Words & scenes



Sempre piso em ovos ao comparar livros com as respectivas adaptações para o cinema. Na medida em que são linguagens e formatos bem diferentes, acho que a comparação sempre corre sérios riscos de perder o sentido. Dizer que o livro é melhor que o filme pode dar a impressão de que eu esperaria ver no filme cada detalhe explorado ao longo de uma história bem escrita, o que, obviamente, é praticamente impossível dentro do tempo de um longa. Quando um roteirista seleciona os elementos de um romance para a montagem de um roteiro cinematográfico, faz o recorte necessário para viabilizar a adaptação, naturalmente. O sucesso da montagem depende não só da coerência nessa seleção, mas também de vários fatores relacionados à produção do filme que pouco ou nada tem a ver com o diálogo livro-roteiro. E não raro a adição de elementos que nem fazem parte do texto escrito originalmente geram no cinema um efeito muito eficiente. É claro que a gente compara, tudo bem. Eu comparo, tu comparas, todos comparamos. Se um livro que amo ganha adaptação para o cinema, corro pra ver. Mas tenho em mente que se digo "prefiro o livro", quero dizer que a história tal me agradou mais em seu formato literário e menos no formato que ganhou no cinema nas mãos desse ou daquele diretor. Não quero dizer que o filme falhou em sua adaptação, mas simplesmente que o filme em si não me agradou, como vários outros filmes de roteiro original também não me agradam. O contrário, claro, também pode acontecer. Posso curtir muito um filme sem que tenha sequer me empolgado com a obra na qual foi inspirado. É o caso de Os Homens Que Não Amavam As Mulheres. 

Ontem fui ao cinema ver a adaptação do primeiro volume da Trilogia Millenium, do falecido escritor sueco Stieg Larsson, dirigida por David Fincher (que fez Seven, então tem meu respeito eterno). E, olha, não pisquei. Tudo bem, fechei os olhos numas cenas mais violentas porque não dou conta. No mais, achei o thriller bem saboroso. Todos os elementos que me deixaram com sono ao ler o livro (eu sei, eu sei) sumiram. Nas mãos de um elenco bem afiadinho (uau, Lisbeth-Rooney Mara-Salander!) e de um diretor que sabe das coisas, pude curtir o que, na minha  opinião, a história tem de melhor, sem ficar rezando para que outra repetição enfadonha terminasse. Curti inclusive a sequência final. Lembro-me que, lendo o livro, passada a resolução do mistério central da história, eu praticamente não tinha mais paciência. No filme, no entanto, nem me dei conta que já estava sentada ali há quase três horas. 

Uma das coisas que mais curti no filme foi ver o cenário da ilha onde se passa parte da história. Eles arrancaram as imagens de dentro das páginas do livro. Nota um milhão para a ambientação. Foi como reler as descrições na parte inicial do livro. Show de bola. Num cinema perto de você. 

***

Se as imagens do filme de David Fincher me empolgaram mais que o livro de Larsson, o mesmo não posso dizer do post sobre a Escócia (adorei escrever, um jeitinho bom de reviver um pouco daqueles dias folgados). Atendendo aos milhares (cof cof) de pedidos dos leitores deste bloguito, desenterrei meu álbum de 1998 (gente...) e descobri algumas coisas: as 30 fotos da Escócia, são, na verdade, 90. Dessas, talvez 9 tenham uma qualidade razoável. Minha velha Kodak, falecida no alto da Serra do Rio do Rastro, no interior de Santa Catarina, no ano seguinte, deu tudo de si, acredito. Mas nada do que ela pudesse fazer chegava perto da qualidade das fotos digitais de hoje em dia. Então, uma foto "linda" em 1998 hoje é "oi?". (Tão bom colocar a culpa na máquina, não me julguem.) Além disso, em várias das fotos que eu consideraria publicáveis aqui, apareço ao lado de meus companheiros de viagem. Como não faço a mínima ideia de como se sentiriam vendo seus rostos desfilando na internet sem autorização, deixemos essas de lado. Mas de tudo, a maior descoberta (na verdade, uma lembrança renovada) foi: quinze anos atrás, eu tinha muito, muito, muito cabelo. Muito. Seja como for, para não dizer que não atendo pedidos insistentes dos meus queridos e pacientes leitores, aí está.  

 Eu e o Lago Ness (corto relações com quem disser "olha aí, o monstro").

 A brincadeira é dizer onde termina o chão e começa a montanha e onde esta termina e começa o céu. Lhamas? Renas? Whatever.

Eu e meu cabelo aos pés do Castelo de Edimburgo.

 On the road.


Ovelhinhas fofas.

 Ruínas de um castelo qualquer, ex-casa de um pessoal que tinha uma bela vista.

O pessoal que viajou comigo. Tudo bem, o baixinho de branco não viajou.

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O cinema é nosso caminho da roça e nada nos faltará. Daí fui ver Os Descendentes. Ah, a expectativa, essa pregadora de peças. Gostei não. Mas vale pela corridinha desengonçada do Clooney, vejam lá.

Na tarde de domingo levamos as crianças para ver Tintin. Olha. No site que consultei tá lá: censura livre. Eu tinha visto o trailler com perseguições malucas a la Alladin no mercado e um cachorrinho fofo que deixou Amanda toda assanhada. O que vimos no filme? Armas em punho, um personagem que morre METRALHADO e cai sangrando, lutas de piratas assustadores e um tanto bom de cenas violentas. Censura 10 anos, tá lá no panfleto. Verifiquem a classificação indicativa do filme. Verifiquem bem verificadinho. Na dúvida, não levem as crianças. Ódio. 

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Velhas memórias da velha Escócia


É um post longo. E a história é velha. Mas é final de semana, então senta aí e relaxa. 

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Foto que tirei do Monstro do Lago Ness (mentira).

A decisão de visitar a Escócia veio de repente, procurando o que fazer no final de semana prolongado. Eu teria cinco dias para fazer o que quisesse e não demorou muito até encontrar outros quatro desocupados. Eram três brasileiros (um casal de irmãos do interior de São Paulo e um guri de Minas) e uma garota de República Tcheca, todos alunos da mesma escola em que eu estudava. Com cinco pessoas, o aluguel do carro e a hospedagem ficariam mais baratos. Decidimos tudo rapidamente, apesar de ninguém se conhecer direito (com exceção dos irmãos, logicamente). 

