A fundação


No início dos anos 80 Paulinho morava em um bairro de classe média de Manaus. Tinha a infância de sua época, o que em parte quer dizer que o playground era a rua. Paulinho tinha família, pai e mãe zelosos, frequentava a escola e fazia aula de música no conservatório, mas era na rua que sua infância se desenhava pra valer. Nos dias de férias ou de final de semana era comum ele engolir o café  da manhã de qualquer jeito. Tinha pressa de sair correndo para encontrar a turma de amigos, moradores da mesma rua, e com eles passar praticamente todo o dia. A mãe bem que gritava da janela do apartamento quando o almoço estava  pronto, mas nem sempre o som de sua voz alcançava as orelhas de Paulinho, ocupadas com os sons dos meninos de sua idade. Ou talvez Paulinho estivesse distante demais para ouvi-la, pedalando na bicicleta emprestada pelo amigo mais abastado que morava no alto da rua. Somente quando a fome berrava ainda mais alto que sua mãe, lá pelo final da tarde, ele voltava para casa. E aí jantava, antes de descer para as brincadeiras noturnas com a mesma turma.

Ao lado do prédio onde ficava o apartamento de Paulinho havia um terreno abandonado. Tempos antes dessa história, tinha funcionado ali a sede de uma fundação beneficente; ou de uma associação qualquer. O lugar era conhecido como "a fundação". O prédio havia sido praticamente destruído por um incêndio e ninguém se encarregara de providenciar a recuperação do lugar. Quer dizer, quase ninguém. Porque a turma do Paulinho vislumbrou ali um cenário bom do qual se lembrar depois. Em meio às paredes que sobraram de pé após o incêndio, eles se organizaram e limparam um dos lados do terreno, removendo os escombros para o outro lado, já cheio de mais escombros. E ali instalaram a "quadra de vôlei" do grupo. A rede improvisada era uma ripa de madeira retirada do que sobrara do assoalho das ruínas. Na época da quadra, Paulinho tinha dez anos e seus pés viviam descalços e pretos de grude.

Não havia luz no terreno da fundação, naturalmente. Quando as noites quentes de Manaus chegavam, o vôlei do dia cedia lugar para outra brincadeira popular entre aqueles garotos: o bom e velho esconde-esconde. Os escombros empilhados, as paredes parcialmente destruídas, os morros de tralha, tudo servia como possível esconderijo perfeito. Paulinho apostou nisso na noite em que levou a paulada na cabeça. 

Outras crianças dividiam a rua com o grupo de Paulinho, claro, e naquela noite havia um grupo de meninas brincando com suas massas de ginástica rítmica. No lado da rua oposto ao da fundação, o mesmo poste que iluminava as acrobacias das garotas fazia as vezes de barra de salvação do esconde-esconde dos meninos. Como manda o figurino, alguém contou até vinte e todos se espalharam. Paulinho atravessou a rua, pulou o muro (única forma de ter acesso à fundação) e mergulhou no breu do labirinto de cacarecos semicarbonizados. Subiu, desceu, escalou e se esgueirou. Aquele silêncio momentâneo que antecedia a gritaria dos vitoriosos fazia com que Paulinho pisasse com cautela sobre o chão irregular para não ser flagrado pelos companheiros. Sem enxergar um palmo à frente do nariz, foi tateando aqui e ali. E para não despencar no meio daquela bagunça imunda, apoiou a mão esquerda no que achava ser uma parede - e aí sentiu a fisgada. A dor foi forte o suficiente para incomodá-lo, mas não tão forte a ponto de fazê-lo gritar e correr o risco de, deus o livre, ser encontrado e perder a rodada. Buscou a saída das ruínas sentindo a região do pulso latejar. Desceu, escalou, desceu de novo e se esgueirou. Após pular o muro com dificuldade, alcançou a rua. E a luz então lhe mostrou o corte profundo na base de sua mão, ali do ladinho do pulso. Assustado e com mais dor (a visão do corte aumenta a dor, todos sabemos), Paulinho até cogitou uma gritaria, mas no mesmo momento percebeu que a barra estava vazia e adiou o berreiro por alguns segundos - sabe como são as prioridades. Correu pela rua em direção ao poste, segurando o grito de dor e medo. Chegou a alcançar a barra e se salvar, bem ao lado das meninas que brincavam exibindo suas habilidades com as massas da ginástica rítmica. Habilidades que não deviam ser assim tão incríveis, já que uma das massas tomou um rumo doido e acertou em cheio a cabeça de Paulinho - que, agora sim, já sem riscos de perder na brincadeira, entregou-se às dores e despencou a chorar e berrar. Os amigos acudiram sem saber bem o que tinha acontecido, uma vez que Paulinho ora apontava para a cabeça alvo da paulada, ora para a mão cortada. Foi nessa noite que ele voltou para casa mais cedo e a mãe nem precisou chamar.

Meu marido Ulisses, o verdadeiro Paulinho, já me contou essa história algumas vezes. Na última delas, ele tinha acabado de verificar se Arthur e Amanda estavam brincando em segurança. Os dois estavam aprontando estripulias radicais numa sala de recreação montada em um restaurante que frequentamos de vez em quando. A "arriscada" manobra da Amanda, equilibrando-se em pé sobre uma pilha de almofadas num ambiente com tapetes e borrachas, claro, fez "Paulinho" rir e me mostrar a cicatriz perto do pulso mais uma vez. 

Continuo levemente neurótica com riscos de queda, queimaduras e sei lá mais o quê, mas o episódio do esconde-esconde no terreno da fundação de vez em quando serve com um banho de deixa-de-frescura. Funciona (nem sempre, tá). Se uso como parâmetro um esconde-esconde noturno em um terreno queimado e sem luz, cheio de cacos pontudos escondidos nos escombros, passo a achar que despencar da gangorra (oi, Arthur) e se ralar toda andando de patins (né, Amanda?) parecem, digamos, brincadeira de criança. 



1 comentários:

Rogério disse...

Já fui muito mais metido a protetor do que sou hoje, o fato é que tinha o apelido de pata choca. Lógico que não gostava, mas estava longe de ser injusto. Hoje minha filha tem 28 anos (o 'pata choca' foi na infância dela) e o Lucas tem nove, é todo roxo de futebol, skate, karatê e o que mais vier, mas ainda assim tem 'estripulia' que não permito que ele faça, "porque é perigoso". Depois fico me achando um idiota hipócrita, já que às vezes proibo meu filho de correr os riscos que eu corri quando tinha a idade dele. Eu me policio muioto, mas acho que não há analista capaz de me consertar nesse quesito.

 
©A Estrada Anil - Todos os direitos reservados. Layout por { float: left; }