthur foi à sua primeira aula de prática de conjunto. Todo apreensivo, pediu que eu ficasse com ele. Nem precisei pedir à professora, foi só chegar e já ser convidada a participar da cantoria. Tomei um susto quando entrei no salão onde acontece a aula. A escola é pequena e não esperava encontrar lá tanta gente. "Conjunto" de cinco ou seis já é um conjunto, né? Mas havia cerca de 35 pessoas na sala. Vários a postos com o violão no colo, outros tantos com violinos, um garoto com um contrabaixo, três ou quatro meninas sentadas diante dos teclados, etc. Maior galera, alunos, professores, adultos e crianças. No canto esquerdo da sala ficavam os novatos, munidos de clavas para acompanhar a barulheira numa espécie de percussão para iniciantes - e foi para lá que eu e Arthur nos dirigimos. Todos a postos, letras e cifras disponibilizadas, soltamos a voz. E batucamos bem. Achei divertidíssimo. O repertório maluquinho incluía de Vinícius de Moraes a Pitty. Depois de uns quinze minutos o Arthur começou a se sentir mais à vontade e passou a cantar junto. Tomara que a professora me convide toda vez. 

Aí fico ali olhando os violinos. As canções do aulão eram todas populares, então ninguém executou nada demais. Mas como não amar? Um acorde mequetrefe de nada e já fico ali achando que o instrumento não é coisa desse mundo. Se eu não soubesse da minha absoluta inaptidão para a música, cogitaria uma matrícula no curso de violino, afinal a escola fica perto da minha casa e estou com o pé lá dentro por causa do Arthur. Mas todo mundo precisa de um pouco de senso de ridículo. Vou ficar bem quieta no meu canto, entendendo nada e curtindo muito.


A Bruxa do Dente




Certa dor de dente que senti há alguns anos está entre as duas piores dores físicas que já tive o desprazer de experimentar. A outra foi causada pelo empedramento do leite no início da amamentação do Arthur. A dor de dente, no entanto, ganha no quesito compensação zero. Lidar com o leite empedrado não foi tarefa fácil, mas o estímulo para vencê-la era imenso. A dor de dente, no entanto, só me causava vontade de sumir. A data também não foi das melhores (se é que podemos falar em datas boas para dores de dente): o dia em que eu enfrentaria um longa viagem de avião. Senti a primeira pontada mais forte no momento em que tomei o primeiro gole de meu café antes de seguir para o aeroporto, por volta das seis horas da manhã. Lá, no aeroporto, já telefonei para minha mãe, que me receberia em Campina Grande, para que ela agendasse uma visita a qualquer dentista com horário disponível naquele dia. Àquelas alturas a dor já não era em pontadas, mas contínua, pesada, pulsante. 

Embarquei com muita dor, mas não poderia imaginar o inferno que enfrentaria nas horas seguintes. A sensação que tornava minha boca ultrassensível aos poucos foi se irradiando para a região das orelhas e do pescoço. Depois da segunda conexão, minha cabeça inteira era uma enorme melancia latejante sobre um pescoço rígido que experimentava, a todo segundo, as ondas de dor que irradiavam a partir do meu incisivo inferior. Eu não conseguia virar a cabeça, olhar para baixo ou para cima. Movia-me com imensa dificuldade e cheguei ao aeroporto em Campina Grande com a face retorcida, banhada em lágrimas. Foi preciso esperar cerca de quatro horas até poder ser atendida, já à noite, por uma dentista santa e abnegada que aceitou fazer um canal depois de um longo dia de trabalho. O momento em que ela aplicou a anestesia entrou para a história de minha vida ali, no rol dos grandes alívios.


A causa da dor foi meu velho companheiro de infância, o bruxismo. De tanto voar em uma vassoura, opa, não, isso é outra coisa; de tanto ranger os dentes, aos poucos vou desgastando o esmalte até expor a polpa. Descascar o esmalte, danificar a dentina, é um processo indolor, quase invisível. Os dentes têm a forma alterada, mas a gente vai se acostumando e praticamente não se dá conta das pequenas mudanças anatômicas do sorriso. Até que o desgaste é tanto que expõe a polpa do dente. A dor é excruciante. O tratamento é um canal e a promessa de dormir para sempre com a placa protetora. Um charme.


A placa protetora poderia ser receitada como método anticoncepcional. De vez em quando brinco de seduzir o Ulisses com minha voz de pato que cospe. Mas é bem de vez em quando mesmo porque a verdade sem vergonha é que negligencio meus dentinhos e durmo sem a bendita. Esqueço de botar, ou me lembro, mas fico com preguiça. Essas coisas de pessoas disciplinadas. O resultado é que, vira e mexe, lá estou eu na cadeira do dentista retocando as aplicações de resina que vivo fazendo para recompor o esmalte e evitar um desgaste maior nos dentes. A última vez foi em dezembro. De lá pra cá, dormi com a placa uns cinco dias. A próxima vez será ainda esta semana, porque a resina já se quebrou outra vez. 


O bruxismo costuma ter relação direta com níveis elevados de stress. Sou uma pessoa ansiosa desde sempre e sei que tudo deve mesmo passar por aí. Não raro me pego com o maxilar travado, em momentos de maior tensão durante o dia. Chego a sentir a região cansada, como se tivesse mascado chicletes por um longo tempo. Dormindo, o bruxismo se manifesta pra valer e mexo o caldeirão, digo, pressiono as arcadas uma contra a outra e vou lixando os dentes, coitados. 