Faz tanto tempo que não me lembro mais como foi a compra das passagens de trem para ir de Londres a Edimburgo. Só sei que na véspera da viagem fui dançar num barzinho australiano em Shepherd's Bush e, consequentemente, perdi a hora no dia seguinte. Quase fiz todo mundo perder o trem, mas felizmente conseguimos chegar em cima da hora e embarcar. A caminho da estação de trem, no metrô, conversei com meus companheiros de viagem (morta de vergonha por causa do atraso) e percebi que a viagem seria, hum, divertida. Já no trem, exausta, adormeci nas primeiras milhas da viagem. Quando acordei, o mundo estava branco. Era a primeira vez que via neve na vida e nunca vou me esquecer das imagens que passavam pela janela do trem: plantações cobertas com lonas imensas cercadas por quilômetros a perder de vista do branco mais branco. Ainda era norte da Inglaterra, as terras eram planas, eu nem tinha descido do trem, mas já estava satisfeita. Naqueles campos ingleses, cabia pelo menos metade das minhas fantasias de adolescente que eu importava dos romances que lia. 

Quando chegamos em Edimburgo, fomos imediatamente alugar um carro. Não queríamos nada com a capital naquele dia, nossos planos eram todos voltados para as Highlands e o famoso Lago Ness. Exploraríamos Edimburgo na volta para Londres. Alugamos um carro pequeno, o mais barato que conseguimos, acomodamos nossas mochilas no porta-malas do jeito que deu, ligamos o aquecedor, abrimos o mapa e seguimos para Inverness. A Escócia, dizem, é um lugar bem mais animado no verão. Entre setembro e abril, no entanto, é uma espécie de terra fantasma, coberta de neve, com várias atrações turísticas fechadas (destilarias, my lord) e mais neve. Nosso caminho para Inverness foi ficando cada vez mais branco, cada vez mais montanhoso e, aos meus olhos, cada vez mais lindo. A cada quilômetro vencido, nossa empolgação crescia. Paramos várias vezes na estrada para admirar ovelhas enormes e gordas, com suas carinhas pretas muito curiosas; vimos muitas renas, ou parentes delas, e, claro, fizemos boneco de neve enquanto o carro esperava no acostamento. Resumindo: o deslumbre foi grande. 

Inverness estava praticamente deserta, mas a gente nem ligou. Era só uma parada para dormir e seguir rumo a Isle of Skye no dia seguinte, high, high in the north. Foi em Inverness que vi a neve despencar com força pela primeira vez e também foi lá, no albergue onde pernoitamos, que tomei o pior banho da minha vida. Para ganhar espaço na mochila, não levei chinelos. Ora, todo banheiro por aquelas bandas é aquecido, não haveria necessidade. Pois bem, o chão do banheiro do albergue gelado era gelado. O chão do cubículo destinado ao banho era de inox, gelado. A água que saía do chuveiro fervia a mil graus. Queimei a cabeça, congelei os pés, morri de frio e xinguei até os tataravós de William Wallace. Fazia tanto frio no quarto do albergue que dormi de luvas. No dia seguinte, de nariz entupido, toda a raiva passou. Da janela do quarto no terceiro andar do albergue, vi telhados, ruas e árvores cobertos de branco e fui feliz de novo. 

Comemos qualquer porcaria e fomos embora. Apesar da nevasca da noite, a estrada estava impressionantemente limpa. Não sei quem eram os abnegados que passavam o maquinário para remover a neve das estradas nas primeiras horas da manhã, mas todo meu amor foi para eles. Seguimos em meio a montanhas brancas infinitas por uma estrada absolutamente limpa e muito bem sinalizada. E um céu inacreditavelmente azul. Fiz fotos lindas que, se não estivessem guardadas num álbum pesado lá na última prateleira da estante, juro que digitalizaria alguma para pôr aqui. Mas não, vocês não são assim tão curiosos. (Aliás, tem alguém aí lendo ainda?)

Entre Inverness e a Isle of Skye, onde chegamos no final do dia, visitamos castelos. Vários. Aliás, visitamos castelos todos os dias, era o que tínhamos para ver. Amei cada visita. A lembrança que guardo dos castelos que visitei no norte da Escócia é algo que cheira a história. A expressão é muito clichê, mas não há motivo para  não usá-la: viaja-se no tempo. Cada um com seu pedaço de glória e seu histórico de invasões e conflitos, aquelas paredes seculares me causaram arrepios. A Escócia é velha. É uma bisavó cheia de história e sua voz é linda. E, de novo, eu era a criança; só que com os pés num castelo de verdade. E depois mais um. E mais um. 

A noite em Skye foi bem mais agradável que a de Inverness. Dormimos num confortável B&B, tomei um banho de gente e tivemos um café da manhã de reis. A dona da casa onde funcionava o B&B era a simpatia em pessoa e até tentou nos ensinar algumas palavras do dialeto engraçado que os escoceses falam em alguns lugares. Sem sucesso, claro, ninguém aprendeu nada. A neve seguiu com sua trégua bem vinda e, de barrigas bem cheias, fomos à caça (modo de dizer) de focas e leões marinhos que habitam as ilhotas do lugar e, tchan ans!, era chegada a hora de ver o fabuloso, o legendário, o inigualável Lago Ness. Pois bem. Pausa para contextualização. Quando eu era pirralha, li um livro que contava a história do Monstro do Lago Ness. O livro era uma graça e cresci louca para ver o tal lago. Que, na minha cabeça, era um lago, assim, pequeno, sabe. Como lagos pequenos, vocês me entendem. Hoje, quando falam "lago", penso nos grandes lagos da fronteira dos EUA com o Canadá, ou na Escócia - água a perder de vista. Mas naquela época, "lago", pra mim, era um troço pequeno. Pois bem. Depois de fotografar os leões marinhos ou sei lá que bichos eram aquelas coisas moles e grandes, abrimos o mapa e fomos na direção do, oh, emoção, Lago Ness. Demoramos muito até nos localizarmos. Seguimos, seguimos, seguimos, nada. Voltamos, voltamos,  nada. Tornamos a seguir e tudo era montanha e vales de um lado, água do outro. Muita água. Dirigimos quilômetros margeando o que achávamos ser qualquer coisa, menos um lago. Até que a garota tcheca que lia o mapa anunciou: gente, essa coisa aí, essa água que tá do nosso lado há quilômetros, é o Lago Ness. Cabeças se voltaram para a esquerda. Óóó! O Lago Ness. Eu olhava aquela coisa enorme, sem fim, e pensava no lago que por alguma razão eu visualizava pequeno, redondo e com patos. Seguimos por mais alguns quilômetros até um mirante e lá tiramos nossas inevitáveis fotos ao lado das grandes placas com desenhos de Nessie, o monstro que ninguém viu. Nem nós, claro (a gente quase nem viu o lago, imaginem o monstro). Depois seguimos margeando suas águas escuras e rindo da minha falta de noção.

Depois do Ness, mais castelos e uma noite em Glasgow. Para mim, é oficialmente a capital mundial das pessoas simpáticas. Em Glasgow, um motorista chegou a descer do carro dele, enquanto o sinal estava vermelho, para nos mostrar o caminho porque PERCEBEU que estávamos perdidos. Inédito. Deixamos o carro em frente ao B&B e exploramos a cidade a pé. Estávamos cansados, felizes e, agora sim, loucos para conhecer Edimburgo.

