Dos pais, da música, do Sertão


Eu me lembro da coleção de discos de vinil da minha casa quando eu era criança. Era uma coleção modesta, com alguns discos de música instrumental, quatro ou cinco discos infantis, um de música religiosa, vários com gravações da década de 40 ou 50. E, claro, os muitos discos de Nelson Gonçalves que meu pai ouvia como quem reza, sentado no sofá da sala, concentrado, prestando atenção. Quando minha adolescência chegou, surgiram outros poucos discos de bandas de rock ou pop music, mas nossa coleção nunca chegou a ser pomposa e logo transferi meus afetos para as fitas k-7 que moravam no meu quarto. Eis que ontem me lembrei de outros dois ou três discos que também faziam parte do nosso parco "acervo" naquela casa onde a música nem sempre era sinônimo de celebração e festa -  às vezes apenas substituía a conversa, mas isso é outra história. O que quero dizer é que me lembrei de outros discos e daquela voz rouca que saía deles porque vi suas capas no filme Gonzaga - de Pai para Filho. Gonzaga era talvez a única unanimidade em uma casa onde cada um gostava de um estilo de música diferente. De Gonzaga todo mundo gostava, ainda que, certamente, por razões distintas.

Para mim, Gonzagão resgata três universos pelos quais minha vida circulou por algum tempo. Um deles era a alegria discreta de minha mãe. Minha mãe não era de gargalhadas, então aprendi a ver sua alegria nas outras embalagens que ela tinha; e talvez  ela não fosse grande entusiasta do mundo da música, mas o Xote das Meninas sempre a fazia sorrir. "Ah, essa é linda!", ela dizia e cantava fora do tom a música que eu adorava e ainda adoro dançar. Um outro universo que a voz de Gonzaga me faz revisitar é o das festas juninas na escola e, mais tarde, na terra do maior São João do Mundo. Os grandes festejos que sacodem Campina Grande todo os anos deixavam minha mãe de cabelo em pé, meus pés cansados de tanta festa e os assuntos renovados por muitas semanas. São muitas as variações regionais do bom e velho forró que surgem a cada ano, mas duvido que ainda hoje a sanfona de Gonzaga não seja ecoada incessantemente nas festas juninas de lá.

No entanto, não foi o Xote das Meninas (que nem aparece no filme) ou a lembrança das festas de Campina Grande que me deixaram de olhos inchados no cinema ontem à noite. Foi outra coisa cujo nome desconheço, mas que deve ser muito maior em mim do que suspeito. Por não saber o nome, minha cabeça dá giros na tentativa de identificar que coisa é essa que entra na gente em nossa infância e nunca mais vai embora. Não sei o nome, mas sei que dos cheiros e cores e, claro, dos sons. E sei que boa parte da vida de meu pai foi sombreada por fantasmas que ninguém entendia e que seu sorriso era raro; mas várias das poucas risadas de que me lembro ver saindo de sua boca vieram acompanhadas de canções de Luiz Gonzaga. Ele cantava e ria das conversas de Gonzaga cortando a música, eu me lembro bem. E até acho que um filme contando a vida de Nelson Gonçalves teria mais ibope com meu pai, mas para mim é impossível não lamentar que ele não tenha tido a chance de ver esse filme.

A gente vê o artista e não faz ideia. A gente imagina o sertão, mas também não faz uma ideia muito precisa do que tenha sido viver ali nas décadas de 30 e 40 no século passado. Ou da valentia que aquele povo tinha - ou retirava da terra, como eles dizem. E quanto mais penso nas lonjuras e na pobreza, quanto mais penso no abandono e na sobrevivência improvável, maior fica a beleza das canções de Gonzaga. O filme me ensinou muita coisa sobre o lado menos glamouroso da vida do "rei do baião" e, longe de me decepcionar, mostrou a desordem, as confusões emocionais que o fazem parecer mais próximo de nós. Não há como não se emocionar com a triste infância de Gonzaguinha, que experimentou o abandono em várias formas, e fico me perguntando quanto da dor que ele viveu o inspirou a compor o hino de alegria que é sua famosa canção O que é, o que é?. Porque a vida dos artistas tem dessa alquimia louca que transforma solidão em poesia e sede em festejo. Quanto a mim, fiquei ali na cadeira do cinema, chorando tanto que o soluço me sacudia.

Ainda não sei o nome dessa coisa que a música de Gonzaga foi buscar nos quintais da minha memória. Sei que fiz minha pequena alquimia particular e transformei aquele açude que jorrava dos meus olhos inchados em uma silenciosa homenagem à memória de meu pai. Sua morte completa doze anos neste sábado e Assum Preto, que ele assobiava alto e afinadíssimo, me chega como um hino. Hino de carência, de perguntas, até de um certo rancor - entendo muito o Gonzaguinha mostrado no filme. Também de alegria por ter tido em minha infância trilha sonora tão nobre.

