Das febres


A virose que bagunçou o estômago da Amanda mudou a cara da nossa segunda-feira. Amanhecemos entre termômetros e dengos. Além da moleza da febre, doeu ver a carinha de triste por perder o passeio da escola no primeiro dia das comemorações pela tal "semana da criança". Não parece ser nada grave e espero que as poucas fatias de maçã e torrada engolidas ao longo do dia consigam ajudá-la a se recuperar logo. Fora isso, fizemos a ciranda do revezamento e minha tarde teve trabalho, mas também teve Uno com a convalescente, bonecas e canções do Toquinho. Teve também um irmão todo cuidadoso dando beijinhos na testa e perguntando se ela "ainda tá com frio".

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Há outras febres no ar. Desde ontem vejo pelas redes sociais a euforia de quem teve seu candidato avançando ou vencendo nas eleições. Também vejo a decepção de vários que lamentam alguns resultados, digamos, desinteressantes. Sinto-me meio órfã em uma eleição em que ninguém me convenceu de nada. Estranha, aérea. Como consolo, vejo, aqui da margem, como os ânimos exaltados facilitam a distorção, o exagero, as reações desmedidas. Uma observação que pretende acrescentar ao debate vira afronta aos olhos do outro. Aparentemente "crítica", ou mesmo "mas e...", virou sinônimo de "censura". E não sei se perdi alguma coisa, mas eu estava achando que quando alguém puxa o assunto é porque quer conversar sobre ele. Sei lá. Devo estar muito por fora mesmo. 

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Stepan Arkadyevitch Oblonsky
Darya Alexandrovna
Anna Arkadyevna
Philimonovna
Alexey Alexandrovitch Karenin

Adoro os nomes dos personagens em Anna Karenina. Deve ser a sonoridade esquisita, o tamanhão das palavras. Eu, que normalmente prefiro nomes curtos, acho lindo os "exageros" russos. Também acho uma graça como Tolstoi sempre (pelo menos até aqui) se refere a Stepan Arkadyevitch assim, usando os dois nomes, mesmo tendo apresentado a variante "Stiva" na primeira página. Estou, claro, supondo que a tradutora Constance Garnett adotou as escolhas do autor para os nomes. E, sim, estou me divertindo bem.

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Por causa das minhas aulas de francês ando recaída de amores pela história do Pequeno Príncipe. Me deixem. E aí quero contá-la às crianças, ler com elas. Na livraria vi uma edição com pop-ups que dá água na boca: os planetas, as lunetas, a caixa com o carneiro, o sol que se põe mil vezes, tudo salta da página. Mas resisti e devo ficar com uma edição tradicional: a história é tão linda, bem sei que vai tudo pular da página mesmo. (Nem sempre me seguro: temos uma edição do Peter Pan em pop-ups que sempre me comove. Cada página é sonorizada e quando o navio voa pelos ares a musiquinha sempre me arrepia.)

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Arthur vê a mana encolhida no sofá, com febre, embaixo do cobertor à uma da tarde. De uniforme, mochila na mão, ele olha, pensa na tarde que passará na escola, abandona o lado irmão solidário e lamenta: 

- Ai, Amanda tem tanta sorte. 




3 comentários:

Angela disse...

Ai Arthurzinho querido, sorte tao relativa... :( Espero que a Amandinha se sinta bem rapidinho!

As viroses do frio ja comecaram aqui tambem, agora eh luta pelos proximos 5 meses. Meleca :(

Luciana Nepomuceno disse...

Ah, baby, há posts seus que dá vontade de pular dentro do computador e estar aí. Serião. Amo Anna Karenina, é uma das minhas histórias de adúlteras (rs) preferida.E o Pequeno Príncipe? subvalorizado e é tão tão tão pertinente e encantador.

De qualquer forma - e o mais importante - que logo logo Amanda esteja curtindo sua semana da criança, esfuziante como sabe ser.

Silvia disse...

:))

 
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