Finalmente, no dia seguinte fomos para a capital do país e visitamos o maravilhoso Ebinburgh Castle. Depois de tanto castelo, achei que não fosse mais me interessar por ele, mas foi só me ver diante daquela grandeza toda para escalar feliz as muitas subidas que nos levariam à entrada do castelo - Edinburgh Castle foi erguido sobre um vulcão extinto. E é lindão. Em seguida descemos morro abaixo e, para não dizer que fomos a Roma e não vimos o papa, visitamos a única destilaria que conseguimos encontrar aberta. Turista é bicho muito tolo, porque eu detesto uísque. Mas lá estava eu. Aff.

Devolvemos o carro e pegamos o trem de volta para Londres levando lembranças saborosas do país mais lindo que visitei na Europa. É uma pena que eu não tenha feito um diário de viagem, certamente já me esqueci de muita coisa, lá se vão 14 anos... Sei que rimos muito de nossas trapalhadas com o hermético sotaque escocês ("pay"[pagar] pode ser pronunciado da mesma maneira que "pee" [fazer xixi] e vocês podem imaginar minha cara negociando o pagamento do aluguel do carro); que comemos muito mal com nosso orçamento apertado de mochileiros; e que curtimos muito. Adoraria voltar. 

Foi preciso esperar vários dias até revelar as fotos naquela era mesozóica pré-digital. Devo ter umas, sei lá, trinta fotos da Escócia. Hahaha. Fosse hoje, teria trezentas. O engraçado? Não precisei ver nenhuma delas para navegar nas lembranças daquele final de semana. Just thinking. Mas a verdade é que adoraria voltar lá para tirar mais mil fotos, de cada montanha, lago, castelo. Queria voltar com minha tropa e me deslumbrar de novo, mostrar aos meus filhos o lago que eu imaginava pequeno e redondo. É bom ver de perto os cenários de nossa imaginação e, com sorte, descobrir, como eu descobri, que podem ser ainda mais fantásticos quando vistos assim, ao alcance da mão.



De frente (ou: melhor pensar na cenoura)


E há os dias em que a terapia me assusta. O mais engraçado é que o susto não vem de nada revelador que a terapeuta me diga. Vem de alguma coisa que eu digo, que eu mesma levei para a sessão. Hoje me vi falando daquele jeito que falo quando estou afobada. Acelero a voz na tentativa de acompanhar os pensamentos enquanto eles se multiplicam em mitoses apressadas. E vou verbalizando de forma mais ou menos clara, na medida que a afobação me permite, uma justificativa bem amarrada para aquele aperto no peito. E de repente começo a tomar consciência do que está acontecendo e me vejo, enquanto falo, explicando minha vida, tim-tim por tim-tim. E o nó que se forma na minha garganta é grande daquele jeito porque é proporcional ao espanto. É assustador perceber que a resposta está aqui dentro e apenas por não ser bonita é que não lhe dou muita bola. É assustador. Mas seu potencial libertador é igualmente gigantesco. 

***

Arthur: Amanda, você devia comer cenoura.
Amanda: Hum-hum.
Ele: Sabia que comer cenoura é bom pra vista?
Ela: É? [pensa] O olho cresce?
Ele: Não... você vê melhor!
Ela: *silêncio * [pensa, pensa]
Ele: *silêncio* [come, come]
Ela: Arthur?
Ele: Hum?
Ela: Cenoura começa com "c".
Ele: *suspiro* [desiste]

Fim.





Sobrou kiwi?


Aqui sobrou. Fiz assim:


Depois assim: 

A ideia, tirei daqui.

Bati o que sobrou no liquidificador com leite condensado e um pouco d'água. Depois, copinho e palito. Os kiwis não estavam lá muito docinhos e os picolezinhos ficaram meio travosos. Além disso, o Ulisses acredita que chocolate ao leite cairia melhor nos redondinhos do que o chocolate amargo que usei para o ganache. A conferir.

 

 Meu freezer ficou assim. 

Acho que vou vender na praia.

***

Daí o Arthur tá com febre e a Amanda não almoçou bem e ficou sem sobremesa. Ou seja, vocês vão ter de se conformar com os testemunhos meu e do Ulisses, por enquanto. A febre chegou a 39. Agora, sob efeito da segunda dose de antitérmico, tá controlada. Vem, noite. 

Memórias de uma adolescência sem mesada


No tempo em que minha mãe pagava todas as minhas contas, as coisas eram bem controladas pro meu lado. Nunca tive mesada, o dinheiro para o lanche do colégio era contado, roupas eram compradas apenas quando realmente necessárias. Os tickets de estudante para o ônibus da escola eram dados dois a dois, todos os dias - o talão de tickets não ficava comigo - e ela sempre cobrava o troco do pão. Eu tinha que dar conta de tudo de novo ou diferente que aparecesse em minhas mãos. Uma vez usei o dinheiro do lanche para comprar bijus e precisei enfrentar um longo interrogatório até que a verdade viesse à tona e ela se convencesse de que não haveria uma segunda vez. Não que eu estivesse cheia de bijus e aquilo fosse um ato de consumismo exacerbado, nada disso. Eu praticamente não tinha acessórios como pulseiras, brincos ou anéis, porque um par de brincos sobreviventes à primeira infância e um único anel eram mais do que suficientes para satisfazer minha vaidade adolescente, julgava ela. O problema era que dinheiro para lanche era dinheiro para lanche e só. 


Minha mãe foi uma pessoa muito pobre na infância e começou a trabalhar quando ainda era uma menina. Só concluiu a faculdade quando eu, a filha mais nova, tinha nove anos. Sempre trabalhou demais e desde muito cedo precisou aprender a fazer o dinheiro render. Acredito que quis ensinar esse controle aos filhos, mostrar que, quando o dinheiro não é abundante, pequenos gastos dispensáveis podem fazer uma diferença importante no final do mês. Então eu estudava em escola particular, mas o dinheiro do lanche era controlado a ferro e fogo. 


Os tentáculos do controle financeiro de minha mãe se movimentavam por todas as esferas da casa. Nada de luz acesa em cômodos vazios, banhos prolongados, comidas requintadas. Dinheiro sobrado era dinheiro aplicado e nunca gasto com "futilidades", como férias na praia ou um carro para a família. E, obviamente, nada de conversas longas ao telefone. Em um tempo sem internet, sem os longos papos no twitter ou no canal que for, o telefone muitas vezes era o único caminho disponível para a boa conversa jogada fora, tão abundante em tempos de banda larga. Sem ele, a última novidade sobre aquele cara, que olhou para você ontem, teria de esperar a próxima aula de inglês até que você pudesse dividi-la com a amiga da cidade vizinha. Claro, você poderia ligar para ela e ficar de papo por uns quinze minutos - se você não fosse filha da minha mãe. Comigo a regra era clara: telefone, só para emergências. 