Hoje estou com medo porque senti um leve desconforto ao comer um sanduichinho de nada. Mal vejo a hora de ter a resina novamente aplicada. Vou de novo prometer ao meu dentista que vou dormir com a placa. Dessa vez vou cumprir. Palavra de bruxa. 


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Enquanto mastigo suavemente com medo de abrir o dente, os dentes do Arthur despencam como goiaba madura. Tá, tô exagerando, foi um só. O da frente, da grande porteira; mas o vizinho tá balançando e não tarda a despencar também. Dizem que a Fada do Dente vai passar hoje à noite. Ainda não tenho certeza, mas acho que ele só finge que espera a Fada. Já sabe que quem passa mesmo é a Bruxa. 


Telas



Eu quis mansidão, silêncio, tela e pincel. O resultado foi uma aquarela com muito rosa onde eu pude deitar meus planos. O tempo é lento, exercito a espera. Contra o rosa, na luz certa, os sonhos ganham contornos bons. Separei uma parede para minha tela. Na pior das hipóteses, vai ser um quadro bom de se ver.*

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Quando minha mãe discordava de um plano meu, ela argumentava. Depois insistia. Às vezes se emburrava. E então percebia que minha trilha era isso, minha. Aí colaborava, torcia. E vibrava como ninguém. Ela olharia a tela e não se conformaria que fosse só isso, uma tela, quando poderia ter sido mais. E aí caberia a mim consolá-la. 

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Ela tinha sua própria galeria de planos adiados. Quem não? Alguns ela escondia, mas eu aprendi a espiar. Eram lindos, mesmo. Vi muitos, tantas vezes, no fundo dos olhos dela. Às vezes, ela estava simplesmente tomando café, mas eu via, naquele segundo distraído em que o olhar se perdia no armário do outro lado da cozinha. Ela não costumava descrevê-los, mas eu via quase todas as cores. 

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Hoje observei minha filha brincar com uma boneca-sereia. Ela conversava muito e fazia vozes engraçadas. Parecia uma fada. Fiquei pensando: não tem tanta importância assim se tudo não passar de uma galeria de aquarelas desbotadas. Os dias às vezes têm cores inebriantes bem ali no sofá. E quando ela crescer, poderá espiar minhas telas no meu olhar distraído. Quem sabe. 

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*P.s. A minha querida amiga Luciana achou que eu tivesse pintado a gravura que abre o post. Então, caso alguém mais pense, esclareço: não pintei. A gravura não é minha, é de um site que disponibiliza imagens livres de direitos autorais. No texto usei uma metáfora, apenas. Mas diante da interpretação da Lu, que muito me honrou, hahahaha, achei por bem esclarecer. A imagem, infelizmente, não é minha. :-)

Flee



Criei uma crosta em torno do meu coração, uma espécie de casca programada para me proteger de determinadas sensações negativas. Chamo aqui "sensações negativas" tudo que me angustia sem que haja qualquer relação direta comigo. Notícias de tragédia, desmandos do governante em quem você confiava (tudo bem, isso tem a ver comigo), qualquer notícia envolvendo sofrimento de crianças, comentários racistas ou homofóbicos em redes sociais, etc. Qualquer evento relativamente distante de mim, mas que, historicamente, sempre me atinge com um potencial destrutivo muito grande. Já tratei do assunto em sessões de terapia porque o sofrimento nascido da empatia é algo que realmente preciso aprender a controlar. É normal e saudável se solidarizar. É maravilhoso transformar empatia e indignação em atitudes construtivas. Mas não podemos sofrer as dores do mundo. Não me considero uma pessoa com tendências depressivas, mas já perdi muitas noites de sono por causa de tragédias mundo afora. Não quero parar de sentir, tornar-me indiferente ao mundo, não é por aí. Mas busco um equilíbrio possível que me mantenha atenta à dor alheia sem me destruir por dentro. 

Não faço ideia se minhas táticas são furadas covardes ou estratégias ponderadas de amadurecimento emocional, faço o que posso. Uma das coisas que posso é parar de ler sobre tragédias. Posso me manter informada e sofrer pelo outro, meu igual, sem precisar me inteirar de cada detalhe do acidente, da tragédia, da catástrofe. Posso, por exemplo,  saber que o trem de Buenos Aires se desgovernou e atropelou muita gente, sem procurar ler sobre cada caso de cada pessoa que perdeu o pai, o marido, o amigo no acidente. Sou capaz de lamentar e me solidarizar com os envolvidos, de me indignar diante dos sinais de sucateamento dos trens, sem detalhes. Preciso me poupar dos detalhes. Acho que é tudo temporário, um exercício de fortalecimento, mas preciso disso agora. Então eu soube do atropelamento na praia, mas não quero ver a foto da criança. Não dou conta. 

Eu me preocupo com isso, de verdade. Tenho vergonha de assumir que estou fugindo dos detalhes, porque parece que, de uma maneira ou de outra, estou dando as costas para quem precisa de suporte. Mas não funciona assim. Realmente temo por minha saúde. Meu peito dói e me assusta um pouco. Também me envergonho por ter consciência da posição privilegiada em que me encontro, enquanto tantos enfrentam limitações inconcebíveis. O que me custa chorar as dores alheias, afinal, elas nem são minhas? Mas preciso, pelo menos, recarregar as baterias.

(Mas estou aqui, inteira e sem crosta para os amigos. Viu, você?)   

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Deve haver algo muito equivocado no funcionamento do mundo quando a gente se envergonha tanto ao dizer que quer chorar menos. 

De dentes e pescoços e o primeiro grande susto


Para todos vocês que vibraram com a chegada do Floquinho, venho trazer as novidades do dia. Não pensem que esse será o único assunto deste blog a partir de agora, mas não há como não dividir com vocês o susto de hoje. Para que ninguém fique com o coração na boca, já adianto que todos estão bem. 

