Dos azuis do fim do mundo


Desde que chegamos a Cape Town, tudo me parece azul. O céu incrível que cobre nossas cabeças faz do protetor solar nosso melhor amigo e nos convida a bater pernas sem parar. A cidade que cresceu ao pé da intrigante Table Mountain não nos desapontou: é vibrante, cosmopolita, tem cara de verão; é mais cara do que pensávamos (ou nós andamos comendo demais) e cercada de muitas belezas naturais; seus restaurantes servem peixes deliciosos e seus garçons são simpáticos e muito atenciosos; os brasileiros estão por toda parte e eu, que não sou de comprar quase nada em viagens, passo longos minutos namorando a arte exibida nas vitrines; há pedintes nos trens, beleza por toda parte, prédios incríveis e favelas no subúrbio, como no Brasil. E é linda.

É impossível não erguer os olhos para a grande montanha, com seu longo platô em formato de mesa, que lá de cima observa a cidade azul a seus pés. A Table Mountain é incrível e, turista que somos, foi nosso primeiro passeio. Subimos de carro o morro sinuoso que leva até a estação do bondinho elétrico e nele fomos até o topo da "mesa". De lá curtimos as vistas incríveis da cidade e suas praias. As crianças se esbaldaram no platô sem fim (não percorremos nem um terço de sua extensão), brincando sem parar de "aventureiros". As inúmeras pedras fazem do relevo do platô o cenário sob medida para quem tem sete ou cinco anos, energia e imaginação. Fizemos bem em aproveitar nosso primeiro dia em Cape Town para subir lá, já que no dia seguinte ela estava coberta por um fenômeno meteorológico comum que "estaciona" as nuvens ao longo do platô. Os nativos chamam de "toalha de mesa" e os turistas torcem o nariz porque não conseguem enxergar nada lá de cima. Não nós, que vimos todos os azuis possíveis.

A Table Mountain, vista do Gardens (grande área verde no centro da cidade), no dia em que a visitamos.

A "table cloth", vista do agitado V&A, centro comercial e gastronômico da cidade, um dia depois.

Parte de Cape Town, vista lá de cima.

Meu aventureiro.

Amanda no bondinho, feliz como pinto no lixo.

A Table Mountain faz parte de uma cadeia de montanhas que se estende por boa parte da Península do Cabo, a ponta do continente africano que termina lá no Cabo da Boa Esperança, um dos fins de mundo desse mundão. Hoje nos descambamos pra lá. Queríamos ter alugado um carro, mas descobrimos que é preciso reservar com muita antecedência, talvez meses antes, para conseguir um mísero carrinho qualquer. Não conseguimos nadica de nada, em nenhuma locadora - e tentamos em muitas. Mas Ulisses é um caboclo empolgado e bateu o pé: vamos de trem até não sei onde, de lá a gente pega um ônibus não sei pra onde, e a gente se vira. Vumbora.

Pegamos um trem para a pequena Simon's Town. A estação central de trens de Cape Town é grande e moderna, mas o trem que pegamos é velho e todo pichado. Velho, mas anda; e segue sua rota deslumbrante com o Oceano Índico acenando da janela - e foi só chegar à costa para o cenário virar de cinema. De um lado, a cadeia de montanhas; do outro, o Oceano Índico de águas verdes. Não foi uma viagem feia, se é que vocês me entendem.

Os primeiros olhares sobre o Oceano Índico, da janela suja do trem. 

O que eles viam.

Simon's Town abriga uma base da Marinha Sul-Africana e já foi endereço de bares e hotéis que serviam de point para marinheiros durante muitos anos. Hoje, navios de guerra e outras embarcações dividem o cenário com o mar verde cheio de algas e com as pedras que marcam o encontro das águas com a terra. Achamos graça das piscinas naturais construídas com pedra na praia e que se enchem com as ondas que quebram em suas paredes. Não me pareceu um balneário muito atraente para um bom veraneio, já que a palavra "praia" me faz pensar em faixa de areia. A beleza do lugar, no entanto, é incontestável (a foto aí de cima é quase exceção; quase toda a costa nesse trecho tem pedras, não areia). Nós, no entanto, não queríamos exatamente praia; queríamos os moradores daquelas praias. Simon's Town, para nós, era apenas uma estação de trem e nosso ponto de partida para Boulders Beach, uma praia vizinha dali.

Em Bolders Beach fomos à caça do motivo de alegria da Amanda cada vez que mencionávamos nossa vinda à África do Sul: os pinguins. Ela até já tinha visto alguns exemplares no Two Oceans Aquarium, em Cape Town, no dia anterior, mas é claro que nada se compara a ver o bicho em seu habitat, livre e pinguinzante. E lá fomos nós, procura daqui, procura dali, encontramos a rota que nos levaria ao balneário dos pinguins africanos, uns bichinhos simpáticos demais da conta. Já no estacionamento próximo à colônia de pinguins um bichinho perdido e desorientado nos recebeu, caminhando pelo asfalto quente, tadiiinho. Avistamos vários outros enquanto caminhávamos rumo à grande colônia. E, ah, como valeu a pena. Amanda não foi a única e ficar, desculpem a repetição do adjetivo, encantada.

Eles ficam o tempo todo assim, sendo fofos.

Amanda, satisfeita, com os pinguins ao fundo.

Meu trio, num cenário meia boca.

Fofices.

Pegando onda.