Um dia a necessidade fofocativa falou mais alto e bati o pé. Eu tinha uns ganhos mixurucas com aulas particulares e posei de independente wannabe: anunciei que ela não precisava se preocupar com o valor a ser pago por aquela ligação porque eu precisava conversar com Fulana e pagaria a conta com meu "salário", cof cof. Ela concordou. Ainda me lembro que me senti muito dona do meu nariz. Peguei o telefone e botei todos os papos em dia, sem me preocupar com o relógio. Ou com o bolso. Semanas depois, quando a conta chegou, minha mãe cobrou a promessa. Entreguei o dinheiro certa, absolutamente certa de que ela perdoaria a dívida depois de uma ou duas palavras sobre o valor do dinheiro, bla bla. Mas nada. Ela segurou o dinheiro bem diante dos meus olhos suplicantes e disse: "é seu, mas você já gastou". E lentamente guardou o dinheiro na bolsa dela. E nunquinha me devolveu. Foi um episódio corriqueiro, mas a verdade é que nunca me esqueci dele. Aquilo valeu muito mais do que longos sermões sobre a importância do planejamento quando o assunto é dinheiro.


Não foram poucas as vezes em que minha mãe me ajudou financeiramente. Do jeito que conseguia, no limite que podia, sempre me estendeu a mão e, muitos anos depois da conta do telefone, ela até colaborou com gastos que, sei, não considerava "essenciais". Mas sei que ela o fazia porque percebia que tínhamos apreendido a lição. Agora a brincadeira vai começar pro meu filho.


A partir desse ano, Arthur vai poder comprar o lanche na cantina da escola. Poderá ainda levar lancheira de casa, se quiser, mas duvido que queira. O lanche da cantina, ao que me parece, tem ares de passaporte para o final da primeira infância. O segundo ano. Não mais no mesmo prédio do ensino infantil. Não mais formando fila no parquinho. Não mais a lancheira. Veremos. Se o monopólio da cantina se confirmar, serão cinco chances semanais de lidar com o dinheirinho contado. Porque vai ser contado. E vamos ver onde isso vai dar. Educação para as finanças é algo fundamental, especialmente em uma sociedade tão consumista quanto a nossa. Sempre convivi com crianças muito mais abastadas do que eu e é engraçado a forma como me lembro disso: o que ficou não se parece em nada com rancor ou tristeza por saber que meu poder de compra era menor. Lembro-me que eu entendia claramente que eu podia menos porque minha mãe ganhava menos - sem muito drama. Eu também tinha amigas mais pobres que eu e isso certamente me oferecia uma boa perspectiva para enxergar as coisas. Seja como for, sei que não terei pudores em controlar os gastos de meu filho durante a infância e adolescência, porque estou absolutamente convicta de que isso me fez muito bem. Na vida adulta, passei por fases com grana curtíssima e saber administrar o pouco que entrava fez toda a diferença. Não é à toa que quase sempre que preciso me programar ou cortar gastos para o fim que for, aquela conta do telefone volta a trancar minha garganta. É que desceu quadrado, mas me fez muito bem. Nem todo remédio é doce, afinal. 



Austen e o biscoito


E aí sigo lendo Jane Austen e de vez em quando interrompo a leitura e reparo como tudo parece tão preciso, tão bem colocadinho, arrumadinho. Como se a história tivesse se desenrolado à sua frente e Austen tivesse simplesmente descrito o que via. Aquelas pessoas realmente existiam e estavam ali naquelas casas de campo enormes desfilando suas convicções, exercendo seus poderes minúsculos em seus reinados minúsculos. Acreditando que tudo em suas vidas era muito grande e importante para o funcionamento do mundo. E, como um fantasma, acho que Austen pairava por ali, nas salas, nas cavalgadas, nos saraus. E a tudo via. Depois, com sua caneta precisa e cheia de ironia, pintava o livro pra gente. Porque não é possível que tudo saísse da cabeça dela, né? Digam que não é possível.

Eu queria ter esse dom, o de escolher as palavras certas com o efeito perfeito, às vezes surpreendente. O dom de empregar a frase certa, no tom exato e com ele deixar todos boquiabertos diante de minha capacidade extraordinária de expressar sentimentos. Ser capaz de descrever lindamente as relações humanas e revelar, com aparente tranquilidade, alguns dos caminhos intrincadíssimos de nossas mentes. E não estou falando de literatura. ;-)

***

Mas, ah, a minha mente. 

Gosto de levar um pacotinho de biscoitos para o trabalho. Mantenho um na bolsa para a fome que sempre, sempre me visita no meio do expediente. Hoje esqueci, como de costume, o pacote sobre o balcão da cozinha. Só me lembrei dele quando o café da manhã já era saudade e meu estômago queria mais. Bebi água. Na hora do almoço mirei o pacote e pisquei para ele: você vem comigo à tarde. À tarde, na hora do lanche, lembrei-me do pacote sobre o balcão e xinguei. Bebi água. No carro, de volta para casa, sentindo a dor de cabeça se aproximar por causa da fome, abri a bolsa para guardar os óculos e, voilá, eu não tinha esquecido o pacote sobre o balcão da cozinha. Eu tinha esquecido que não tinha esquecido. E morri de fome com a bolsa cheia de biscoito. Minha mente. 





É mais simples


Você compra kinect. E robôs desmontáveis superinteressantes. E revistas com mil atividades e adesivos. E livros suculentos. A boneca muda a cor do cabelo quando toma banho. A casinha de cachorros tem cachorrinhos foférrimos. A gaveta de tintas e pincéis é a mais cheia da casa. 

Mas eles se pegam e brigam e choram aos berros. Fazem escândalos e juram que nunca mais vão brincar um com o outro. Por causa da bolinha de isopor. Uma bola de isopor, branca, sem nada. Só uma bola pequena. De isopor.

É assim.


A chance


Não é exatamente do ouro que estou falando.

Ontem fomos pedalar no meio da tarde. O dia estava cinza, a tarde meio úmida, mas a chuva não era uma ameaça muito convincente. Seguimos para o parque onde fica a ciclovia e dividimos as "tarefas". Marido preferiu se deitar ao pé de uma árvore que foi reiteradas vezes escalada pela pequena. O Arthur me acompanhou na bicicleta dele e demos umas duas voltas pelo parque antes de ele também resolver brincar de subir em árvore com a irmã. Eu continuei minhas pedaladas.