Relato resumido: Roque mordeu o Floquinho. Fez um furo no pescoço dele e alguns outros pequenos ferimentos. Floquinho já está medicado, ganhou um pontinho e passa bem. Deve levar uns dias até se recuperar totalmente, o pescoço pode inchar, deve sentir alguma dor nas próximas horas ou dias. Não corre riscos, não quebrou nada, está esperto e esperamos que a normalidade volte em breve. Já acordou do calmante que tomou para a sutura e está serelepe e saltitante. Respirem.

Relato dolorido: As crianças não tiveram aula hoje e vovó passou a tarde com elas. O Roque morre de medo de trovões. Sempre que o mundo escurece tememos pela porta de vidro da sala que ele só não derruba porque... não sei como. Hoje, como de costume, minha sogra foi lá prender o Roque para afastá-lo da porta pelo tempo que durasse a trovoada (o que costuma acalmá-lo consideravelmente e costuma salvar a porta também). Mas ela se esqueceu do Floquinho que estava na sala com as crianças. Hoje pela manhã, o Ulisses tinha colocado a focinheira no Roque e deixado que o Floquinho circulasse pelo quintal da casa, território do Roque. Mais tarde, ao ver a porta da sala aberta novamente, o pequeno foi lá ver qual era. Roque avançou e mordeu seu pescoço. Vovó Tereza fechou a porta da sala para manter as crianças afastadas e, pasmem, meteu a mão na boca do Roque para salvar o Floquinho. Salvou. Enquanto isso, Arthur ligou para o Ulisses, apavorado, morrendo de chorar. Faltava meia hora para o final do expediente, Ulisses me ligou e voltamos imediatamente para casa. No caminho liguei para o Arthur que, ainda chorando, disse que achava que o Floquinho não estava nada bem. Quando chegamos, encontramos o pobre coitado (que adotamos para cuidar e proteger, lembram?) escondido sob o móvel da cozinha. Minha sogra tentava estancar o sangue que saía de seu dedo mordido pelo Roque. Ulisses assumiu o cachorro, eu assumi o dedo da sogra. Ligamos para a veterinária (cuja visita estava agendada para as sete da noite, por conta das vacinas) e ela voou para nossa casa. Amor eterno pelos veterinários. Floquinho foi medicado, limpo, examinado, suturado (um pontinho só no furo mais fundo) e dormiu. Ulisses levou sua mãe para uma clínica para descartar qualquer complicação nos ferimentos (vários cortes pequenos e um corte maior no braço, algo em torno de quatro centímetros, superficial). Arthur ganhou muito colo porque ficou muito assustado. Amanda disse que ficou olhando e prestando atenção em "quem ia vencer a luta". 


Vovó venceu a luta. Do vacilo de abrir a porta sem verificar a localização dos cachorros ninguém está livre. Mas enfrentar o Roque para salvar o Floquinho foi um ato de muita coragem. Fosse eu no lugar dela, Floquinho teria se machucado bem mais. Ela ficou muito nervosa, temeu pelas crianças, pelo Floquinho. Eu temi por ela, poderia ter se ferido gravemente. Roque é um cachorro de cinco anos sem qualquer histórico de rosnadas para quem quer que seja. Mas com outros cachorros o negócio parece ser bem outro. Ele não a atacou, mas basta encostar em seus dentes para se cortar e foi o que aconteceu. Na muvuca para abocanhar o pobre Floquinho, Roque acabou mordendo o que estava em sua frene é uma sorte imensa que não tenha causado nenhuma ferida grave nela. Desconfio que houve respeito da parte dele em relação a ela porque não lhe falta força para disputar uma presa com ninguém (os dois "conversam" diariamente, ela o alimenta, etc.). Nunca vou saber de onde ela tirou tanta força. SuperSogra mora aqui. O médico disse que não houve nada muito sério, nenhum corte foi profundo. Foram tomadas algumas medidas antisépticas preventivas e tudo deve ficar bem. As vacinas estão em dia, não há motivos para maiores apreensões. 


Agora estamos todos calmos, Floquinho já tomou água, passeou pela casa nos seguindo, ensaiou corridinhas. Amanhã deve sentir muita dor depois que o efeito das primeiras doses de analgésicos passar, mas seguirá medicado por dez dias e a veterinária deve vê-lo novamente no final de semana. Arthur ainda choraminga ao falar no episódio, Amanda lamenta não poder brincar com ele. 


Tomamos um susto colossal hoje e agora duvido seriamente se veremos uma convivência pacífica de Roque e Floquinho no mesmo ambiente da casa. Até porque acho que o Floquinho não vai mais se interessar pelo assunto. (Será que ele não está se perguntando se estaria mais seguro no meio do mato? Espero que não.)


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Agora, todos juntos: tadiiiiiiiiiiiinho. :-(







Updates da terça-feira gorda


Nossa família aumentada passou bem pelas primeiras vinte e quatro horas da novidade. Agora faço bolo com uma bola peluda no meu pé. As crianças jantam com uma bola peluda no pé. Assistem TV com uma bola peluda deitada ao lado. E tomam banho de sol com uma bola peluda zanzando por ali. Ainda temos ressalvas, claro. Não conhecemos o temperamento do cão, não sabemos que vacinas tomou, que notícias ainda pode nos dar. Mas tudo parece ir muito bem, é inteligente e relativamente obediente e, até agora, absolutamente silencioso. Dormiu a noite inteira sem barulhos, cochila boa parte da tarde e, por ser adulto já, não mordisca nada, não come chinelos ou sofás. A ideia é mesmo que seja um cãozinho de dentro de casa, na medida que minhas convicções de que gente é gente e cachorro é cachorro permitirem. Então ele anda por dentro de casa, mas não sobe para os quartos nem se esparrama no sofá; come e faz números 1 e 2 do lado de fora da casa; etc. Amanhã tentaremos uma consulta com a veterinária para as vacinas, exame de ouvido e agendamento da castração. Se é verdade que o cão escolhe um dos moradores da casa para ser seu humano, grandes chances de eu ter sido a escolhida. Floquinho é minha sombra e logo tropeçarei. 

