O luthier de histórias


Aos 14 anos Ulisses ganhou de seu pai o primeiro violão Di Giorgio. O gosto pela música se manteve desde sempre e vieram outros violões e guitarras, pedais, pedaleiras e toda uma parafernália destinada à produção de barulho. Muitos anos e algumas bandas depois, o velho primeiro violão continua na área. Combalido pelo uso, o instrumento recebeu tratamento recente. Tratamento VIP. 

A indicação veio da escola de música onde atualmente Arthur e eu fazemos aula de piano: um bom luthier? Sim, conhecemos, o Sr. Antonio, rua tal. Ulisses foi lá. E depois me convidou para ir com ele buscar o violão recuperado. Eu fui.

Entrar na oficina do luthier Antônio foi como dar um passinho para dentro da História. O cenário é de contos, de história antiga. A alguns passos da calçada, em uma rua discreta no centro de Florianópolis, está a "oficina do tempo de Noé", como a descreve seu dono. Um desinformado que passa pelo portão sombreado por um buganviile florido não faz ideia do tesouro que se esconde depois dos primeiros degraus. O imóvel contém a oficina do luthier e, nos fundos, sua casa. Não sei com quem ele mora, mas vi uma senhora varrendo a entrada da casa, dois cachorros e um gato. Fomos recebido por um pincher gasguito e pela voz rouca do senhor de 80 anos que consertara o primeiro violão do Ulisses: entrem, entrem, podem vir, é mansinho.


Fui entrando e pedindo licença. Acho que falei meia dúzia de palavras e depois ouvi, por sei lá quanto tempo, muita história. E sei que se houvesse mais tempo teria ouvido muitas outras. Um luthier que trabalha em oficina do tempo de Noé, minha gente, tem muita história pra contar. Eu ouvi. Ouvi que o Sr. Antônio herdou o ofício de carpinteiro e luthier de seu pai, imigrante português. Que seu trabalho já atravessou o mesmo oceano que seu pai cruzou tanto tempo atrás e alcançou reconhecimento de músicos conceituados e maestros mundo afora. Que seus brinquedos, feitos no maquinário velho que me encantou por horas, divertem crianças no Brasil e na Europa - seus olhos brilham e sua voz embarga um pouco de vez em quando à medida que descreve o alcance mágico daqueles piões e biboquês de sua infância. Oitenta anos, inúmeros piões fabricados, mas o encantamento ainda está ali - bem do jeitinho com que Ulisses ainda preza por seu velho violão.

As paredes têm a obra e o reconhecimento:





Seu Antônio gosta de conversar e não esconde a satisfação que o reconhecimento de seu trabalho lhe causa. E ele me pareceu muito merecedor das honras que recebe. Enquanto sua voz rouca narrava histórias sobre encomendas inusitadas, instrumentos preciosos e clientes insuspeitos, tentei absorver a beleza daquela oficina apinhada de instrumentos musicais - inteiros ou aos pedaços -, brinquedos de madeira, ferramentas aos milhares, máquinas que acredito serem centenárias, pinos, parafusos, madeira. Cantinhos de uma vida inteira dedicada à confecção de instrumentos musicais e brinquedos. Um vida dedicada à alegria. O primeiro passo de algumas danças e a gritaria de alguns meninos em várias partes do mundo nasceram das mãos de Seu Antônio.

A caixa de brinquedos exportada para a Europa, menina dos olhos do Seu Antônio.

Seu Antônio trabalha na companhia de seus bichos que logo se acostumaram com nossa presença e vieram em busca dos pratinhos de ração, ali, entre um instrumento e outro. Em outro recanto, uma cadeira a mais. Sempre vazia, aparentemente sobrando, não é para as visitas. É para São José, o outro carpinteiro que, segundo a fé desse empolgado contador de histórias, está sempre ali, ajudando um tiquinho.


Depois de história, mais história. O cliente alemão com história trágica, o violino raro e valioso, o pranto da pequena garota com o violino quebrado, o outro de oito cordas. Seu Antônio conversa e  diante de meu olhar curioso em torno de tantos objetos garante que nada em sua oficina está ali por acaso. Cada máquina ou ferramenta tem sua função, cada pecinha terá seu destino. Que bom que é assim.






Ulisses aprovou o trabalho em seu primeiro violão que agora espera cordas novas. Acho que seu pai vai gostar de saber. E eu, claro, vou gostar ainda mais das canções vinda do instrumento consertado pelo bom e velho luthier contador de histórias. Que trabalha como se morasse dentro de uma.


***

Saí de lá com um presente de Seu Antônio. Um pequeno brinquedo com o qual só brinca quem descobre seu segredo - que ele nos revelou. Agora Ulisses e eu andamos enlouquecendo as crianças que, por enquanto, olham intrigadas para o pequeno objeto que parece mágico. Seu Antônio me falou o nome do brinquedo, mas é claro que me esqueci. Quem sabe qualquer dia desses volto lá para perguntar e ouvir mais algumas histórias no ateliê do tempo de Noé.



6 comentários:

Adriana Ataide disse...

Lindo, fui transportada para o atelier de Seu Antonio. Adorei.

Adriana Ataide disse...

Lindo. Fui transportada para o atelier de Seu Antonio. Adorei.

Alê disse...

fiquei maravilhada com a oficina do tempo de noé do sr. antônio! e que história preciosa vc contou pra gente, rita! me senti visitando a loja com o seu olhar. obrigada!

Angela disse...

Inebriante!

Jaquee Ribeiro disse...

E a vontade a aparecer sem ser convidado e dizer 'Rita, vamos visitar o Seu Antônio?'... rs

Anônimo disse...

Vontade de conhecer Seu Antônio, seu ateliê.
Ju

 
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