Nosso bairro é cheio de ladeiras, péssimo para bikes. Então normalmente prendemos as bicicletas no carro e seguimos para outro bairro provido de uma boa ciclovia. A tal ciclovia corta um parque ainda bem servido de espaços verdes (lotes ainda sem construções em andamento),  pequenos lagos artificiais, alguma mata e miniparques infantis. Gosto de lá ainda, apesar de achar que, no futuro, seria obrigada a pedalar o tempo todo pelas calçadas dos moradores. Se cada centímetro daqueles lotes vier a abrigar uma casa (algo meio inevitável), não acredito que continuarei experimentando a mesma sensação de refúgio que ainda experimento por lá. O lugar já é bem habitado, mas ainda é um bairro silencioso, cheio de passarinhos.

Pedalando sozinha enquanto minha família se pendurava ou cochilava na árvore, fiquei pensando que daqui a alguns dias não vou mais poder usufruir do luxo que são essas horas de lazer no meio da tarde. As férias estão acabando e antes que o final de semana chegue já terei tido contato novamente com prazos e tarefas no trabalho. Acabam-se a leitura no final da manhã, a companhia das crianças o dia inteiro, os almoços tranquilos. Começa a ciranda outra vez. O problema? Não era para eu achar ruim.

Preciso mudar, eu sei. Preciso trabalhar menos com algo que me identifico tão pouco e mais com o que me dá prazer. Preciso pagar o preço e criar coragem de mudar o que precisa ser mudado. Preciso parar de reclamar. Não porque me calei, mas porque resolvi. Preciso. Mas quem disser que é fácil nem sabe do que estou falando. Há quem diga que eu deveria me envergonhar de reclamar com a barriga tão cheia (eu mesma digo isso muitas vezes). No entanto, ando cada vez mais convencida de que trabalhamos demais. Oito horas por dia é tempo demais. A vida passa, a velhice vai chegar, e não consigo encontrar o momento em que comecei a acreditar que seria bacana passar tanto tempo da minha semana dentro de uma sala fazendo algo reto, repetitivo, burocrático. Naturalmente, se o sujeito sente prazer com seu trabalho, oito horas não parecerão tempo demais. Não é meu caso, atualmente. 

Anda, coragem, vem.

Aí voltamos para casa e fomos, famintos, para a mesa da cozinha (tá, todo mundo tomou banho antes). Olhando por acaso para o quintal enquanto me servia na cafeteira, dei de cara com um enorme, meganítido arco-íris. Ali, no nosso quintal. A chuva fina que finalmente caiu assim que chegamos em casa armou esse presentão para acompanhar nosso café. E só hoje me pergunto porque cargas d'água não fui correndo pegar o pote. Com ouro, talvez, mas também com outras soluções menos "sólidas". O fim dos meus conflitos bem ali e nem me dei conta. Quem sabe na próxima chance. Quem sabe. 


Redondo


Queria um texto redondo, que voltasse ao mesmo ponto, mas que, no caminho, sofresse transformações surpreendentes. Queria um texto assim, esférico, como a Terra. Que fosse meio azul também e cheio de altos e baixos; que sofresse com o humor das marés, que enfrentasse eras glaciais e se renovasse depois das chuvas ácidas. Que ressurgisse cheio de viço, em parágrafos verdes, quando o leitor já achasse que dali não sairia mais nada. Queria um texto em evolução, mesmo que, no final, eu percebesse apenas o que já sabemos: que tempo não garante sabedoria. Então o texto poderia ser óbvio e não acrescentar muita coisa, mas eu queria que fosse bonito durante cada rotação. Um jeitinho inocente de manter a esperança. 

A camisola


Foi feita por uma velha tia de minha mãe, há muitos anos. A parte de cima é de crochê e as bolinhas amarelas no tecido branco da parte de baixo me lembravam gema de ovo. Devo ter usado quando eu tinha cinco anos, mais ou menos. Ontem, pela primeira vez, Amanda dormiu com ela. Eis uma foto que minha mãe, que guardou a camisola por tantos anos, adoraria ver.




- Posso dormir com ela, mãããe?
- Pode. Sabia que foi da mamãe quando eu era do seu tamanho? Foi a vovó Berna que guardou por um tempão.
- Você vai dar ela pra mim???
- Vou. É sua.
- É minha pra sempre???????????
- É, pra sempre. 


Chips no pescoço


Arrumando minha estante de livros antes de ontem me lembrei de que essa também era uma tarefa minha na casa de minha mãe. Era eu quem arrumava os livros de tempos em tempos, fazendo a grande faxina do escritório dela. E, claro, era um deleite. A grande estante escura abrigava volumosas enciclopédias, alguma literatura e muitos livros de Direito. Era uma diversão mudar tudo de lugar, organizando os volumes, quase todos com capa dura e colorida, de uma maneira que me parecesse mais atraente que o formato escolhido na faxina anterior. Entre uma espanada e outra, eu atrasava todo o serviço folheando, descobrindo. 

Agora arrumo aqui e fico me perguntando por quanto tempo os volumes que temos hoje vão continuar despertando a curiosidade de nossos filhos. Hoje um amigo me mostrou que, em 2010, um grande site de vendas vendeu 180 livros digitais para cada 100 impressos. Ou seja.

O mundo muda, oh, não diga. A mesma pontinha de tristeza que essa notícia me dá deve ter atingido os amantes do vinil quando o CD veio com tudo revolucionando a indústria fonográfica. Mas ninguém parou de ouvir música por causa disso, quero crer. A gente se adapta, né, Darwin, e dá nosso jeitinho de dançar conforme o ritmo. Talvez eu fique bem velhinha folheando meus volumes que ninguém mais vai querer ler, talvez não. Talvez eu prefira a conveniência de aumentar o tamanho da fonte em meu dispositivo digital do momento e assim ler com mais conforto nos meus 98 anos. Quem sabe. Certa amiga minha não duvida que, ao nascer, os bebês de um futuro não muito distante tenham chips implantados em seus pescoços para, vida afora, receber os downloads de histórias (adequadas a cada faixa etária, claro). Rimos da hipótese, né. Mas... quem aposta que nunca? O fato é: quem quiser ler, vai ler. Será?

Com essa mesma amiga dos bebês com chips no pescoço dividi minha angústia de que o contato visual com os livros impressos tenha certo poder de estimular a leitura que os e-books não teriam. Crianças imitam adultos. Ao nos ver folheando, mexendo, explorando uma livraria ou biblioteca, eles repetem os gestos e, cedo ou tarde, o bicho morde. Mas quando nos sentamos com um i-pad na mão, não estamos necessariamente lendo: estamos jogando, tuitando, brincando de quebra-cabeças, passeando pelo google earth, muitos etecéteras. Ou lendo. Mas não existe uma associação imediata entre a imagem de alguém com um dispositivo digital na mão e o ato da leitura, como existe quando meu filho me vê lendo no sofá e pega um gibi para me fazer companhia. Aí minha amiga dos bebês com chips me falou, Ritinha, relaxe. Esse lance de ter a casa cheia de livros é coisa muito recente, de duzentos anos pra cá e olhe lá. E, né, é óbvio. Quando Jane Austen criou seus personagens (que, após três páginas, acreditamos que realmente existiram), é bem provável que ela não tivesse mais que meia-dúzia de livros, ainda que sua família estimulasse sua paixão pela leitura. Pelo fato de que livros não eram uma mercadoria abundante e facilmente disponível no final do século XVIII e início do XIX. Nem por isso Austen deixou de nos presentear com sua obra apaixonante (estou partindo do pressuposto meio óbvio de que leitura e produção literária caminham de mãos dadas). 