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Hoje concluí a leitura de Mansfield Park, da Jane Austen. Engraçado como ela manteve o romance central da história praticamente impossível até as vinte páginas finais. Só então um escândalo familiar (ah, os ingleses e seus escândalos) abriu caminho para o coração aflito da protagonista. Eu gostaria de ter lido mais detalhes sobre a reviravolta do ponto de vista de certos personagens, mas tive de me contentar com poucas frases sobre o que mais me intrigava durante todo o livro. Em compensação, sobra lindeza em cada parágrafo. Mesmo quem não curte a trama intrinsecamente relacionada com costumes da sociedade inglesa de séculos atrás, há que se encantar com a escrita preciosa da autora. Chego a sorrir porque sei que ainda não li Emma. Ou seja, daqui a pouco tem mais. 

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Agora suspeito que vou me deliciar com Bill Bryson. Se eu me divertir com Em Casa - Uma Breve História da Vida Doméstica (Ed. Cia. das Letras, tradução de Isa Mara Lando) metade do que me diverti com Breve História de Quase Tudo já me darei por satisfeita. 

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Da minha cozinha hoje saiu este bolo do blog da Patrica Scarpin. Recomendo fortemente. Absolutamente delicioso, para aqueles que curtem um bom bolo úmido. Fez sucesso retumbante com a criançada. Um dos pontos fortes da receita está nos aromas. Muita baunilha e o toque da laranja, hummmmm....  Arthur me ajudou a fazer e lambeu dedos, mãos, braços e, pasmem, cotovelos. (Não usei as pecãs e nem fiz a cobertura, mesmo assim ficou maravilhoso.)

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Saldo: cantarolei um samba enredo antigo, vi uma escola de samba na TV e joguei confete nas cabeças das crianças. Para quem passou três carnavais atrás dos trios de Salvador e um inesquecível pelas ladeiras de Olinda, parece pouco. Para quem adiou a folia por alguns anos, foi praticamente um desbunde. 


O dia em que Floquinho chegou


Nosso carnaval tem sido em casa, em família, mas nem por isso monótono ou livre de emoções. Para quem fugiu de filas e muvucas, até que temos tido uma boa dose de folia e barulho. Depois de um sábado de preguiça e um domingo de muito sol, nossa segunda-feira trouxe novidades. Hoje resolvemos fazer um bailinho de carnaval para as crianças em nossa garagem, coisa pouca de última hora que elas se encarregaram de transformar em festa. Uns pacotes de confete, um tanto bom de serpentina, fantasia, música e espuma, pronto. 

Pouco antes do "baile"começar, nosso vizinho disse ao Ulisses que havia um cachorro abandonado numa esquina de nosso bairro. Ele então me perguntou:

- Quer ir lá ver? 
- Hum... não.

Respondi que não com o coração meio truncado, sem querer muito pensar no assunto. Amanda vive nos pedindo um bichinho e acho bonitinho a forma como nos pede. É sempre "vamos adotar"? Nunca "vamos comprar"? Talvez ela ache que bichos não se compram, sei lá. Só sei que acho fofo. Nós já tínhamos cogitado um outro cachorrinho menor que o nosso Roque, um que vivesse mais próximo das crianças, dentro de casa; um bichinho com quem eles pudessem interagir mais, enquanto não são grandes o suficiente para brincar a valer com o Roque - que, mesmo sendo manso, tem boca grande e me deixa apreensiva. Fiquei por ali, pela cozinha, arrumando uma coisa e outra, pensando nas razões que levam alguém a largar um bichinho no meio da rua, à própria sorte, e nas razões que me levavam a dizer "não" quando a oportunidade de adoção surgira praticamente na esquina da minha casa. Meia hora depois, berrei para o Ulisses, que já estava "instalando" o som da "festa":

- Você vai querer ver o cachorro?
- Não.

Achei estranho, mas, né. Eu também tinha dito que não.

O "baile"de três foliões começou. Enquanto eu me juntava à pantera, ao rei e à fada, Ulisses subiu a rua com o vizinho. Menos de quinze minutos depois os dois voltaram, seguidos por um cãozinho cansado que nos pareceu ser um bichon frisé coberto de terra e carrapichos, magricela e extremamente dócil. Apaixonei-me instantaneamente, ele na calçada, eu na garagem. Amanda pediu para adotá-lo. Consultei o Arthur, que sei ter mais reservas com bichos. Ele disfarçou, relutou, examinou o cachorro e minutos depois tinha em mãos uma lista de possíveis nomes. Demos água e comida, Ulisses escovou o pelo para retirar parte dos carrapatos. Acho que ficamos com ele. Terminamos o baile, corri ao pet shop mais próximo onde agendei um banho e comprei potinhos, coleira, cama, bolinha de borracha. Momentos antes da saída para o banho, uma porta aberta por descuido levou o recém-batizado Floquinho à área do Roque e, consequentemente, sua primeira queda na piscina. Roque disparou rumo ao rabo do novato que, tchibum, refugiou-se onde deu. Uma vida cheia de emoções começou hoje, parece. Para todos os envolvidos. 






