Bagagem


Os planos para mudarem de país foram desenhados aos poucos, quase sempre durante as refeições noturnas, enquanto mastigavam o final do dia. Nunca saberiam dizer ao certo em que momento da vida cogitaram deixar aquele bairro e seguir para outras comidas e outra língua. Sabiam somente que a ideia combinava com o que nutriam desde sempre, a mania insubstituível de abrir os olhos. Sabiam disso e se entregavam aos planos sem muita ansiedade, tranquilos como quando iam ao piso inferior da sala grande escolher um livro para antes de dormir: cogitavam possibilidades enquanto alisavam lombadas velhas com o pescoço torcido para ler os títulos dispostos na vertical. Folheavam futuros possíveis. Depois escolhiam um país qualquer e imaginavam uma história escrita lá, por eles. Foi questão de tempo até chegarem a uma escolha que tanto poderia ser boa como esquisita, óbvia ou exótica, dependendo de quem a lia. Assim, comunicaram chefias, reservaram passagens, empacotaram as poucas coisas que julgaram úteis ou valiosas e ligaram para os amigos. A duas semanas do voo, dirigiram-se ao piso inferior da sala grande, abriram as duas grandes malas recém-compradas e se puseram a fazer a escolha mais difícil, posto que a biblioteca ficaria onde estava. Não chegaria a ser exatamente uma separação. Muito do que preenchia as páginas dos mais de seis mil títulos já havia sido replicado dentro deles em incontáveis tardes geladas de sábado e em muitas insônias com chá e lareira. Partiriam deixando a biblioteca para que outros moradores também erguessem os olhos daquelas páginas para observar, com olhos cada vez mais abertos, a neve lenta que caía por longos meses do lado de fora do janelão de pedra. No maior exercício de desapego de suas vidas, fizeram suas escolhas, calcularam o preço do excesso de bagagem e fecharam as malas. Nos dias que se seguiram, voltaram a abri-las várias vezes, trocando escolhas, experimentando remorsos e ciúmes. Haveria para sempre lembranças saudosas, mas mantiveram-se fiéis à decisão inicial e financeiramente viável de duas malas, apenas. Assim se despediram da biblioteca cuidadosamente montada por eles ao longo de muito tempo. Quando o dia chegou, fecharam a porta e foram. Quem veio depois nunca soube dos desfalques. Eles, que partiram, enfrentaram meses de tabu, incapazes de sequer tocar no assunto ou mesmo abrir as duas malas cheia de cheiros da velha biblioteca. No entanto, sabiam que, de certa forma, aquelas passagens haviam sido compradas com o primeiro volume da primeira coletânea de contos e que é isso que os livros fazem, empurram a gente lá do topo da pedra rumo ao mundo que só vemos da asa delta. No final das contas, tudo fez muito sentido e continua fazendo.

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A historinha central é real. Os detalhes moram na minha cabeça. Meu amigo deixou seus milhares de livros para trás há muitos anos, numa época em que volumes não cabiam em bits e bites, mas carrega o mundo dentro de si até hoje. Um mundo que cresce todo dia. (A expressão "maior exercício de desapego" foi usada por ele enquanto me contava da arrumação das malas.)


 

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