Ainda segundo minha amiga dos bebês com chips, algo que pode, de fato, "ameaçar" nosso consumo de literatura é a enorme gama de estímulos difusos na internet. Gastamos muito tempo em redes sociais, blogs, troca de e-mails, notícias, links, vídeos, etc. Sem gastar um segundo de meu tempo estipulando uma escala de valores entre tais atividades (sou adepta de todas elas) e a leitura, o fato é que as novas gerações estão crescendo num mundo onde se lê mil notícias por dia, não necessariamente digerindo tudo muito bem. E como um link leva a muitos outros, não é de todo estranho conceber que o hábito de leituras entrecortadas e abreviadas pelo formato das redes faça a leitura de um livro parecer algo demasiado lento ou enfadonho. Claro, seres humanos não são robôs e  nem todo mundo se relaciona com a internet da mesma maneira.  Mas entendo que quem cresce tuitando e pesquisando no google desenvolve uma relação com os livros (impressos ou digitais) diferente daquela das gerações que cresceram pesquisando nas enciclopédias. Ou não, saberemos em breve. (O oposto pode ocorrer, naturalmente: papos sobre literatura e cinema em um canal de rede social podem despertar o interesse por uma obra; em seguida, a facilidade com que se tem acesso àquela obra em formato digital possibilita o consumo imediato do texto literário, o que simplesmente não era possível quando eu tinha 15 anos).

Sou fã dos livros infantis. Outro dia comentei como é fácil hoje em dia fazer uma criança se apaixonar por eles, tão elaborados, ricos, com projetos gráficos impressionantes. Como fica esse mercado no mundo dos e-books? Que formatos de livro lerão meus netos (se eu os tiver)? Quem arrisca um palpite? A minha amiga já arriscou: chip no pescoço. 


A faxina


Hoje foi dia de faxina minuciosa no escritório aqui de casa. Adoro. Revirar livros, trocar coisas de lugar, jogar fora papelada que não nos serve mais, ver tudo ficando limpinho. Minha principal meta (além de me livrar de um abajur velho e antipático) era me desfazer de livros que não me interessam mais e que dificilmente interessariam aos meus filhos no futuro. Livros da época do doutorado que eu insistia em guardar por puro apego, por exemplo; ou dicionários que jamais consulto em tempos de internet (vai levar muito tempo até que eu me desfaça de todos meus dicionários, não sei se algum dia vou conseguir); ou simplesmente livros ruins (ainda ficaram vários, esse negócio de passar livros adiante precisa ser feito com jeitinho aqui). 

É muito bom ver novos espaços surgindo nas prateleiras, sinto-me mais leve como se fosse eu a estante. Ainda assim, sei que não teria coragem de me desfazer de todos eles, por mais simpatia que eu tenha pelos minimalistas. Tenho acompanhado a fase nova da Lud, por exemplo, com seus dois pés fincados no minimalismo e acho interessante o desapego. Eu mesma não me considero uma pessoa muito consumista, apesar de sempre me perguntar se realmente preciso de tudo que tenho. Ainda assim, admito que tenho um chamego meio bobo com meus livros. Já mudou, sinto que já mudou. Concebo sem problemas a hipótese de substituí-los por arquivos digitais dentro de, sei lá, cem anos... tá bom, né? Por enquanto, ainda me divirto colocando Lispector ao lado de Woolf, porque acho que a primeira ficaria feliz; ou sacaneando um autor badalado que não curto, colocando-o ao lado do Dan Brown, hihihi. 

Livros à parte, sinto um imenso prazer em me desfazer daquelas coisas que não me servem mais. Roupas, por exemplo. Ainda essa semana, devo me livrar de boa parte das que não usei no último ano, por acreditar que não as usarei mais e que podem ser úteis a outras pessoas. Uma das melhores coisas que fiz nos últimos tempos foi parar de revelar fotografias (tenho uma prateleira inteira repleta de álbuns meus e do Ulisses; com duas crianças em casa, se não tivéssemos parado com  as revelações, precisaríamos de uma sala inteira só para as fotos). Gosto de passar tudo à frente: brinquedos, móveis, eletrodomésticos, qualquer coisa que eu  não use muito, que esteja me causando a sensação de que "tá sobrando". Já dei uns três sorrisos bem largos hoje só por entrar no escritório e não ver mais o famigerado abajur.

Aí chega a hora de organizar material escolar usado pelas crianças. Centenas de desenhos, atividades, colagens, pinturas. Livros, pastas, arquivos. Olho, acho fofo e sei que aquelas carinhas olhudas e aqueles sóis amarelos ficarão guardados por muitos e muitos anos sem que ninguém olhe para eles. Sem que "sirvam" para coisa alguma. Mas guardo mesmo assim. Releio, repasso, babo de novo, mostro a eles, damos risadas. Depois ponho tudo em grandes caixas plásticas e lacro. Vão morar no sótão até o dia em que nos mudemos dessa casa ou eles, os filhos, decidam dar novo rumo ao que é deles. Talvez eu devesse digitalizar tudo também, quem sabe. Por ora, ponho de lado o conceito da palavra "útil" e mantenho o minimalismo longe das luas e nuvens em tinta guache. No ano passado, rever minha letra torta em um cartão que dei a minha mãe quando eu tinha quatro anos deixou meu coração quentinho, como torta de maçã saindo do forno. Nem todo mofo me incomoda, afinal.



O Filho Eterno


Na primeira vez que li alguma coisa sobre O Filho Eterno, do escritor catarinense Cristóvão Tezza (Ed. Record), minha timeline trocava tweets sobre o autor - uma das tuiteiras em questão tinha sido aluna dele na Universidade Federal do Paraná há algum tempo e tinha publicado um post sobre o livro (no meme de livros que fizemos no ano passado). Não muito tempo depois, fui sorteada na brincadeira de final de ano do blog da Ju. E Dona Ju Finíssima Flor resolveu me enviar de presente seu exemplar d'O Filho Eterno. De imediato, tuiteiras que já tinham lido o livro trataram de me deixar com água na boca, falando maravilhas da obra. 

Ainda assim, mesmo antecipando que leria algo muito bom, não previ o que me esperava. 