Não deixem de ver o filme. E leiam o lindo texto da carioca Juliana, uma ótima amostra de como a obra do menino pobre que mal sabia ler, nascido nos cafundós do mundo (ou no centro do mundo, dependendo de onde se olha), de riso fácil e vida confusa, tocou tanta gente de tantos lugares desse país incrível. Salve, Gonzagão.

A você, José Flor.


8 comentários:

Anônimo disse...

Lindo, Rita, lindo! Eu tbm fiquei emocionada demais com esse filme, por causa da nossas origens nordestinas resgatadas. E principalmente pela catarse que experimentei, vendo a história de Gonzaguinha e o pai e pensando na minha ( falta de história) com o meu.
Larissa

Vi disse...

Há sempre algo assim, meio desconhecido, meio conhecido, que nos teleporta aos áureos (ou nem tanto) instantes da nossa infância. No meu caso são os cheiros, as fragrâncias... com elas retorno a melhor das minhas fases.

Abraço!

Vi
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Tina Lopes disse...

Pensando nessa coisa que a gente sente que vem da infância e que a gente não sabe nomear: acho que é a memória da ingenuidade, a sensação de que aquela era a vida "certa", que está tudo no lugar, sabe? Aí um dia a gente percebe que nada é perfeito e a coisa se quebra pra sempre.

Ana Claudia disse...

Ah, Rita... Esse seu texto me encheu a alma de saudade. Tenho um carinho todo especial pela sua terrinha... Agora estou fazendo uma especialização nos EUA, mas em 2008 eu e minha família nos mudamos para João Pessoa para encarar uma nova fase de trabalho, sozinhos, batalhando pelo nosso espaço. Fazíamos muitos atendimentos em Campina Grande. Meu marido chegou a ir algumas vezes até Patos. Eu morava em João Pessoa, mas vivia tentando convencer a ele a nos mudarmos para Campina Grande (pensando também nas minhas orquídeas, que seriam mais felizes em um clima mais fresquinho). Mas ficamos por lá apenas por 6 meses, pois acabamos nos mudando para Gravatá, visto que a maior parte de nossos clientes estava em Pernambuco. E por lá ficamos por mais 1 ano e meio. Amo a Paraíba! Ainda tenho muita esperança de conseguir voltar para lá, quando terminar minha especialização aqui. E, viajando pelo interior, indo até o sertão, eu consegui entender melhor as palavras que são cantadas em vários forrós que ouvimos no Sudeste.
Ah... E só mais uma coisinha... Se algum pernambucano ler o seu texto, capaz de rolar barraco nos comentários....hihihihihihi... A eterna disputa do maior São João.
Beijo

Clara Lopez disse...

Uma história linda, mesmo, essa que o filme reconta, e sua leitura é sensível, muito boa e muito tocante - acho que nos re-encontramos no filme pela memória de ausência paterna (há sempre um resíduo dessa ausência dele e quase todos, pelo menos da minha geração, não sei) e pela música, que junta a alegria, a nostalgia e os encontros. Você escreve sempre tão bem, Rita, sabe tocar o coração do leitor :))
abraço, clara

Rita disse...

Passando só pra dizer que adoro os comentários de vocês, leio todos, sempre. E que, Ana Claudia, o maior é em Campina, tá? ;-) (Tô brincando, não ligo muito pra disputa, hahaha, mas, né, o título de "maior" é de lá...)

E, Larissa, beijoca grande procê.

Rita

Rogério disse...

Tenho orgulho de dizer "nestas veias corre sangue nordestino". É que meu pai é de Caruaru, Pernambuco, segundo maior São João do planeta (o velho vai me matar!). Ainda não vi o filme, mas seguramente não comungarei da catarse, aristotelicamente falando, relacionada à ausência (física ou não)paterna, porque tenho a felicidade de, desde sempre, manter relações mais do que estreitas com meus velhos. Sei por alto da história do Gonzaguinha e do ressentimento de que jamais fez segredo, e imagino que a abordagem disso no filme vai me tocar a alma, talvez me faça entender melhor as coisas que ele escreveu e que tanto me fascinam. Quanto ao velho Lua, falar o que? Você disse que em dados momentos ele é desnudado de sua condição de ídolo, o que não chega a causar comoção ou decepção. Somos humanos, né?, ponto para o diretor. Seu relato me aguçou. Este fim de semana estarei em São Paulo (passeata nesta idade, pode?), mas assim que achar alguém para tomar conta do meu Lucas, vou catar a madame e correr para o cinema.

Juju Balangandan disse...

Que boniteza seu texto, me deu uma enorme nostalgia. Assum Preto lembra as mãos tão bonitas da minha mãe, que me doía ver tocar uma música tão triste. Obrigada pela lembrança.

 
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