No pet shop descobrimos que nosso bichon frisé é, na verdade, um lhasa apso. Autorizamos a tosa sugerida e respirei aliviada ao ver que ninguém na loja reconheceu o cachorro. Essa sou eu, apegada, já. Temos um forte motivo para acreditar que ele foi abandonado, que não fugiu (mesmo assim temi que o reconhecessem como um fujão): o lugar onde foi encontrado, tradicionalmente escolhido por aqueles que decidem largar seus bichos por essas bandas. Infelizmente, a palavra "tradicionalmente" cabe aqui. Floquinho passa longe de ser exceção. 


Agora ele é assim e já correu muito com as crianças, brincando de pegar bolinha. 






A coisa mais engraçada da vida é ver Amanda, com um largo sorriso, dizer "que tristeza que ele foi abandonado, né?". Na versão dela, inclusive, ele foi "jogado pela janela". Ninguém falou isso pra ela, gente, juro. Pronto, é esse nosso carnaval. Minha mãe me mandaria para um manicômio, pelo tanto que reclamo da falta de tempo. Vou lá e adoto mais um cachorro, de pelo longo. Eu responderia, ah, mãe, quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração? Hein? 


Bem vindo, Floquinho. 




Blogagem coletiva em repúdio ao caso de estupros e assassinatos em Queimadas/PB



Comecei a escrever sobre o caso do estupro coletivo e do duplo assassinato em Queimadas/PB três vezes. Em todas desisti por não saber exatamente o que dizer. Não sei me expressar muito bem sobre esse caso. O misto de indignação, nojo, medo, revolta e embasbacamento é algo que não sei nomear. Causa-me muito espanto a quantidade de gente envolvida na história, a premeditação detalhada. Causa-me profunda revolta pensar que várias mulheres foram ofertadas como carne numa banca para satisfazer os desvarios de um bando. A absoluta falta de noção do que vale a vida de alguém. A certeza que os estupradores e assassinos têm de que mulheres são seres de segunda categoria. 



E de novo me calo.

(Não sei continuar esse texto. Ainda inconformada com os crimes hediondos em Queimadas, li, perplexa, a notícia da garota de 12 anos violentada dentro de um ônibus no Rio de Janeiro. Uma menina em seu uniforme escolar.) 

No site das blogueiras feministas (ah, essas mulheres que insistem em dizer que ainda há necessidade de se difundir um discurso feminista, em que mundo vivem, não é mesmo? #ironia) você pode encontrar a lista dos posts que compõem a blogagem coletiva sobre o caso de Queimadas. Destaco o ótimo texto da Luciana, lembrando-nos de que ter uma história de horror para contar não precisa ser pré-requisito para a condição feminina; e também o lúcido  post da Renata Correa, focando na perversa relação entre a lógica da propriedade e a violência contra mulheres.

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O Carnaval chegou. E me pego desejando quietinha que mulheres Brasil afora possam brincar, dançar, beber e se exibir o quanto quiserem. Em segurança.




Do fim do mundo pra cá


A Deborah já chegou e escreveu um post lindo. E amanhã eu e Ulisses teremos a alegria de abraçar a Iara e o Daniel. Estrada é mesmo coisa boa. ;-)


A grama do vizinho




Florianópolis é cheia de flamboyants. Adoro essas árvores, mesmo quando não estão floridas - com flores são irresistíveis. Gosto da maneira como a copa se espalha. Não é muito equivocado dizer que um flamboyant não é uma árvore que cresce para cima. Cresce, claro, até certa medida, mas depois se esparrama e é nisso que está muito de sua graça. Se fosse um chapéu não seria cartola, mas sombreiro. Uma copa de flamboyant não é exatamente frondosa (apesar de haver alguns exemplares bem volumosos), mas extensa. Perto de minha casa, há um que atravessa a rua: suas raízes estão em uma calçada e as folhas mais novinhas do galho mais recente pendem sobre a calçada oposta, rumo ao chão. São lindos e, para minha sorte, abundantes por aqui. Estão em todos os lugares, na esquina do colégio das crianças, no próprio pátio do colégio, nas praças todas, nos jardins de felizardos. Eu queria um para mim, na minha calçada. Na minha calçada, no entanto, há um ipê, segundo me disseram. Nunca deu flores. Está agora bem maior do que era quando nos mudamos para cá, há cinco anos, mas ainda nada de flores. Gosto de ipês também, trazem lembranças da estrada que me levava à escola, às margens da mata pintada de ipês amarelos. Naquele tempo, eu via os ipês pela janela do ônibus enquanto suspirava e torcia pelo futuro que tenho hoje. Então gosto de ipês. Mas amor, amor mesmo, sinto pelos flamboyants. Ainda assim, espero pelas flores do meu ipê para suspirar de alegria e quem sabe me apaixonar, mas nem sei se virão um dia. Enquanto isso, suspiro nas esquinas e praças de Floripa pelos flamboyants alheios. Sei, sei, sei que são de todos. Mas, ah, ando egoísta, quero tudo pra mim. Quero um flamboyant, o meu. Ao contrário dos baobás que ameaçavam o amor do Pequeno Príncipe, um flamboyant só me traria alegria. Sua copa larga bem que poderia cobrir minha casa inteira, pintar de vermelho meu telhado e atrair todas as borboletas. À sua sombra, eu faria quadros inspirados nos jogos da luz do sol em seus galhos. E sendo a natureza humana essa coisa louca que conhecemos, não duvido que nesses quadros eu pintasse os ipês de minha infância. 