Recebi o livro na sexta-feira passada, dia 06, e comecei a leitura no mesmo dia. Lá pela página 32, já entendia a empolgação do pessoal no twitter. E me espantava diante da generosidade da Ju em me enviar seu exemplar, para o qual, egoísta eu, olho agora com adoração, como quem admira um tesouro. Ontem, no sábado, depois de um dia gozado no fuzuê de filhos e amigos, voltei sedenta à leitura que me manteve acordada até 1:30h da madruga. Na manhã de hoje, concluí, saudosa já, a inesquecível experiência que foi este meu primeiro encontro com a escrita de Cristóvão Tezza.

Sortuda, eu.

O Filho Eterno é uma autobiografia escrita na terceira pessoa. Difícil apontar o que mais me espanta, se o domínio que o autor tem da arte de nomear coisas e descrever eventos (a palavra é perspicácia), se a coragem com que expõe suas angústias quase inconfessáveis, se a precisão com que lê nossa caminhada nesse mundo, se a fluidez de sua escrita que não nos permite perceber que as páginas se vão. Ao final, lindo aliás, senti o peito apertado, garganta travada e profunda gratidão por ele ter escrito sua história. Grata pelas aulas de bom uso da linguagem. Pelas reflexões tão acertadas sobre nossa relação com o tempo, sobre a fragilidade dessa relação e do tanto que ela nos define. Há mais reflexão filosófica em Filho Eterno - na melhor acepção que se pode dar à expressão -  que em muito tratado de Filosofia. Porque as janelas através da qual Cristóvão vê o mundo se multiplicam e se escancaram no momento em que sua estrada é revirada de forma irremediável, naqueles poucos segundos diante da notícia que não só transformou  sua vida, mas em grande parte determinou seu entendimento da confusa condição humana. E, generoso, ele nos oferta, sem qualquer traço de drama ou pieguice, o que de melhor extrai de sua desafiadora jornada. Um livro inesquecível. Para mim, a porta de entrada para a obra de Tezza, pois sinto-me agora muito interessada em saber o que ele tem a dizer sobre qualquer coisa.

Depois de terminar o livro, li várias resenhas (todas, com muita justiça, permeadas de elogios) e bastaria linkar uma ou duas para deixar qualquer leitor desse blog com vontade de correr à livraria mais próxima. Mas tenho esse comichão que me leva a verbalizar e declarar minhas paixões. O Filho Eterno me deixou com aquela felicidade leve que sinto cada vez que descubro uma obra de arte inebriante: a felicidade que vem quando nos lembramos que o mundo está cheio delas e que ainda há muito a se aprender, sempre. Ainda assim, segue um trecho extraído daqui:

"Quem termina a travessia arrebatadora das 222 páginas de "O Filho Eterno" haverá de sentir um alívio e uma alegria. O leitor concluirá que, feitas as contas, o poeta Drummond tinha toda razão ao dizer que nossa existência é "um sistema de erros", "um vácuo atormentado", "um teatro de injustiças e ferocidades" , mas, no caso de Cristovao Tezza, tanta dor, tanto tormento, tanto espanto, tanto vácuo, tanto remorso, tanta incredulidade, tudo, enfim, foi recompensado com uma bela contrapartida, o melhor prêmio que um escritor poderia esperar : concebeu um livro que todos deveriam ler sobre um personagem que todos haverão de amar. Chama-se Felipe.

É este o nome do filho eterno." 


É isso aí. Obrigada, Ju. (De certa forma, ainda não acabei de ler. O livro ficou em mim, em ecos.)


Ela


Havia na minha cidade natal uma porca. Gorda, imensa, cheia de tetas. Uma porca cor-de-rosa que desfilava com seus pequenos passinhos pela cidade, solta como qualquer pedestre. Todos os dias ela passava em nossa calçada. Era uma época em que havia uma banca de revistas em nossa casa e ficávamos boa parte do dia por ali, vendo a rua. Então era comum ver a porca passar. Minha mãe e eu batizamos a porca: chamava-se Ela. E avisávamos uma à outra quando Ela vinha. Assim:

- Corre, vem ver, lá vem Ela. 

Ou comentávamos, intrigadas:

- Ela tá atrasada, né? Será que não vai passar hoje?

Ela era elegante, absolutamente indiferente aos olhares curiosos que a cercavam. Vivia muito além de nossa curiosidade: onde vivia, quem a alimentava, para onde ia assim, rebolando, todas as manhãs? Nunca soubemos.

Hoje me lembrei disso. E, de novo, larguei o computador em cima da cama e quase me levantei. Ia ligar para minha mãe e perguntar "lembra de Ela?". 

Um ano depois ainda tomo susto.


Bolo de lobo



Há várias semanas, talvez meses, recebi um e-mail de um banco divulgando uma de suas Fundações. A dita Fundação estava distribuindo livros infantis (não me lembro se só para os clientes ou para qualquer pessoa). Se interessada, a pessoa deveria preencher um formulário disponibilizado na internet e só. Ora, fui lá e preenchi. Hoje, quando eu nem me lembrava mais da história, recebi pelo Correio três livros. Chegaram em boa hora, numa tarde em que o Arthur tinha visita. Foi meio esquisita a cena, mas tudo bem: as crianças voaram sobre os livros e eu, como uma tola, perguntando mas vocês não vão mais jogar videogame?? Aí ouvi minha própria voz e fiquei quieta. Agora à noite, fui lá ver os livros. Por enquanto vi um só: Chapeuzinho Amarelo, de Chico Buarque (óin!), com ilustrações de Ziraldo (óin!). Gente. Que coisa fofa. Mais velho que a fome e eu nem sabia da existência: a primeira edição é de 1979! Vocês devem ter lido na infância! E ninguém me contou! Vocês, viu. Aff. Enfim, a edição que chegou aqui hoje ganhou Prêmio Jabuti de Ilustração em 1998 (Editora José Olympio). Tenho vontade de transcrever a história todinha porque, né, tem a graça das canções do Chico.


No enredo, uma menina medrosa que não brincava, não corria, não dormia, não fazia nada. Morria de medo de tudo. Principalmente do Lobo. Até que um dia se depara com o Lobo e percebe que ele não é de nada. E que, olhando bem, nem é um lo-bo. É um bo-lo. E vai-se o medo. E ela percebe que muitas vezes pintamos o bicho mais feio do que ele é. Mas não assim, como eu estou contando aqui. De outro jeito: bem lindo, como o Chico faz.

"E o lobo parado assim
do jeito que o lobo estava
já não era mais um LO-BO.
Era um BO-LO.
Um bolo de lobo fofo,
tremendo que nem pudim,
com medo da Chapeuzim.
Com medo de ser comido
com vela e tudo, inteirim." (óin, mil vezes

Fica a dica. Gostei muito das rimas rápidas e que fizeram a criançada gargalhar: 

"...e principalmente um bocão
tão grande que era capaz
de comer duas avós,
um caçador,
rei, princesa,
sete panelas de arroz
e um chapéu
de sobremesa."

