A Louca


Em certo momento d'A Louca da Casa (Ed. Pocket Ouro, tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman), Rosa Monteiro fala de como o projeto desse livro se transformou à medida em que foi sendo escrito. O que seria um ensaio de literatura, sobre o trabalho do romancista, tornou-se principalmente um livro sobre a imaginação. Sobre a louca que trazemos dentro de nós. O livro é ainda sobre literatura e o ofício dos que se dedicam a criar romances, sem dúvida, mas é mesmo muito mais ligado ao papel da imaginação na vida dessas pessoas. Não sei o que mais me agradou nesse livrinho aparentemente bem despretensioso, mas que contém pequenos tesouros que trarei em minhas lembranças por muito tempo. 

Gostei da forma como Rosa menciona muitos de seus autores favoritos ou mesmo grandes ícones da literatura mundial que ela, por alguma razão, não aprecia. Não é que ela os indique ou desencoraje a leitura deles, ainda que acidentalmente o faça duas ou três vezes. É que ela conseguiu ilustrar muito bem suas ideias sobre o processo criativo com exemplos do mundo da literatura, gerando no leitor um efeito cascata saboroso: vamos não só curtindo a leitura do que a Rosa escreve, mas fazendo notas mentais sobre obras que gostaríamos de conhecer também. É verdade que de vez em quando ela extrapola e me parece um pouco dada a conclusões generalistas demais, mas isso não chega a prejudicar a conversa.

Entre os capítulos que abordam o afastamento que o escritor busca de si mesmo; ou a forma como a imaginação do escritor se aproxima daquela da infância; ou os dissabores dos grandes gênios que viram suas vidas viradas do avesso por causa da perigosa vaidade; ou o poder dos sonhos para alguns, da percepção distorcida da "realidade" para outros, e ainda da solidão para muitos; entre esses e vários outros temas que permeiam a vida de tantos escritores ao longo da história, Rosa nos apresenta relatos de experiências pessoais cuja veracidade o leitor logo percebe ser difícil de atestar. A mesma história é narrada várias vezes, com detalhes e sequências distintas, com o mesmo tom autobiográfico que num primeiro momento bem que nos passa a perna. E assim, brincando de contar versões, Rosa nos mostra a quantas anda sua própria imaginação. 

Mas volto a dizer que gostei mesmo das imagens. Gostei a ponto de querer dar uma lida em um de seus romances e ver o quanto ela me fisga. Dureza é agora decidir o que ler primeiro, se um livro dela ou outro entre os tantos que ela cita em seu pequeno tratado sobre a imaginação. Ou outros que já me esperam nas estantes de madeira e virtual. Esse delicioso sofrimento... Rosa conta que ouviu em uma palestra, certa vez, a ideia de que a morte não nos leva se estivermos no meio da leitura de um bom livro: ela se distrai, espia sobre nossos ombros e quer saber o final da história. Vai saber. Coisas da Louca. Mas fica a dica. :-)


4 comentários:

Luciana Nepomuceno disse...

Eu quero.

Rita disse...

Você iria gostar, Lu. Suspeito muito.

bj
rita

Vi disse...

Já foi para meu check-list literário!

Vi
www.bardodataverna.blogspot.com.br

Jaquee Ribeiro disse...

Anotadíssimo! ;)

 
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