"...the vast blue eye of the sea"


Depois de três meses em alto mar, cheguei. Terminei hoje a leitura de Moby Dick. Eu tinha minhas expectativas, especialmente pelos comentários da Fal, mas é claro que não sabia exatamente o que encontraria nas 846 páginas do arquivo digital que li. Foi muito mais do que eu esperava, em vários aspectos: muito mais tecnicalidades, muito mais detalhes, muito mais poesia. A prosa às vezes hipnótica de Melville também me rendeu por dias com um incômodo bloqueio: eu não conseguia escrever nada, nothing, rien, niente. Li alguns capítulos entre envolvida e chateada porque não contava com aquele efeito silenciador do livro em mim. Como se eu não devesse ousar tentar juntar três palavras que fossem e enfeiar o mundo. Moby Dick tem frases perfeitas. É meio humilhante. 

Quem nos conta a história é Ishmael, anos depois dos fatos que descreve. Ishmael, que sempre recorre ao mar "quando se faz Novembro em sua alma"*, é um experiente baleeiro que se junta à tripulação do navio Pequod, comandado pelo capitão Ahab. A missão do Pequod é caçar a temida baleia Moby Dick, um cachalote com fama de invencível e que já teria vitimado incontáveis homens do mar como Ahab e Ishmael. A caçada empreendida por Ahab tem contornos especiais, contudo: não seria seu primeiro encontro com Moby Dick; o que ele pretende, na verdade, é se vingar do animal  que arrancou uma de suas pernas no primeiro confronto entre os dois. Ahab sabe que reconhecerá a fera, já que ela carrega em seu enorme corpo as marcas das muitas batalhas que já venceu. E isso naturalmente dá o tom de pelo menos uma camada do romance: é uma história louca. Um homem conduz uma equipe pelos mares do mundo à caça de uma baleia que ele reconhecerá e de quem se vingará da agressão que sofrera enquanto tentava matá-la. Ao mesmo tempo, é no absurdo dessa trama que reside parte da sedução de Moby Dick: uma grande aventura que flerta com a insanidade, atiça nossa imaginação (aquela mesma das histórias fantásticas da infância) e brinca com nossos objetivos e limites. 

Herman Melville era, digamos, prolixo. Ele gostava de contar. Em detalhes. Os mínimos. Não é à toa que o livro é grande também na quantidade de páginas. Cada detalhe (juro) da pesca da baleia, na forma como era praticada no século XIX, é descrito minuciosamente - um whale author, para usar suas palavras. O leitor consegue uma imagem muito nítida da trabalheira insana que aqueles homens do mar encaravam para que boa parte da população do mundo tivesse óleo para iluminar suas casas. Mas não é só isso. Além de inúmeros capítulos (são 135 ao todo) dedicados às partes do navio baleeiro, aos mecanismos utilizados para içar a baleia morta, para retirar sua gordura, o óleo e o espermacete (substância usada na fabricação de cosméticos), para armazenar tudo; além dos capítulos que descrevem cada centímetro da operação de descida dos barcos, lançamentos dos arpões, todo tipo de cordoamento envolvido na magnífica operação de captura dos imensos animais; além dos capítulos que nos contam sobre as centenas de tubarões que cercavam o cadáver e de como eles acompanhavam por dias o navio; além de tudo isso e muito mais sobre a pesca da baleia, há os muitos e muitos capítulos sobre... a baleia. 

Melville incluiu um capítulo sobre o esqueleto da baleia. Um sobre sua cauda. Outro sobre o sistema auditivo. Sobre os olhos. Sobre a respiração. A boca. Os estudos anatômicos acadêmicos conhecidos na época. As divergências sobre o tamanho da baleia. A cabeça. O cérebro. Baleias, minha gente. Tudo sempre descrito com muita propriedade (o próprio Melville embarcou diversas vezes em navios baleeiros mundo afora) e com sua prosa indefectível. Mas é muita baleia. 

Para mim, o livro teve três "momentos". O início, arrebatador: a linguagem de Melville é cativante. Suas frases são... boas, muito boas. A gente lê e tudo soa lindo. A história começa fluente, convidativa. Ishmael nos deixa curiosos, sua vida parece misteriosa, seu destino, grande. Logo no início da trama ele encontra Queequeg com quem embarcará na caçada a Moby Dick. Li por aí que o relacionamento dos dois levantou muito debate, que haveria algo "estranho" na amizade dos dois marinheiros. Achei curioso, pois para mim é indubitável que Ishmael e Queequeg formam um casal apaixonado e até entendo que o assunto tenha causada celeuma no século XIX, mas hoje em dia? Sério? Diga-se, de passagem, que não há mulheres em Moby Dick. Enfim, os primeiros capítulos do livro são devoráveis em grandes porções.

O segundo momento do livro para mim é formado pelos muitos capítulos sobre as tais tecnicalidades de que falei. Ainda que não comprometam o prazer da leitura (são todos bem escritos, tudo muito bem encaixado na trama, as caçadas às baleias são incríveis, ocorrem encontros com outros navios, momentos tensos entre a tripulação, etc.), a certa altura comecei e me perguntar onde está Moby Dick, please?

Aí vem a parte final do livro. Quando o bicho pega pra valer, se é que vocês me entendem, senti-me como quando ouço certas sinfonias longas que terminam de forma grandiosa: a gente já gosta da música toda, mas ainda há aquele final arrebatador, aqueles instrumentos todos conversando ao mesmo tempo e montando uma combinação vibrante que nos faz suspirar "nossa, que música linda". Moby Dick é uma música linda e seu final tem estrofes inesquecíveis. Algumas frases li repetidas vezes, em voz alta, pelo simples prazer de ouvi-las. Esse é, de longe, o ponto forte do livro para mim: a linguagem de Melville. A trama é louca, Ahab é louco. Mas o oceano nunca foi tão grandioso, nem tão poético. 

Adorei ter lido. Obrigada, Fal.  

* "Whenever I find myself growing grim about the mouth; whenever it is a damp drizzly November in my soul; (...) I quietly take to the ship."

2 comentários:

Luciana Nepomuceno disse...

Esse livro, essa baleia, esse oceano...isso. Tudo. Muito. Adorei. Adoro. Imagina reler? Eu sim. Fiz.

E que delicioso post, tenho invejinha das resenhas que consegues fazes. Meus textos sobre livros, ah, vergonha, mal são as sensações que tive.

Vi disse...

Ainda não tive a oportunidade de ler, mas confesso que após esta (re)senha não demorarei a devorá-lo. Obrigado!

Vi
www.bardodataverna.blogspot.com

 
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