Para quem passa por aqui à cata de dicas de livrinhos para a criançada, pode anotar. De agora em diante, vamos fazer como a Chapeuzinho Amarelo: todos os trosmons vão ter os nomes trocados. Tubarão virou Barão-Tu, o Dragão é o Gãodra e o Bicho Papão, que fofo, virou Pão Bichôpa. O lado em mim que nunca cresce se esbalda.  

A caneta mágica de Katherine Mansfield



Outro dia eu estava batendo papo com uma amiga sobre sei lá que texto, dizíamos que estava bem escrito e coisa e tal. Acho que falávamos de como uma história tão simples estava tão bem contada, algo assim. E ela então comentou que o que importa mesmo nas boas histórias - ou naquelas que julgamos bem contadas, bem escritas - é justamente a forma como são construídas, já que, no final das contas, qualquer tema pode se prestar igualmente a um excelente texto ou a um péssimo texto. Pode-se escrever, lindamente ou de maneira sofrível, sobre guerras, corações partidos, grandes amores, um pneu que furou, alguém que ficou muito doente, alguém que morre, um achado genial, determinado período político, uma viagem incrível - qualquer coisa, obviamente. Assim, uma árvore pode ser o cerne de uma história comovente, enquanto grandes feitos da humanidade podem ser descritos de maneira pobre e mal amarrada, gerando um texto ruim.

Não há nada de novo nessa conversa, mas sempre me pego sorrindo à toa quando leio a obra de alguém que ilustra com perfeição o fato comentado por minha amiga. Não me perguntem por quais caminhos seguia eu outro dia nessa rede sem fim, pois não me lembro. Mas sei que passei a vista por um pequeno trecho de um conto de Katherine Mansfield. Gostei, lembrei-me de que só "conhecia" um ou dois contos da autora, lidos há tanto tempo que nem me lembro mais (daí as aspas) e resolvi procurar por mais. Acabei aterrissando nesse site e de lá não quero mais sair. Essa sou eu, suspirando por mais uma mulher nascida no século XIX (o que havia na água que essas mulheres bebiam, gente??), encantada e apaixonada. Que sou assim, dos exageros. Apaixono-me.

Foi amor instantâneo, difícil largar o osso. Depois de ler o primeiro conto, estava com a respiração presa. No segundo, já queria conhecer tudo dela. Depois de ler quatro ou cinco contos, estava me xingando por não ter lido tudo aquilo antes. Pois ali estava, na tela do meu computador, mais um exemplo inequívoco do fato mencionado na conversa com minha amiga: não importa o tema, se a mesma velha história de traição e amizade ou as inseguranças e medos da infância, desde que o tecido do texto seja nobre. Katherine Mansfield sabia disso e abusava. Escrevia e é bonito, não importa muito o assunto. Talvez ela usasse uma caneta mágica, é possível.

Estou em lua de mel. Bliss ainda é meu favorito, mas não me surpreenderei se mudar de ideia daqui a pouco, depois de ler mais um. Quem sabe encontro outro conto em que, à maneira como acontece em Bliss, o verdadeiro tema da história só se revele nas últimas linhas? (Que a linguagem é linda, sim, mas a trama não deixa por menos e nos pega direitinho.)

***

Estava neste ponto do post quando decidi procurar por traduções para indicar a quem se interessar, mas quiser ler em português. Comecei pelo blog da Denise Bottmann, com a intenção de, quem sabe, encontrar alguma indicação de boas traduções. Imaginem minha surpresa ao ver que a própria Bottmann traduziu um conto da Mansfield, The Garden Party (não será publicado por nenhuma editora, fez por conta própria, conforme me contou no twitter). Uma lindeza a sequência de posts ilustrados feitos durante o processo de tradução. Espiem lá e leiam o conto. E apaixonem-se. 


Pequeno vício de quase férias


(Tudo começou assim.)

***

 João Bolinha andava numa fase nublada de sua vida.

 Maria Manchinha, por outro lado, andava radiante...

  ...e decidiu dar uma volta para soltar tanta energia. Fato que irritou João Bolinha.

Irritou demais. 

A ponto de ele não suportar.


 A reação de João Bolinha intrigou Maria Manchinha que decidiu agir. Ela sabia que...

 ... num cantinho sujo do papel havia flores.

E achou que valeria uma tentativa.

Então ela falou da primavera e do poder das canções. Aquilo intrigou João Bolinha, mas... 

... logo ele se lembrou de uma história com estrelas e outras canções velhas.

 O resto foi fácil. Foi só seguir o ritmo.

***

Antes que vocês me perguntem se a gente não faz outra coisa nessa casa, digo que sim, fazemos. Fazemos monstros tenebrosos. Boo.

Tomate e Alface. Terríveis.

***

Férias, meu povo. As crianças estão de férias. (E eu estou quase lá.)

Bom começo


No quarto do Arthur, depois da história na hora de dormir.

Eu - Do que vocês mais gostaram em 2011?
Arthur - Jogar kinect!
Amanda - Brincar de esconde-esconde no escuro!
Ulisses - Nossa viagem pra Paris.
Eu - Eu também. E o que vocês mais querem em 2012?
Arthur - Ai, não sei...
Amanda - Brincar de esconde-esconde no escuro!
Ulisses - Arrumar uma banda pra tocar.
Eu - Escrever.

Daí dormiram e descemos. Esperamos que as horas passassem na cozinha, batendo papo. Abrimos nossa pequena garrafa de champagne, comemos nossas uvas e castanhas. Dissemos que nos amamos e que 2012 será ótimo porque estaremos juntos. Ele cuidou de minha saudade discretamente.  À meia-noite, brindei sorrindo, coração dividido entre a vida boa e o buraco que não cicatriza. Uma pequena dose de melancolia, boas expectativas, tranquilidade. Uma sensação boa de olhar para trás, bem longe, e saber com a alma inteira que esse seria, fácil, o réveillon dos sonhos há muitos anos. E feliz por ver que, saudades à parte, ele é ainda melhor do que parecia quando ainda não era real. Felicidade é feita disso: passar todos os anos ao lado dele, envelhecer com ele, fazer planos de novo e de novo e de novo. Torcer um pelo outro. Falar da chuva e de como foi bom ficar em casa em plena noite de ano novo. E o melhor: saber que não é por isso, por ter ficado em casa, pelas castanhas. Não é.

O ano está sendo ótimo: o arroz ficou bem soltinho, ouvi aquela cantora pela primeira vez, a cidade tem aquelas cores de depois da chuva. E tem bolo com chocolate granulado, o favorito deles. 


 
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