Feita com muito esmero


Minha cozinha é aberta, sem paredes que a isolem da sala ao lado. É certamente um dos pontos de que mais gosto em minha casa. A comunicação visual entre sala de jantar, sala de estar e cozinha, quase transformando tudo em um ambiente único, torna o lugar mais desarmado, mais amplo, deixa a luz passear; os cheiros do fogão estão sempre ao alcance do nariz. A luz se espalha e faz de minha casa um lugar claro e isso é outra coisa de que gosto muito, foi mesmo o motivo que me fez cair de amores por ela cerca de cinco anos atrás. Gosto muito de morar aqui, gosto do bairro, da rua, da sala, do escritório, do quintal. E da cozinha aberta, cercada de espaços visíveis por todos os lados. Quem entra em minha casa logo vê a morada dos biscoitos.

Quando a compramos tinha sido construída há dois anos. Seu primeiro proprietário aceitou nosso apartamento no negócio e mudou-se para lá deixando uma gata para trás. Os caminhões das mudanças se cruzaram no caminho e cheguei com marido, filho e barrigão. O primeiro cachorro viria semanas depois, a gata sumiria em seguida; meses depois nasceria a Amanda. Mas eu falava da cozinha, de onde vejo as coisas. Ao longo desses cinco anos fomos aos poucos transformando nossa casa, as paredes, as cores. E fomos também acumulando coisas para consertar. A persiana da sala, os pontos de luz da bancada da cozinha, a mancha no teto, o varal da lateral, o tapete que o cachorro mastigou, as almofadas das cadeiras da churrasqueira que o cachorro comeu, os porta-retratos que nunca troquei, as velhas cadeiras da mesa redonda que ainda estão por aqui, o interfone que segue quebrado, o pedaço de chão onde mora a palmeira que sempre enlameia quando chove, a TV para filmes na "sala de trás" que nunca chegou, o suporte da cortina do escritório que se arrebentou, o spot de luz do meu quarto, o cesto do banheiro lá de cima que precisa ser trocado, o corrimão descascado. A casa que se gasta. Não sei o que é, mas algo no ângulo de onde vejo a persiana da sala quando estou na cozinha sempre me faz pensar nas pendências espalhadas pelos outros cômodos. Aí eles descem pela escada fazendo ruído. Meus filhos.

Meus filhos estão crescendo nessa casa um pouco gasta que tem a cara da infância deles. Eu tive duas casas em minha infância (ou pelo menos duas que ficaram em mim) e muitas de minhas memórias têm o contorno das paredes e estantes de lá. Meus filhos têm esta que pretendo manter por sei lá quanto tempo e me pergunto como ela habitará a memória deles no futuro. Porque para mim a poltrona que hoje vive no escritório é a poltrona onde eles foram amamentados, mas para eles talvez venha a ser a cadeira de balanço que eles escalavam para alcançar os livros e DVDs e por isso levavam bronca. O corrimão descascado da escada para eles é a montanha proibida. A sala de trás, de que gosto muito e nunca acabo de arrumar, dá medo à noite, eu sei. O lavabo, para mim, tem uma bancada que insiste em juntar água, bem irritante; para eles é um lugar com muitos gibis. Eu sei como é. A goiabeira de minha antiga casa era um portal para mim. Para minha mãe, que mandou cortá-la, era um incômodo, motivo de desavenças com o vizinho. O xodó da Amanda é a pitangueira - da calçada do vizinho, diga-se. O do Arthur é a sala, seu reino. 

Gosto de ter o pé no mundo e no fim paredes são só paredes; em certa medida, contudo, os papéis se invertem e nossa casa mora um pouco dentro da gente. É por gostar de minha casa que eu a queria arrumadinha, sem persiana despencada. Mas algo nas prioridades atuais me parece muito certo e tenho investido mais em arrumar malas do que em arrumar salas. E no fim das contas minha vida se parece com minha casa: é cheia de gente, confortável sem ser perfeita, com pendências eternamente adiadas e certo grau de desordem que é o que deixa espaço para os saltos. É também cheia de luz porque gosto de ambientes claros, dentro e fora de mim, com poucas paredes para que eu tenha ao menos a chance de ver um tiquinho mais longe, sempre. 

8 comentários:

Rogério disse...

Eu sonho em morar numa casa, apartamento parece que tem paredes demais. Numa casa eu poderia ter um cachorro atentado para comer meus chinelos, um quintal para plantar, jogar futebol ou simplesmente contemplar o horizonte do planeta. Meu maior empecilho é a preocupação com a segurança da família, o que me empurra para a não-opção de condomínios fechados. Ainda espero encontrar um meio-termo.

Glaucia Dubai disse...

Adorei!!!
Obrigada por compartilhar!!!
Um Super Beijao!!

Fabiana disse...

Como você escreve, Rita! Quem mais faria tanta poesia a partir de persianas despencadas? É sempre uma alegria ler você. : )

Vi disse...

Adorei os teus textos!!! Todo o teu blog é excepcional, mas este texto... Como mexeu comigo! Meus parabéns!
Já estou seguindo e linkando ao meu blog!

Carpe diem!

Vi,
www.bardodataverna.blogspot.com

Silvia disse...

Rita como eu fico feliz depois de ler seu texto!!:)))
Maravilhoso como sempre!! beijinhos

Anônimo disse...

post lindo, inspiradíssimo! abraço, clara

Anônimo disse...

post lindo, inspiradíssimo! abraço, clara

Rita disse...

Oi, pessoas. Obrigadinha, viu? Beijocas, daqui da cozinha. ;-)
Rita

 
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