Circulando



A tradutora Adriana Zardini republicou no blog Jane Austen Brasil meu post sobre Mansfield Park. Achei fofo. :-)


Bluish



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Há dias em que o termo blues faz muito sentido.


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Meu final de semana começou com um sonho bom. Sonhei com minha mãe saudável e forte, deitada comigo na cama, com a cabeça no meu ombro enquanto eu a acariciava. Trarei a imagem comigo por muito tempo. À certa altura do sonho, ela se dava conta de que não estava mais tão doente e isso gerava uma alegria tranquila em nós duas. Ela me encarava bem de perto, seus olhos grandes, bem maiores do que eram em vida, mas igualmente azuis. Ninguém dizia nada, não era preciso.

Na noite de sexta tínhamos ido a uma festa infantil (a primeira de muitas na temporada 2012). Essa teve um gostinho especial: foi a primeira, desde que festas infantis passaram a responder por 90% da minha vida social, em que eu e Ulisses ficamos juntos praticamente o tempo inteiro. Não precisamos mais correr atrás da Amanda - cada dia mais cacheada, cada dia mais espevitada, ela já frequenta os brinquedos mais radicais e busca comida quando sente fome. Ficamos ali, namorandinho. Até que chegaram outros pais com recém-nascidos na mesa e comecei a conversar sobre parto de novo. Tudo bem, falamos de outras coisas, como aulas de natação e horários da escola. Somos pessoas interessantes e de papo bom, diversificado.

No sábado fui ao mercado com a Amanda, aquela que já é independente nas festas infantis, e fizemos as compras da semana. Mercado com criança é aquela coisa, um olho na gôndola, outro na cria. Tudo certo até a hora em que precisei dos dois olhos para digitar a senha do cartão. Pronto, sumiu. Meus gritos de "Amanda!!" foram ouvidos na outra filial do mercado, depois da ponte. Três segundos depois (duram meio dia, acreditem), um moço apontou "é aquela?". Era, tava lá na maquininha dos cartões de fidelidade da loja, digitando senhas também. Com aquela  certeza gigante de que somos felizes, fomos tomar sorvete. Enquanto ela lambia, pingava, sugava, mordia, eu beijava e achava cada centímetro dela lindo demais. Num tô falando que compras pela internet são o maior barato?

Depois de levar a filhota pra casa, fui a uma loja de roupas. Enquanto fazia o pagamento, comentei assim, sem muito interesse, que queria o cupom fiscal. Silêncio constrangedor. A moça da loja ficou espantadíssima! Tipo: oi?! Pânico. Momento tenso. Ela. Não. Sabia. O. Que. Fazer. Gaguejou um "s-s-sim" e começou: arranca etiqueta, cola etiqueta, anota, faz conta na calculadora, anota, borra, anota de novo, faz conta, cola, rasga, zzzzzzzzzzzzronc! Assisti metade de um show de MPB na TV da loja, olhei TODAS as peças das araras, li todos os panfletos de carnaval do balcão. E ela lá, morrendo. As outras duas vendedoras da loja tinha cara de paisagens longínquas. Depois que ela "terminou", disse: já vou emitir, tá? E eu: :-) Ela então ligou o computador. Vejam bem, o computador que emite os cupons fiscais da loja estava desligado, no início da noite, num sábado de alta temporada nesta cidade lotada de turistas ávidos por compras. Ou seja, devo ter sido a primeira cliente a pedir a nota fiscal (minhas próximas gerações estão para sempre xingadas pelo staff da loja), ou não? O processo durou quarenta minutos. Saí com sorriso de "muito obrigada". Enquete: ninguém pede cupom fiscal??

O domingo veio e com ele amiguinho do Arthur, lasanha e brownies. Muita preguiça e zero compromisso. O sol estava solitário num céu sem nuvens tão azul que tudo no quintal parecia  meio mágico. No final do dia, quando as crianças já tinha abandonado a piscina e brincavam na sala, eu ainda estava sentada lá fora. O azul continuava lá, mas eu nem me encantava mais com o céu ou com as sombras das palmeiras na água de fundo também azul. Amanda veio e começou a brincar de derramar pequenas porções d'água nos meus pés. Brincou assim por um tempo, sem dizer palavra. Ou se disse, acho que não ouvi. Aquela cor onipresente me levava de volta ao sonho e àquele par de olhos tão azuis que até o dia de hoje sentiria inveja. E foi tanta saudade, mãe. Tanta. 


Em Mansfield Park, sem pressa



Venho lendo Mansfield Park lentamente, como é de meu feitio. Ainda que tivesse intenção de devorar o livro rapidamente, não teria tempo para fazê-lo, não agora que fevereiro já avançou e a rotina engrenou de vez. Não reclamo nada, nada. Doses diárias de J. Austen não me fazem nenhum mal e mesmo as menores delas me trazem a sensação já familiar de encantamento. Quando o tempo me permite, mudo-me para Mansfield Park onde já transito com desenvoltura pela casa, entendo aquele olhar de Edmund e morro de rir com os tropeços da vaidade em pessoa, Mrs. Norris. Também desprezo Henry e temo pelo caos que Mary Crawford pode trazer à vida de minha queridíssima heroína Fanny. Já sou de dentro, sou da casa. Há dias em que avanço não mais que duas páginas e ainda assim sei que encontrei nelas mais beleza do que em alguns livros inteiros que li vida afora. Ainda que sejam páginas descritivas, de narrativa mais lenta, nada em Austen me é enfadonho. Sua escrita é uma pintura expressionista: enche meus olhos.

