November rain


(A primeira parte desse post foi rascunhada ontem. Hoje abri para dar uma olhada e, sem querer, cliquei em "publicar". Logo depois reverti para rascunho, mas ele ficou no Reader, incompleto mesmo. Se você lê o blog pelo Reader, vai ter sensação de dejà vu.)

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Os novembros dos últimos dez, onze anos, têm me trazido os anúncios da perda. O próximo dia 24 marcará 12 anos da morte do meu pai. Quinze dias depois, já em dezembro, a morte de minha mãe completará dois anos. Chega tudo junto: os enfeites de Natal, os planos de férias, as lembranças das últimas semanas deles, os filminhos da memória insistente. Até 2010, antes de minha mãe sucumbir e nos deixar, ela também revivia a partida dele e certamente revisitava seus longos anos de convivência (às vezes tão dura) com ele. Agora fiquei eu, com os filminhos. Lembro sempre, como se o calendário, que insisto em dizer que não manda em mim, não falhasse nunca em me fazer ver que datas, afinal, marcam. Existem. E nos puxam pela mão, se deixarmos. Eu deixo, às vezes. Meu pai foi ausente; nossa relação teria ficado pra próxima, se eu acreditasse em próximas. Mas ele esteve ali, na minha infância, na minha vida, na vida de minha mãe, do jeito que foi. E ela foi ela, minha referência para mais coisas do que aprendi a perceber até aqui. Então os novembros chegam e me dizem "vem ver, de novo". Há cerca de duas ou três semanas, corri os olhos por alguns posts antigos à cata de uma receita. Uma coisa leva à outra e logo me vi relendo os posts em que trato dos dias mais difíceis que vivi até hoje. O tanto que chorei relendo aqueles relatos escritos com dor e saudade não medem o que sinto, nem revelam a pessoa que tenho me tornado desde a morte de minha mãe. Ainda assim, as lágrimas e os soluços não deixam de ser ecos de palavras que digo tentando me aproximar do que ficou dela em mim. É novembro e está bem quente, já. Todo dia tem um pôr de sol mais bonito que o anterior; eles ajudam a camuflar a sombra e o frio do calendário.

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Hoje conversamos com nosso filho de sete anos sobre o Dia da Consciência Negra. Papo vai, papo vem, uma coisa puxa a outra e, bem no meio de uma frase sobre como os negros já foram escravizados no Brasil, ele me interrompe com ar de estupefação e diz:

- Rá!! Queria ver se tivessem feito a mesma coisa com os brancos! Esses brancos teriam gostado?? Hein??! Humpf.

E acrescentou sei lá mais o quê sobre cada um ter uma cor diferente e tal. Ulisses falou que no fundo somos uma grande mistureba que começou há muito tempo e dissemos que precisamos olhar para as atitudes das pessoas, aquele papo todo. Daí a irmã de cinco anos encerrou a conversa, com ar de quem já entendeu tudo sobre os conflitos sociais do mundo:

- O que importa é o coração. Que é vermelho em todo mundo.

:-)


7 comentários:

Cecilia disse...

Ah, como seus filhos são fofos! Adoro seus relatos, a gente fica com a sensação de os conhecer.

Rita, eu nem consigo avaliar a saudade que você sente da sua mãe, mas desejo que doa cada vez menos e que as memórias doces possam de alguma forma compensar o vazio deixado. Fica bem!

Angela disse...

Que linda observacao da Amandinha. Fiquei boba mesmo.

Sinto tanto pela sua dor e saudade da qual so entendo parcialmente.

Um grande beijo.

Luciana Nepomuceno disse...

Bom, já sabemos que quando vocês forem ver o boi, a Amanda torcerá Garantido com certeza ;-)

E fico torcendo que seus novembros, como labirintos de saudades, sejam, sempre e cada vez mais, a possibilidade de um olhar terno pro que encontrar no centro...usualmente, nós mesmas, né.

Vi disse...

Adorei a visão de seus filhos sobre o mundo.
Sobre perdas e dores, espero que o tempo aplaque ou suavize o que não pode ser simplesmente apagado.

Abraço!

Vi
www.bardodataverna.blogspot.com
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Silvia disse...

Que o tempo seja suave e doce, para que todas as dores se apaguem mais depressa. beijinhos

Dária disse...

Sou apaixonada pelos seus filhos! Se eu morasse em Florianópolis era capaz de ter sequestrado eles rsss

Anônimo disse...

Que lindo Amanda!!
E para voce minha amiga um abraço bem apertado.
Ju

 
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