Tic tac


As semanas sempre passam rápido desde que me lembro. É quase um mantra falar que o tempo voa, é o hino da nossa era. A gente fala e nem sabe mais se lamenta, exatamente. Se faço algo que aprecio e os dias escorrem como areia fina, o lamento vem acompanhado de certa leveza: tá passando rápido, mas é isso aí, estou aproveitando da melhor forma que conheço. Se, por outro lado, o tempo some enquanto faço coisas que preferiria não fazer (oi, Bartleby, tudo bem?), aí o incômodo aumenta. A frase "ainda bem qua passa rápido" quase em nada mitiga a péssima sensação de horas desperdiçadas. 

A noção de desperdício, claro, é algo muito relativo. Dormir para mim não é desperdício. Nem bater papo. Ou jogar Clue no tapete. Há um céu infinito de coisas que se encaixam na categoria ócio que transfiro mentalmente para a categoria "aproveitar a vida". Porque no fim das contas aquela afirmação não sei de quem de que a vida é o que acontece enquanto fazemos planos faz muito sentido. Então deitar no sofá e acompanhar a brincadeira do passarinho pela janela é aproveitar a vida pra mim. Só lamento que eu tenha tido cada vez menos esta sensação durante as horas que dedico ao trabalho. Pra você ver. Li em algum lugar que eu deveria estar me sentindo bem por contribuir para o bem comum e zzzzzzzzzz. Talvez amanhã. Ou na semana em que uma reestruturação bem planejada em meu meio profissional me devolva a fé que eu deveria ter na relevância da minha função. Mas esse é um papo TÃO chato que vou poupá-los.

Enfim. Tenho oscilado entre a leveza do prazer pelo tempo rápido-delícia e o lamento pelo tempo-rápido-o-que-cargas-d'água-ando-fazendo-que-não-vejo-a-semana-passar. Tenho me dividido entre tarefas que escolhi para mim e outras que me foram temporariamente impostas. Virei aluna de novo em um curso de especialização à distância. Parte do material do curso é até bem interessante, mas não escolhi fazer, não estou "no clima". E o esforço despendido para tornar minha participação minimamente relevante faz com que eu me sinta uma fraude. Porque o curso não está em mim, ele não ocupa meus pensamentos nos momentos em que não preciso pensar nele. Bem diferente das aulas de francês ou de piano que, essas sim, têm permeado minhas semanas com momentos generosos daquela sensação boa de tempo-delícia.

Hoje de manhã meus filhos queriam pintar uma caixinha de papelão. Não havia tempo (meu pensamento automático), faltavam apenas 15 minutos para o almoço corrido de meio de semana. Mas algum neurônio mais alerta me cutucou e, ora, vamos ver o que fazemos em tão pouco tempo. Montei o circo e eles executaram por pouco mais de dez minutos a primeira etapa de algo que, suspeito, vai ficar uma graça. A tinta já deve ter secado e logo eles vão continuar a "obra". Ainda bem que cedi, já que este foi o momento mais colorido de meu dia. É preciso ficar alerta - a vida passa muito rápido.

5 comentários:

Clara Lopez disse...

lindos - post e pensamentos! O tempo está mesmo escandalosamente acelerado para todos nós, e os momentos cores-na-vida estão raros :(
bjo clara

Anônimo disse...

Huum, queria que fosse mais l-e-n-t-a, mais de-va-gar.
Já que é corrida, que seja alegre, feliz, nao é mesmo?
Beijão,
Ju

Rogério disse...

Tempo-delícia talvez tenha sido uma das definições mais felizes de que tomei conhecimento nos últimos anos. Estou vivendo isso, ho ho ho! Pensa na lida diária: posso acordar a qualquer hora, mas prefiro que seja cedo. Compromisso, só às dez. Se for segunda ou quarta, francês; terça e quinta, piano. A sexta é dedicada a algo parecido com trabalho, mas que faço com prazer: o primo de minha Eliana é diretor de um conglomerado de comunicação, e me convidou para atuar no jornal como revisor-entusiasta-eventualmente cronista-bobo alegre-gratuito dos cadernos de cultura, atualidades e política, com direito a pitacos. Estou adorando.
Ainda não postei tudo, mas tem algumas historinhas da Europa lá no cafofo. Pinta lá.
Estou na expectativa da foto da obra de arte que as crianças estão cometendo.

Rita disse...



Clara e Ju,

e quando vem o final de semana e a gente quer parar tudo... beijos, meninas.

Rogério, há quanto tempo! Vou pintar lá com certeza. Bem vindo de volta, sempre bom bater papo contigo.

Abração!
Rita

Renata Lins disse...

Jogar Clue no chão (aqui não tem tapete): dos meus grandes prazeres. Com os meninos. :-)

 
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