Hoje Fanny guardou um pequeno bilhete interrompido, duas linhas, não mais, como se fosse uma joia. A primeira "carta" que ela recebeu na vida, entregue em mãos pelo autor. Enquanto espio a cena, como se estivesse escondida num cantinho do quarto onde ela se passa, vejo seu rosto apreensivo e confuso. É maravilhoso ler seus pensamentos, saber da inteireza de sua angústia. Se eu pudesse, sei que não resistiria e cochicharia do alto da página, bem baixinho: "ah, Fanny, espere, não tema, você está em boas mãos" e estragaria todo o suspense. Ainda bem que não posso. E toco o passeio pelas palavras-tintas de Austen. 

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"To her, the hand-writing, independent of anything it may convey, is a blessedness. Never were such characters cut by any other human being, as Edmund's commonest hand-writing gave! This specimen, written in haste as it was, had not a fault; and there was a felicity in the flow of the first four words, in the arrangement of 'My very dear Fanny,'which she could have looked at for ever." (ownnnnnnnnn.... sweet!)

Onde mais se lê coisa tão linda sobre a caligrafia da criatura? :-)

A escola na terra da aurora boreal


Alerta: este blog chove no molhado.

Analisando os resultados de testes que avaliam o desempenho de alunos de vários países do mundo, um país europeu tem recebido destaque nos últimos anos: a Finlândia. Após ocupar sucessivamente o primeiro lugar no ranking de desempenho de alunos com cerca de 15 anos de idade em testes de leitura, matemática e ciências, o país das luzes lindas no céu virou alvo de outros países interessados em entender as razões do sucesso (e certamente copiar sua "fórmula").

Entender o processo que levou a Finlândia ao patamar onde se encontra quando o tema é educação não é difícil. Difícil é copiar o modelo. Para início de conversa, não há escolas privadas na Finlândia. O artigo que li sobre o assunto diz que há algumas poucas escolas "independentes", mas estas também são financiadas pelo governo e são proibidas de cobrar pelos serviços prestados. Os professores são profissionais muito bem valorizados, bem remunerados e muito bem treinados. Ser professor na Finlândia, penso eu, parece ser uma profissão de prestígio: os programas de formação profissional estão entre os mais seletivos do país. Não é simples ser professor por lá e são eles os responsáveis pela elaboração das avaliações semestrais, inclusive no que diz respeito ao sistema de pontuação dos questionários fornecidos aos alunos. Periodicamente, o governo avalia grupos de estudantes país afora como uma espécie de termômetro do desempenho. Mas isso são tecnicalidades. O que importa mesmo é: qual o alvo do projeto educacional finlandês?

De acordo com P. Sahlberg, membro do Ministério da Educação da Finlândia, nada deixa um finlandês mais desconfortável do que a ideia de competir. Não há ranking de escolas na Finlândia; não importa para o país saber qual a melhor escola porque eles estão interessados em deixá-las, todas, praticamente iguais. Ao invés de vender educação em um mercado onde o melhor custa mais caro, o foco dos finlandeses está na cooperação. As escolas são incentivadas a aprender umas com as outras. Os pais podem escolher a escola dos filhos na Finlândia, mas não faz muita diferença no fim das contas. Talvez a que tenha mais árvores? No entanto, nem sempre foi assim: o sistema educacional finlandês sofreu suas crises. Décadas atrás, segundo o artigo linkado no parágrafo anterior, o país se engajou em uma reforma necessária e que parecia um grande desafio. Não mirou na excelência, mas na igualdade. Desde o início do grande projeto, lá nos anos 80, a ideia era que educação fosse vista não como um caminho para formar profissionais de destaque, mas para encolher a desigualdade social. A ideia de que não adianta de nada ter as melhores escolas do mundo dentro de suas fronteiras quando dentro dessas mesmas fronteiras há crianças que não podem usufruir delas.

Quase desnecessário dizer que, dentro de um projeto com esse foco, os elementos-base estão todos lá: refeições, assistência médica e psicológica, monitoramento individual. As crianças são acolhidas em um ambiente seguro onde os jogos criativos têm absoluta prioridade em relação às tarefas enfadonhas e repetitivas. Não deixa de ser irônico ou até engraçado que um dos efeitos colaterais desse projeto venha sendo o notável desempenho dos adolescentes finlandeses nos testes de avaliação que mencionei no início do texto. Outro efeito, quase imediato, vem na forma de visitas de representantes de vários países para dar uma olhadinha mais de perto no que esse pessoal anda fazendo nas escolas. 

Cada país, cada país. As histórias e estruturas são tão várias quanto há países, mas Sahlberg não se rende facilmente a esse pretexto e usa a Noruega como exemplo de país com resultados "medíocres" em avaliações internacionais (com um sistema educacional voltado para a competitividade), mas com características estruturais muito similares às da Finlândia. A grande diferença entre eles estaria no projeto educacional. 

Sahlberg compara o desafio encarado pela Finlândia nos anos 80 com projetos e ambições de celebridades históricas: Kennedy sonhando com o homem na Lua, L.King com o fim da segregação racial, a Finlândia com educação pública de qualidade para todas as crianças de seu país. Muitos disseram que seria impossível, mas eles pagaram pra ver. 

Seria falácia, no entanto, dizer que não há competição no ar. A diferença, no entanto, é que os finlandeses não competem entre si em um sistema que deixa crianças preteridas pelo fato de a educação ser um privilégio para poucos. Eles competem com o mundo e parece que estão indo muito bem. Ainda assim, é preciso dizer, competem com cooperação, revelando a fórmula para quem tiver vontade política de seguir: mirar na igualdade. 

