Edícula


A sala é clara por causa das janelas amplas com molduras brancas e vidros transparentes. A vista dá para o jardim que é colorido porque o gosto por flores nunca passou. A outra parede, sem janelas, tem um quadro de muitos anos, com moldura restaurada; é um portal, mas poucos sabem disso. Abaixo dele um vaso de pedra abriga as raízes de uma planta robusta que se alimenta da mesma luz que ajuda a desbotar o quadro. Há o recanto do sofá; é verdade que anda gasto, mas ainda não é páreo para as dores antigas de sua dona. Há uma TV que de vez em quando mostra filmes vistos pela metade, abandonados sem culpa em troca de um abraço raro ou uma xícara de café morno nas cadeiras de corda do jardim. Há mais cafés que abraços e, por isso, mais canções. O outro extremo, mais distante das janelas, e por isso mesmo mais secreto e propício a sussurros, guarda o piano marrom. Tem teclas sem pó que ecoam notas distorcidas pelos segredos que recebem dos dedos enrugados dela. E ela sabe que a cada melodia as cores do quadro velho com moldura nova se aproximam mais e mais dos cinzas e marrons do passar do tempo. É uma dama de histórias e por isso no vasto centro da sala clara habita a grande mesa escura. Uma mesa velha, de madeira sulcada, com gavetas. Suas cadeiras são tão pesadas que aquela que fica à cabeceira esquerda sequer é recolhida após o uso. Está sempre à distância certa da mesa, um trono pronto para recebê-la. Passa a maior parte entre o silêncio da mesa e as lembranças cada vez mais difusas que voltam com as notas do piano. Outra canção, menos cor. Outra história e a mesa cresce, escurece. Tudo vai passar. Haverá um tempo em que a TV será doada junto com o sofá. A mesa ainda ficará lá por muito tempo, com sua madeira muito escura e gavetas apinhadas de papéis e rabiscos ininteligíveis. Ficará lá, na sala sem plantas ou fotos, de janelas sujas e paredes quase nuas. Restará apenas uma estranha tela sem cor, emoldurada como se fosse um quadro pronto. Uma tela sem sentido algum, que não dirá nada a ninguém. Muda, como o piano abandonado. 

6 comentários:

Fabiana disse...

E esse livro, Rita, SAI QUANDO?

Silvia disse...

Lindo!!
Beijinhos Rita!!

Rita disse...

Obrigadinha, meninas. Fabiana, sua linda. ;-)

Anônimo disse...

Lindo Rita!!!
Abraço forte,
Ju

Ana Flavia disse...

Adoro seus textos (e esse blog todinho, diga se de passagem).

Rita, te adicionei no facebook, que queria te mandar um email mas nao encontrei aqui, posso?

Beijo

Ana Flavia

Murilo S Romeiro disse...

Muito bom!
abçs

 
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