"Brindes" em sala de aula: sem problemas?


Quando eu estudava na quarta série do que hoje chamamos Ensino Fundamental, a professora um dia entregou às meninas da turma um livrinho. Fomos instruídas a levá-lo para casa, mostrar às mães e ler com elas. Todas receberam e trocaram olhares eufóricos. Levei meu exemplar agarradinho contra o peito e mostrei a minha mãe. Ela aprovou o conteúdo e disse que eu poderia ler sem qualquer problema. E então eu aprendi o que era menstruação.

Depois de esclarecer algumas dúvidas técnicas com minha mãe (o que é fluxo? o que é ciclo? como assim, todo mês? óvulo? quando começa?), tive um caso de amor com o livro. Era lindinho (ou assim me lembro), com ilustrações de uma garota muito feliz com sua menstruação e seus absorventes. Esperei ansiosa minha vez de usar os tais absorventes "aderentes à calcinha" - hahahaha! Ai, chamávamos absorventes de "aderentes". Enfim, divago. 

Aliás, só divago, porque ainda nem toquei no assunto deste post. Chego lá já, vão vendo. 

Mais tarde, quando minha primeira menstruação chegou, comprei feliz da vida vários pacotes do absorvente cuja marca patrocinara a edição do tal livreto da quarta série. Durante muito tempo, eu sequer cogitei comprar outra marca de absorventes que não fosse aquela divulgada no livro. Havia outras opções disponíveis no mercado, mas eu nutria certa relação afetiva com aquela marca, daquele livro, daquelas gravuras da menina feliz e menstruada, e por muito tempo foi aquela marca que consumi.

Então tá. O tempo passou, anos depois me dei conta de como o fabricante dos absorventes deve ter lucrado com a edição daquele livreto. Fiquei pensando na estratégia dos publicitários da marca em abordar as escolas e oferecer a distribuição dos livros às alunas. Centenas, milhares de futuras consumidoras ali, ao alcance, tão perto, tão fácil. Vira e mexe, lembro-me do episódio com aquela cara de ah, danadinhos, vocês me pegaram de jeito. Há alguns dias, pensei nisso outra vez. Adivinhem por quê?

Meus dois filhos chegaram da escola com um livreto ilustrado, cheio de desenhos para colorir, adesivos para colar e valiosíssimas instruções sobre o uso necessário do protetor solar. Informação muito bem vinda às vésperas do verão tropical que se aproxima, tudo lindo. O livreto deve ter agradado a praticamente todas as crianças do colégio - livrinho com personagens conhecidos por dez entre dez crianças brasileiras. De brinde extra, um sachê com protetor solar da marca X lançado no mercado em parceria com a empresa criadora dos personagens. Olha. 

Aposto que não, mas vou perguntar: só eu me incomodo com a publicidade invadindo a escola? Com produtos que não escolhi usar em minhas crianças chegando às mãos delas antes de passar pelo crivo meu e de meu marido? Acho válido demais a escola ensinar sobre os benefícios e perigos da exposição aos raios solares, obviamente. Mas acho igualmente válido que ensine a eles sobre os recursos dos quais a publicidade pode lançar mão para atrair consumidores. De preferência, sem levar à sala de aula um produto travestido de bom moço (notem que não faz a menor diferença se o produto em questão é ou não de boa qualidade, o ponto é outro). No momento em que a publicidade voltada ao público infantil está no centro de debates país afora, eu esperaria encontrar na escola um ambiente engajado no debate até o pescoço. Minha primeira atitude foi mostrar aos meus filhos que ali estava sendo aplicado o mesmo recurso do suco de caixinha que tem o personagem mais legal na embalagem, mas não necessariamente o suco mais bacana. Acho que entenderam e dificilmente me pedirão para comprar o produto. E se pedirem, adivinhem a resposta. Mas, convenhamos, a escola deveria estar me ajudando nessa função e não dificultando o processo.

(Ainda não conversei sobre o assunto com a direção da escola, de que gosto muito, aliás. Farei, em breve.)

6 comentários:

Terla disse...

Conta pra gente depois a resposta da escola! Fiquei curiosa =)
Eu amava ganhar os brindes da escola, mas não lembro de fidelizar (o que não quer dizer que não tenha acontecido, claro).

Vi disse...

Bem... é um planeta vendido. Vemos isso com frequência também nas faculdades. Não é difícil imaginar que a instituição recebe alguns "incentivos".
Isso aí, mãe! Não deixe seus filhos serem reféns da MARCA.

Vi
www.bardodataverna.blogspot.com
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Rogério disse...

Também não gosto desse tipo de imposição, e critico. A direção da escola do meu filho deve ser minha fã, porque frequentemente questiono alguns métodos ou decisões adotadas, e sempre faço de maneira formalizada. A última foi a mais delicada, porque eu critiquei a prática perigosa do copiar e colar na íntegra textos da internet, sem a necessária adaptação à linguagem e estágio de estudo de meu filho. Ontem, veio encartado na agenda do moleque um folheto contendo propaganda de uma escola de inglês. Considerando que é aquela escola que tem o Pelé como garoto-propaganda, e quem tem noções mínimas de inglês sabe o quanto é horrorosa a pronúncia dele, nem cogitei nada. Mas, na boa, meu lado mais chato ficou pensando que a escola não deveria servir a esse tipo de coisa.

Tina Lopes disse...

Eu reclamaria também, na agenda, na reunião e com a direção. Acho o fim. A gente paga a escola pra ela ceder espaço para propaganda? O que a escola está lucrando com isso? Por que isso é necessário? A escola pode muito bem passar sem isso e as crianças, principalmente. Fico puta com esse tipo de coisa. Aliás, só pra constar, nunca recebi um brindezinho na minha vida escolar - pública.

Natalie disse...

Ótimo post, ótimo tema. Sou super crítica à publicidade para crianças nas escolas (e nas TVs também). Depois conte como a escola respondeu a seu questionamento. Acho que as mães temos mesmo de mostrar a nossa insatisfação com esse tipo de aliança nada interessante aos pequenos entre escola e indústria.

Abs

Marília Moschkovich disse...

É muito mala isso. Outro dia alguém escreveu sobre a "volta do Lollo" e também foi um rolê parecido, de afetividade com a marca, etc. É uma estratégia muito injusta e, penso eu, antiética. É bem problemático a escola não ter o senso crítico de barrar isso. São poucas que têm, infelizmente... A maioria deve achar que "mal não faz", igual a discussão de laicidade, etc. É phoda. :(

 
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