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O artigo que li e que quis compartilhar com vocês pode ser lido aqui. Chegou na minha TL do twitter via @NPTO e foi escrito após uma visita de Sahlberg aos Estados Unidos (país  cujo modelo educacional tem características opostas às do modelo finlandês). O foco é a educação estadunidense, mas podemos vestir a carapuça. Boa parte do mundo pode. 

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Sahlberg escreveu um livro sobre a revolução educacional na Finlândia. Vontade.

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Morro de inveja. É bom frisar que sei nada sobre a cultura finlandesa e que a admiração que expresso neste post é toda voltada para um projeto que adoraria ver rondando nosso país. Não estou falando do país Finlândia, mas de suas escolas gratuitas e lindas. 




Quintanices e ritices


"Amar é mudar a alma de casa." - ("Carreto", Quintana)

E quando a gente fica trancada do lado de fora?

Round and round


O abraço no amigo no meio da rampa foi tão espontâneo que nenhum diretor de cinema arrancaria de seus melhores atores. O pai foi junto com eles até o pátio onde encontraria o resto da turma em uma tarde eufórica, para dizer o mínimo. Segui rampa acima com a outra que puxava a mochila vazia de primeiro dia. Mochila vazia, peito cheio de ansiedade. Sala nova, professora nova. Estudou o ambiente com um olhar panorâmico, pôs a mochila no chão, escolheu a amiga, sentou e sorriu. Experimentou o joguinho e respondeu às perguntas da professora enquanto eu, mais ansiosa que ela, observava os recantos da sala, os amiguinhos, o ar condicionado, as janelas, o piso brilhante, as carteiras largas, as mochilas alinhadas, a sala que vai abrigar minha espoleta por muitas tardes nos próximos meses. Quando anunciei minha partida, pediu colo, ainda bem. Trocamos nosso abraço de quem já morou uma dentro da outra, ganhei um beijinho e assegurei que voltaria no final da tarde. De longe acenou um tchau animado e eu fui, não sem antes fazer um sinal de "me liga" pra professora, em caso de. Não houve telefonemas no meio da tarde.

Depois desci as rampas e fui ver o outro. Cheguei a tempo de ver a turma entrar na nova sala, no prédio "dos maiores". Sorrisão, risadonas, carteira escolhida, desenhos comparados, garrafinhas d'água lado a lado, eu não era mais necessária. Restou-me o consolo de outros pais e mães com quem corujei a sala, em pé na porta, bem ridículos. É bom ser ridículo. De vez em quando é. 

Então é isso, começou de novo. Divirtam-se, seus lindos. Divirtam-se muito.

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Um beijo especial para . Hoje começou de novo para ela também, mas de forma bem mais intensa. Em breve ela conta tudo pra vocês. 


Aleatórios



Amanda colheu uma flor amarela e me pediu que a colocasse no cabelo dela (adora andar por aí com flor no cabelo). Atendi e fui tomar um café. Minutos depois, ela me pediu para arrumar a flor que estava caindo. Quando tirou a flor do cabelo, vi a aranha amarela que pendia por um fio. Coloquei a aranha no chão e ficamos observando aquela coisinha que poderia ter picado a cabeça dela, ou entrado em seu ouvido, ou. Não achei que fosse venenosa (depois pesquisei e vi que não é mesmo). De qualquer modo, botei uma aranha na cabeça da Amanda. 

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Anos atrás, compramos um vaso grande para a planta da sala. De brincadeirinha, Ulisses colocou a Amanda em pé dentro do vaso, "minha flor!". Segundos depois, viu a enorme aranha gorda e cabeluda lá dentro. Quer dizer. Tomara que a gente nunca consiga.

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Há um ninho de passarinhos no nosso sótão. Pelo barulho, vários filhotinhos. Aluguel liberado.

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Minha missão era levar brownies mexicanos para a noite mexicana. Comparei a receita que me indicaram com uma de brownies de cacau do blog da Patricia e vi que a diferença era a pimenta caiena. Segui o modo de preparo sugerido pela Pat e acrescentei a pimenta. A única reclamação da galera da tequila foi eu não ter levado mais. Umas três fornadas a mais. Delicioso, povo. Faz aí. 

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Ula-ula é muito melhor que piña colada. É tudo que sei.

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Nevou em Paris. Quem disse que há limites para a beleza?

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Tão quente, tão quente. Amanda esquece que tá sem boia e pula na piscina. Enquanto eu berro, ela sai nadando. Li uma vez "por não saber que era impossível, foi lá e fez". Quando eu disse "mostra pro papai que você já nada daqui até ali", apavorou, chorou e botou a boia de braço. (Não tem pressa, meu amor, mas eu vou te contar isso daqui a alguns anos.) 

Just a little note...


Queridos vizinhos. (E querido cachorro.) Nós gostamos de vocês, de verdade. Não tomem como algo pessoal, tá?

Chegaram as flautas.

/o\

Si, la, sol


Hoje o Arthur foi à sua primeira aula de música. A professora me convidou para entrar na sala junto com ele. Fiquei lá no sofá, lendo um livro engraçado sobre a vida de Mozart, fingindo ser uma pessoa normal, sem grandes afetações. Fingindo não estar emocionada por ver meu pequeno todo concentrado nas notinhas. A dois passos de mim, meu menino de dentes moles soprando a música do trenzinho, la, la, si, si, la, la, la, la... 

Ela ensinou a ele que é preciso soprar suave. Que a flauta é doce.

Doce é uma boa palavra para o dia de hoje. Boa sorte, menino. Que seja divertido. 


 
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