Essa foto inaugura uma série que vai mostrar a você, leitora antenada, as tendências da moda em matéria de penteados para você arrasar no fim de mundo que se aproxima. Cabelo das tormentas, parte 1. Fique ligadinha.

Devidamente deslumbrados, almoçamos e pegamos um táxi para o fim do mundo, já que a conversa tá na moda. Descemos um pouco mais, por cerca de vinte minutos, e alcançamos o acesso à parte do Table Mountain National Park que nos levaria ao Cabo da Boa Esperança, antes conhecido pelo famigerado termo Cabo das Tormentas. E aí, amiguinhos, faltam adjetivos. Cinematográfico? Deslumbrante? Incrível? Escolha o seu e segure (ou não) os cabelos. Foi um dos lugares mais lindos que vi na vida. A irritante mania de cobrar ingresso  pra tudo nem me tirou o humor (mas esvaziou nossa carteira) - respirei e pensei "é para a preservação do lugar" e segui em frente. Quer dizer, segui pra cima. Depois de passar pelo portal pago, embarcamos no funicular que nos levou ao antigo farol a 238m acima do nível do mar e apertei o botão da máquina fotográfica como louca. O adjetivo que escolho é: emocionante.

Se você conferir no mapa, verá que há duas pontas bem próximas no finalzinho da Península que encerra o lado sul do continente africano. São Cape Point, onde fica o farol, e Cape of Good Hope, o famoso cabo tormentoso virador de navios. 

Arthur e Ulisses, no funicular rumo a Cape Point.

Cape of Good Hope, visto do alto do Cape Point.

Um penhascão de tirar o fôlego.


 O farol que avisava aos navegantes que o Cabo estava ali (existe outro, mais novo, em outro ponto perto dali).

Meu aventureiro favorito observando o ponto onde os oceanos se encontram (somos uma família organizada: primeiro a gente faz o safári; só depois a gente compra o binóculo).

:-)

:-D

Cabelo das Tormentas, o grande ensaio.

Cabelo das Tormentas, o definitivo.

E como não poderia deixar de ser, fomos lá na plaquinha do Fim do Mundo registrar nossa presença. Perto dali, vimos windsurfistas corajosos brincando com o vento que não é de brincadeira, em águas que abrigam o famoso tubarão branco. E eu me achando aventureira, vejam vocês. Para registro globalizantes, lá no alto, no farol, encontramos um angolano que conhece Campina Grande, lá na minha Paraíba, e, no Cabo da Boa Esperança, onde a África despenca no encontro dos dois oceanos, Arthur cruzou com um xará paulista. O mundo.

Minha sogra, no fim do mundo.

Nós, lá, torcendo para o vento não nos levar.

Voltamos no mesmo taxi para Simon's Town e, de lá, de trem para Cape Town. Jantamos no hotel, cansados e felizes. Amanhã pretendemos explorar um pouco mais a cidade, quem sabe visitar um museu interessante ou outros lados que ainda não vimos. Tá quase acabando. Mimimi.
    
Nosso mundo, lindo.


14 comentários:

Iara disse...

Vamos lá, tentar de novo. Achei tudo lindo, lindo, lindo. E os pinguins me lembraram a Argentina. <3

Luciana Nepomuceno disse...

50 tons de azul. Sucesso garantido. E amei as tendências estéticas pré-fim-do-mundo.

Lílian disse...

Adorei os cabelos, é quase uma queda de precipíciooooooooooo!!!! E adorei VER A MAMÃE! Xero, família, boa viagem,Deus abençoe!

Daniel Nascimento disse...

Adorei o texto, adorei a viagem de vocês, fascinei-me pelas fotos.

Boa viagem! Bjos.

Daniel.

Angela disse...

Minha nossa que lugar LINDO! Obrigada por gastar seus minutos preciosos para compartilhar tudo isso com nos aqui! Beijos!

Clara Lopez disse...

Nosfamília empolgada com razão nesses cenários puro luxo de beleza. Não conhecia o Ulisses que é um gato :-) Os dois gatinhos felizes bom demais de ver; você e seus cabelos ao ar bom demais e a mamãe só precisa chegar mais pertinho na foto mas parece gente finíssima. Beijos e mais alegrias e fins de mundos notáveis sempre para a bela troupe :-) Clara

disse...

No alto da madrugada, dando de mamar para a pequena que insiste em acordar como uma recem-nascida apesar dos seus 10 meses, eu ri alto dos cabelos. Adorei a moda! E haja gel!

Fotos lindas, adorei os pinguins e a alegria dos pequenas. Viagem inesquecivel.

Beijos!

Juliana disse...

cabelo de diva até nas tormentas! =)

Fabiana disse...

Rita do céu, que viagem maravilhosa! Cada foto mais deslumbrante que a outra. Minha predileta é a da Amanda c'o cabelo na cara! ; )

Anônimo disse...

Sogra no fim do mundo é o que há.

Silvia disse...

Rita
Nem tenho palavras!!
Adorei tudo o que escreveu e as fotos!!
Obrigada por partilhar e já agora aproveito para desejar Feliz Natal para todos! beijinhos daqui de Portugal, onde se treme de frio!!
Boa viagem e bom regresso a casa!

Alice disse...

UAU!

Rita disse...

Obrigada pela companhia, gente!

Já estamos em casa, safe and sound!

Beijos,
Rita

Angela disse...

Viva! Feliz Natal :)

 
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